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10 dezembro 2009

Truffaut: cineasta terno e afetuoso

Ao contrário do cinema de seus companheiros da Nouvelle Vague - Godard, Rohmer, Chabrol, Rivette, Resnais... racionalista e cerebral, o de François Truffaut é feito com a emoção e o coração, com extrema sensibilidade e uma simpatia incomum pelos seus personagens, que são tratados com ternura, generosidade e afeto. O crítico ferrenho, radical, intransigente, das revistas Cahiers du Cinema e Arts et Spetacules, que ataca em seus escritos o cinema clássico francês e o realismo psicológico de acadêmicos como Claude Autant Lara, Julien Duvivier, entre outros, sofre uma espécie de metamorfose quando passa a realizar filmes, transformando-se num cineasta terno e amável.

Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, cuja tradução literal é Os Quatrocentos Golpes), além de inaugurar a Nouvelle Vague – juntamente com Acossado, de Godard, Hiroshima, de Resnais... -, dá início à carreira de Truffaut como realizador de longas. E, neste 2009, a distância deste filme é de exatos 50 anos. Aqui também começa o ciclo dedicado a Antoine Doinel (sempre interpretado por Jean Pierre Léaud), um personagem com evidentes elementos autobiográficos, através do qual aborda o rito de passagem da infância à idade adulta. É a nostalgia da adolescência que Truffaut reflete nos filmes do ciclo Doinel, a fugacidade do tempo e a ânsia de amar, a chegada a idade adulta, o casamento... (Antoine et Colette, 1982, episódio de O Amor aos Vinte Anos/L’Amour a vints ans; Beijos Proibidos/Baisers Volés, 1968, Domicílio Conjugal/Domicile Conjugal, 1970, e; Amor em Fuga/L’Amour en Fuite, 1978).

(Em Os Incompreendidos, Truffaut, avant la lettre, considerando a época, alude à Nouvelle Vague e a seu amigo e colega Jacques Rivette, quando os pais de Antoine – que, por sinal, nos outros filmes do ciclo estão sempre ‘indo ao cinema’ – decidem ir ver Paris Nous Appartient, de Rivette, filme emblemático, apesar de pouco conhecido do movimento francês, e, de volta, no automóvel, consideram-no ‘muito bom’ – melhor homenagem impossível).

Romântico, sem, contudo, abandonar a visão irônica e dolorosa das relações afetivas, Truffaut tem a sua obra-prima já na terceira incursão longametragista: Uma Mulher para Dois/ Jules et Jim (1961), crônica de uma relação triangular (Oskar Werner, Jeanne Moreau...) baseada no texto literário de Henri Pierre Roché, autor que lhe serviria de inspiração para realizar, dez anos depois, abordando a mesma temática da dificuldade de amar, As Duas Inglesas e o Continente/ Les Deux Anglaises et le Continent (1971). O problema da comunicação no amor, aliás, do amor impossível, en fuite, é uma constante na filmografia de Truffaut, como revelam A História de Adele H/ L’Histoire de Adele H (1976), com Isabelle Adjani, A Mulher do Lado/ La Femme de la Cote (1981), entre outros.

Se seus colegas da Nouvelle Vague procuram elaborar uma linguagem que desconstrói o discurso cinematográfico tradicional, revertendo os cânones da lei de progressão dramática griffithiana, François Truffaut não pretende nunca em seus filmes dissolver a estrutura lingüística, mas, ao contrário, busca desesperadamente a fluência narrativa, o toque mágico capaz de envolver o espectador a fazê-lo pensar que não está no mundo’. É verdade que brinca com a metalinguagem, mas num sentido de reverência e ao cinema como em A Noite Americana/ La Nuit Americaine (1973), belíssima homenagem ao processo de criação cinematográfica onde Truffaut comparece como ele mesmo no papel de um diretor que faz um filme. O filme dentro do filme, portanto.

Outra vertente temática na obra truffautiana é a dominante policial, influência, na certa, de sua admiração por Alfred Hitchcock – seu livro de entrevista com este, Hitchcock/Truffaut, da Brasiliense (e, agora, em outra edição pela Cosac ou Companhia das Letras), é, simplesmente, uma aula magna de cinema. Há Hitchcock em Fareinheit 451 (1966), que faz na Inglaterra, com o mesmo Oskar Werner de Jules et Jim, baseado na ficção-científica de Ray Bradbury. Outra obra alusiva ao mestre é A Noiva Estava de Preto/ La Mariée Était em Noir (1967), com Jeanne Moreau ou, mesmo, Tirez sur le Pianiste, segundo filme (1960), e A Sereia do Mississipi/ La Sirene du Mississipi (1969), no qual declara, através das imagens em movimento, a sua paixão momentânea, Catherine Deneuve, que trabalha, aqui, ao lado de Jean Paul Belmondo. E no seu canto de cisne De Repente num Domingo/ Vivement Dimanche (1984), cujo ‘claro/escuro’, proposital, vem em auxílio de uma proposta estilística em função do film noir francês. Sem esquecer o elaborado, como mise-en-scène, Um só pecado (Le peau douce, 1963).Que, revisto agora, considero um dos melhores filmes do cineasta.

Autor, porque dono de um estilo próprio, marcante, ainda que com um universo temático diversificado, François Truffaut, na sua filmografia, envereda por assuntos diversos, a exemplo de O Garoto Selvagem/ L’Enfant Sauvage (1970), filme sobre a luta de um médico, no século XIX, para ‘domar’, um menino bárbaro criado sem contato com a civilização – influência possível para Werner Herzog em O Enigma de Kaspar Hauser. Na Idade da Inocência/ L’Argent de Poche (1976), experiência na qual, repetindo Jean Vigo (Zero de Conduite), o universo que retrata é constituído somente de crianças. Sem esquecer O Último Metrô/ Le Dernier Metro (1980), uma volta ao passado, Segunda Guerra Mundial na França ocupada, para valorizar, numa situação-limite, a importância dos pequenos gestos.

Em todos os filmes de François Truffaut, um denominador comum: a narrativa que sobrepuja a fábula, a doce fabulação que advém de um sentido preciso de mise-en-scène, o touch truffautiano, sempre terno, apaixonado, capaz de levar ao espectador o prazer do autor com o que está a filmar e o prazer, imenso, de se assistir ao que se está a ver.

8 comentários:

Caio disse...

Melhor como crítico do que como cineasta.

Lúcia Leiro disse...

Assisti há pouco A Noiva Estava de Preto. Achei simplesmente genial e, como tenho um olhar voltado especialmente para a participação das mulheres, não poderia deixar de falar da personagem vivida por Jeanne Moreau. Truffaut desenhou, a meu ver, uma personagem que reune racionalidade e emoção, dois elementos que o ocidente separou, inclusive sexualmente, para através da protagonista reuni-los e talvez nos dizer que as mulheres, a quem foi designado o exercício das emoções, podem, quando devidamente provocadas, utilizar dessa mesma carga emocional para "maquinar", empreender, com requinte de crueldade jamais vistos. Lembro-me da fala de Thelma (do filme Thelma e Louise) quando esta aconselha (ironicamente) o policial a tratar bem a sua esposa, pois o marido dela não tinha tratado e por isso tinha se tornado uma outsider.

O filme de Truffaut é simplesmente sinistro o tempo inteiro. Cada objeto visto no detalhe é um convite ao assassinato. Achei até que ela ia fazer alguma maldade com aquele apito na hora, mas ardilosa como era, o objeto apareceu no momento exato. Uma exatidão mórbida.

Aquele grito vindo do corredor- demorado, por sinal - que "ouvi" umas dez vezes antes de acontecer e o efeito de missão cumprida. Mulher obstinada, hein?

André Setaro disse...

Seus comentários, cara Lúcia, são sempre lúcidos e coerentes. Você, não resta dúvida, é uma cinéfila em toda a acepção da palavra. Sim, o que disse sobre 'La mariée etait du noir' se aplica perfeitamente a este 'experimento' hitchcockiano do autor de 'Jules et Jim'.

Stela B. de Almeida disse...

Segue comentários do François Truffaut que cabem no Curso de Cinema ora em realização. Ontem José Humberto me perguntava sobre o curso, falei que naquele espaço tinhamos em poucas aulas contato com o mundo do cinema. E Fruffaut dizia:

" Quando pensamentos pessimistas...me atravessam o espírito, tranqulizo-me rememorando a última sequência de um filme de Ingmar Bergman...Luz de inverno. No final..vemos um padre que quase perdeu a fé celebrando uma missa em sua igreja completamente vazia...interpreto essa cena de outra forma: "Bergman quer nos dizer que os espectadores no mundo inteiro estão se desligando do cinema, mas acho que devemos continuar mesmo assim a fazer filmes...ainda que não haja ninguém no cinema".

Tomara que José Humberto volte para a próxima sessão, tudo indica que apreciaremos sempre o melhor do cinema.

Lúcia Leiro disse...

Penso que a experiência das pessoas com o cinema depende muito de como esse espaço aparece para elas quando ainda crianças. Lembro-me novamente de Cinema Paradiso e de como a vivência com o cinema foi importante para a formação do protagonista. Acontece que existem outros elementos, "espetáculos", dentro do cinema, disputando com o próprio cinema. Outro dia, em um desses multiplexes, vi um carrinho de guloseimas DENTRO da sala de projeção. As crianças comem antes, durante e depois do filme.

Luiz Mario disse...

No seu último filme, Truffaut presta uma singela homenagem a seu ídolo, Hitchcock, com uma cena em que Fanny Ardant dirige na chuva como Janet Leigh em Psicose.

Jonga Olivieri disse...

É indiscutível a importância de Truffaut no cenário do cinema francês. E por que não dizer mundial?
Tanto como realizador quanto como crítico cumpriu um papela expressivo, sempre somando, sempre em busca de um cinema cada vez melhor.

tatiana disse...

eu tinha 20 e poucos anos qdo passou uma mostra quase completa dele aqui no rio, vi todos os filmes menos le 400 e beijos proibidos que vi depois. fiquei apaixonada, estarrecida, pela primeira vez em minha imaturidade sentia filmes que pareciam dialogar comigo. a partir dai comprei os livros de criticas dele e comecei a ver muitos filmes, nunca mais parei. parabéns pelo blog