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13 dezembro 2009

Saudade do velho Cine-Theatro Guarany

Inaugurado em 1917, na Praça Castro Alves, a praça do Poeta, é um cinema acanhado, embora confortável e frequentado pela elite baiana. Nos anos 50, sofre reforma infraestrutural para se adaptar ao novo formato que então surge, o CinemaScope, implantando também o som estereofônico. A Fox, a temer a concorrência televisiva, decide colocar no mercado o CinemaScope, e o filme de estréia, neste processo anamórfico – tela retangular e muita larga – é O manto sagrado (The robe, 1953), de Henry Koster. Os baianos podem vê-lo, em meados do decurso dos 50, no Guarany, em noite de gala, e ficam surpresos quando Richard Burton, um de seus atores principais, ao andar do lado esquerdo para o lado direito do enquadramento, tem sua voz também a acompanhá-lo. É a novidade do stéreo que espanta àqueles acostumados à uniformidade do mono. Há um livro sobre a reforma do cinema Guarany, editado pela Construtora Norberto Odebrecht, que, esgotado, desaparece, nunca conseguindo sequer vê-lo de longe. É no Guarany também que se dá a estréia de Redenção, em 1959, de Roberto Pires, o primeiro longa metragem do cinema baiano, cuja lente, anamórfica, inventada pelo próprio diretor.
Ao contrário das salas atuais, todas iguais, os cinemas do pretérito possuem estilo, cada um com um toque diferente, uma decoração especial, e o Guarany, neste particular, é, para mim, o mais atmosférico. Antigamente, o espaço, frente a esta sala exibidora, chamava-se Largo do Teatro, porque o Guarany também tem um proscênio no qual se encenavam peças aclamadas muitas vezes oriundas do eixo Rio-São Paulo. Assim, a atmosfera do cinema começa na sua entrada, com o cheiro de seu ar condicionado. A sala de espera, um recanto para se ficar vendo os cartazes e as fotos dos filmes que vão a seguir e que em breve estão em cartaz. Além de sua sofisticada bombonière – é desse modo que todos se referiam àquele pequeno espaço onde se vendem dropes, chicletes, chocolates, com todos arrumados em filas indianas ou, mesmo, militarmente ordenados.
A sala de projeção se divide entre a platéia – lugar mais privilegiado – e um balcão, cujo acesso se faz por duas escadas laterais. Na primeira, antes do palco, um espaço para orquestra. E, de hábito naqueles bons tempos, que não voltam mais, quando o filme começa, antes que as cortinas fossem abertas, luzes coloridas se revezam enquanto se ouve um trecho de O Guarany, de Carlos Gomes. É o sinal de que a função iria se iniciar. Antes, no entanto, enquanto se espera a sessão, o gongo anunciador, a partitura musical do filme a ser apresentado é dada aos ouvidos dos presentes para uma melhor familiarização, um esquentamento, por assim dizer. Fica-se, então, a olhar os índios em fila da parede do lado direito pintados por Carybé, assim como os peixinhos enfileirados do lado esquerdo. Há, portanto, uma atmosfera especial, e o cinema estabelece-se, à maneira do teatro, como uma função.A partir da introdução do Cinemascope todos os outros cinemas têm que se adaptar ao novo formato, mas o CinemaScope do Guarany é especial, pois o mais espetacular da província da Bahia. Nos cinemas atuais não existe mais esta atmosfera, esta preparação, este, se quiser, esquentamento, pois a tela, sem cortina, recebe o filme de repente, jogado de supetão sem nenhum aviso prévio. Mas os tempos são outros. Antes, as imagens em movimento estam confinadas apenas nas salas escuras dos cinemas, enquanto, hoje, estas podem ser vistas nos mais variados suportes. Já se chegou ao requinte de baixar filmes pela internet com uma bem razoável definição de imagem.Walter da Silveira, em meados dos anos 60, instala o seu Clube de Cinema da Bahia no Guarany, com as sessões realizadas aos sábados pela manhã, às 10 horas. É, portanto, nesta sala, que comecei a minha formação cinematográfica, acostumado à programação do circuito cuja característica principal está no cinema de gênero americano – os westerns, os musicais, as comédias românticas, os thrillers, etc. Vim a conhecer o cinema como expressão de uma arte, o cinema de autor, vendo filmes como Hirsohima, mon amour, de Alain Resnais, Guerra e humanidade, de Masaki Kobayashi, O eclipse, de Antonioni, Morangos silvestres, de Ingmar Bergman, entre muitos e muitos outros.
De propriedade do Estado da Bahia, o Guarany é arrendado a Condor, cuja distribuição fica a cargo de Aluísio Ribeiro e a gerência administrativa, Francisco Pithon. Pressentindo a crise pela qual passava o cinema como espetáculo – superada com o toque de Mídias de George Lucas e a suas guerras nas estrelas e a descoberta do filão infanto-juvenil, quando se dá a infantilização temática que continua a infestar até hoje os produtos audiovisuais da indústria cultural hollywoodiana, a Condor resolve sair do mercado exibidor, em 1975, e transferir o arrendamento de suas salas à CIC (Cinema International Corporation) que, anos mais tarde, vem a se chamar UPI (United International Pictures). A passagem do Guarany às mãos multinacionais da CIC é motivo de protesto da associação que congrega os cineastas baianos, a qual emite uma nota furiosa, denunciando que o governo está a entregar um imóvel de seu patrimônio a uma multinacional contrária aos interesses do cinema brasileiro. Se na há engano no andamento de minha memória, assino tal protesto – é durante a administração da Embrafilme que o Guarany se tornoa Glauber Rocha, quando da morte deste que é o maior cineasta brasileiro de todos os tempos. ACM, então governador da Bahia, no dia seguinte ao falecimento do realizador de Terra em transe, assina ato determinando a mudança de seu nome.

Com a decadência galopante do centro histórico da cidade, e a abertura das avenidas de vale e, principalmente, a construção dos shoppings centers, os cinemas do centro entram em decadência. A CIC não se interessa em renovar o contrato. Existe, nesta época, 1980, toda poderosa, a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes S/A), que, com sucursal bem montada em Salvador, assina contrato com o Estado para entrar no mercado exibidor. Iniciativa pioneira em todo o Brasil, porque a Embrafilme se restringe à produção e distribuição de filmes brasileiros. Neste período, em 1982, uma Jornada foi toda concentrada nesse cinema, com grande êxito, aliás. O Guarany passa a ser administrado por esta empresa e vem daí, talvez, sua decadência. Luis Carlos Barreto praticamente mandava na programação do cinema, determinando que filmes produzidos por sua empresa ficassem semanas e semanas em cartaz, mesmo que vistos por moscas. O Guarany de meus tempos tem perdida, paulatinamente, a sua aura.
Em 1985, mais ou menos, a Embrafilme, cansada de tanto insucesso, entrega o cinema ao Estado e este, novamente, resolve fazer uma licitação para arrendá-lo. A Art ganha, mas, pelo menos, era uma companhia brasileira importadora de filme e também exibidora. Mas desfigura o projeto original com uma reforma oportunista. Não diria que é a Art quem leva o Guarany à sepultura, mas é na gerência desta empresa que o Guarany fecha suas portas.E a lembrança do Guarany leva, necessariamente, à lembrança do Bar e Restaurante Cacique, lugar ideal para uma cerveja gelada a las cinco de la tarde, após uma matinée.
Clique na imagem para ver a majestade do cinemascope. A foto é de O manto sagrado.

7 comentários:

Armando Maynard disse...

MUDOU O CINEMA OU MUDEI EU ?
Setaro, primeiramente obrigado pelo comentário/depoimento, na postagem: “Fetiche (4) Sala de Projeção”,no meu Blog "Fetiche de Cinéfilo". Meu caro, mudaram os dois, o cinema e você. No seu caso mudou sua sensibilidade que fica cada dia mais apurada e exigente, juntamente com sua cultura cinematográfica que, com o passar do tempo, só tende a aumentar. Quanto ao modo de ver o cinema como a sétima arte, ah, isso aí não mudou nem mudará. Setaro, como você bem diz, somos de uma época em que ir ao cinema era um evento importante em nossas vidas. Os preparativos eram um verdadeiro ritual. Já começávamos a sentir prazer só no trocar de roupa. E ao sairmos de casa para ir ao cinema, já sabíamos qual o cinema e o filme que iríamos assistir, pois tínhamos nos informado antes pelas críticas e reportagens dos jornais. Lembro que ao chegar ao cinema, verdadeiros templos, com bela decoração e iluminação, tinha todo um caminho a seguir. Primeiramente, olhar todos os cartazes que ficavam na porta do prédio, pois quando acabasse a projeção do filme, na saída do cinema, voltaria a olhá-los, para confirmar se tinha faltado na exibição alguma cena das fotos. Nessa época existiam fotos coloridas e em preto e branco, que enchiam os suportes para cartazes, sem falar dos grandes pôsteres, que eram o desejo de consumo dos cinéfilos da época. Alguns funcionários chegavam a vendê-los. Voltando à entrada do cinema, ao passar pela bilheteria, me dirigia à sala de espera para olhar os cartazes dos filmes que ainda seriam exibidos. Depois de uma passagem pela bombonière, aí sim entrava na sala de projeção, isso quando não conhecia o operador (projecionista) do cinema, pois nesse caso, com certeza daria uma passadinha pela cabine de projeção, para bater aquele papo rápido. Descia então para a sala de projeção, onde a grande tela cinemascope estaria coberta com uma cortina que em alguns cinemas era vermelha. Sentava sempre no mesmo lugar, e ficava aguardando o início da projeção, ouvindo a música ambiente, onde desfilavam os LPs das melhores orquestras da época. Pronto a sessão ia começar, a ansiedade e a emoção disparavam. Algumas luzes começavam a se apagar ao som da música característica, que todo cinema tinha. Era o seu prefixo, acompanhado das três badalas do gongo, para aos poucos abrirem-se as cortinas... Hoje meu caro Setaro, frio e sem emoção, tudo é tão automático. Como você costuma dizer, não se vai mais ao Cinema e sim ao Shopping. O filme é escolhido na hora, sem saber direito o que se vai assistir, para depois ser logo esquecido. Mudou sim, Setaro, o comportamento das pessoas, por lhes faltarem uma cultura cinematográfica, e por verem no cinema mais um passa tempo e diversão, dentre tantas outras oferecidas pela tecnologia. Hoje, assiste-se ao filme pelo celular, na palma da mão. É, meu amigo, mais importante que o filme é a pipoca e a curtição da turma. Um abraço, Armando. (Esse meu comentário virou um post no "Fetiche").

André Setaro disse...

Suas impressões são exatas. Assino embaixo.Também, naquele tempo, assim me comportava.

Anônimo disse...

Professor,

o senhor se esqueceu de dizer que o Guarany hoje restaurado, é do grupo Unibanco. E um rapaz todo serelepe do cinema baiano é quem administra.

Jonga Olivieri disse...

Conheci --e como me lembro-- deste bom e velho Guarany de saudosa memória quando estive aí na Bahia nos anos 1960.
Aliás, muito boa a sua postagem.

André Setaro disse...

O velho Guarany de minha infância, adolescência e juventude não existe mais. Hoje, neste mesmo lugar, encontra-se edificado o Espaço Unibanco Glauber Rocha, que conta com 4 excelentes salas de projeção, além de uma livraria e restaurante com vista para a Baía de Todos os Santos. O 'post' escrito se refere a um tempo pretérito. Hoje tudo mudou. Mas o Unibanco é um excelente espaço cultural e muito bem administrado por Cláudio Marques.

Lúcia Leiro disse...

Bem, eu já peguei a fase do Glauber Rocha. Pela primeira vez ali driblei o moço que ficava do lado do torniquete cobrando as entradas. Era de menor e não podia assitir ao filme "Nos Tempos da Brilhantina". Era a febre John Travolta. No Bristol assisti Alien, o 8 Passageiro, sentada na parte superior, que tinha uma visão panorâmica genial. No Bahia, assisti Rocky IV, a fila ia até a Praça Castro ALves, assisti em pé, no corredor, no maior aperto.

Hoje o Cine Bahia não existe mais, virou templo religioso, assim como ocorreu no Rio Vermelho. Aliás, no Rio Vermelho perdemos o cinema e o teatro...

André Setaro disse...

Por incrível que pareça, peguei o cinema Guarany desde a inesquecível década de 50. O primeiro filme que vi nesta sala foi 'Tom & Jerry', desenho animado muito famoso naquela época. Vi, no seu lançamento, 'Rio zona norte', de Nelson Pereira dos Santos, na grande tela do Guarany, ainda que o filme não seja cinemascope e em preto e branco.

Sempre foi o cinema de minha preferência em Salvador. Ia ao Guarany como se vai a um templo sagrado, um altar da magia e do encantamento.

Beirando os 60 anos, o tempo corre, e a memória, aflita, ativa os seus arcanos em função não de uma nostalgia, mas, e principalmente, de uma espécie assim de 'madeleine' proustiana.

O Espaço Glauber Rocha, por exemplo, que se encontra no lugar do querido Guarany, tem excelente programação, é um lugar muito agradável de se ir, promove sessões interessantes, mas pertence ao presente, aos tempos atuais.

Gosto muito da década de 50. Uma vez, perguntado, disse que, se pudesse, nunca sairia do ano de 1958.