
Copio um trecho de seu livro Os filmes de minha vida, editado aqui no Brasil pela Nova Fronteira lá pelos idos dos 90: "Na França, respeitamos muito a verossimilhança, a psicologia, que os americanos apenas roçam, preferindo tratar a situação com vigor, sem desviar-se do ponto de partida. Como, afinal de contas, um filme não passa de uma fita de celulóide de dois mil metros desfilando diante de nossos olhos, é permitido compará-lo a um percurso. Diria então que o filme francês avança como uma carroça ao longo de um caminho tortuoso enquanto o filme americano rola como um trem sobre trilhos." Filme-carroça e filme-trem, portanto.
A julgar pela velocidade estúpida dos filmes contemporâneos, nos quais as tomadas são cada vez mais curtas, os filmes atuais são filmes-trem-bala. O cinema da indústria cultural está inassistível. Reinam, absolutos, os filmes-lixo.
Os filmes contemporâneos se assemelham a games, não passam de jogos, de efeitos. Pessoalmente, não tenho mais paciência para o lixo que se está a oferecer no circuito comercial. É verdade, porém, que, de vez em quando e de quando em vez, aparecem alguns filmes bons e até excelentes, a exemplo de Gran Torino, de Clint Eastwood, Sangue negro, de Paul Thomas Anderson, Antes que o diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet (que faz hoje, dia 25 de junho, 85 anos de idade), etc.
Mas para suavizar a crise, uma imagem de um belo momento do cinema: Gigi (1958), de Vincente Minnelli, com a belíssima Leslie Caron (que, nos anos 90, apareceu num filme de Louis Malle, creio que Perdas e danos (Domage) e assustou seus fãs. O tempo sempre é implacável. Ela está simplesmente um monstro de feiura. Clique na imagem para vê-la na sua dimensão exata.
Comprei, há alguns anos, o DVD de Gigi, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que se encontrava no abominável formato full screen (tela cheia), quando o original é em cinemascope. Irritado, não cheguei a vê-lo, tirei-o do aparelho e, com um martelo, dei-o ao lixo, não sem antes estilhaçá-lo em mil pedacinhos. A Coleção Folha anuncia o lançamento de Gigi, mas é preciso saber se o formato está em cinemascope, porque caso contrário não valeria a pena adquiri-lo, apesar da beleza desse canto de cisne do filmusical clássico americano.
A Coleção da Veja é muito boa, os filmes são excelentes, embora alguns descartáveis, mas tem um inconveniente: o envelope que guarda o disquinho é meio apertado e estraga o conteúdo, como bem me alertou o cinéfilo e publicitário Jonga Olivieri, que teve o seu Quanto mais quente melhor danificado.
E Gigi, afinal de contas, seria um filme-carroça ou um filme-trem?
Comprei, há alguns anos, o DVD de Gigi, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que se encontrava no abominável formato full screen (tela cheia), quando o original é em cinemascope. Irritado, não cheguei a vê-lo, tirei-o do aparelho e, com um martelo, dei-o ao lixo, não sem antes estilhaçá-lo em mil pedacinhos. A Coleção Folha anuncia o lançamento de Gigi, mas é preciso saber se o formato está em cinemascope, porque caso contrário não valeria a pena adquiri-lo, apesar da beleza desse canto de cisne do filmusical clássico americano.
A Coleção da Veja é muito boa, os filmes são excelentes, embora alguns descartáveis, mas tem um inconveniente: o envelope que guarda o disquinho é meio apertado e estraga o conteúdo, como bem me alertou o cinéfilo e publicitário Jonga Olivieri, que teve o seu Quanto mais quente melhor danificado.
E Gigi, afinal de contas, seria um filme-carroça ou um filme-trem?
7 comentários:
Não vou perder tempo em falar aqui do cinema estadunidense de nossos dias. O grande cinema dos EUA desvirtuou o seu caminho sobre estranhos trilhos após o seu desarrilhamento...
A cinematografia ianque foi sem dúvida a maior de todas durante décadas e décadas do século passado.
Mas eu me fixo num exemplo simples que define a grande diferença entre as duas escolas.
Numa cena de "A Liberdade é Azul" (Trois coleurs: Bleu) de Krzsztof Kizyszlowski (1993), há uma cena em que o carro passa na estradinha interiorana. Corta para um gajo sentado à beira da estrada que com a cabeça acompanha o veículo se deslocando e ouve-se apenas o estrondo da batida. Isto sem mostrar nada do acidente.
O que define a tendência sutil do cinema tipicamente europeu é a sutileza. Não se apóia em trilhas sonoras, nada dramático, além do trágico acontecimento narrado de uma forma em que quase nos colocamos no lugar desta testemunha anônima.
O cinema hollywoodiano sempre explorou (e muito bem) o excesso de narrativas com trilhas explosivas. Sai do cinema a pensar que se fosse um filme estadunidense a trilha teria um papel preponderante.
Isso não é um defeito. Tente assistir "Um corpo que cai" (Vertigo) do mestre Hitch sem a sua trilha sonora intensa e envolvente.
Eu já experimentei. Exibi alguns trechos da obra (mudos) só para fazer um teste. E como perdeu.
Aí está uma das diferenças básicas ente as duas escolas. E afirmo que não tenho preferências. Detesto é a pantomima paranóica e barulhenta dos filmes comerciais dos nossos vizinhos do norte neste continente americano Cada vez mais presentes no cinema videoclipe (como diz o professor Setaro) de nossos tempos.
Jonga,
Excelente o seu exemplo que nos faz ver a beleza de uma elipse bem feita. A sugestão é muito mais significativa do que quando se mostra uma determinada ação. Não se pode esquecer uma elipse fordiana em 'Rastros de ódio', quando, do ataque de índios que destrói a família de Ethan (Wayne), Ford, o grande Ford, evita mostrar o massacre. No cair da noite, e a fotografia avermelhada, uma das meninas abre a janela e dá um grito e, em seguida, o chefe indígena toca um instrumento. Corte. A imagem seguinte é de desolação, e aparece Ethan a gritar: "Martha!!"
Em "Acossado", quando Belmondo mata os policiais, logo no princípio, tudo é muito rápido e, de repente, o vemos a correr pelas ruas de Paris. Mas não é a rapidez dos débeis filmes atuais. É outro tipo de rapidez. É uma elipse 'in progress'
Tem também Henry Fonda matando o menino em "Era uma vez no Oeste", fusão magistral dos estilos europeu( o olhar do pistoleiro com a face tensionada) e americano( o barulho do tiro que lembra um canhão) nessa elipse Leone.
Caro Romero, Henry Fonda supermaquiado, em supercloseup, a cuspir, enquanto olha o menino, pistola na mão, é um precioso exemplo nesse sentido. Acrescente-se que, quando se ouve o tiro, o corte se dá para o barulho do som da locomotiva que chega à cidade trazendo, nela, Claudia Cardinale. O som provocado pelo tiro se confunde com a barulheira do trem em movimento.
"C'era una volta in west' é, realmente, um filmaço.
"o filme francês avança como uma carroça ao longo de um caminho tortuoso enquanto o filme americano rola como um trem sobre trilhos". achei bastante pertinente essa descrição da diferença entre o filme francês e americano. depois que li, parei pra pensar e conclui que é isso mesmo que acontece.
Setaro, GIGI da Coleção Folha também está em fullscreen. E pecado mais que mortal: eles lançaram RASTROS DE ÓDIO também em full!!! Isso devia ser crime. Justiça seja feita, outros filmes, como OS DOZE CONDENADOS, saíram no formato correto. O que será tão difícil nisso, não é?
Como posso ver 'Gigi" em cinemascope? Talvez em DVD importado. Não comprem, por favor, a cópia espúria que a Folha está lançando.
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