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15 maio 2009

Uma das maiores comédias de todos os tempos

Sem tirar os méritos de Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), de Billy Wilder, que é uma das melhores comédias do cinema em todos os tempos, obra de rara sensibilidade, engenho e arte, creio, no entanto, que há uma notável influência sobre The apartment de Em busca de um homem (Will success spoil Rock Hunter?, 1957), de Frank Tashlin, outro notável realizador que anda esquecido pela crítica revisionista, que tanto está a redescobrir cineastas importantes nas suas pesquisas arqueológicas (o exemplo da revista eletrônica Contracampo, nesse particular, é único, pois está a trazer à baila antigos diretores que já estavam completamente olvidados, a exemplo de Ida Lupino).

Tashlin, desenhista de cartoon, quando ingressa na arte de fazer comédias, demonstra um sentido de cinema extraordinário, a explorar a sátira ao american way of life com um senso metalinguístico, que, poder-se-ia dizer, é avant la lettre. Em busca de um homem, título meio idiota para Will success spoil Rock Hunter? é uma comédia cujos elementos de sua fabulação estão presentes em The apartment. Assim como, depois que revi A marca da maldade (Touch of evil, 1958), de Orson Welles, creio que Hitchcock, para Psicose (Psycho, 1960), inspirou-se na sequência de Janet Leigh, no filme de Welles, trancada no hotel, e, inclusive, chega a convidar a mesma atriz para o papel de Marion Crane.

Em Will success spoil Rock Hunter?, Tony Randall, assim como o Jack Lemmon do filme de Wilder, é um executivo de empresa americana bem típica que deseja ascender e, para isso, faz concessões a fim de atingir o topo. Quando consegue, e a cena na qual é premiado com a chave do banheiro exclusivo é hilariante, compreende que a vida não consiste apenas no desejo de ascensão por qualquer preço. Enquanto isso, a esfuziante Jayne Mansfield chega à cidade para a alegria de todos, inclusive de sua sobrinha, fã incondicional da atriz (Tashlin soube aproveitar o talento de seu sexy appeal, neste Rock Hunter e em Sabes o que quero/The girl can't help it, 1956). Randall (Rockwell Hunter) então tem a idéia de explorar a sua sexualidade na indústria publicitária onde trabalha e vem a conseguir o sucesso, apesar da contrariedade de sua noiva, que não quer vê-lo tão entusiasmado com ela.

A cor, o cinemascópio, a cenografia tudo produz um cartoon-like visual mágico, e, ainda por cima, há uma maestria inconteste, e novo, no uso do distanciamento brechtiano. A apresentação dos créditos já é um primor neste distanciamento, com Tony Randall a anunciá-los e a errar o nome certo do filme. Em The girl can't help it, Tom Ewell, no início também dos créditos, aparece em um formato de tela padrão e, de repente, se dá conta que o filme é em cinemascope e, também de repente, a tela se alarga no formato adequado à lente anamórfica.

Filme brilhante, um dos maiores da década de 50, precisa ser, e urgentemente, revisitado.

4 comentários:

Jonga Olivieri disse...

A fase aurea do cinema estadunidense nos deixou comédias tão dignas de nota quanto os seus excelentes musicais.
Aliás, em todos os gêneros, Hollywood aprimorava-se em fazer um cinema digno deste nome.

Rui Luís Lima disse...

Vimos este filme na Cinemateca e temos que estar de acordo consigo.
Abraço cinéfilo
Paula e Rui Lima

Marcelo V. disse...

Acho impressionante o caráter de crônica dos filmes de Tashlin: todos são extremamente atuais e registram a contemporaneidade no que ela tem de mais representativo _portanto, os filmes acabam se tornando clássicos.

Sergio Andrade disse...

Filme genial, mesmo! Esse e o "The girl can't help it". E não vamos nem falar da parceria Tashlin/Lewis...