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25 março 2009

O cinema como espetáculo de uma elite


Sim, uma ida ao cinema atualmente significa um gasto considerável, que fura o orçamento do classe média, que está pagando a conta das bolsas familiares A verdade é que, depois do Plano Real, a economia se dolarizou, os preços subiram muito e os salários, congelados em freezer potente. Um casal para ir ao Multiplex gasta, de saída, 34 reais, considerando que o ingresso custa 17. Se quiser se empipocar, como é de praxe, mais uma grana – e os complexos de cinema cobram muito mais nas guloseimas compradas dentro deles. Mas, uma ida a seco, e de ônibus, adicione-se aos 34 dos ingressos, os 9,20 das passagens (2,40 reais por cabeça). O resultado assinala que um filme custa 43,20 reais. Muito caro. E o povo, e o povo, como é que pode ir ao cinema? Já que não mais existem os chamados cinemas de rua nem os de bairros?

Se formos fazer uma comparação entre o número de salas exibidoras que Salvador tinha em 1958 e o que tem atualmente, a conclusão é uma só: os cinemas estão fechando suas portas. Com uma população de, mais ou menos, quinhentos mil habitantes, em 1958, a província possuía em torno de quase trinta salas, considerando, no cômputo final, as de primeira linha, os poeiras da Baixa dos Sapateiros, e os cinemas de bairro. Para arredondar o raciocino, que se coloque trinta salas em 1958 para quinhentos mil habitantes, sendo que cada uma delas tinha, em média, mil poltronas, variando entre as salas maiores, de quase duas mil cadeiras, como o Guarany e o Jandaia, e as menores, que beiravam a mil lugares. Para não haver crescimento das salas exibidoras, e considerando, sempre, a densidade demográfica, nos dias que correm – e como correm!, com uma população de dois milhões e quinhentos mil habitantes – e, aqui, nivelando por baixo, Salvador deveria ter, no mínimo, cento e cinqüenta salas, pois a sua população, entre 1958 e 2009, aumentou cinco vezes. O cálculo é simples. Multiplicam-se as trinta salas do passado por 5 e se tem o número de cinemas que a cidade deveria ter e, repetindo-se, sem haver crescimento. Mas atualmente o que se tem é um máximo de trinta e cinco salas e cada uma com um máximo de 400 lugares, a maior parte se localizando nos complexos chamados Multiplex.

Então que se faça uma nova contagem, considerando que cada cinema, em 1958, tinha em média mil lugares e, hoje, trezentos. Trinta vezes mil, em 1958, é igual a trinta mil. Que se coloque, para ficar bem claro, em números inteiros: tinha-se, na província, nesta época, 30.000 lugares e, se o número for multiplicado por cinco, porque a população cresceu cinco vezes, tem-se o número redondo de 150.000. Este, o número que, para não se constatar crescimento, mas, apenas, manutenção, deveria a cidade possuir em número de lugares. Mas o que se tem atualmente? Com a média de 400 lugares e 35 salas, fazendo-se a multiplicação, o resultado é de 14.000 lugares. Que diferença brutal!

Se antigamente o povo ia muito ao cinema, hoje, como disse Gustavo Dahl no seminário internacional de cinema e audiovisual, não tem acesso a ele. O cinema, que era um meio de comunicação de massa, atualmente é um veículo cujo acesso somente é possível à elite. Antes, existiam os cinemas de primeira linha, lançadores, que ficavam concentrados no centro histórico, os poeiras da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. Luiz Carlos Barreto, que conhece muito bem a mercadologia cinematográfica, afirmou, em entrevista no Canal Brasil, que o ingresso custava em torno de um dólar e, nos cinemas de segunda, cinqüenta centavos. É como se hoje o ingresso para entrar numa das salas do Multiplex custasse dois reais e cinqüenta centavos, a inteira, a inteira! Mas quanto custa realmente? Em torno de 17 reais. Como uma pessoa que ganha a miséria do salário mínimo pode freqüentar as salas de exibição? Ir com a família ao cinema? Nem pensar.

O Plano Real dolarizou a economia de uma forma perversa. O povo está excluído do cinema, assim como a chamada classe média baixa. A conclusão é estarrecedora e reveladora: apenas dez por cento da população baiana pode ir ao cinema, sendo que dois milhões e tanto de pessoas estão completamente fora da rota cinematográfica. Constatou-se, em pesquisa recente, que a maioria dos baianos nunca foi ao cinema. Um grupo organizou uma sessão cinematográfica num bairro periférico e o que se viu foi espantoso. As pessoas ficaram maravilhadas pelas imagens em movimento, pois estavam a contempla-las pela primeira vez. E isto aconteceu na região metropolitana de Salvador!

Na década de 50, o Brasil tinha perto de dez mil salas exibidoras. Em 1975, já se contavam apenas cinco mil. No ano passado, chegou a mil e novecentos. Os cinemas interioranos fecharam suas portas. Assim como aqueles de rua, como os antigos e inesquecíveis da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. O que se constata é que os cinemas estão sendo construídos para o usufruto de uma elite que pode pagar os 17 reais de ingresso, ainda a se refestelar com as guloseimas caríssimas que lhe são oferecidas no fast food. O público se infantilizou e se idiotizou. Ir ao cinema, antes um ritual, uma solenidade, uma função, atualmente é comparável a uma ida ao fast food.

E ainda se tem que aguentar o comportamento selvagem da platéia, verdadeiros vândalos que podem ser comparados a débeis mentais.
Triste país!

A imagem é de Blow up (1966), que Michelangelo Antonioni filmou na Inglaterra em cores magníficas.

8 comentários:

Leandro Moraes disse...

O governo quer fazer um "vale cinema", eu acho a idéia boa (lógico que o melhor seriam aumentar as salas de cinema), porém, se aumentassem, iam ser caras do mesmo jeito. Infelizmente o mercado de cinema deveria ser menos infestado de lixos americanos (como os "corrida mortal" da vida), para o povo ver filme brasileiro também. Imagino como ficaria Mazzaropi nos dias de hoje. Lembro que li que lee levava milhões aos cinemas.

Triste é ver que o menino da porteira custou 8 milhões e está longe de arrecadar isto, porém, com tantos lançamentos americanos a infestar as salas, eu fico pensando se os produtores pensaram que teriam a chance de ter lucro, pois como você disse, o cinema hoje é elite e a elite odeia o povão (basta ver a quantidade de gente no orkut - os pioneiros a entrar - que hoje reclamar da "maldita inclusão digital" no "clubinho" deles).

Stela B. de Almeida disse...

Os cinemas custam caro, as salas exibidoras, em sua maioria, localizam-se em shoppings centers, a nova classe média comporta-se como os vândalos e débeis mentais pipocados ao assistirem o grande espetáculo da tela escura. Em tese, a argumentação apresentada demonstra que este panorama encontra-se em curso, tenho pequenas discordâncias sobre a "debilidade mental" da mediocridade que prevalesce em escala crescente. Se tivesse tempo, logo posso, gostaria de consultar os estudos recentes e atuais que indicam mudanças/recuos neste panorama.Queiramos ou não, para o bem ou para o mal, o cinema resiste. Se quiser enviar-me referências de estudos/pesquisas vou adorar. Onde anda o Novas Pensatas que tão bem analisa essas transformações sociais?

Anônimo disse...

Triste realidade...infelizmente eu não posso ir ao cinema com a frequência que gostaria.

Mara Mercia disse...

Sou a favor de um vale-cinema, e porque nao?, de um vale-sexo, com opcao de escolher o(a) parceiro(a).
Sendo como Setaro prega, esse pessoal que segue a linha Dziga Vertov devia passar seus filme apenas em cine-clubes de favelas. No entanto, o que se ve e' essa gente buscando a ribalta das mesmas salas voltadas a classe media.

Marcelo disse...

Setaro, fiz uma matéria sobre o assunto, com dados sobre os nossos muitos festivais e as nossas poucas salas e depoimentos de diversas pessoas do meio. Segue pra você (e quem mais quiser) ler. Em duas partes. Parte 1 /// http://otempo.com.br/otempo/noticias/?IdEdicao=1225&IdCanal=4&IdSubCanal=&IdNoticia=105187&IdTipoNoticia=1 /// E aqui a parte 2 /// http://otempo.com.br/otempo/noticias/?IdEdicao=1225&IdCanal=4&IdSubCanal=&IdNoticia=105188&IdTipoNoticia=1

André Setaro disse...

Já fui lá ler as duas partes, caro Marcelo. Matérias informativas e que me mostraram certos dados importantes, como o número de salas e de festivais nos Estados Unidos e França. Recomendo a todos que leem este blog, uma visita. Os links estão aí em cima.

Jonga Olivieri disse...

O cinema era do povo, como o céu já foi do condor. O cinema elitizou-se, e com isso sua poesia perdeu-se no espaço.
Infelizmente!

Amanda disse...

É cada vez mais complicado ir ao cinema. Virou programa de elite. E o pior é que não é só nos cinemas de shopping, as salas de artes também estão com os preços lá em cima. Deveriam ter mais sessões promocionais como as que o Ancine fez recentemente com Cinemark para filmes nacionais.