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10 março 2009

Faits divers

1) Morreu Sidney Chaplin, filho de Charles Chaplin e Lita Grey, aos 83 anos (1926/2009), de complicações, parece, devido a um acidente automobilístico. Nunca foi um bom ator ou, melhor, nunca teve boas oportunidades na vida, apesar de ter trabalhado em muitos filmes de terceira classe (westerns-spaghettis, thrillers de espionagem, etc). Sua primeira aparição no cinema foi justamente em Luzes da ribalta (Limilight, 1952), o belíssimo melodrama de Chaplin no no perigeu de sua carreira. Sidney já tinha trinta e tantos anos e faz o namorado de Claire Bloom. Mas segundo o que conta Marlon Brando em sua autobiografia, Charles Chaplin era muito autoritário com o filho. Brando sabe do relacionamento dos Chaplins, pai e filho, porque Sidney também trabalhou em A condessa de Hong Kong e presenciou cenas dramáticas entre o velho Carlitos e seu primogênito. Sidney deve ter tido algum trauma devido à autoridade paterna e nunca, por causa disso, teve chances de se revelar um bom intérprete. Mas não dispensava trabalhos como em Se incontri Sartana prega per la tua morte (1968), de Gianfranco Parolini, com Klaus Kinsky, Troppo per vivere... poco per morire, 1967, de Michele Lupo, com Daniella Bianchi, Tem uma filmografia bem extensa como ator de seriados de tv americanos. Uma vez, nos idos dos 70, Sidney esteve no Rio de Janeiro, muito simpático, muito agradável, e deu, na ocasião, uma divertida entrevista a O Pasquim.

2) Realmente, não compreendo como uma pessoa possa gostar de Quem quer ser um milionário? (Slumdog millionaire), de Danny Boyle, o grande vencedor do Oscar 2009. Mas o filme tem seus defensores acirrados, como Luiz Carlos Merten do Estado de S; Paulo, que chega a dizer que algumas cenas lhe fazem chorar como criancinha. Mas também tem quem lhe jogue as pedras, como o criterioso Inácio Araújo da Folha de S. Paulo, que, por sinal, está de blog novo (http://inacio-a.blog.uol.com.br/). O nome do blog: Cinema de boca em boca.

3) Genialidade, acabei de ver agora em O mocinho encrenqueiro (The errand boy, 1961), de Jerry Lewis, seu segundo filme como autor. O início já é demonstrativo da graça, do non sense e da non chalance, além do aspecto desmistificante: em tomadas aéreas, vê-se os estúdios de Hollywoood, enquanto um locutor, em narrativa em off, vai observando o que se está a ver. Até que aparece o estúdio da Paramuntual (uma alusão clara e evidente à Paramount, produtora do filme) e a câmara baixa de sua altura para mostrar Jerry Lewis a colocar um cartaz imenso com seu nome. As tomadas aéreas são intercaladas de momentos desmistificadores da magia ilusionista do cinema hollywoodiano: um mocinho de farwest, que tem medo de cavalo, está montado numa engenhoca, a pedra imensa, que cai no desfiladeiro, é uma pedra de papelão, a pobre moça que toma várias bofetadas no rosto é, na verdade, um campeão musculoso com a cara cheia de músculos, e o casal apaixonado, nos intervalos da filmagens, por serem marido e mulher, brigam o tempo todo, mas, ao menor sinal, do início da tomada, ficam loucamente apaixonados. A estrutura narrativa de The errand boy, é, assim como a de The bell boy, toda feita em sketches, não havendo, propriamente, uma progressão dramática.

4) Na revisão, vejo agora o monumento que é Monsieur Verdoux, de Charles Chaplin. Que obra-prima!

5) Desabafo de Carlos Reichenbach tirado de seu reduto:

"Devo realmente estar ficando velho...
Hoje, revendo LA LUNA, de Bertolucci, depois de tantos anos, me bateu uma tristeza imensa.
O que está acontecendo com o cinema? Porque não se filma mais com tanta ousadia, dignidade, elegância e beleza?
Perto da "eficiência" rítmica (leia-se, esquizofrênica e vira-lata) de Danny Boyle e a pretensiosa geleira de um Gus Van Sant (esse "artista" nunca me enganou), os mais insignificantes dos travellings operísticos de LA LUNA são petardos nos cornos da mediocridade.
Em clima de afasia, não troco nenhum dos filmes safados de Joe D´Amato filmados na República Dominicana (que, pelo menos, me divertem à valer e despertam tesão) por nenhum dos concorrentes ao Oscar 2008 em cartaz. Certo, o Independent Spirit Awards acabou fazendo justiça ao premiar os dois melhores filmes americanos do ano: O LUTADOR (The Westler) e RIO CONGELADO (Frozen River). Mesmo assim, esses dois bons filmes são obras que ficam aquém da nossa relutante espectativa.
Sei não, rever o cinema dilacerado, mas pulsante e vigoroso, dos anos 60 e 70 faz mal à esperança!"

2 comentários:

Saymon Nascimento disse...

Engraçado o comentário de Carlão. Não sou especialista em Bertolucci, mas vi La Luna e não tem quem me diga que aquele filme é melhor que O Céu Que Nos Protege, Beleza Roubada ou, principalmente, o maravilhoso Assédio. Todos feitos na terrível contemporaneidade.

Mauricio Caleiro disse...

Também acho um enigma como "Slumdog Millionaire" consegue atrair tantos fãs, ainda mais se levarmos em conta as semelhanças-quase-plágio com "Cidade de Deus"(em meu blog escrevi um textinho sobre isso).

Quanto ao comentário do Carlão, concordo em gênero, número e grau: há uma liberdade criadora única em "La Luna" (a começar daquele início maravilhoso...)