Seguidores

17 fevereiro 2009

"Gran Torino", de Clint Eastwood: dizem-no assombroso

Se A troca (Changeling) foi o filmaço que se falou aqui, vim a saber que o novíssimo Clint Eastwood, Gran Torino é, simplesmente um assombro. A filosofia nasceu de um assombro, disse um filósofo. E quando o espetáculo cinematográfico assombra é um sinal de que o cinema está, ainda que decadente, vivo. Romero Azevedo, professor de cinema de Campina Grande, connaisseur dos labirintos da arte do filme, ansioso por ver logo Gran Torino, teve um estalo de Vieira e resolveu baixá-lo na internet. O que viu, e viu muito, vai aqui embaixo. Vejo o seu rosto, em close up, rosto de estupefação, de satisfação. Vou colocar as duas mensagens ipsis literis. Com licença, Romero, mas elas merecem um post especial.

Primeira mensagem:

Caro Setaro, andei meio sumido com o inicio das aulas na universidade,
mas acabei de ver Gran Torino
(aqui em Campina Grande a turma é meio impaciente e não gosta de
esperar os lançamentos oficiais nem a pirataria oficializada, baixa
logo da fonte) e me lembrei de você. O personagem é um dos mais fortes
interpretados por Clint( aliás, no Oscar 2010 acredito que a estatueta
de ator, filme e diretor é dele) que dá uma aula completa sobre a
arte de representar diante de uma câmera. O filme é uma grande
metáfora dos EUA nos últimos 30 anos, a casa de Walt (Clint) tem uma
bandeira americana fincada na entrada e seus vizinhos são todos
coreanos, chineses, tailandeses...a imagem é clara: a América(do
norte) é uma ilha cercada de conflitos. Walt lutou na guerra da Coréia
e foi condecorado por heroísmo e bravura, mas o método americano de
resolver os conflitos à bala (como nos lendários westerns), está em
crise( vide Vietnam e,agora, o Irak). O filme começa com um velório na
casa do ex-combatente e, paralelamente, um batizado na casa dos
vizinhos, um tipo de vida morre ( o american way of life idealizado
principalmente pelo cinema) para dar lugar a uma nova realidade( a dos
imigrantes, expulsos de seus países pelas guerras patrocinadas pelos
próprios americanos, e que buscam refúgio na terra da estátua da
liberdade). Gran Torino é uma confissão dos erros cometidos pela
xenofobia americana que sempre viu o resto do mundo como
estrangeiros, mas sobretudo é uma autocrítica que aponta para a
conciliação, o diálogo, a cooperação e a convivência pacífica entre
os povos como solução para o caos social que temos de suportar( no
limite) hoje.Tem um forte tom místico (inclusive numa das imagens
finais que não vou descrever para não estragar a surpresa). Em
sintese: é a imolação, o sacrificio supremo de Dirty Harry/Josey
Wales
na crença por um mundo mais humano.
A canção-tema, escrita por Clint e pelo filho dele, é um brinde
especial no desenrolar dos créditos no final.
Desculpe o clichê, mas Clint Eastwood é mesmo como o vinho...

Segunda mensagem:

Gran Setaro, fiz o rapídissimo comentário, para usar uma expressão
que lhe é tão cara ,no "afogadilho da hora", ainda com o coração
pulsando com os acordes da bela canção final. Falei coração porque, me
parece, que o filme( e Clint) propõe uma leitura menos razonativa (
mental) do mundo contemporâneo (argh !) e mais emocional (consciente).
Até agora, desde Aristóteles, passando por Descartes e finalizando em
Kant, o uso e abuso da razão ( o famoso, e equivocado, penso,logo
existo) gerou os campos de concentração nazista, a bomba de Hiroshima
e Nagasaki, o Vietnam, o Iran-Irak, a meleca total que vivemos hoje em
qualquer cidade infestada por gangues de adolescentes e jovens
rebeldes sem causa que enchem de gordura e estupidez as salas de
cinema nos shoppings....e outras coisas mais terríveis ( vide o
documentário A Corporação)
Em Gran Torino, Clint se inspira nos orientais e sua cultura de
meditação e reflexão (aqui no ocidente mal traduzida como "confissão
religiosa") e revoluciona a moral vigente ao reconhecer os erros que
contribuíram para gerar tudo isso e, num ato de autocrítica e solidão
suprema( como de resto foram todos os personagens que criou/viveu),
entrega as armas e se imola em holocausto a um mundo melhor para
todos. Não é um filme fácil de ser digerido porque vira de ponta a
cabeça todos os dogmas e clichês que compõe o imaginário
cinematográfico deste gran cineasta, a maior parte da crítica vai cair
de pau, muitos vão confundir o ato revolucionário de Walt com uma
jogada de toalha na lona, aí reside o ledo "e ivo" (como você gosta de
falar) engano.
De quebra, tem um ótimo elenco jovem que serve para mostrar que nem
sempre o frescor da juventude, das idéias e atitudes jovens, estão na
menor idade.
Num tempo em que os rinocerontes predominam, Eastwood nos aparece
louvando a borboleta. Isso para mim é cinema novíssimo.

7 comentários:

Gabriel Carneiro disse...

Imagino que deva ser de fato um filmaço. Clint é o cara.

Pena que o filme dele ficou de fora do Oscar...

Cristiano Esteves Pereira disse...

Este Romero é mesmo um 'connaissseur', como diz você, caro Setaro.

Pedro Britto disse...

Não gostei tanto quanto Romero Azevedo. "Gran Torino", com efeito, é uma xerox envelhecida de "Menina de Ouro". A fraqueza de um jovem conquista, por si, a simpatia de um senhor extremamente mau-humorado e extremamente moral que se põe na função derradeira de "salvar" a vida deste jovem. E a salvação para Eastwood reside sempre nos nobres valores. A atuação dele é boa, apesar de umas caretas de bulldog enraivecido. A direção está no ponto, para variar.
Entrando nas comparações futebolescas, tão caras ao nosso presidente, Eastwood é Zidane. Vendo, parece fácil fazer.
O filme, evidente, vale o ingresso.

Anônimo disse...

O filme não ficou de fora do Oscar, como só foi lançado em janeiro desse ano ele só pode concorrer ao Oscar do próximo ano(2010)

Gabriel Carneiro disse...

Na verdade, o filme ficou de fora do Oscar. Ele estreou dia 12/12 nos EUA, em circuito limitado, justamente para estar apto às premiações (tanto que foi lembrado no Globo de Ouro e alguns círculos críticos). Em janeiro, estreiou em grande circuito e foi quando sua bilheteria estourou.
Uma pena.

Tuma disse...

Segundo o IMDb, o filme foi lançado, de forma limitada, em Dezembro de 2008 nos EUA. Não sei se o foi em LA, que basicamente é o que importa, mas acho que isso o exclui do Oscar-2010. Posso estar errado.

Romero disse...

Setaro, Tuma e Gabriel Carneiro estão certos, "Gran Torino" está mesmo fora da premiação do Oscar. Que fazer ?