Seguidores

04 setembro 2008

Ruy Polanah: um sertanejo moçambicano



Morreu Ruy Polanah. Seu amigo Tuna Espinheira escreveu um artigo sobre ele, que vai abaixo.

"Ele tinha um rosto esculpido com um talhe marcadamente barroco. Lia-se na sua expressão natural, a possibilidade da materialização de diversos tipos de personagens. Era o que, em cinema, a gente chama de boa “máscara”.

Sua gênese como ator deu-se em Ganga Zumba, de Cacá Diegues, anos sessenta, daí em diante foi um número sem conto de filmes. Trabalhou em produções internacionais, com grandes diretores, entre estes, o alemão Verner Herzog, nos filmes: “Aguirre, a Ira dos Deuses” e Fitzcarraldo, e, com o inglês John Boorman, a “Floresta das Esmeraldas”. Coincidentemente estes três filmes foram rodados na mata amazônica, Peru e Brasil, em épocas diferentes e com grande aceitação do público e da crítica.

Dois grandes diretores, responsáveis por algumas obras-primas do cinema, destas que não se escoram na moda e sim nas ondas perenes do tempo.

Mas, foi aqui mesmo, numa produção cabocla, “Os Deuses e os Mortos”, um clássico de Ruy Guerra, que o nosso sertanejo moçambicano iria deixar a sua marca do Zorro, quando interpretou, com alma, talento e carisma, um dos personagens principais do filme. Deixando para a história da dramaturgia cinematográfica da nossa sétima arte, um legado emblemático.

Na vadiagem da vida era um notável prosador, dominava a arte de falar, contar estórias, causos, com a devida contrapartida de ser um atento escutador. Conviveu com a fina flor da inteligência e da arte, num Rio de Janeiro ainda “Cidade Maravilhosa”, acolhedora, ecumênica.

Sua casa na Travessa Dona Carlota, nº 19, em Botafogo, sempre foi um palco fervilhante de acontecimentos. A atriz que ditou uma espécie de existencialismo nos costumes, dizeres e comportamento, Leila Diniz, morou lá, na época casada com Ruy Guerra. O nosso Ruy foi o padrinho da filha deles. Mais tarde, esta mesma casa, passou a estar sempre aberta, ou seja, tinha um cordão que era só puxar e a porta se abria, a qualquer hora do dia ou da noite. Muitos amigos, alguns deles hoje célebres, adentravam naquele recinto, puxando aquele cordão, nas horas mais incríveis. Uns à espera de encontrar alguém de plantão para bater papo, outros por motivo de fossa existencial, para extravasar. Era, por tanto, um espaço para os encontros, para as festividades e, também, fazia às vezes de Muro das Lamentações. Muitos e muitos, se hospedaram naquela morada. Ou pelo menos, iam ficando... ficando...
Conheço o Ruy desde que filmamos, nos idos da década de setenta, o filme, “Cristais de Sangue”, de Luna Alkalai, rodado em Mucugê, nas Lavras Diamantinas. Uma amizade de quatro décadas, prazeirosa, regada por uns aperitivos e abençoada pelo bom humor. Ruy foi um amigueiro profissional. Nós, os amigos e amigas, sempre o tivemos como Mestre, como exemplo de dignidade, de companheirismo e bom humor. Impossível apartá-lo do nosso imaginário, mesmo porque: Não se faz mais Ruy Polanah, como antigamente.
Tuna Espinheira
tunaespinheira@terra.com.br
Sobre a filmografia de Ruy Polanah consultar: http://www.imdb.com/name/nm0688837/

3 comentários:

Elza disse...

Oi, gostei muito do posto sobre o Canal Brasil.

Estou fazendo monografia com tema: "O Cinema novo na TV: Canal Brasil e a exibição de filmes da década de 60"
Caso vc tenha algo sobre esses filmes no canale puder me passar, agradeço.

Um abraço

Elza disse...

Oi, gostei muito do posto sobre o Canal Brasil.

Estou fazendo monografia com tema: "O Cinema novo na TV: Canal Brasil e a exibição de filmes da década de 60"
Caso vc tenha algo sobre esses filmes no canale puder me passar, agradeço.

Um abraço

Romero Azevêdo disse...

Belo obituário "velho" Tuna. Também conheci Ruy e tive o privilégio de ver os títulos citados. "Os Deuses e os Mortos", com raríssima aparição de Milton Nascimento, ví no extinto Riviera no Posto 6 em Copacabana em 71 ou 72 do século passado.O filme de Luna Alkalai, com trilha de Cátia de França interpretada por uma noviça Elba Ramalho, não me sai da memória. Ruy, como Emanuel Cavalcanti e outros poucos( muito poucos) são mais que a cara, são a alma do cinema nacional.