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15 novembro 2007

Bertolucci: aberto e lúcido


Bernardo Bertocucci, ainda que com filmes menores como O pequeno Buda e, de certa forma, O último imperador, é, atualmente, um dos cineastas que melhor trabalham na criação cinematográfica. Bertolucci tem um sentido aguçadíssimo de cinema, da mise-en-scène, que dificilmente pode ser encontrado entre os realizadores da chamada contemporaneidade, honradas as exceções de praxe. Se a nobreza do cinema italiano (Visconti, Fellini, Rossellini, Antonioni, etc) caiu, e caiu de forma avassaladora na atualidade, restou Bertolucci como um príncipe perdido num cipoal de mediocridades. O seu talento se verifica desde o começo, principalmente em Antes da Revolução (Prima della Rivoluzione, Itália, 1963/4), talvez a sua mais importante obra, que, por causa de uma dessas injunções do mercado exibidor brasileiro, levou 25 anos para ser lançado no Brasil - o que aconteceu em 1998.

É um cinema típico dos anos 60, a década da renovação da linguagem cinematográfica, da procura de uma expressão longe dos cânones estabelecidos, quando se queria, intensamente, romper com as estruturas acadêmicas da linguagem fílmica. O tempo, juiz supremo, se encarregou de separar o joio do trigo, o alho do bugalho, mas Prima della Rivoluzione, revisto hoje, conserva um impacto e um frescor surpreendentes. É um cinema de invenção de fórmulas, de mergulho intenso nas interrogações da vida, de perplexidade ante o estar-no-mundo.

O jovem marxista Fabrizio (Francesco Barilli) - nesta época, vale lembrar, Bernardo Bertolucci pertencia ao Partido Comunista Italiano - cujo guia ideológico, mentor intelectual, é Cesare (Morando Morandini), um professor universitário, sofre uma grave crise após o suicídio de seu melhor amigo. As certezas se tornam dúvidas e Fabrizio entra num processo de angústia. Consola-se com sua tia Gina (Adriana Asti), uma mulher bem mais velha e extremamente neurótica, que, por compaixão, aceita ter um caso com o sobrinho. Mas ela foge de Parma com Cesare para desespero de Fabrizio, que abandona seus sonhos revolucionários e se dá por vencido. O revolucionário depõe as armas e decide se aburguesar, aceitando um casamento que o integra, definitivamente, ao mundo da burguesia.

Parma é uma cidade das raízes de Bertolucci. Um ato de amor a ela está plasmado no plano inicial, quando um travelling irrompe na sua praça principal, revelando a sua beleza, a sua arquitetura e a sua poesia. O jovem Fabrizio pode ser considerado um alter ego do autor, inclusive num momento no qual discute com o amigo a função do cinema na sociedade contemporânea. A fotografia em preto e branco de Aldo Scarvada é um ponto a destacar, assim como a partitura de três grandes maestros: Ennio Morricone, Gato Barbieri e Gino Paoli.

Prima della Rivoluzione é um filme sobre as inquietudes intelectuais de uma geração, e, também, uma celebração do cinema como ato criador e transformador. Beleza, como diria Godard, ao mesmo tempo que a explicação da beleza, arte ao mesmo tempo que a explicação da arte, cinema ao mesmo tempo que a explicação do cinema. O título vem de uma frase de Tayllerand: 'Quem não viveu os anos antes da Revolução não pode compreender o que é a doçura de viver'. Esta confissão, de um filho do século como Bertolucci, pode se situar como uma moderna e pungente educação política e sentimental. O cineasta de O Último Tango em Paris analisa, neste seu segundo longa, com uma sensibilidade febril, a trajetória de um jovem de Parma (como ele) na efervescente década de 60.

Assim, Prima della Rivoluzione é, antes de tudo, um filme de sua época. E o faz através de relato em primeira pessoa de patéticos acentos autobiográficos, quando efetua o processo implacável de conceitos como a pureza da abstração revolucionária, que conduz o jovem protagonista a uma dupla derrota. Sentimental - o amor frustrado de Fabrizio por Gina - e a derrocada do ideal mítico da revolução - na qual se exemplifica toda uma página da história italiana contemporânea.A elegância dos diálogos, onde se pode sentir a influência de Stendhal e Flaubert, o sentido de observação da mise-en-scène, em momentos fortíssimos como a despedida dos amantes durante a representação da ópera Macbeth, e a poética na condução narrativa, fazem de Bernardo Bertolucci, ainda neste segundo filme, um dos mais importantes cineastas italianos de todos os tempos. Se atualmente se contempla a anemia de uma cinematografia que forneceu Antonioni, Fellini, Visconti, De Sica, Bertolucci, entre tantos outros gigantes, a visão de Prima della Rivoluzine serve, quando nada, para se sentir a grandeza de um cinema, de um tempo e de um espírito de época.

6 comentários:

Romero Azevêdo disse...

Caro Setaro:

Data vênia, me permita discordar da sua opinião crítica sobre O Pequeno Buda(1994) de Bertolucci. Não é um filme menor na grande filmografia de Bernardo.É, num certo sentido, até revolucionário, pois abordar um tema polêmico como transmigração de almas(popularmente conhecido como reencarnação) numa sociedade hiper materialista como a nossa ocidental, não é tarefa fácil. Não por acaso a maioria das críticas americanas aponta o filme como “confuso”.
Ao decidir tocar num tema tão complexo como a cultura hindu, através de Sidarta Gautama, o Buda/Cristo do século VI, Bertolucci se arriscou muito, porém seu esforço não foi em vão. O filme é extraordinário em sua concepção, realização e tratamento do tema. Além da primorosa reconstituição de época, com cenas grandiosas mas perfeitamente coerentes com a narrativa( nada espalhafatoso como em Cleópatra(1963), por exemplo) temos a soberba fotografia de Vittorio Storaro, um escultor de luz e sombras no mesmo nível de um Greg Tolland, que não se restringe apenas a enquadrar adequadamente atores e cenário. Os tons azuis,gélidos, da cidade de Seatle em contraste com os vermelhos, marrons e amarelos calientes da paisagem e personagens orientais nos ajudam a perceber melhor o choque de culturas entre as duas civilizações. Na minha opinião, o ponto alto deste filme é que Bertolucci não mantém apenas uma postura respeitosa e contemplativa diante da milenar religião (aqui não me refiro a nenhuma igreja existente cá e lá), vai mais fundo, revela uma compreensão de todo processo e isso livra o filme de qualquer exotismo/fanatismo.A cena em que o lama explica como uma alma passa de um corpo para outro através do exemplo do liquido contido no recipiente que se quebra e é logo absorvido pelo pano sintetiza isso.
A sequência final, quando as crianças distribuem as cinzas do lama Norbu(grande interpretação de Ying Roucheng) entre os quatro elementos da natureza(o fogo da cremação, a água do mar, a terra no tronco da secular árvore e o ar na pipa empinada),simbolizando a reintegração do corpo do homem com a Natureza de onde veio , é uma das mais belas do cinema contemporâneo. Se não bastasse tudo isso, Bertolucci ainda nos brinda, na imagem derradeira, com a destruição da mandala que havia sido construída pacientemente por um dos budistas. É a metáfora do inconformismo permanente consigo mesmo e a necessidade de recomeçar sempre, lapidando continuamente a vida/mandala em busca da perfeição aqui mesmo. Para usar uma expressão sua: aberto e lúcido.

André Setaro disse...

Você pode estar com a razão, caro Romero, pois a impressão que se tem de determinado filme depende do momento, de sua disposição física e mental. Muitas vezes, não me entusiasmei por determinado filme por estar cansado, sonolento, e, anos depois, vendo-o novamente, descubro se tratar de um cativante espetáculo, mas que, naquele primeiro momento, por ausência de disposição para apreciá-lo, não veio a me cativar. Sobre 'O pequeno Buda' devo dizer que o perdi quando lançado aqui no mercado exibidor, vindo a contemplá-lo, e apenas numa única vez, em cópia VHS, que destruiu a extraordinária iluminação de Storaro. A partir de seu comentário, que tem procedência e fortuna crítica, vou procurar o filme em DVD. Talvez mude a minha impressão.

Romero Azevêdo disse...

Estou de acordo com sua acertada observação. O cinema é uma forma de expressão que depende muito da disponibilidade física e psiquica do espectador. Lembro que aí mesmo em Salvador ví pela primeira vez "O Dia do gafanhoto"(1975). Eu estava péssimo nesse dia por problemas externos ao filme, daí não conseguir a mínima concentração para acompanhar a narrativa. Só anos depois pude avaliar corretamente a obra. Quanto a cópia em VHS do Pequeno Buda deve ser ruim mesm, infelizmente esse filme não foi lançado em DVD no Brasil, felizmente tenho uma cópia muito boa feita numa transmissão de TV a cabo. Lhe envio junto com o filme de Coimbra.

André Setaro disse...

Caríssimo Romero,
Impressionado fiquei com o rigor e o detalhismo observados na análise de 'Duelo de titãs' e a argumentação pacífica e budista sobre o filme de Bertolucci, que me fez pensar duas vezes. Não estaria eu, crítico apressado, a fazer injustiça com um homem tão aberto e lúcido como Bertolucci? Partindo de você tais observações e tais ponderações, todas bem argumentadas, vi-me, desculpe-me a expressão polanskiana, num 'cul-de-sac', isto é, num 'beco sem saída'. Quero rever 'O pequeno Buda' e fazer, talvez, talvez, nunca se sabe, um 'mea-culpa', à maneira católica (embora ateu, graças a Deus), ainda que obra de compleição e de corte budista. Gostaria muito de rever tal filme bertolucciano, pois gosto muito do realizador de 'Prima della rivoluzione', pois sempre está a tentar estabelecer uma 'mise-en-scène', preocupado com o elo sintático, que é tão desprezado pela 'folia poética' dos realizadores que se pensam gênios mas que, se a verdade for dita, não passam de chatos de galocha, de pachorra indescritível.
Sua cinefilia é assustadora. Vixe Maria! O termo aqui usado vem de uma lembrança paraibana já que você é um ilustre representante desse pedaço de terra brasileira, que aprecio sobremaneira, ainda que, modéstia à parte, e desculpe, mais uma vez, o pernosticismo, meu corte seja europeu pela formação antes da explosão 'made in USA'. Aprendi francês quando adolescente e o inglês o conheço de vista para leitura de bulas de remédio.Uma frustração que tenho, confesso aqui, a de não saber, bem, inglês, para entender os filmes sem precisar ler as legendas. Mas, e mais uma vez pondo a modéstia de lado, entendo o francês dos filmes sem precisar ler as letrinhas que correm por baixo do quadro. Mudei de assunto num 'ex-abrupto'. É que, feriado, dei-me a beber cerveja, para matar o tempo e, quem sabe?, matar-me também, pois safenado, já velho, com doença coronariana obstrutiva. Falo isso porque estou 'comendo água'. Caso contrário não o faria, pois indivíduo tímido, recatado, que não gosta muito de se expressar nas suas idiossincrasias pessoais.O feriadão me assusta e faz crescer a monotonia. Gosto mais dos dias úteis que se fazem menos inúteis. Comemora-se a proclamação de uma república que foi instaurada via golpe de estado por um marechal covarde, como Deodoro da Fonseca, 'perna fina e bunda seca', como se dizia antigamente. Para ser sincero, preferiria que o velho Imperador, o injustiçado Pedro Banana, como lhe pespegou certos humoristas da época, tivesse continuado. Era um homem ilustre, cônscio de seus deveres, liberal no sentido clássico, adepto da liberdade de imprensa. Mas paro por aqui, porque senão...

Jonga Olivieri disse...

Considero também "1900" e "O último tango em Paris" (outra obra dele que demorou a nos chegar), dois expressivos filmes do autor.
Mas concordo quanto a "Antes da revolução" ser sua obra mais importante. Concordo também que reflete o clima dos anos 1960, quando os caminhos do cinema se abriam com sêde de buscar novos horizontes.
Basta dizer que "Cidadão Kane" foi realmente aclamado e reconhecido naquele período.

Walter Silva Pinto Filho disse...

Caro André Setaro

Como é bom ler seus comentários. Tens razão! Um feriado é uma tristeza e só bons filmes para preencher o vazio que muitas vezes nos ataca. Vou guardar esta expressão (sua) para sempre: “Gosto mais dos dias úteis que se fazem menos inúteis”. No tocante ao talento do cineasta Bernardo Bertolucci basta ver “Último Tango em Paris” – que ele faz uma crítica aos valores morais, que são editados de acordo com a época e os interesses das castas dominantes. Com ousadas cenas de sexo, mas, revestido de uma sensibilidade ímpar pelas mãos deste grande cineasta. Já outro filme marcante, sem dúvida, é sua obra-prima “Antes da Revolução”- muito bem comentada por você e que vou rever. Continue a nos brindar com seus ensinamentos. Um forte abraço.