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30 outubro 2007

Itinerário torto de bloguista sem assunto



Já cansei de ouvir que todo crítico de cinema é um cineasta frustrado. Ora, ora, ora bolas! Que o seja, então! Serei um deles? Creio que não, mas, quem sabe, no inconsciente talvez o seja. Precisaria ser psicanalizado para saber dessa frustração. Seria ela responsável pela minha adoração aos prazeres etílicos que, agora, encontro-me tão acossado, tão restrito por problemas de saúde? O fato é que, e verdade seja dita, e que me desculpem os cineastas, que os respeito, gosto mais de ver do que de fazer. Tenho natureza contemplativa e uma certa preguiça para estar no set de filmagens, embora tenha já participado de alguns filmes. Realizei, de moto próprio, não um filme, mas um produto audiovisual em fita magnética, que mantenho escondido nos escombros de meus papéis. Trata-se de Pizzaria Eisenstein, vídeo de ficção de 15 minutos, o qual, depois de pronto, resolvi arquivá-lo sem mostrar a ninguém. Mas já participei de obras alheias, principalmente na juventude, e quando ainda era um adulto jovem. Acho que filmar é esperar, esperar, esperar pela próxima tomada. Para o ator é meio frustrante, pois além da espera - e muitas vezes uma espera quase godótica, fica o intérprete algum tempo sem ver o resultado até que o filme fique pronto. Cary Grant uma vez disse que em Intriga internacional (North by northwest, 1959), de Alfred Hitchcock, apenas obedecia às indicações do mestre sem saber rigorosamente nada de seu personagem. Hitch dizia a ele: olha em frente, feche os olhos, ande à direita, suba a escada, e ele ia obedecendo. Já o intérprete teatral tem uma grande satisfação no proscênio, pois a sua construção do personagem se faz num contínuo de espaço e de tempo, havendo, nisto, integridade na composição.
Quando jovem, participei como assistente de direção de Perâmbulo (1968), e, como diretor de produção, de Vôo interrompido (1969), ambos do cineasta baiano José Umberto (que tem em seu curriculum dois longas: O anjo negro (1973) e Revoada (2008), este último em processo de pós-produção e com lançamento previsto para o ano que vem. Vôo interrompido é um média metragem e, segundo opinião de Álvaro Guimarães, o autor de Caveira my friend, é o primeiro filme realmente underground - ou udigrudi - do cinema baiano, pois feito antes do dele que é radicalmente marginal. Funcionei como diretor de produção ao lado de José Frazão, que viria a se tornar um cineasta conhecido com J. S. Brown, o último herói do gibi (que tem uma excelente apreciação no blog de Andrea Ormond Estranho Encontro, uma das páginas mais importantes na internet sobre cinema brasileiro (http://estranhoencontro.blogspot.com/), Akpalô (1972), que desapareceu, O mistério do colégio Brasil, entre outros. Nunca mais vi Frazão e acredito que esteja a morar no sul do país.
Vôo interrompido se propõe a ser uma espécie de poema audiovisual por meio de imagens que registram a ascenção e queda de uma prostituta que sai de seu interior paupérrimo e vai para a cidade grande onde se torna uma puta. A sua vivência como prostituta determina a sua aflição e o seu suicídio. Mas assim narrado não se pode ter uma idéia do que seja o filme, pois é uma obra que se estabelece, e como deveria ser em qualquer obra cinematográfica, como estrutura audiovisual.
Em 1982, a convite de Tuna Espinheira, apesar de minha recusa inicial, participei como um dos atores principais de O cisne também morre, o primeiro filme de ficção do realizador do longa Cascalho, transposição cinematográfica do famoso romance de Herberto Salles. Faço um agente de funerária, vestido com uma japona esquisita, azul marinho, a beber formol o tempo inteiro. O cisne também morre é baseado na memória de Carlos Anísio Melhor, poeta consagrado, e, a rigor, é um filme sobre a boemia soteropolitana, uma espécie de réquiem aqueles que, desgraçados mas sensíveis, adoravam a bebida como mola propulsora de suas existências. Não ganhei o Oscar de melhor ator, esta a verdade.
Recentemente, e como ator, ora vejam só, atuei em À margem do tempo, de Júlia Lima, um filme baseado em conto de Jorge Luís Borges, onde faço este, maquiado para parecer velho. Um velho que, num banco à beira do rio, encontra com ele próprio jovem (feito por Lucas Valladares de Eu me lembro). O filme é um jogo no espaço e no tempo que reflete sobre o tempo que passa.
Mas por que estou a narrar estas coisas? Talvez falta de assunto para o post de hoje. A quem interessar possa, fica o registro.
A imagem é um fotograma de À margem do tempo.

6 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Com mais tempo e com as coisas mais normais, vou postar um comentário sobre a sua matéria de Friedkin, que exige uma certa concentração e consultas.
Mas quanto a esta postagem, falando de suas participações em filmes, fica mais fácil.
Lembrei também de nosso prime Alberto em Perâmbulo onde fêz uma ponta.
Bons tempos...

Stela Almeida disse...

Conheço e gosto muito do Frazão, nos anos 80, em Canavieiras, êle e Vito Diniz fizeram um documentário acho que nunca exibido, acompanhei de perto. Suas notas são importantes, mostram cenas de uma geração atenta à literatura, poesia, música, e o melhor do cinema.

André Setaro disse...

Stela,
Foi na época em que conheci José Frazão, que era irmão de uma colega minha, Alice, na Faculdade de Direito. Ele e o saudoso Vito Diniz (um dos melhores diretores de fotografia do Brasil mas que não alcançou maior fama pela insistência em ficar a morar na província) foram os realizadores. Coloco Vito também como autor porque praticamente ensinou Frazão a dirigir. O curta se chamou 'Às margens plácidas', rodado, como você observou, em Canavieiras e, se não me falha a memória, tratava da pesca de carangueijos. Em seguida Frazão arranjou recursos com o avô, que morava no Corredor da Vitória, para fazer um longa metragem dispendioso, 'Akpalô', cujos negativos desapareceram segundo me contaram. Fez o filme em co-autoria com Deolindo Checcucci, diretor de teatro. Vi 'Akpalô' numa sessão especial, em 1971, já que ele era meu amigo na época - há séculos que não o vejo, no Liceu numa manhã, turno que não tem programação. Reflete a época, a idéia do 'flower power', paz e amor. Um marciano passa 24 horas em Salvador, visita seus pontos pitorescos e fica apaixonado pela Lagoa do Abaeté. Muitas flores, colorido belo, iluminação deslumbrante, mas pouca, muito pouca substância. Mais adjetivo do que substantivo.

Stela Almeida disse...

Que mundo grande André! fiz o curso de Ciências Sociais, fui colega da Edinha Diniz que escreveu o livro sobre a Chiquinha Gonzaga. Vc. sabe muito bem que a geração 70/80 não signicou paz e amor, ela trouxe uma reflexão sobre a sociedade e seus conflitos. O Vito se despediu deixando suas imagens poéticas e um olhar ressignificado sobre a cidade, a gente comum, os lugares, a maneira de se viver o cotidiano.
Não assisti 'Akpalô', pelos seus comentários, uma fase menos fértil do José Frazão. Desenvolverei meus comentários mais adiante, essas memórias ajudam a constuir uma identidade.

André Setaro disse...

A geração dos anos 60 foi muito importante, muito contestadora, sim, e refletiu muito sobre o seu momento histórico na tentativa de abraçar e mudar o mundo. Mas acontece que o que pretendi dizer no post acima é que Frazão não foi feliz em 'Akpalô' por ter uma visão contemplativa da sociedade, influenciado, talvez, pelo seu co-autor. Por outro lado, conheci muita gente do curso de Ciências Sociais daquela época, um curso muito procurado, muito politizado. Lembro-me de Edinha Diniz, que se casou com Vito e tiveram um filho que, creio, prossegue na carreira do pai. Sou desta época precisamente, quando estava na flor da juventude entre 18 e 25 anos. Frazão depois de 'Akpalô' foi tentar ser cineasta no sul, onde se deu bem, fazendo bons trabalhos, ainda que medianos numa comparação mais rigorosa, mas, decididamente, acima da média dos baianos que aqui restaram. Assim de memória, posso pensar em alguns alunos de Ciências Sociais, como Angelo, Racquel... Uma vez fui com eles receber, em 1968, o 'príncipe' dos sociológos, o energúmeno do FHC, que foi convidado para uma palestra. Fomos ao aeroporto 2 de Julho.

Jonga Olivieri disse...

Esqueci de comentar, mas em tempo: o fotograma de À margem do tempo é bucólico e combinou maravilhosa e perfeitamente com o título e assunto da postagem.