Seguidores

27 agosto 2007

Entre umas e outras

Distribuído pela Classic On Line (com cópia excelente, embora esta distribuidora não seja uma garantia de qualidade das cópias), embora filme da Metro Goldwyn Mayer, Eles e elas (Guys and dolls, 1955), um dos melhores musicais dos anos 50, grande sucesso de palco, tem sua versão em DVD (já lançada há alguns anos) no mercado brasileiro intitulada Garotos e garotas, o que revela certa ignorância por parte da sua distribuidora, pois quem tem referência pelo filme não saberá, com este nome, do que se trata. Talvez seja este o motivo porque o DVD quase não sai das locadoras - das poucas, diga-se de passagem, que ousaram comprá-lo). Garotos e garotas, no entanto, vale repetir, é o famoso Eles e elas, de Joseph L. Mankiewicz, com Marlon Brando, Frank Sinatra, Jean Simmons, Vivien Blaine. Sim, Marlon Brando, recém-saído de Sindicato de ladrões (On the waterfront), de Elia Kazan, pelo qual ganhou o seu primeiro Oscar de melhor ator, canta e dança em Eles e elas, filme interessante que foi queimado em seu lançamento em DVD pela própria distribuidora. É o tiro a sair pela culatra. Não tem, a Classic On Line, uma assessoria que conheça um pouco de cinema?

Marlon e Frank são dois jogadores inveterados, obsessivos por apostas a todo custo. Jean Simmons é uma missionária do exército de libertação, rigorosa, grave, aparentemente tonta. Frank aposta com Marlon que este não seria capaz de seduzir Jean e ainda levá-la, na mesma noite, à Havana - na época da realização do filme, 1955, Cuba era uma espécie de prostíbulo dos Estados Unidos, e Fidel Castro ainda teria que esperar quatro ou cinco anos para entrar em cena. Por incrível que pareça, Marlon, porque é, realmente, um charmant, conquista a mulher, levando-a a Cuba.

Há uma sensação de modernidade assustadora na coreografia de Michael Kidd, anunciando os bailados acrobáticos de West Side Story, já na década de 60. Os números musicais são excelentes e a responsabilidade maior pelo bom êxito da realização se deve a Kidd, extraordinário coreógrafo avant la lettre. O filme, na sua estrutura geral, segue os indicativos da peça teatral homônima, grande êxito e referência da Broadway. Poder-se-ia também perguntar o que Mankiewicz, cineasta da palavra, está fazendo aqui, num musical.

Mas mudando de um pólo a outro, está em cartaz um Friedkin, realizador de minha grande admiração e respeito, pois é um cineasta de timing admirável, o que me faz ir ao complexo Multiplex. Trata-se de Possuídos (Bug), última obra desse elétrico metteur-en-scène, que já nos deu biscoitos finos como Operação França, Viver e morrer em Los Angeles, Jade, entre tantos outros espetáculos de envolvência permanente. Marcelo Miranda, crítico de cinema, já tinha me alertado sobre a chegada de Bug aos cinemas. O que devo dizer é que estou ansioso para vê-lo logo. E, ontem, a recomendação partiu de Saymon Nascimento, cinéfilo impertinente e antenado. Não seria o caso de dizer que estou contando as horas, mas já me programei para ver Bug amanhã. O cinema de Friedkin parece que tem um timing no qual carrega um fio de alta tensão. Vamos ver!

Há, na indústria cultural hollywoodiana, uma espécie de lei que determina que um filme não pode ficar sem que aconteca alguma coisa de três a três minutos, havendo a necessidade da introdução de uma explosão, ou o surgimento de uma tensão inusitada. Não há mais possibilidade para a reflexão, para a contemplação, no cinema contemporâneo, pois tudo é regido pela ação e pela ânsia do lucro imediato. Nos tempos da velha Hollywood, e de seus grandes estúdios, os seus executivos (Louis B. Mayer, David Selznick, Harry Cohn, Darryl Zannuck, etc) entendiam e gostavam muito de cinema. Atualmente os estúdios não existem mais, porque fundidos (e fudidos), e geridos por executivos da Coca-Cola e da Mitsubichi. O cinema americano industrial é produzido em linha de montagem como se os filmes fossem salsichas. Do ponto de vista do cinema comercial, e, vejam bem, não se está falando aqui de salas alternativas nem do chamado (erroneamente) filme de arte, o cinema americano, nos seus anos de ouro, era um primor, com temáticas adultas, filmes interessantes. Um panorama muito diferente do atual, que se caracteriza pela infantilização temática e pela velocidade dos cortes, da instauração da estética da tesourinha, que impede a contemplação e, por conseguinte, a reflexão. O caso Friedkin é uma exceção que foge à regra.

5 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Não me recordo deste filme. Curioso, nem tinha conhecimento de Brando num musical...
Mankiewicz, sem dúvida, um grande diretor do cinema estadunidense no período mais expressivo de sua história, foi responsável por "Cleópatra" com uma exuberante Liz Taylor, e também por "Julio Cesar", também com Marlon Brando.
Vou procurar na locadora e conferir...

Marcelo Miranda disse...

Setaro, aguardo com ansiedade suas impressões sobre "Bug", espero mesmo que goste. Estou preparando um artigo sobre o Friedkin a partir deste lançamento, quando pronto e publicado eu te envio pra dar uma lida - porque sua opinião é sempre fundamental. Abraços!

Jonga Olivieri disse...

Esquecí de comentar. Realmente o cinama estadunidense daquele período dourado (como bem o diz), é fenomenal. Nunca, o espetáculo no cinema foi tão espetáculo. Em todos os sentidos.
No gênero musical, quando se assitia a algum que não fosse de autoria de Hollywood, via-se imediatamente a diferença. principalmente nos detalhes de produção e edição.
Nas superproduções históricas, eram tb imbatíveis. De um primor... Sem falar do Western, o gênero ianque por excelência (como também você se refere). Os "espaghetti", naquele tempo era execrado. Depois, numa releitura, passaram a ser "cult". Mas, muito depois. Hoje, particularmente, acho que têm cverdadeiras obras-primnas nos "macarroni".

Stela Almeida disse...

O cinema americano nos seus anos de ouro, Singin'in the Rain,1952, por exemplo, bom rever.
O cinema de alta tensão, Bug, Friedkin, só conferindo. Mas como vem com indicação de gente antenada, vale apostar.
Setaro, valeu a dica da casa de cinema do RV. O DVD está locado,mas vou voltar por lá.

Vinicius disse...

Tambem estou muito ansioso para conferir esse novo filme de Friedkin (O Exorcista, 1973). Pretendo ir vê-lo hoje (terça-feira), porque ir pra Multiplex na quarta-feira é pedir pra te darem um tiro na cabeça. É completamente nojento no que aquele espaço se tornou nesse dia.

Outro filme que teve sua estréia recentemente, acho eu, foi Saneamento Básico. Ouvi comentários muito bons do filme e estou querendo muito assistí-lo. Abraços!