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14 maio 2007

Ó Pai, Ó

Ó Pai, Ó, de Monique Gardenberg, baseado em peça do atual Secretário da Cultura Márcio Meirelles, é a expressão mais perfeita e mais acabada da baianidade estereotipada, havendo, mesmo, uma anemia profunda a se verificar em termos de ausência criadora do ato cinematográfico em função das torrentes verbais que procuram dar o toque e estimular a narrativa. Fala-se mais, aqui, do que, como se diz na velha Bahia, 'a nega do leite'. Os estereótipos de uma suposta baianidade são desfilados numa tentativa de se condensar nas imagens em movimento o way of life daquele que se diz baiano e que mora na sempre maravilhosa e mágica Bahia. O folclore made in Bahia, feito para inglês ver.O espectador mais atento fica com vontade de sair, mas, se espectador que deseja conferir o resultado e, ainda que maltratando a sua sensibilidade, espera para ver a destruição de um arcabouço que, desde o início, é falho e destituído de qualquer consistência. O simplismo do entrecho e o excesso de personagens provocam um esfaziamento de seus caracteres e, ao invés de se ter um afresco, tem-se, isto sim, uma miscelândia que alude a uma Bahia folclorizada for export.

O miolo do argumento é o seguinte: em um animado cortiço do centro histórico do Pelourinho, em Salvador, tudo é compartilhado pelos seus moradores, especialmente a paixão pelo Carnaval (a folia que já foi tão boa e tão melódica e que atualmente é uma folia industrializada na qual o povo está completamente alijado, excluso, impossibilitado de compartilhar, pela miséria abundante, de qualquer alegria, mesmo que as alegria carnavalesca) e a antipatia pela síndica do prédio, Dona Joana (Luciana Souza). Todos tentam encontrar um lugar nos últimos dias do Carnaval, seja trabalhando ou brincando. Incomodada com a farra dos condôminos, Dona Joana decide puni-los, cortando o fornecimento de água do prédio. A falta d'água faz com que o aspirante a cantor Roque (Lázaro Ramos); o motorista de táxi Reginaldo (Érico Brás) e sua esposa Maria (Valdinéia Soriano); o travesti Yolanda (Lyu Arisson), amante de Reginaldo; a jogadora de búzios Raimunda (Cássia Vale); o homossexual dono de bar Neuzão (Tânia Tôko) e sua sensual sobrinha Rosa (Emanuelle Araújo); Carmen (Auristela Sá), que realiza abortos clandestinos e ao mesmo tempo mantém um pequeno orfanato em seu apartamento; Psilene (Dira Paes), irmã de Carmen que está fazendo uma visita após um período na Europa; e a Baiana (Rejane Maia), de quem todos são fregueses; se confrontem e se solidarizem perante o problema. Se falta fôlego cinematográfico para traduzir isto que aí esta supra em ato criador fílmico, demonstrando na sua diretora, Monique Gardenberg, uma total falta de controle para reger os elementos dramáticos, O Pai, Ó nem mesmo consegue registrar um décor convincente, pois personagens não estão bem acoplados ao cenário (nem isso, pelo menos, o que seria de se esperar), e se posionam na estrutura narrativa movediça como caricaturas de si mesmos. Gardenberg, que se iniciou nos anos 90 com o estranho (até no título) Genipapo, prosseguiu sem dizer a que veio em Benjamim, e, aos trancos e barrancos, montou, dentro de um discurso no vazio, este intragável Ó Pai, Ó, que somente a obrigação de um crítico de cinema pode ser a determinante de sua contemplação. Mas não se recomenda a ninguém o sacrifício.
O crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho também sentiu o vazio que se estabelece no filme, o cheiro de coisa nenhuma na sua análise lúcida e coerente no seu site Cinemascópio do espaço virtual: "De qualquer forma, a ausência de um comentário verdadeiro e não-codificado (ACM é ligeiramente elogiado por uma personagem desagradável, seria isso uma crítica?) sobre a 'disneyficacão' do Pelourinho na primeira metade dos anos 90 (com direcionamento claramente turístico, como esse filme) seria, nas mãos de um cineasta dotado de visão mais larga, material excelente para um filme melhor. O mesmo desperdício vai para a ausência de qualquer sinal de compreensão para com a bizarra configuração social do carnaval baiano (um dos temas centrais do filme), aquela alegria uniformizada, comercializada e separada por cordas grossas, seguradas pela mesma classe social retratada no filme. Nada disso, claro, está na tela, uma vez que Ó Paí Ó, como boa parte da cultura feita no Brasil hoje, o cinema especialmente, é uma obra sem fricção, sem tensão ou comentários que nos levem a ver o interessantíssimo Brasil contraditório na tela. É uma coisa alegre e perdida com nada a dizer, uma ironia num filme onde tanta gente grita tanto."


Trabalham na mixórdia (a maioria dos atores, diga-se de passagem, respeitável) : Lázaro Ramos (Roque) Stênio Garcia (Seu Jerônimo) Wagner Moura (Boca) Luciano Souza (Dona Joana) Dira Paes (Psilene) Érico Brás (Reginaldo) Tânia Tôko (Neuzão da Rocha) Emanuelle Araújo (Rosa) Rejane Maia (Baiana) Lyu Arisson (Yolanda) Valdinéia Soriano (Maria) Jorge Washington (Mattias) Cássia Vale (Mãe Raimunda) Auristela Sá (Carmem) Virgínia Rodrigues (Bioncê) Edvana Carvalho (Lúcia) Leno Sacramento (Raimundinho) Cristóvão Silva (Negócio Torto) Vinícius Nascimento (Cosme) Felipe Fernandes (Damião) Cidnei Aragão (Peixe Frito) Mateus Ferreira da Silva (Mateus) Nauro Neves (Lord Black) Merry Batista (Dalva) Natália Garcez (Lia) Tatau (Tatau) Telma Souza (Feirante) Lázaro Machado (Pastor) Jamile Alves (Professora) Gustavo Mello (Guarda) Nívea Pita (Fiel possuída) Anselmo Costa (Radialista - voz)


A miséria cultural na qual estão inseridos os baianos já tem seu filme-manifesto: Ó Pai, Ó.

7 comentários:

Monique Gardenberg disse...

Mas Setaro, um bom cinema não se faz sem excelentes atores e atrizes como o elenco de Ó Pai, Ó. Todos eles sabem cantar, dancar e representar. Simples, voce não gostou do filme porque não gosta de Carnaval.

Saymon Nascimento disse...

Acho que estou com Edgard Navarro. A Bahia é over - além do mais, foi-se o tempo em que cinema deveria ser transposição fiel da realidade. Ò Paí Ò é caricatural. Nada contra isso. Pena que, como você bem diz, os filme simplesmente não é bom - mas não por questões de representação. O fato é que Gardenberg não tem o touch, para lhe citar novamente.

Davi Lopes Ramos disse...

Setaro: sinto grande alegria em testemunhar tamanha lucidez! é bom saber que nem todos compartilham no baba-ovo embevecido que tem cercado o filme! Por coincidência, acabei de escrever também sobre o O Paí, Ó (mas sem um décimo da agudez de seu texto...)! Espero sua visita! Abraço!

André Setaro disse...

Nunca exigi do cinema que fosse representação da realidade. Muito pelo contrário. O problema de 'Ó Pao, Ó' é um problema de estrutura. É ruim porque é mal feito, organizado de maneira pouco criativa, 'gritada', um cinema abusado sem energia, que aporrinha, que não dispõe sobre a possiblidade de encantar. Um zero à esquerda, portanto.

Eduardo Campos Fontenelle disse...

A 'carnavalização' da cultura soteropolitano é uma característica e uma realidade dessa província retrógada e atrasada. Se, antigamente, a Bahia tinha centro de excelências, como cansa de você dizer, Setaro, hoje reina, como você mesmo disse, Setaro, a miséria cultural. E nesse ponto fecho com você: "Ò Pai, ó', não deixa de representar tudo isso que está aí.

Renato disse...

concordo. discordo de muitas das atuações teatrais (tudo bem que é uma homenagem a um grupo de teatro... mas péra lá!) do longa. salvo lázaro e a baiana, que me salve a memória. mas de resto, o carnaval, mesmo esse industrializado, merece um filme muito melhor. e usar a desculpa de que foi uma produção de pouco orçamento, feito na marra, só faz piorar a insistente defesa ao cinema baiano, onde o que parece contar mais é ter um filme pronto, seja ele como estiver.

skubastive disse...

"Quem é 'Eduardo Campos Fontenelle'? Como ele pode chamar um estado, que possivelmente nem conhece,(pra ter falado uma imbecilidade dessas!) de 'província retrógada e atrasada'? Vc já veio a Bahia? Tem conhecimento de todos os seus municípios, vilas e de toda a sua vida? Não deve ter. Uma coisa boa seria conhecer mais as coisas antes de julgá-las e discorrer de forma tão agressiva sobre algo que desconhece. A Bahia meu caro, não se limita a Salvador. O que o nosso povo realmente precisa enxergar é o potencial q tem, e passar a valorizar mais as suas coisas, próprias da terra, e dos costumes. Setaro, vou me dar ao direito de ñ comentar o seu texto, respeito imensamente, compartilho da reflexão sobre estereótipos, mas discordo de muita coisa, o q é bastante compreensível. Só ñ podia deixar de externar o meu desconforto diante de tão ignorante e abusado comentário. INfeliz em sua afirmativa pseudo-intelectual paulistana, ou carioca. Que no mínimo deve ser, p falar dessa forma da Bahia... Não é preconceito, é a realidade, o sul e o sudeste tem um preconceito descabido e mesquinho em relação aos estados do nordeste, e principalmente a Bahia e ao seu povo.