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26 outubro 2006

Vai-se hoje ao cinema?


Em 1953, a Fox, temerosa da concorrência da televisão, que fechou metade dassalas exibidoras dos Estados Unidos, lançou, com grande marketing, o formatoCinemascope e som estereofônico, ainda que já tivesse sido descobertodécadas antes pelo francês Henry Chrétien. O primeiro filme em Cinemascope foi O manto sagrado (The robe), de Henry Koster, com Richard Burton e JeanSimmons. Conta-se do espanto dos espectadores quando Burton, recitandoteatralmente, anda do lado direito para o esquerdo com a sua voz acompanhando (era o processo estereofônico). Nos primeiros filmes em Cinemascope, a predominância era dos planos gerais, geralmente ambientes amplos e repletos de personagens. Os filmes eram mais paisagísticos do que introspectivos. Quem trouxe o ser humano e o close up intenso para o Cinemascope, revolucionando-o, foi George Cukor em Nasce uma estrela (A star is born, 1955), com Judy Garland e James Mason. Mas não se poderia deixar de citar Aconteceu em Veneza, de Roger Vadim. Exibindo O manto sagrado na sua grade de programação, o Telecine Cult teve o acinte de apresentá-lo na abominável tela larga (ou cheia), full screen, destruindo todas as composições de enquadramento desse filme pioneiro, ainda que superado e velho, datado. De cult The robe não tem nada. Mas, a Paramount, para entrar na concorrência, inventou o Vistavision, cujo formato é menos largo do que o Cinemascope. Se, com a entrada deste formato todos os cinemas tiveram que se adaptar a ele, com as lentes anamórficas e mudança detelas, os exibidores, no entanto, não modificaram as janelas dos projetores adequados para o Vistavision. Resultado: todos os filmes da Paramount (incluindo a maioria dos de Hitchcock) foram exibidos no Brasil cortados pelos lados. Somente agora, com as cópías em DVD é que, pela primeira vez,os brasileiros estão a ver os filmes em Vistavision na sua integridade. Na foto ao lado, a apresentação dos créditos de Rastros de ódio (The seachers),de John Ford, filmado em Vistavision. Considero The seachers um dos pontos altos de toda a história do cinema.


Infelizmente a maioria das pessoas tá pouco se lixando para o formato dos filmes. O que interessa é a história, a trama, a intriga. Fiquei estarrecido quando ouvi de um jovem que prefere ver os filmes dublados porque tem preguiça de ler as legendas.A incultura cinematográfica cresce a passos largos. O cinéfilo do pretérito virou um simples consumidor de filmes e, como já disse aqui, o ir ao cinema atualmente é diferente do ir ao cinema no passado. O ir ao cinema hoje é uma das fases do processo do 'shoppear'. Não se vai mais ao cinema, mas se vai ao shopping e, estando nele, ao cinema. Os consumidores, débeis mentais, não possuem, portanto, um propósito estabelecido a priori de ir ao cinema ver determinado filme. Entra-se numa sala 'multiplexada' por causa de um cartaz, de um rosto bonito, de determinado ator ou atriz ou pela sugestão da ação, violência e sexo. Lembro-me que, em priscas eras, comprava o jornal para saber das estréias, estabelecendo, por exemplo, "amanhã, sem falta, vou ver "Matar ou morrer" logo na primeira sessão, às 14 horas, no cinema Guarany".


11 comentários:

Hildebrando Martins disse...

Oi, André!
Posso saber onde você encontrou essa imagem do filme The Searchers?
Forte abraço.

jonga disse...

Realmente, como mudou o hábito de ir ao cinema. E, principalmente o respeito ao fato de.
Parece saudosismo. E é, de fato. Mas, cinema passou a ser um produto descartável como qualquer hamburguer da vida. Aliás, coisa mais irritante do que aquele casal que chega ao seu lado repleto de pipoca e refrigerante?
Concordo plenamente quanto a "The seachers", sem dúvida um dos grandes filmes que jamais foram produzidos. Uma obra prima.

jonga disse...

A ida ao cinema era quase um ato “religioso”, algo como ir a um templo. Um evento de fato. Você falou em consultar os jornais. Acrescento: com uma sede, como a contemplar uma meta a ser alcançada. De repente aquela pré-estréia tão aguarada. Motivo de regozijo. De contar os dias, as horas, os minutos até soar o gongo que anunciava a sessão. É, ainda havia isso! Quando o gongo batia, era como que chamando você à concentração. Mal, mal o barulho irritante do celofane dos drops Dulcora. Não havia celular, muito menos pipoca e refrigerante. Era você e o telão.
Tinham cinemas (como o São Luís, no Rio de Janeiro), que tinham aquela cascata de cores no teto, reforçando o gongo e seu ritual.
O cinema já foi um programa por si só. Sem fast-foods, sem comprinhas bobas. Mas ir ao cinema por ir ao cinema...

Mary Weinstein disse...

Sua critica ao "ir ao cinema" no presente e' ideologica e parte do pressuposto de que todo shopper é burro ou culturalmente ignorante. E' muito pouco em se tratando de critica academica. Pertence mais aquelas sessoes do jornal atarde onde se reclama infindavelmente em busca do tempo perdido.

Renata disse...

Olá, Setaro!

Pronto, encontrei o blog!!! Muuito bom!!! :)

Vou recomendar para vários amigos!

Dá uma olhadinha nesse site aqui:

www.bernardoalmeida.jor.br

Depois vc me conta o que achou, ok?

Bjos!

:)

André Setaro disse...

Mary,

Você está bastante equivocada e precisando, urgentemente, saber o que é crítica acadêmica. Fiz apenas um comentário, uma apreciação, no compasso de um blog. Sou mesmo saudosista e nostálgico. E daí?

Franchico disse...

Todo shopper é burro e culturalmente ignorante, sim. Se não o fossem, respeitariam a si próprios e ao próximo, desligando o celular e fechando o bico durante a sessão. Não me lembro qual foi a última vez que fui ao cinema e não tive que mandar alguém calar a boca. O baiano se comporta no cinema como se estivesse na sala de TV da sua própria casa, jogando o pé pra cima da cadeira da frente (muitas vezes, chutando-a mesmo), falando alto, atendendo o celular e conversando despreocupadamente, com toda a arrogância que lhes é característica. E ai de vc se reclamar, pois os mal educados ainda torcem o nariz pra vc, que pagou para ver o filme e apenas nele está interessado. E se vc acha que isso é coisa de suburbano ou gente pobre, sem acesso à educação, se engana redondamente, pois as maiores barbaridades que vejo sendo cometidas no cinema, no trânsito (outra selva do salve-se quem puder) ou onde quer que seja, partem SEMPRE de pessoas brancas, bem nascidas, dirigindo carrões enormes (uma pífia compensação para seus pênis diminutos) e residentes do Itaigara, Caminho das Árvores, Alphaville ou Graça. Ou seja: quanto mais dinheiro, menos educação. A burguesia soteropolitana vive com o rei na barriga, se acha dona da cidade e está a cada dia mais burra, mal educada e insuportável. Foi isso que ganhamos com 30 anos de política sócio-econômica e cultural carlista: um retrocesso monstruoso no nível intelectual do soteropolitano. Nunca fomos tão burros, mal educados e arrogantes. Professor, desculpa aí o desabafo, mas tá phoda. (Com o perdão da má palavra).

Lola Laborda disse...

Vixe Franchico, nao te conhecia assim tão revoltado com a classe abastada.

Bernardo Almeida disse...

Grande Setaro,

Agradeço a visita e o comentário no site (www.bernardoalmeida.jor.br).

Concordo com o pensamento de que, hoje em dia, freqüentar as salas de cinema dentro de shoppings – exposto à educação do público de shoppings – quebrou grande parte do encanto para os cinéfilos. Ao escolher um filme, ainda mais dentro das opções oferecidas, sinto-me tão enganado pela “indústria” ao ponto de ter a impressão de não estar consumindo uma experiência. Parece mais que estou realizando um ato banal e casual de escolher um produto diante de uma vitrine cheia de enfeites ridículos para seduzir o consumidor. Será também que algumas pessoas ainda se reúnem após o filme para discuti-lo, acompanhadas de uns bons chopes? Embora não tenha vivido muito tempo na época dos cines de rua, sei que certas coisas fazem falta...

Um forte abraço

Márcio/BH disse...

A vocês, baianos, quero informar que em Minas não é diferente. Ir ao cinema tem sido um suplício e o pior é que até nas salas ditas "alternativas" passamos pelo constrangimento de ter que aturar os espectadores sem algum resquício de educação e senso de respeito pelo outro. Tenho resistido bravamente e ainda insisto em frequentar as salas de cinema mas, lamentavelmente, não tenho tido muito prazer para tanto.

Mary Weinstein (a verdadeira) disse...

caro professor andré setaro,
só pra esclarecer, eu não postei nada. alguém, provavelmente muito criativo, assinou com o meu nome.