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06 julho 2006

LE AMICHE


Alguns cineastas constroem seu estilo aos poucos até que haja uma, por assim dizer, cristalização. O estilo de Michelangelo Antonioni, que toma forma definitiva na trilogia A aventura, A noite, O eclipse, começa a amadurecer em As amigas (Le amiche, 1955), e, no filme seguinte, O grito (1957). Em Le amiche, encontram-se os rastros de L'avventura, principalmente em alguns toques temáticos a respeito da relação entre os seres e, estilisticamente, na seqüência da praia, quando as amigas, após o restabelecimento de uma delas, Rosetta, que tentara o suicídio, decidem dar um passeio num região praieira. Antonioni se esmera muito na disposição espacial do enquadramento, na colocação dos personagens em cena, na movimentação dos atores dentro deste. Le amiche, uma das obras menos conhecidas do mestre italiano, saiu em DVD pela Versátil em cópia remasteurizada. Um autor, como o realizador de La notti, precisa ser visto na sua totalidade, desde os seus princípios. O cinema de Antonioni, geômetra cartesiano dos sentimentos humanos, como disse um crítico, é o domínio da anti-narrativa. Não se encontra, em Le amiche, um plano-contraplano, pois a linguagem de Antonioni é institiva e ligada ao desejo de acompanhar os personagens para desvendar-lhes os pensamentos mais secretos.

Clélia (a belíssima Eleanora Rossi Drago), vinda de Roma, após deixar Turim, onde nasceu e passou parte da juventude, volta à cidade natal com o propósito de abrir uma casa de alta costura. Enquanto esta não fica pronta, tem contatos com uma modelo (Madeleine Fischer), uma ceramista (Valentina Cortese), uma rica ociosa (Yvonne Furneaux), um pintor (Gabrielle Ferzetti), um decorador (Franco Fabrizi), e um ajudante deste (Ettore Manni), pelo qual se apaixona. A burguesa ociosa leva a manequim ao suicídio, pela não retribuição de sua paixão pelo pintor, e Clélia, desiludida, abandona a cidade, voltando para Roma.

O roteiro é de Suso Cecchi D'Amico, colaboradora de quase todas as obras-primas do cinema italiano, baseado no romance Fra donne sole, de Cesare Pavese

2 comentários:

Mario Gordilho disse...

Setaro, gosto muito do que escreves. Onde posso aprender mais com um intelectual de teu quilates?

Maria Almeida disse...

Setaro, tu és um geômetra não-euclidiano, das cronicas bossalograficas.