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31 maio 2010

O fascínio da 'mise-en-scène' de Brian De Palma

1) De repente, em zapping, deparei-me, ontem, domingo, no Telecine Cult, com Vestida para matar, de Brian De Palma, e, mesmo na abominável tela cheia, destruindo o cinemascope original, fiquei preso ao filme, sem poder, literalmente, me levantar do sofá. E considere-se que não vejo filmes assassinados pelo canal Cult, quando destruídos os seus formatos originais. Trata-se de cinema puro, pura mise-en-scène, de um rigor extraordinário. A sequência do museu é antológica, além do carnal knowledge dentro do táxi, e, Angie Dickinson, depois da tarde brava com um desconhecido, relutante, que se veste para ser morta no elevador, ainda que a calcinha que deixara dentro do táxi, percorre um itinerário mortal. O momento do assassinato é Psicose, de Hitch, mas não se deve, como diz a sabedoria de Inácio Araújo, dizer que Palma copia o cinema do mestre, mas, e tão somente, aproveita certos lances temáticos e estilísticos para fazer, na verdade, uma reflexão sobre o processo de criação do cinema. Seu cinema é muito particular, muito interessante, há singularidade total. Vejam, por exemplo, como se desenvolve a mise-en-scène do elevador, com Angie Dickinson, banhada de sangue, e Nancy Allem apavorada, e, na hora, quem grita é a partiura de Pino Domaggio e, por extensão, uma arrumadeira que se encontra no corredor.

2) Se Nancy Allen é uma beleza, Angie Dickinson perdeu-a com o tempo implacável, ainda que conserve um corpo a desejar, ela que, no seu pretérito, tinha uma das pernas mais bonitas entre as estrelas do cinema. Conhece-se que uma pessoa tem certa idade, e que está ficando velha, pelos olhos. É impressionante como os olhos de Dickinson demonstram, estampada no rosto, o tempo trilhado. Dressed to kill é um filme apaixonante e um exemplo marcante do domínio que Brian De Palma tem de sua arte. De todos os seus filmes, o que mais gosto é Trágica obsessão (Obsession), uma obra-prima, delirante, fantástica, com Geneviève Bujold e Cliff Robertson, realizada em 1976.

3) Palma gosta de sustos no fecho de suas obras. Carrie, a estranha, Um tiro na noite, este Dressed to kill, entre outros, possuem finais impactantes. Interessante observar que a partitura de Pino Donaggio é dissonante, uma partitura, se assim se pode dizer, contemplativa, que procura uma ascese sem haver uma pontuação para reforçar o clima, como é hábito na maioria dos filmes. Domaggio tem influência do mestre Morricone.
4) Deixo, para terminar, Vestida para matar com as palavras de Inácio Araújo em comentário que fez ontem, domingo, na Folha de S. Paulo: "Uma das injustiças que se pode fazer a Brian de Palma é tomá-lo por um imitador de Hitchcock. Basta ver Vestida para Matar (TC Cult, 20h, 14 anos) que isso fica visível. Mas é preciso paciência. No início, temos Um Corpo que Cai. A identificação de uma mulher é seu fundamento. Depois, Psicose e a mudança de sexo.É isso a prova da imitação? Na verdade, não. De Palma reorganiza peças, mistura sonho, realidade e cinema. O sujeito de duas identidades (homem, mulher) terá de confrontar o fantasma que o fascina e aterroriza: o feminino em pessoa.
5) Impossível não sentir vontade de continuar a rever, pela semana, outros filmes de Brian De Palma, que lavam a alma de qualquer cinéfilo que se preze como tal.

30 maio 2010

Eterno Quincas

Há poucos dias, escrevi um artigo, acho que para a minha coluna da Tribuna da Bahia, sobre Quincas Berro D'Água, e comentei que quem deveria ter feito o papel título era Wilson Mello, ator baiano que o protagonizou em várias montagens teatrais. Sobre ser um ator antológico, uma das presenças marcantes do cinema brasileiro, Paulo José, como Quincas, perde feio para Mello, porque, na verdade, o elenco, como o filme, tinha que ser global e com nomes chamativos. Sabendo ontem da morte de Wilson Mello, talvez possa até ter sido chamado, mas já doente não pôde assumí-lo.
O desenho que ilustra o post deste domingo é da autoria de Caó Alves Filho, desenhista de humor e cineasta (Catálogo das meninas, por exemplo). Mas o desaparecimento de Wilson Mello, o Eterno Quincas, causou consternação nos meios intelectuais e artísticos de Salvador, pois já era uma de nossas instituições culturais. Ator histriônico, que provocava gargalhadas na platéia, mas também capaz de desempenhos notáveis em dramas passionais, Wilson Mello também tinha uma presença boêmia nas noites soteropolitanas da boa época. A ascendente decadência do centro histórico da cidade e a violência assustadora fizeram com que as noites baianas acabassem, reduzidas a barzinhos insossos da orla marítima.
Wilson Mello trabalhou em muitas peças, passando por vários autores, mas a imagem que dele fica é a do eterno Quincas Berro D'Água. Em cinema, sua participação sempre fizera enriquecedora os filmes nos quais trabalhou, a exemplo de Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto (filmado quase todo no bairro da Moraria em Salvador), no papel de Vivaldo; Diamante bruto (1977), que Orlando Senna filmou na sua Lençóis baseado no romance Bugrinha, de Afonso Peixoto; Antonio Conselheiro e a guerra dos Pelados (1977), de Guga de Oliveira, baseado em Os Sertões, de Euclides da Cunha; J. S. Brow, o último herói do gibi (1980), de José Frazão; Jubiabá, de Nelson Pereira dos Santos, baseado em homônimo de Jorge Amado, uma co-produção franco-brasileira filmada na cidade histórica de Cachoeira (Bahia); Cascalho (2004), de Tuna Espinheira; Cidade Baixa (2005), de Sérgio Machado, como Ferreirinha; Eu me lembro (2005), o premiado filme de Edgard Navarro.
TUNA ESPINHEIRA SE DESPEDE DO AMIGO
Wilson Mello, Ator e Personagem

A notícia do passamento de um ícone da dramaturgia baiana, Wilson Mello, com certeza, muito mais que entristecer os amigos e admiradores, que foram e são muitos, vai desfalcar a Bahia de um dos seus personagens mais significativos. Ele próprio. De tanto representar e dar vida a inumeráveis personagens da ficção teatral, em mais de uma centena de peças que encenou para o palco, na chamada vida real, na contramão do tempo e o vento, resistiu em manter um jeito de ser, comum em décadas atrás, entre boa parte dos viventes que se esmeravam em praticar a cordialidade na Terra Mãe de então.
Wilson, o personagem indômito, jamais se perguntou: “Mudou o Natal ou foi eu quem mudou”? As metamorfoses acometidas no lombo da Roma Negra, através de acontecimentos absurdos, tais como os incêndios perpetrados contra a Feira de Água de Meninos; no antigo Mercado Modelo; na livraria Civilização Brasileira e na Confeitaria Triunfo; para citar apenas estes três locais emblemáticos como pontos de encontro.
Outros acontecimentos da série, Triste Bahia, foram se sucedendo, e era uma vez... o gato comeu mágicas Festas de Largo; o Carnaval de Rua; e outras e outras manifestações populares que definiam a gostosura do viver e vadiar. Genuinamente baiano.
O nosso personagem, passageiro do tempo, foi testemunha de todas estas agônicas transformações. Eram fatos consumados, só restava mesmo por a bola pra frente.
Como um legítimo baiano de outras eras, mesmo sem usar ou ter usado o figurino do colarinho duro do venerável, Major Cosme de Farias, para ele não havia nenhuma diferença angustiante, uma vez que trazia as duas províncias, a velha e a nova, na algibeira.
Por estas e outras razões, sempre esteve de bem com sua terra, da qual, em tempo algum, cogitou em se apartar, assim como sempre driblou o canto das sereias, no chamamento hipnótico para luzes do Sul Maravilha.
Amigueiro, bom de papo, nunca fez diferenças etárias, novos e velhos, todos eram iguais na hora de conversar a sério ou jogar conversa fora. Sua credencial constante era o bom humor.
Ter sido amigo de Wilson Mello foi muito gratificante, uma amizade apadrinhada pelo cinema , No filme ele incorpora, com abençoado brilho, o personagem, Dr. Marcolino, que pisou o solo sagrado da ficção, no mesmo chão que conserva os rastros dos outros personagens do livro , Cascalho, de Herberto. Sales, um clássico da literatura brasileira.
Não se faz mais Wilson Mello como antigamente...
Saudades,
Tuna Espinheira

27 maio 2010

"O nono mandamento", de Richard Quine

Há filmes encantadores pela elegância, finesse, delicadeza e engenho na sua mise-en-scène. O nono mandamento (Strangers when we weet, 1960), de Richard Quine, é um deles. Kirk Douglas, quando leva o filho à escola, vê Kim Novak, que faz o mesmo, e ambos, casados, se apaixonam. Quine é um príncipe da elegância, um realizador de primeira de comédias inesquecíveis, além de dramas densos: Como matar sua esposa, Aconteceu num apartamento, Médica bonita e solteira, Quando Paris alucina, entre muitos outros. A partitura que se ouve aqui, neste vídeo, é de George Duning.


Disso e daquilo

1) Capa da revista Veja do ano de 1969, quando Glauber Rocha ganhou a Palma de Ouro de melhor direção por O dragão da maldade contra o santo guerreiro, que, na França e demais países europeus tomou o título de Antonio das Mortes. A Veja, nesta época, tinha como seu editor geral o jornalista Mino Carta e ainda não era a Sujíssima Veja, como a chama Hélio Fernandes. Ontem, em Salvador, com as presenças do governador Jaques Wagner, da mãe de Glauber, Dona Lúcia Rocha, e do Ministro da Cultura Juca Ferreira, entre outras personalidades, Glauber Rocha foi anistiado e sua progenitora vai receber, a título de indenização, uma bolada de mais de R$ 300.000,00 além de uma pensão vitalícia em torno de R$ 3.000,00 por mês. O caso de Glauber Rocha tem sua razão de ser, pois perseguido pela ditadura, censurado, mas creio estar a haver uma verdadeira indústria de indenizações. Conheço pessoas que nada sofreram e foram anistiadas com uma fortuna dos cofres públicos. Basta, para isso, uma folha suja do ponto de vista da Direita e relações com o círculo de poder atual. Quando estudante de Direito, nos anos de chumbo, era o programador de filmes do diretório da faculdade, e mandei buscar de São Paulo uma cópia na bitola em 16mm de Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles, para ser exibida no auditório da faculdade. Na noite da projeção, um camburrão apareceu, policiais desceram do carro e me prenderam. Passei uma noite sofrida numa dependência da Polícia Federal. Mereceria uma indenização pela noite mal dormida e cheia de pânico? Acho que não, mas se quiserem me dar, aceito-a.
2) Vejo com grande apreensão os filmes exibidos em versão digital. Muitos deles são projetados e não há respeito a seus formatos originais. E há o problema da lâmpada, que, segundo um técnico que conheço, precisa ser sempre trocada a fim de evitar o escurecimento. Mas acontece que os exibidores, para economizar, e no afã do lucro, deixam-na quase até o fim de sua vida lamparina, quando tudo no filme se parece em noite americana. Curioso é que os espectadores, principalmente aqueles das salas alternativas, não protestam, não dizem nada, não se revoltam. A apatia é enorme nesta contemporaneidade (não gosto de usar este termo). O circuito exibidor comercial virou um verdadeiro parque de diversões, ainda mais agora com a terceira dimensão. O cinema me basta em suas duas dimensões. É o caso do celular, mania planetária: para meu uso, quero, apenas, que funcione direito na chamada e no recebimento de ligações. Nada de câmera, luzes e outras engenhocas. Mas estou a sair do assunto principal do item que é a falta de qualidade das versões em digitais. Menos por culpa do digital em si, que bem exibido convence, do que da falta de ajustes adequados daqueles que as exibem.
3) http://novaspensatas.blogspot.com/2010/05/qualquer-semelhanca.html Vejam neste link o plágio cometido pelo autor do cartaz de Quincas Berro D'Água, que se inspirou no de Anatomia de um crime (1959), de Otto Preminger. Basta ver para a constatação imediata. Por falar em Preminger, grande diretor do cinema americano, deixei de rever Exodus no Telecine Cult porque totalmente espichado em full screen (tela cheia). Na apresentação dos letreiros, deixam no cinemascope original, mas, finda esta, a tela se espicha, se deforma, sofre terrível metamorfose para ajustar o quadro à tela cheia. Por que cometem tais intromissões indevidas na obra cinematográfica? Mas, por outro lado, deixaram em cinemascope filmes como Cupido não tem bandeira (One, two, three, 1961), magnífica comédia de Billy Wilder, Papai Pernilongo, musical com Leslie Caron e Fred Astaire, de Jean Negulesco, entre outros. Gostaria de saber dos critérios para que alguns sofram a agressão e outros possam passar impunes e integrais.
4) Ainda faltam 9 dias para a enquete acabar, mas faço aqui uma observação. Apenas um único votante assinalou A sombra de uma dúvida (Shadow of a doubt, 1943) como o seu Hitchcock favorito. Os dois filmes que disputam pau a pau o primeiro lugar são Janela indicreta (32%) e Um corpo que cai (25%). Este último estava na frente, mas, como nas pesquisas eleitorais, à medida que o número dos votantes cresce, as coisas se modificam. Mas não há dúvida que Janela indiscreta vence. Uma vez, no Rio, em 1984, perguntei a James Stewart qual o seu Hitchcock favorito, e ele me respondeu que era Rear window. Mas, voltando à Sombra de uma dúvida, creio que não tem votos porque é mais desconhecido, ainda que filme referencial na obra hitchcockiana. O próprio Hitchcock, em diversas ocasiões, inclusive na célebre entrevista a François Truffaut publicada em livro, perguntado sobre qual o filme que mais gostava, sempre dizia: Shadow of a doubt. É, realmente, um dos melhores do mestre, um retrato de uma cidadezinha interiorana americana, quando um tio vem visitar os parentes e sua sobrinha fica como que apaixonada por ele. Acontece que ele é um assassino, um assassino de viúvas que está sendo procurado. Joseph Cotten faz o papel e a sobrinha é Teresa Wright, atriz muito cotada na década de 40.

25 maio 2010

Como uma torrente...

1) Cartaz de Pierrot, le fou, de Jean-Luc Godard, um dos momentos mais sublimes da caligrafia de seu autor. Realizado em 1965, seis anos depois de Acossado (A bout de souffle, 1959), há, nele, um quê de sequência deste pelo menos a julgar pelo seu personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo - não seria Michel Poiccard redivido? Ao contrário de Acossado (em preto e branco standart), Pierrot, le fou é em cinemascope e colorido (com um uso fantástico da cor em cinema). A sua estrutura narrativa é construída em solavancos, com o futuro se adiantando ao presente. Pierrot, le fou está entre os meus preferidos do cineasta franco-belga, que revolucionou a linguagem cinematográfica nos poderosos anos 1960. No Brasil, tomou o nome de O demônio das onze horas, um título esdrúxulo e dispensável. Pior foi o que fizeram com Persona (1966), de Ingmar Bergman. O filme, sobre a identificação de duas mulheres, que não registra lesbianismo, foi chamado de Quando duas mulheres pecam. Um absurdo!
2) Lembro-me que, no lançamento deste Bergman, o cinema ficou lotado para estupefação do próprio exibidor. Mas, durante o transcorrer da sessão, muita gente se levantou e foi embora. O título de Quando duas mulheres pecam atraiu aqueles ansiosos pelo sexo e, constatando a sua inexistência, saíram, em boa hora, da sala de projeção. Também a época ainda conservava uma certa restrição à exploração da temática sexual. Há o caso de O Túmulo do sol (Taiyo no hakaba, 1960), de Nagissa Oshima, que Walter da Silveira o exibiu numa sessão da meia-noite. Por ser neste horário, os soteropolitanos vieram a pensar que se tratasse de filme de muita putaria. Filas quilométricas já se estabeleciam diante do cinema (foi no antigo e saudoso Guarany) desde as 11 da noite. Ao começar a sessão, o cinema tinha gente saindo pelo ladrão. O filme, uma obra-prima do cinema nipônico, é poético e não trata de sexo. Iniciada a sessão, a platéia, furiosa, começou a gritar e, já no meio, a cortar as poltronas.
O prejuízo foi enorme. O exibidor desistiu de continuar com as sessões de meia-noite. Que seriam programadas pelo Clube de Cinema da Bahia.

24 maio 2010

Curta de Tuna, ressuscitado, é adotado como bandeira

Um curta de Tuna Espinheira (Cascalho) realizado em 1977 (há mais de três décadas), Cajaíba, Lição das coisas...O fazendeiro do ar, digitalizado e exibido em Vitória da Conquista, é adotado como bandeira de uma causa. Leia o texto abaixo escrito pelo próprio cineasta. Abrindo as devidas aspas:
"Um filme de barbas brancas, produzido nos idos de 1977, já posto em sossego, conseguiu ser digitalizado, após um primeiro tratamento de recuperação necessário para que se pudesse mexer com os seus negativos à mercê dos desgastes do tempo.
Ressuscitado, com cópia nova, foi selecionado pela mostra, CINEMA, MEMÓRIA E CULTURA POPULAR, um evento patrocinado por JANELA INDISCRETA e a UESB. A EXIBIÇÃO, DIA 18/05, no Teatro Glauber Rocha, contou com um público bastante significativo e, principalmente, com a presença da família do saudoso artista e personagem da fita, Cajaiba.

Não posso me furtar de dar dois dedos de prosa sobre o filme em questão e da razão maior do significado desta sessão. Vamos lá, no alto da serra de Periperí, em Vitória da Conquista, foi erguido um museu a céu aberto, monumentos esculpidos em cimento e ferro, formando um sítio de exposição permanente, com dezenas e dezenas de esculturas, de grande impacto estético que, por anos e anos, alumbrou as retinas cansadas dos incontáveis passantes, na mais gritante diversidade de gente, entremeados de Gringos, gregos e baianos.

O filme registrou o escultor em plena atividade, no ofício quixotesco, de dar continuidade a tarefa insone, do sonhado Museu... Fruto do suor do seu rosto, persistência indômita, sem contar com quaisquer subsídios do poder público, motivado pela energia emanada de um delírio febril que lhe nutria de força para apascentar a sua utopia.

Em 77 do século passado, saído forno, o filme ganhou o Prêmio de Melhor Roteiro, no X Festival de Brasília e o Prêmio de Melhor Proposta de Criatividade, na VII Jornada Internacional de Cinema da Bahia. Foi selecionado para exibição comercial, na qualidade de complemento obrigatório, amparado em Lei, vigente na época. Nesta condição peregrinou na luminosa tela grande dos cinemas Brasil afora.

Um movimento aguerrido, formado por intelectuais, estudantes, professores, artistas, empresários e demais segmentos da comunidade conquistense, fez abrir um “front” de luta pela recuperação do incrível Museu a Céu Aberto, bastante desgastado pelo tempo e o vento. Este Museu de Cajaiba, é um cenário artístico de reconhecido valor, significa uma marca indelével para a cidade de Vitória da Conquista.

O nosso filme foi adotado como uma espécie de bandeira. Na estrada deste documentário, com certeza, este é o seu prêmio mais valioso.
Assino e dou fé,
Tuna Espinheira
e-mail: tunaespinheira@terra.com.br"

23 maio 2010

Imagem histórica

Imagem histórica. Da esquerda para a direita em pé: Robert Mulligan (o cineasta do evocativo), William Wyler (o realizador de um dos maiores filmes que já vi: Os melhores anos de nossa vida, 1946), George Cukor (mestre absoluto, na foto com a boca aberta), Robert Wise (Quero viver e Punhos de campeão que outras coisas são senão obras absolutamente primas?), Jean-Claude Carrière (o caçula da turma vestindo um paletó preto bem apertado), e o outro, na extremidade, é o produtor Serge Silberman. Sentados, Billy Wilder (precisa dizer mais alguma coisa?), George Stevens (o perfeccionista diretor do poético Shane), Luis Buñuel, Alfred Hitchcock, e Rouben Mamoulian (talvez o mais velho do grupo, excelente diretor do velho e bom cinema americano).
"O chão seria capaz de ter afundado", comentou Jonga Olivieri a propósito da foto histórica que encima este post. Os dez anos seguintes se encarregaram de riscar um a um do mapa, considerando ser a foto feita ao alvorecer dos anos 1970, sobrando Billy Wilder, Robert Mulligan, poucos. Atualmente, o único vivo é Jean-Claude Carrière, importante roteirista e colaborador dos roteiros do mago Buñuel, principalmente na sua fase francesa, que é constituída de suas derradeiras obras. Li que Hitchcock adorava os filmes de Luis Buñuel. É um momento histórico mesmo a imagem, pois feita após farto almoço na mansão de George Cukor em Hollywood. E, reunidos assim, os grandes diretores, aqueles do grande segrêdo do qual falava Truffaut. Não seria possível mais, esta, a verdade, se fazer uma foto assim com grandes diretores do cinema hollywoodiano, pois não existem mais grandes diretores, com as raras e honrosas exceções de praxe que não deixam de confirmar a regra. Não deixa, assim, esta foto, de ser um registro e uma prova da contundente decadência do cinema contemporâneo. A contemporaneidade, como se gosta de dizer, dos dias de hoje, é fajuta, desculpem-me a expressão.
Nunca vi tanta gente importante assim reunida. Valeu o domingo.
Cliquem na imagem para vê-la maior

20 maio 2010

Se meu apartamento falasse

Talvez o melhor filme de Billy Wilder seja Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), uma obra-prima indiscutível que é uma sátira à engrenagem capitalista para se vencer na vida a qualquer preço, custe o que custar. Mas não por ser uma sátira ou qualquer justificação desse tipo pode explicar o valor deste filme maravilhoso. O seu valor se encontra justamente, e vamos repetir de novo, na maneira fluente de Wilder manejar os elementos da linguagem cinematográfica. As pessoas possuem a mania de dar valor a um filme apenas se o tema for nobre, desconsiderando - por ignorância - que o cinema, antes de ser um espetáculo, é uma linguagem. Na foto que está postada (e é bom que se clique nela para vê-la maior em outra janela), Billy Wilder conversa com a deliciosa Shirley MacLaine num intervalo das filmagens de The apartment.
Jack Lemmon é um funcionário de uma companhia de seguros que, solitário, mora sozinho num apartamento alugado em Nova York, e o empresta a colegas de trabalho para que eles levem suas amantes com o objetivo de ascender no plano de carreira. Para isso, sai do escritório mais tarde ou fica fora de casa esperando que seus colegas deixem vago o apartamento. Um belo dia, vem a prestar atenção à bela ascensorista da empresa intepretada por Shirley MacLaine e, aos poucos, se apaixona, sem saber que ela é amante do chefão da companhia (Fred MacMurray). E as coisas se complicam, pois este é casado e também frequentador do seu apartamento. No final, a decisão entre o sucesso na empresa e o amor ao pobre funcionário.
Nas comédias americanas dos anos 50, especialmente as de Billy Wilder e Frank Tashlin (ou, mesmo, George Cukor - vide o extraordinário Adorável pecadora/Let's make love, 1960, com Marilyn Monroe e Yves Montand), há sempre o elogio do amor em detrimento do sucesso profissional. Em Em busca de um homem (Will success spoil Rock Hunter?, 1957), de Frank Tashlin, por exemplo, um executivo larga tudo para se dedicar à sua vida rural e pacata, a cultivar rosas, sua mania e realização. Em A senhora e seus maridos (What a Way to Go! 1964), de J. Lee Thompson, MacLaine, depois de se casar com muitos milionários, termina com Dean Martin, um antigo pretendente que se une a ela para viver numa roça criando galinhas.
Há influência, sem desmerecer The apartment, de Will success spoil Rock Hunter? sobre The apartment, que foi realizado três anos depois do filme de Frank Tashlin. A conquista da chave do banheiro exclusivo (um grande momento com Tony Randall em Rock Hunter) também se repete em Se meu apartamento falasse. I.A.L. Diamond e Billy Wilder, os roteiristas deste, devem ter visto com muito prazer o filme de Tashlin e, não se pode negar, copiaram algumas sugestões do argumento. Como o mestre Hitchcock também assim agiu em relação ao clima do hotel e à sua atriz (Janet Leigh) de A marca da maldade (Touch of evil, 1958), de Orson Welles, para a criação da atmosfera (e com a mesma atriz) do consagrado Psicose. Influências geram influências. É normal e não causa demérito a nenhum dos filmes citados.

19 maio 2010

Morre William Lubtchansky: o Senhor da Luz

A morte, vinda aos 72 anos, do grande diretor de fotografia William Lubtchansky (na foto, ele se encontra na extrema esquerda, um senhor careca de terno preto e uma câmera pendurada) abalou o cinema europeu. Era o iluminador preferido de grandes realizadores, entre os quais Jacques Rivette com o qual iluminou 19 de seus filmes. Fotografou A mulher do lado (La femme d'a côte), de François Truffaut, 7 de Jean-Luc Godard, Shoah, de Lanzman, alguns Ferreri etc. No cômputo geral de sua extraordinária trajetória consta, como diretor de fotografia, mais de 100 longas metragens, sem contar os numerosos curtas. A importância de Lubtchansky, embora reconhecida pelas autoridades cinematográficas, ainda precisa ser analisada pelos historiadores para que seja colocado no panteão dos grandes mestres da iluminação.
Deixo aqui um link para um artigo sobre ele escrito por Serge Kaganski:

16 maio 2010

"Artistas e modelos", de Frank Tashlin

Eis aqui o the end de Artistas e modelos (Artists and models, 1956), de Frank Tashlin, quando Jerry Lewis, ainda em parceria com Dean Martin, começa a demonstrar ser um comediante de gênio. Este momento final apresenta a habilidade e a dinâmica de Tashlin, um importante comediógrafo do cinema americano hoje esquecido pela banalidade das coisas. Reparem, por exemplo, a panorâmica que, saindo dos dois casais, mostra um bolo de casamento, e, em movimento inverso, já os focaliza casados. Comecei a gostar de cinema vendo filmes assim na gloriosa década de 50 e ainda de calças curtas.


12 maio 2010

Faculdade 2 de Julho promove lançamento e debates

A coletânea de meus artigos intitulada Escritos sobre Cinema - Trilogia de um tempo crítico será relançada na segunda, dia 17 de maio, às 18 horas, na Faculdade 2 de Julho (Rua Leovigildo Filgueiras) dentro da programação do seu cineclube. A seguir, no mesmo dia, às 19 horas, exibição do documentário A batalha do Chile: a insurreição da burguesia, de Patricio Guzman, seguido de debates, com a presença deste blogueiro, Muniz Ferreira (Ufba), e, como mediador, o Professor Augusto Sá (F2J). Vejam o blog do cineclube: Http://cineemdebatef2j.blogspot.com
Cliquem na imagem para vê-la maior e mais nítida.
O Cineclube Cine em Debate, vinculado ao Colegiado do curso de Comunicação Social da Faculdade 2 de Julho, realiza no próximo dia 17 (segunda-feira) uma sessão especial. O evento começa às 18h com o relançamento da obra Escritos sobre Cinema – Trilogia de um tempo crítico, do professor e crítico de cinema André Setaro, com noite de autógrafos na sala dos professores do referido curso. Às 19h, a atividade prossegue com a exibição do documentário A batalha do Chile: a insurreição da burguesia, do diretor chileno Patricio Guzmán, no auditório Cefas Jatobá. Após o filme, uma mesa composta pelos prof. André Setaro (UFBA) e prof. Muniz Ferreira (UFBA), tendo o prof. Augusto Sá (F2J) como mediador, debaterá com o público presente a obra exibida. A atividade é gratuita e aberta ao público em geral.

10 maio 2010

Do lançamento de meus livros

Soterópolis é um programa cultural apresentado semanalmente (quinta) pela Televisão Educativa da Bahia (Irdeb) dirigido pela dinâmica e buñuelesca Silvana Moura. No vídeo que está aqui, buscado nos campos férteis do You Tube, tem-se uma boa e generosa fatia do programa que foi dedicado ao lançamento de meus mal escritos sobre cinema. Apesar da diretora ser buñuelesca, o programa, infelizmente, não o é. É um bom programa televisivo de jornalismo cultural, que mostra os eventos que acontecem na Bahia. O vídeo em questão tem uma entrevista comigo, feita na Faculdade de Comunicação pouco dias depois do lançamento, e a noite na qual fiquei com a mão esquerda (sou canhoto) doendo de tanto assinar dedicatórias.



A linguagem em chamas


Antonio Conselheiro, taumaturgo do sertão, de José Walter Lima, já é uma realidade. Exibido para uma seleta platéia de poucas almas, o longa já está pronto para exibição. Publico aqui a leitura que fez o cineasta e pesquisador José Umberto. O título do artigo é o que encima este post.
"O sertão vira cinema: quando bate na tela Antônio Conselheiro, taumaturgo do sertão de José Walter Lima. Um filme que invade a veia de sangue e faz sua âncora na praia do coração. O cineasta opta pelo ensaio. A ficcionalização da circunstância histórica é o emblema cuja linguagem se inclina ao plano mítico. E aí a perspectiva do real ganha contornos elípticos de montagem de atração e seus específicos sob a força telúrica da magia que nasce da cultura popular sertaneja. É o barroquismo baiano na expressão de bárbaro em sintonia pictórica com a retórica pastoril. E em sendo, também, o paroxismo da guerra patética com a couraça do misticismo: política e fé.

O cinema de José Walter Lima rompe com o glamour da sociedade de espetáculo. Para mergulhar à fundo numa anti-narrativa que desmistifica a epopéia. Nada de grandiloqüência. Importa tecer o fio das contradições históricas sem recorrer à retórica vazia. Mas sim percorrer o épico-didático similar à espontaneidade da poética de cordel. O mito popular originando-se de um imaginário com o corolário direto da geografia da fome. Num ritmo cinematográfico de abundância metafórica gerada no grito da terra. Uma sinfonia de imagens dodecafônicas brotada na autenticidade do conflito coletivo: a origem do regime republicano sob a sombra em negativo de genocídio.

Um cinema de sensibilidade, à flor da pele. Uma linguagem que não racionaliza o caos social. Nem silencia diante da injustiça. Antônio Conselheiro, taumaturgo do sertão decide-se pela denúncia sem a deselegância do panfleto. Por que acredita no cinema de poesia. José Walter Lima se inquieta com a câmera em espasmo, com uma arquitetura de palavras, com os cortes melódicos, com a sonoridade plástica dum sertão que rompe a moldura da tela cinematográfica. Há qualquer explosão inconformista/instintivo-criadora que aponta para além do horizonte em brasa. Uma forma artística gestada no desejo de expandir o real. E alcançar a fantasmagoria hiperbólica de uma civilização incompleta. De uma comunidade sertaneja incompreendida. De uma vergonha nacional que não se apaga nem com fogo e ferro tampouco com água.

A carpintaria do movimento
Um cinema que só se apreende pela insuperável roda da paixão. Numa sede de comunicar/dialogar sob o signo da iluminação. Onde cada fotograma obedece à alquimia da imaginação como propulsora construtivista. A elaboração da matriz vai à fonte histórico-literária, sobretudo alicerçada no verbo numinoso de Euclides da Cunha e na arqueológica verve ibérica/armorial dos versos cordelescos, para em seguida estruturar-se na carpintaria rítmica da montagem vibratória. E é a partir desse princípio estético de associações, superposições, sinestesias e embates de signos que o filme baiano de José Walter Lima se afirma na muralística dos 24 quadros por segundo. Enquanto o espectador vai sendo tomado pela personalidade mítica do Conselheiro de Canudos (admiravelmente encarnado pelo saudoso ator Carlos Petrovich, numa interpretação que eu diria científico-sentimental insuperável do taumaturgo cearense que sintetiza as perplexidades do oprimido). Esse itinerário cinematográfico exprime a dimensão do sofrimento pautada no êxtase da catarse. Quando então a dor humana recebe a clarividência da purificação: aquela senda incomensurável do “forte” de espírito. O risco fosforescente da História como memória física e como presença da fé. São camadas heróicas, traumáticas e sublimes transubstanciadas na velocidade tempo-espacial do cinema. O lirismo das individualidades e o trágico do coletivo elaborados na alquimia artística primada na fidelidade ao passado com vistas à consciência do presente. Embora se destaque a energia telúrica de um povo que vibra na nervura da caatinga.

O filme apalpa a ferida. Estabelece-se o grau do trauma. O escritor amadurece no front. A política se alimenta da demência ideológica. O militar burocrático-técnico admite a derrota diante da guerrilha ecológica. O sertanejo revela a sua face oculta por trás de uma pirâmide de cactos. O regionalismo desvela o sincretismo pancontinental. E o Brasil se defronta com o abismo. Pois a morte não salva. E então os fantasmas desfilam na tela com a granulação pictórica da fotografia de Vito Diniz que é subliminar da contextualização do conflito civilizatório. Nada de espetacularização. José Walter Lima assume o despojamento da deslinearidade crítica como suporte do autêntico. Rasga-se desse modo o véu do pastiche grotesco em favor da expressão da paisagem autóctone que se elastece brandamente entre a foto de grão e a foto dourada de Pedro Semanovschi. Com o reforço de uma postura de humildade. Num gestual de solidariedade que transcende ao patamar ético.

Um cinema, portanto, comprometido com a alteridade. Já que o Cinema é o Outro.
Vê-se na diferença o respeito ao princípio de igualdade. Sendo Canudos a cidadela de um aceno à integridade: o símbolo da resistência até a última gota de sangue no solo seco e lascado pela ausência da chuva. Antônio Conselheiro, taumaturgo do sertão de José Walter Lima resgata o código de honra de uma comunidade camponesa que soube defender sua fronteira com o pathos do destemor. E o seu discurso evangélico de couro cru, incrustado em hierática autodeterminação e vertical autodisciplina moral, ainda se constitui num desafio à nossa compreensão plena. Persiste um quê de vácuo no significante de sua gestalt analfabeta. Pois o seu estilo de “luta” deixa várias lacunas de dúvida e interrogação. E o filme enfatiza esse mistério, embora sinalize para a nossa cumplicidade diante dos erros acumulados. Canudos insiste com a mácula ou nódoa de caju na alma. Com o desencanto. E a vergonha pelo massacre com degola: o cinema é testemunha.

A fábula do vulcão
A práxis da profecia justaposta à montagem de fotogramas exacerbados. O milenarismo onírico equilibrado na câmera de raiz. Fato dialético paralelo à fenomenologia social. Daí que a linguagem do filme de José Walter Lima embala-se pelo prisma da expansão, na amplidão do universo. Flagrando o ritmo cósmico na latitude do nacional-popular. Numa reflexão, numa respiração, numa transpiração e numa intuição fílmicas aonde se possibilite atingir o núcleo da conflagração do arcaísmo redentor de um cristianismo catecúmeno áspero. Jogo de pontos de vista: o taumaturgo e o cineasta se defrontam em ações simultâneas. Superando-se a subjetividade para o ingresso no macrocosmo do arquétipo. Um vôo rasante na intemporalidade que pinta as rebarbas do alvorecer transcendental da fábula tosca. Com uma energia entrópica que brota do vulcão da coletividade desejante. Esse fogo fátuo incondicional na iminência do êxtase místico. Ou a crescente ânsia da independência em correspondência ao ímpeto sagrado da salvação. São circunstâncias em ebulição contínua: o samsara em transe.
E o cinema, que também é movimento permanente, registra com acuidade o lance meteórico desse peregrino solitário que arrebata a multidão assombrada. Num magnetismo de massa que oscila da exaltação irracional à depressão neurastênica. Num crescendo de confronto entre o sertão e a praia. Ao passo que a visão afasta-se do litoral de coqueiros e se embrenha no interior inóspito de vegetação rala. Desloca-se o eixo em panorâmica cinematográfica que busca frisar o campo inusitado. Enquadra-se então a antiga luminosidade abrupta deixada no céu pelo impacto tenebroso do meteorito de Bendengó na caatinga. Somos envolvidos nessa dinâmica que exige a construção de uma nova linguagem inspirada nos eventos inesperados e insuspeitos. Uma câmera no sertão e todo o sentimento do mundo. Para uma tela que se vislumbra.

09 maio 2010

Salada dominical

1) Nos tempos da minha meninice (anos 50), costumava-se chamar as sessões vespertinas dos cinemas de matinée e as noturnas de soirée. "André vai amanhã à soirée do cine Tamoio com sua prima Guiomar." "Peguei hoje uma matinée superlotada no Pax." A língua francesa tinha uma forte influência e todas escolas do ginásio e do colegial ensinavam-na. As moças bem prendadas sabiam ler e escrever em francês, ainda que poucas o falassem por falta de prática. O inglês também era ensinado, mas poucos os de minha geração que o sabiam. Atualmente, a coisa mudou muito: o inglês é dominante e os jovens sabem o essencial para entender um texto. Na minha época (sim, o termo se aplica), havia o latim obrigatório com aquelas declamações: vocativo, ablativo. Tinha que se saber de cor várias expressões, caso contrário não se passava de ano. Lembro-me de um livro que estudava: Latim no ginásio - o autor, neste momento, escapou de minha memória provecta. Além do aprendizado curricular, entrei na Aliança Francesa e cheguei, modéstia à parte, a ler romances no original: A ilha dos pinguins e A revolta dos anjos, de Anatole France, O vermelho e o negro, de Sthendal, contos de Guy de Maupassant etc. Mas são coisas do arco da velha e que não deveriam estar expostas assim neste blog que puxa mais para o cinema. Creio não estar interessando a ninguém com estas reminescências. Mas já que escrevi, vai assim mesmo neste domingo que não se sabe se vai chover ou fazer sol. De qualquer maneira, há 30 anos que não vou à praia. E já que não vou sair de casa, gostaria que chovesse. É bom se estar em casa a ouvir o barulho da chuva.
2) Se fosse fazer uma lista com os dez melhores filmes (ou vinte, sei lá!) colocaria entre eles Os melhores anos de nossa vida (The best years of our lives, 1946), de William Wyler, cineasta que foi muito criticado pelo pessoal da nouvelle vague, mas que o tenho em alta conta. Wyler também não gostava dos filmes da nouvelle vague e chegou a fazer um broche para colocar em seu paletó com a inscrição: ancien vague. Claro que gosto muito dos filmes da nouvelle vague. Para que fique bem claro: estou me referindo a Wyler. Em Os melhores anos de nossa vida, três soldados retornam da Segunda Grande Guerra: um capitão (Frederic March) torna-se diretor de banco; um piloto de caça (Dana Andrews), barman, que, depois de uma briga, fica desempregado e se apaixona pela filha (Teresa Wright) do colega capitão; O terceiro volta do conflito totalmente mutilado sem os braços. Há um momento muito comovente, e dirigido com a costumeira maestria por Wyler, quando ele vai se encontrar com a antiga namorada que não sabe estar ele mutilado e, quando vai abraça-lo, os cotocos de seus braços se movimentam. Dito assim não se pode fazer nem idéia da carga emotiva desse momento.

3) Os melhores anos de nossas vidas é um retrato sincero da reconversão americana do pós-guerra. Wyler sabe usar com grande eficiência dramática a profundidade de campo - quanto todos os elementos do quadros ficam nítidos, quer sejam os personagens ou objetos em primeiros planos ou os que se encontram no fundo do quadro. A profundidade de campo tem, aqui, em The best years of our lives, um emprego muito bem elaborado, que contribui para a continuidade do tempo sem a necessidade do corte. André Bazin, talvez o maior crítico de cinema de todos os tempos, tinha em alta conta o uso da profundidade de campo - que Orson Welles a utiliza muito bem em seu famoso e idolatrado Cidadão Kane. Considerado um "estilista sem estilo", o fato é que William Wyler era um diretor perfeccionista que possuia uma espécie de varinha de condão para contar uma história cinematograficamente falando.

4) O historiador francês Georges Sadoul, em seu Dicionário de Cinema, destaca momentos excepcionais do filme, como a visita do personagem de Dana Andrews a um cemítério de aviões. A fotografia é do mesmo de Cidadão Kane: Gregg Toland. E aí fica uma interrogação: até que ponto Toland influenciou Orson Welles em relação à profundidade de campo? O mesmo pode ser aplicado a William Wyler.

5) No cast de The best years of our lives, nomes que estão esquecidos da nova geração, mas dentro da memória dos antigos cinéfilos: Frederic March, Dana Andrews, Teresa Wright, Mirna Loy, Virginia Mayo, entre outros. Quem encontrar nas locadoras Os melhores anos de nossa vida, faça o seguinte: esqueça o que foi buscar e o alugue com urgência. Urgência para o encantamento e a visão do grande cinema, do cinema daquilo que Truffaut chamava de cinema do grande segrêdo. Sidney Lumet, um diretor de completo domínio formal de seu meio de expressão, disse que Os melhores anos de nossas vidas é o seu filme preferido.

6) Lendo sobre a diva Jeanne Moreau vim a saber que ela foi casada, em 1977, com William Friedkin, o celebrado diretor de Operação França, Jade, Viver e morrer em Los Angeles, O exorcista, entre outros. Moreau tem, agora, 82 aninhos (ó tempo, suspende o teu voo!). Mas, diz a lenda, tinha casos com os diretores com os quais trabalhava: Louis Malle, Truffaut, e mais. Foi casada por um tempo com o cineasta Jean-Louis Richard e, com ele dirigindo, fez O corpo de Diana. Orson Welles não parava de dizer que Jeanne Moreau, para ele, era a maior atriz do mundo. Não sabia também (e, na verdade, não sei de nada) que foi escolhida para interpretar Varínia em Spartacus, mas desistiu de última hora sendo substituída por Jean Simmons. Apesar do fascínio que tenho por La Moreau, acho que sua desistência foi boa para Spartacus, porque Jean Simmons está perfeita e insubstituível no papel.

7) Vi ontem na Tv Cult A senhora e seus maridos (What a Way to Go!, 1964), de J. Lee Thompson, uma comédia bem típica da década de 60, com a adorável Shirley MacLaine. Ela faz uma mulher que, quando se casa, tem o estigma de fazer o sucesso de seu marido para, em seguida, este sofrer um acidente e morrer, ficando ela com toda a fortuna. Mas, na verdade, o que ela realmente deseja é ter uma vida simples, criar galinhas, morar num fazenda, tirar leite de vaca todas as manhãs. Primeiro contrai matrimonio com Dick Van Dyke, depois com Paul Newman (um pintor abstracionista parisiense com usa vários guindastes para pintar seus quadros). Em seguida, Robert Mitchum, um tycoon, milionário, que morre também, até que encontra um fracassado dançarino, Gene Kelly, que termina por conquistar o sucesso e fama, virando celebridade e, por isso, tropeçando na Implacável. No final, resta o seu eterno apaixonado Dean Martin, que termina por se casar com ela para acabar seus dias entre galinhas e vacas. Interessante que, para cada casamento, é imaginado um estilo de representação cinematográfica: com Van Dyke, o cinema mudo, com Newman, o realismo poético francês, com Mitchum, a sophisticated comedy exagerada, com Kelly, o musical. J. Lee Thompson não é um diretor tão incompetente como gostam de dizer dele. Tem, aqui, por exemplo, um bom momento. Claro que o filme seria outro se tivesse sido dirigido por Billy Wilder.
8) Quincas Berro D'Água, que se encontra prestes a ser lançado, seria um filme baiano, como estão a dizer alguns? Apesar do diretor, Sérgio Machado, ser um baiano, o filme, no entanto, não o é. É, na verdade, uma produção carioca, um filme global para ser mais explícito. Mas, com isso, não estou a fazer aqui um juízo de valor sobre a obra, que, inclusive, nem a vi. Wilson Mello, que viveu a vida toda Quincas no teatro, foi substituído por Paulo José, um excelente ator, um patrimônio brasileiro das artes cênicas, mas não tão exato nem com um physique du rôle como o de Mello. Acontece que Paulo José é um ator global e Wilson não o é. Eis a grande diferença. Não se trata, portanto, de talento, mas de audiência. Aproveitou-se, isso sim, em Quincas Berro D'Água o décor baiano. Mas, infelizmente, é a única maneira de tornar o filme rentável, isto é, contando com um esquema de distribuição garantido. Os filmes genuinamente baianos, prontos e acabados, não conseguem ser exibidos. E nem andam a circular em festivais. O que é, por exemplo, de Pau Brasil, de Fernando Bélens, que ainda não conseguiu ser apresentado comercialmente nem na Bahia, sua terra natal? Algumas pessoas que já viram Quincas reagiram bem ao espetáculo. Resta saber, entretanto, se estas pessoas possuem realmente consciência do que é o cinema.

9) Muitos dos leitores deste blog não sabem que possuo um outro: Momentos da arte do filme no qual edito vídeos tirados do You Tube que mostram alguns trechos de filmes sublimes da história do cinema. A sublimidade, no caso, depende do receptor. Alguns, mais aguerridos à contemporaneidade, podem achar que as cenas expostas são de velharias. Na verdade, trata-se de momentos antológicos para o cinéfilo que sou. Antes de me considerar um comentarista ou, mesmo, um crítico, sou, acima de tudo, um cinéfilo, um amante do bom cinema. Não procuro neste os temas nobres, mas a poesia que dele emana através de procedimentos essencialmente cinematográficos. Não comungo com os avatares da sociedade contemporânea. Aprecio os filmes com engenho e arte e, falar a verdade, no cinema atual, ainda que mais de 90% sejam consituídos de lixo cultural, há filmes bons e verdadeiros, a exemplo dos feitos por Clint Eatwood, os fratelli Coen, Paul-Thomas Anderson, Alain Resnais, Sidney Lumet, Michael Mann, William Friedkin, Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar, James Gray, Brian De Palma, entre tantos outros. Sim, mas ia esquecendo do link do meu outro blog citado: