A consagrada artista plástica Ediane do Monte está com uma exposição no Centro de Convenções até o dia 13 de maio chamada Imagens da Folia dentro da programação do Encontro Internacional sobre os 30 anos da Lei Franco Basaglia: reformas psiquiatricas e transformacão cultural no Brasil e no mundo. A exposição revela as suas fotografias captadas durante a Primeira Parada de Orgulho Louco, que se realizou pelas ruas da Barra ano passado. Doentes mentais de todos os tipos e de todas as cores saíram em protesto contra os manicômios e fizeram uma festa. Loucos de todo o mundo, uni-vos!!Seguidores
07 maio 2009
Imagens da folia
A consagrada artista plástica Ediane do Monte está com uma exposição no Centro de Convenções até o dia 13 de maio chamada Imagens da Folia dentro da programação do Encontro Internacional sobre os 30 anos da Lei Franco Basaglia: reformas psiquiatricas e transformacão cultural no Brasil e no mundo. A exposição revela as suas fotografias captadas durante a Primeira Parada de Orgulho Louco, que se realizou pelas ruas da Barra ano passado. Doentes mentais de todos os tipos e de todas as cores saíram em protesto contra os manicômios e fizeram uma festa. Loucos de todo o mundo, uni-vos!!06 maio 2009
Do cinema e dos "ratos endinheirados"

A questão última, incontornável, deixada por essas duas constatações é: o cinema (brasileiro) precisa existir ou não?
Há quem, como o Daniel, não tem paciência com o Danilo. Há quem, como o Milton, responda com argumentos aos raciocínios divergentes.
Tenho a impressão de que raciocínios como o do Danilo resultam, em grande medida, de velhos preconceitos em relação ao cinema nacional, somados a essa indignação meio vaga que rola pelos blogs um pouco contra tudo e contra todos, esse tipo de suspeição indiferenciada que transitava pelo "M – O Vampiro de Dusseldorf", com um espírito de linchamento no ar. Ele atinge políticos, em primeiro lugar e por razões meio óbvias, mas pode espirrar em qualquer um.
Como existe um rescaldo neoliberal nessa história, qualquer pessoa com relação direta com o Estado torna-se suspeito.
Assim, o módico subsídio ao cinema torna-se o "meu imposto", aquele mito de que Roland Barthes deu conta nos anos 50 ("Mitologias"). Não se trata do cidadão, trata-se do cidadão reduzido à condição de contribuinte. E indignado.
As contas do Daniel me parecem certas. Mais ou menos eu já as apliquei a um jornalista que veio com esse papo quando eu não queria conversa: dei uma moeda de cinco centavos e pronto.
Mas é claro que a coisa é mais complicada.
Mais resistente, também. E o cinema também tem parte nisso.
Vou tentar fazer uma enumeração, no sentido de abreviar as coisas, para não aborrecer ninguém, ou aborrecer o mínimo possível.
1) A renúncia fiscal é, sim, uma renúncia da sociedade. Se é pequena ou grande, é outra história. Dentro dela, dois aspectos: a) por que o cinema chama tanto a atenção se, de fato, é tão pequeno?; e b) por que o cinema acha que não deve nunca prestar contas disso, que se trata de uma espécie de obrigação da sociedade sustentá-lo e não de uma opção?
2) Quanto ao aspecto b), devo dizer logo de cara que me parece completamente indispensável o financiamento dos filmes pelo Estado. No entanto, é preciso convir que nunca criamos mecanismos capazes de escapar às suspeitas de favorecimento e coisas assim. O fato de transferir a responsabilidade da esfera pública (Embrafilme no passado) para a privada (leia-se: Petrobrás, BNDES, Eletrobrás, etc.) não altera o fundamental. Ou antes, piora: quem decide que filmes serão feitos ou não? São comissões "da sombra". A Embrafilme ao menos se expunha. Teoricamente, mas se expunha. Agora, não.
3) Quanto dinheiro é necessário para fazer um filme? De vez em quando o MinC lança um edital do "baixo orçamento", um pouco como quem atira moedas aos pobres no trânsito. Mas não promove uma mísera discussão sobre o orçamento dos filmes e sua relação entre custo e eficácia. Nem promove uma mínima ação para baixar o custo dos filmes e facilitar que se façam mais filmes. Ora, já vi projetos (isso já faz anos) em que o valor do roteiro era de R$ 300 mil. Hoje seria o dobro. O que deve ser mais do que a Clarice Lispector, digamos, recebeu de direitos autorais ao longo da vida. O roteiro não valia nada, por supuesto, o que é outra história. Mas é preciso haver diretrizes claras sobre certas coisas, traçar linhas entre o justo e o abuso. Não é fácil, mas é necessário. Nem todo filme pode ser barato. Mas há que se evitar o mais possível esse tipo de abuso.
4) Quanto vale o trabalho de um ator? Me lembro que, quando morei na França, os orçamentos eram montados em torno disso. O Delon "valia" 500 mil entradas em Paris, a Deneuve, 400 mil. Faz sentido. Quanto vale aqui a Fernanda Montenegro? Ou o Tony Ramos? Não se pode aferir. Porque em termos de mercado tudo é absolutamente distorcido, sobretudo pela TV. Então, não se pode falar em termos de mercado. O valor de um filme nunca é o de troca. Tem de haver um outro valor. Todo mundo que gosta de cinema sustenta que o melhor filme do ano foi o do Tonacci. A "classe", quando deu seu prêmio, nem passou perto, entre outras porque não deve tê-lo visto. Um problema a que se devia dedicar a Ancine é este: partir da percepção de que existe o caos nesse setor e ver de conter esse caos. Por isso, não deve causar indignação quando alguém sugere que "seu imposto" é usado para pagar "celebridades". Pode até ser uma fantasia, não importa. Mas também é verdade que os orçamentos de cinema raramente são claros. Transparentes, para usar a palavra do momento.
5) Quando um filme é proposto a qualquer comissão, o mínimo a exigir dele devia ser um plano de marketing. Ou seja, com quem esse filme pretende falar e como. Qual é seu ponto de venda? Na prática, isso se chama trailer. O trailer devia ser feito antes do filme (não o trailer físico, é claro). Mas como exigir isso num não mercado como o nosso? Em outras palavras: se não se resolve a questão da distribuição, se ao menos não se começa a pensar nela, para que fazer os filmes? Para ficar no fundo de um armário? Para que os filmes da Globo façam um milhão de espectadores, sejam aceitáveis ou não, só porque possuem uma grande máquina de publicidade por trás e trabalham no sentido de reiterar algo que o espectador já se acostumou a ver? (casos recentes: "Se Eu Fosse Você" e "Divã").
6) Se a maior parte dos filmes não leva espectadores ao cinema, como exigir que os exibidores ponham filmes nacionais na tela? Eles têm prejuízo, é claro. Isso posto, por que não existe um mecanismo para subsidiar as salas de cinema? A construção e a manutenção delas. Daí pode-se exigir, em troca, a exibição de filmes brasileiros dentro de certas normas a serem definidas.
7) E por falar nisso por que o preço das entradas é tão absolutamente pornográfico, proibitivo, restritivo, feito para ricos? Cinema sempre foi arte de pobres, para pobres, para "o povo". Não é aceitável que ninguém se preocupe com isso e ache que cinema custar o que custa é um fato da natureza. Não é.
8) Acima de todas essas coisas, me parece que o cinema não pode ser pensado como um caso isolado. Porque o preconceito também não é isolado. Há os que não vão ceder por nada. Eles acham que o dinheiro, público, é uma coisa para ser enfurnada. Não é. Isso é um pensamento construído sobre premissas falsas, sobre a idéia de que não existe investimento, mas gasto. É esse pensamento que levar a supor que Bolsa Família é distribuição indevida do "meu imposto", que só serve para incentivar a preguiça, essas coisas. Ele não leva em conta que isso promove distribuição de renda, faz a sociedade funcionar sobre a construção e existência de um mercado interno (não se espantem, eu estudei Celso Furtado em tempos muito remotos). Em geral, quem pensa assim são uns ferrados, mas assumem o pensamento dos "ratos endinheirados". Nesse particular tenho muitas dúvidas. Ou antes: se eu tomo a periferia de São Paulo, essa coisa que chamam de bairros, não são na verdade bairros. São depósitos de gente. De pessoas que não têm a mínima chance de acesso a bens culturais. Mas é aí que se pode construir o mercado brasileiro de cinema. É aí que pode surgir o cinema barato. Aí que os Céus, Cieps e que outro nome tenham precisam existir para mostrar filmes, peças de teatro. Enfim, para fazer a função do cinema, que é tornar as pessoas felizes e informadas. Não endinheiradas. Mas felizes, informadas, integradas à cultura. Aí o cinema pode entrar e mostrar uma série de coisas sobre o Brasil e o mundo. A preço acessível, isto é, justo. Sem essa história de ONG. Isso é obrigação do mesmo Estado que dá dinheiro para cineastas e que tais. Mostrar os filmes. Fazer com que existam. Montar filmotecas (isso hoje é barbada, o DVD é barato). Ora, como querem que as escolas públicas depois funcionem na hora do Enem? Não pode. Então formamos uma sociedade de analfabetos funcionais e esperamos que funcione. Não funciona. O cinema não é tudo. Mas também não é essa coisa só de dar dinheiro para ratos endinheirados, pagar salário de celebridades. Os filmes têm uma função. Precisam de um empurrãozinho, caramba.
9) Peço que me perdoem por esse post que mais parece discurso do Fidel Castro, mas o assunto é mesmo interminável e mais cedo ou mais tarde íamos topar com ele. Então que seja agora, que estamos numa entressafra cinematográfica dolorosa (ah, tem tantos filmes nacionais que podiam ser lançados nessa hora em que a indústria está meio fora de eixo), e em que acabei de sobrevoar São Paulo. De cima é uma visão terrível. Não sei como se pode viver aqui não sendo rico. É que nem sociedade de casta: ¾ das pessoas estão condenadas a vegetar, sem chance nenhuma. A TV é que engana e faz parecer que não é.
10) Para quem quiser pensar no assunto (e para completar o decálogo), fica aí a frase luminosa do Rogério Sganzerla: "Um país sem cinema é que nem um país sem luz elétrica".
04 maio 2009
"Quartas Baianas" comemora 5 anos

O projeto Quartas Baianas comemora cinco anos de existência bem-sucedida no próximo dia 6 de maio, com evento no foyer e na Sala Walter da Silveira. A celebração inicia às 19h com o Café & Cinema, um bate-papo informal entre cinéfilos com degustação da apreciada bebida e de sequilhos. Em seguida, o crítico de cinema André Setaro e o realizador Felipe Kowalczuk tecem comentários sobre o filme Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Coni Campos, obra que será exibida às 20 horas, na Sala Walter da Silveira, com entrada franqueada ao público, como é o costume.
Criado para divulgar, através de exibições gratuitas e regulares a cada semana no cinema de arte mais antigo e tradicional de Salvador, a produção cinematográfica baiana, a realizada por diretores, atores e técnicos baianos ainda que não realizados na Bahia ou mesmo de produção de fora, mas com locação na “boa terra”, o projeto persiste em seu propósito inicial, fortalecido pela parceria entre a Diretoria de Audiovisual (Dimas), da Fundação Cultural do Estado da Bahia, e a Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) e seus contumazes apoiadores Irdeb e Oriente Filmes.
O cineasta Joel de Almeida, que junto ao fotógrafo Lúcio Mendes coordenam o projeto, esclarece que ele “nasceu com o objetivo de poder mostrar ao público baiano que se renova a cada ano nas salas de cinema, um pouco do acervo que existia na Dimas de filmes em 16mm e 35mm e que ninguém conhecia”. Outro aspecto que Joel levanta “é que com a retomada do cinema brasileiro e advento das novas tecnologias, a produção cinematográfica baiana vem crescendo geometricamente e o projeto Quartas Baianas se firma como mais uma janela de exibição da produção local passada e contemporânea, inclusive com lançamentos de filmes”.
A iniciativa de implantar o Quartas Baianas partiu de conversas da diretoria da ABCV antes das reuniões semanais, até que José Araripe Jr, ex-diretor do Centro Técnico de Audiovisual (CTAV) do Ministério da Cultura (Minc), atuando hoje numa das gerências da TV Brasil e, à época, presidente da associação, levou a idéia para a diretoria da Dimas. “Poucas semanas depois, a idéia estava em prática”, recorda Joel.
Em cinco anos de realização, o Quartas Baianas atraiu aproximadamente 11 mil pessoas (10.784 exatamente) para a exibição de 250 programas diferenciados, incluindo longas e curtas metragens, documentários e obras ficcionais, além de eventualmente lançamentos de filmes inéditos, assim como esclarecedores comentários de especialistas sobre as obras em cartaz, integrando as sessões. A freqüência média é de 43,13 telespectadores por programa, o que configura um quantitativo nada desprezível para filmes que, freqüentemente, não dispõem dos esquemas massivos de divulgação que sustentam produções em circulação nos circuitos comerciais.
Os coordenadores do projeto Lúcio Mendes e Joel de Almeida escolhem a programação seguindo critérios que correspondem a programas temáticos, programas que coincidem com datas históricas, comemorativas, aniversários e homenagens a realizadores, atores, técnicos, entre outras pautas sugeridas pelos profissionais da área.
Os programas das Quartas Baianas despertam interesse não só dos cineastas veteranos e já estabelecidos, mas de público de trabalhadores em trânsito para a Estação da Lapa, como também de estudantes freqüentadores da Biblioteca Pública e universitários interessados na sétima arte, sobretudo os alunos e recém-graduados em cinema da FTC, que costumam fazer os lançamentos de seus filmes em sessões especiais, lotando a casa de seus jovens amigos e admiradores. Exemplo é o estudante Son Araújo, que lançou em edições bem movimentadas das Quartas Baianas, na Sala Walter da Silveira, os filmes de curta-metragem O Foco, Carrinho de Pau e A Fuga.
Tratando de obras inéditas, da dupla de diretores Gabriel Lopes Pontes e Tau Tourinho, estreou numa das versões do projeto o filme Incarcano a Tiortina, que trata de um certo “heroísmo” do consumo de cachaça. E é com essa diversidade temática, frescor, vigor, pluralidade estética que as democráticas Quartas Baianas vieram atravessando o último qüinqüênio, estimulando a participação e acesso do público com sessões gratuitas.
Entre os momentos mais destacados do projeto figura a exibição do filme A Grande Feira, de Roberto Pires, ocasião em que foi homenageado o ator baiano Milton Gaúcho, que compareceu emocionado à sessão, sendo recebido com flores e calorosos aplausos do público, que lotou a sala cult dos Barris. Foi a última aparição do ator numa sala de exibição, pois veio a falecer pouco tempo depois.
Destaca-se também como momento relevante do projeto a exibição do documentário Bahia Por Exemplo, de Rex Schindler, em que o público se deliciou com imagens belíssimas de Salvador nos anos 60, aspectos que não existem mais fora de registros captados no passado, além de preciosos depoimentos de personalidades (artistas e escritores), que ajudaram a construir um pouco da popularidade da cidade.
A diretora da Dimas Sofia Federico avalia que há muito a celebrar nesses cinco anos. “Ao longo desse tempo, a Sala Walter da Silveira vem exibindo filmes baianos de épocas diversas, produzidos por realizadores de várias gerações, nos territórios de identidade da Bahia”. Sofia considera que “as sessões são agregadoras, promovem encontros e intercâmbio, e possibilitam ao público o acesso à produção audiovisual baiana”. Outro aspecto importante, segundo destaca, é que o projeto permitiu formar um acervo. “Este é um projeto essencialmente de difusão audiovisual, mas também de memória e sensibilização de público. Espero que tenha vida longa!”.
Dia 6 de maio, às 20h – Sessão especial de comemoração de 5 anos do projeto Quartas Baianas, com exibição do filme Viagem ao Fim do Mundo Direção: Fernando Coni CamposFicção. 95 min, 1968.
Elenco: Karin Rodrigues, Anik Malvil, Jofre Soares, Talula Campos, Fabio Porchat, Walter Forster e José Marinho
Sinopse - Diversos personagens embarcam em um avião: um time de futebol, um "cartola", um velho decrépito, um grupo de freiras e uma garota propaganda. Sonhos, delírios, reflexões e situações concretas relacionam, ou não, um indivíduo a outro. Cenas de arquivo com guerras, fome e romarias religiosas intercalam-se a uma mítica mulher Natureza.
Ascom – Dimas – Funceb
Tels: 3116-8123 / 3116-8111
Email: fabarretto@gmail.com
www.dimas.ba.gov.br Depoimentos de cineastas sobre o projeto ‘Quartas Baianas’
CINEASTAS BAIANOS FALAM SOBRE O PROJETO
Por todos os motivos citados, acho que o Quartas Baianas é um projeto que deve ter sua continuidade assegurada pela atual administração, bem assim pelas administrações futuras da cultura no Estado”.
Edgard Navarro (diretor de Eu Me Lembro, Superoutro e em fase de realização de O Homem Que Não Dormia)
e-mail: edgardnavarro@terra.com.br
"O que a Associação Baiana (ABCV) fez ao criar o Quartas Baianas foi dar o passo para a primeira filmografia do século I do cinema baiano, a sessão semanal além de atualizar o público da produção contemporânea e histórica, cumpre um papel fundamental de dar visibilidade à produção interna, trazendo à tona uma realidade que surpreende e diz: Yes, nos temos filmes! - e nesse espaço mais de 400 obras já foram desengavetadas, possibilitando a pesquisadores e críticos uma leitura mais ampla, e principalmente unindo os realizadores e elevando a auto-estima. Ponto pra a Dimas, que sempre acolheu a iniciativa."
José Araripe Jr. (cineasta, ex-diretor do CTAV do Minc, ex-presidente da ABCV e atual gerente da TV Brasil
e-mail:
joseararipejr@uol.com.br)
"Durante muito tempo, o curta-metragem era o pobre do cinema. Era considerado como um passo inevitável para fazer um longa, mas chamava pouca atenção fora dos festivais. Hoje, o curta esta reconhecido como uma forma de arte em si, assim como o conto na literatura. E de repente, lembrem-se que cineastas importantes como Alain Resnais, Roman Polanski Jean-Marie Straub têm uma obra de curta-metragistas. Iniciativas como as Quartas Baianas são duma importância chave para essa mudança. Mais do que uma janela de exibição, as Quartas Baianas se destacam pela qualidade da curadoria, e seu papel de historiador do cinema baiano".
Bernard Attal (e-mail:battal1@mac.com)
“Muitos filmes brasileiros, de boa qualidade e até premiados em festivais nacionais e internacionais, não são vistos pela nossa gente. Tratam dos nossos problemas, têm os nossos cheiros e mau cheiros, mostram a nossa geografia, a nossa cultura, a nossa cor, falam o nosso idioma, mas, injustamente, permanecem no anonimato, esquecidos em prateleiras. Poucos chegam à chamada
tela grande. Essa inadmissível - mas verdadeira - situação é determinada pelo fato de as poderosas empresas distribuidoras e exibidoras de filmes estarem vinculadas às produtoras norte-americanas, não tendo, portanto, interesses na comercialização dos produtos nacionais. A quase totalidade das nossas casas de exibição representa o ponto de venda do filme estrangeiro. Essa é a dura realidade confrontada pelos produtores, cineastas, técnicos, atores, críticos e estudiosos do cinema brasileiro. É verdade que algumas produções do Rio e de São Paulo conseguem furar esse bloqueio imposto pela indústria norte-americana, seja através de associações ou concessões comerciais. Mas, se essa circunstância é danosa para a produção fílmica desses dois Estados do Sudeste, mais torturante é ainda para os realizadores de outras regiões. Quase nenhum filme de outro Estado do Brasil consegue ser visível nacionalmente. Nesse contexto, insere-se o cinema baiano. E é nesse campo inóspito e minado que o projeto Quartas Baianas, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia e tão bem comandado pelos cineastas Joel Almeida e Lúcio Mendes, vem atuando há cinco anos. O trabalho desses dois organizadores não se circunscreve apenas à exibição dos filmes feitos na Bahia. Eles vão muito além porque garimpam produções antigas, totalmente esquecidas, desconhecidas e abandonadas. Abrem mofados baús, descobrem, pesquisam e mapeiam filmes feitos há muitos anos, que ninguém sabia existir. Não fosse o paciente e persistente trabalho realizado por Joel e Lúcio, jamais teríamos a oportunidade de assistir aos audiovisuais de várias gerações de cineastas da nossa terra, pioneiros, amadores e profissionais. É real que, devido ao distante tempo de realização e também a má conservação, alguns dos filmes exibidos apresentaram deficiências nas partes visual e sonora, mas o projeto é muito grande e útil para a arte cinematográfica baiana. É a memória de tudo que aqui se fez na sétima arte. Por tudo isto, os dois organizadores são pessoas merecedoras dos nossos aplausos e a Fundação Cultural deverá emprestar mais apoio para a subsistência e perpetuação do projeto.”
Cícero Bathomarco (diretor de cinema
e-mail: cbathomarco@terra.com.br)
Mateus Damasceno (jovem cineasta)
03 maio 2009
Viagem ao fim do mundo
Viagem ao fim do mundo, segundo longa do baiano Fernando Cony Campos, não aparece nas constantes listagens do que se convencionou chamar de Cinema Marginal (ou cinema de invenção ou cinema experimental ou cinema underground - ou, ainda udigrudi), mas está muito mais perto deste do que do Cinema Novo, a possuir, na sua estrutura narrativa, características familiares à sublevação que se observa na segunda metade dos anos 60: fragmentação da narratividade com enxertos de materiais de procedência diversas (gráficos, desenhos, fotos de revistas, documentários velhos, etc). É chegada a hora, portanto, de se rever Viagem ao fim do mundo para se ter a sua exata dimensão, para se o colocar no seu devido lugar na história do cinema brasileiro. O filme, que vai ser apresentado em Salvador dentro do projeto das Quartas Baianas (dia 6 de maio na Sala Walter da Silveira), revi-o hoje e constatei que é uma obra marginalizada dentro dos próprios adeptos do Cinema Marginal (que já está a sair, em cópias luminosas, numa coleção de DVDs numa iniciativa de Eugenio Puppo e outros), mas uma marginalização não consciente que vem em consequência do desconhecimento do filme, que, lançado em 1968, quase que desapareceu de mostras e eventos.Velocidade das tomadas está a destruir o espetáculo
A estética do vídeoclip, que, como metástase, invade a indústria cultural cinematográfica, está a destruir a linguagem fílmica. Os filmes são fragmentados, picotados, como se uma máquina de costura fosse a montadora das películas, a destruir, com isso, o clima, a ambientação, a durée – leia-se conceito de duração. Admite-se tal velocidade para o vídeoclip como tal, mas quando a sua estética se expande para a dramaturgia cinematográfica vê-se, neste caso, um perigo real e imediato para o cinema. Os grandes cineastas sempre tiveram em mente o conceito de duração que proporciona o clima, o envolvimento e, neste, a instalação do poder de convencimento capaz de tornar o espectador um cúmplice do espetáculo.
Acontece que a nova geração, a do audiovisual, perdeu, por causa da asfixia proporcionada pela indústria cultural, a capacidade de contemplar e, sem contemplar, não existe possibilidade de se adentrar na coisa para a conhecer. Tudo se passa muito rápido, as tomadas se sucedem em questão de segundos, e a maioria dos filmes contemporâneos redunda na nulidade. Exemplares, nesse sentido, Chamas de vingança, do virtuoso Tony Scott, ou A supremacia Bourne, com Matt Dillon (o terceiro Boune é diferente e bastante palatável), ou, mais recentemente, As duas faces de um crime, de Jon Avnet, com Robert De Niro e Al Pacino péssimos todos pela preferência que adotaram na montagem pela estúpida e destruidora estética do vídeoclip, que parece uma pandemia (para ficar na onda global que ataca o mundo) a assolar os espetáculos oriundos de Hollywood. É por isso que, quando surgem filmes como Onde os fracos não têm vez e Sangue negro a sensação é de algo diferente, de obras que passam uma emoção e uma reflexão, com clima e eficiência dramática, que seriam impossíveis dentro da estética da tesourinha ou da máquina de costura.
Sofre, com isso, a linguagem cinematográfica, que, com a incorporação da estética do vídeoclip ao espetáculo cinematográfico, se encontra num processo de marcha-a-ré. É impossível se assistir a um filme, atualmente, com o maneirismo demencial de dar ao espectador apenas alguns segundos de uma tomada. Viciada, a nova geração não mais aceita um filme normal, com a durée controlada e precisa, que, por desvio, tende a considera-lo um filme lento e chato – e não se está a falar aqui de obras realizadas em planos seqüenciais, mas de películas nas quais o realizador concebe a duração dentro dos padrões normais de acompanhamento da atenção. A síndrome matriz, antes de fornecer algo de novo e interessante, estabeleceu um ritmo e um padrão capazes de por o prazer de se ir ao cinema por água abaixo. Como se já não bastasse a instauração dos efeitos especiais como conditio sine qua non do sucesso comercial. E, neste particular, existe um culpado: George Lucas, em 1977, com seu Guerra nas estrelas (Stars war), que, com as continuações dos anos 90, permitiram a emergência da irritabilidade em espectadores menos comprometidos com a velocidade rítmica.
Se o cinema hollywoodiano atual é um cinema dirigido por executivos estranhos ao assunto (Coca-Cola, Mitsubichi, Sony, etc), no passado, entretanto, as coisas eram diferentes. Existiam os grandes estúdios (que foram fundidos com suas características totalmente desaparecidas), regidos por chefões que, poderosos, apesar da ânsia do lucro, gostavam e entendiam de cinema (Harry Cohn, da Columbia, Jack Warner, da Warner, Louis B. Mayer, da Metro, David Selzsnick...).
A planilha da produção, hoje, é uma linha de montagem como uma fábrica de salsichas: tantos filmes de ação, tantos filmes de monstros e alienígenas, e por aí vai. Os efeitos especiais se sobrepuseram em detrimento da construção psicológica dos personagens, da estruturação destes como pessoas de carne e osso. Vê-se marionetes e títeres, a correr dos perigos, a se desvencilhar dos obstáculos, mas, nunca, personagens com poder de convencimento e envolvimento. É verdade que há um Clint Eastwood para salvar o pobre cinéfilo, e, para se ser sincero, mais alguns, como Scorsese, os fratelli Coen, William Friedklin, Paul Thomas Anderson, Robert Zemeckis, entre poucos.
O cinéfilo de antigamente se transformou em mero consumidor. Ver filmes virou sinônimo de comer pipocas e se abastecer, até o afrontamento do estomago, de hambúrgueres, refrigerantes post-mix de 750 ml, guloseimas a perder de vista. Os exibidores revelaram que os complexos Multiplex tiram maior renda com a venda de fast-food do que com os ingressos propriamente ditos. Quem quiser uma prova basta dar uma olhada em sessão noturna de dia de semana, excetuando-se as da quarta cujos ingressos são mais baratos.
E para coroar a decadência do cinema contemporâneo – pelo menos o cinema que se oferece na bandeja do circuito – surgiu a prática odiosa da tesourinha, isto quer dizer: a introdução da estética do vídeo-clip na narrativa cinematográfica. As tomadas rápidas, a insistência da ação contínua e a velocidade excessiva imprimida ao ritmo do filme não deixam margem à respiração e à contemplação. E contrariamente aos filmes dos grandes mestres, que sabiam dosar os momentos fortes e os momentos fracos, nas películas atuais praticamente só existem os primeiros. Não há pausas, necessárias, que preparam o espectador para o clímax. Pena que assim seja, pois os amantes do bom cinema estão se afastando das salas de projeção e se recolhendo ao conforto caseiro para ver filmes de sua preferência em DVD. A oferta destes está excelente. Há filmes para todos os gostos. E não se tem que suportar os celulares vazios, as pipocas em mandíbulas alheias, as conversinhas de débeis mentais, a ambiência, enfim, de um inferno. É de se ter imensa saudades das soirées de um Liceu, de um Guarany, de um Bahia, entre outros, quando a cidade de Salvador ainda conservava alguma educação e boas maneiras.
Há, hoje, uma falta de educação avassaladora que faria corar pessoas de tempos idos.
01 maio 2009
Gilmar Mendes versus Joaquim Barbosa.
30 abril 2009
Em defesa de Claude Lelouch

Este artigo foi publicado originariamente na revista eletrônica Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br/) em três partes nas últimas semanas. Dou-o aqui na sua edição completa.
A seguir, Lelouch realizou A vida, o amor e a morte (La vie, l’amour, la mort, 1969), drama contra a pena de morte que representou a França no II Festival Internacional do Filme do Rio (organizado por Antonio Moniz Viana, o único evento cinematográfico verdadeiramente internacional que o Brasil já teve em sua história), em 69, conquistando o prêmio de melhor ator para Amidou. Que interpreta François Toledo, acusado de ter assassinado prostitutas. Condenado à pena de morte, ao caminhar para a guilhotina, lembra-se sua vida pregressa. A primeira imagem de La vie, l’amour, la mort é a da morte violenta de um touro, e o último plano é da morte violenta de um homem, sob a lâmina afiada da guilhotina (faz lembrar os excelentes Quero viver! (I want to life), de Robert Wise, e Não matarás, de Kieslowski). Filme arrematado com final agônico e de forte emoção. Será que os detratores contumazes de Claude Lelouch viram este filme?
Depois deste, Lelouch filma O homem que eu amo, com Belmondo e Girardot, Um homem como poucos (Le voyou, 1970), que considero sua obra-prima e uma das obras-primas do cinema francês em todos os tempos, e a deliciosa sátira política A aventura é uma aventura.
Em 1969, O homem que eu amo (L'homme qui me plait), com Jean-Paul Belmondo e Annie Girardot, procura repetir a fórmula estabelecida em filmes anteriores. Trata-se, evidentemente, de um love story, e Belmondo, numa cena dentro de um jatinho, repete, em mímica, para uma Girardot apaixonada, os tiques de Michel Poiccard, o seu personagem de Acossado (A bout de souffle, 1959), de Jean-Luc Godard, filme que detona a Nouvelle Vague e está a completar, neste ano em curso, o seu cinquentenário. A obra-prima de Lelouch, contudo, é Um homem como poucos (Le voyou, 1970), filme que se perdeu no esquecimento coletivo e que necessitaria de uma urgente revisão para reavaliá-lo em sua dimensão certa. Thriller que sucede a L'homme qui me plait, Le voyou, desde a apresentação dos créditos, uma sequência musical de delirante movimentação cênica, já desperta o entusiasmo do espectador.
Comédia dramática de fundo policial, A dama e o gangster (1973) é o filme imediatamente posterior a L’aventure c’est l’aventure. Ainda que não seja um de seus melhores, La bonne année, título original, fascina pela segurança da narração e por um cuidadoso registro de surpresas sem que a partitura entre em ação. A música, que seria a música do filme, é cantada numa boite, mas todo o desenrolar das reviravoltas com suspense a tem ausente, Também, aqui, em La bonne année, o uso das imagens em preto e branco e a cores revela a constante lelouchiano de significar por meio do cromático.
Em dezembro de 1973, o diretor de uma prisão dá liberdade condicional a Lino Ventura, ladrão de jóias, na esperança de, por seu intermédio, apanhar Charles Gerard, seu cúmplice no roubo de uma joalheria Van Cleef seis anos antes. Conseguindo iludir a polícia, Ventura (ator clássico da tradição cinematográfica francesa), se prepara para celebrar o ano novo com a bela Françoise Fabian, sua antiga amante, mas, ao chegar ao apartamento desta só encontra seu atual companheiro. A desilusão toma conta dele. Esgueirando-se sem ser visto, vai-se a lembrar dos lances do roubo (o filme quase todo é em flash-back, excetuando-se o momento presente no princípio e no final), da separação (quando foi preso) e da promessa que Françoise lhe fizera de esperar por ele.
Em 1974, um filme fascinante: Toda uma vida (Toute une vie), afresco sobre o cinema, o tempo que passa, a vida e o amor. E vejam que achado: o começo do filme é em preto e branco e seu estilo vai variando de acordo com a evolução da técnica cinematográfica; nas seqüências finais é em Technicolor. Um interlúdio de 20 minutos em que o casal no avião imagina o nosso mundo no fim do século foi eliminado pelo diretor nas cópias de exportação.
Marthe Keller e André Dussolier (um dos atores preferidos de Alain Resnais) sentam-se lado a lado num avião e apaixonam-se à primeira vista. Cada qual passou por várias situações dramáticas. Keller já tentara o suicídio, casara-se e se divorciara, tentando, depois, revolucionar os métodos de trabalho na indústria do seu falecido pai. Dussolier vivera de expedientes, estivera preso, sofrera um desastre ao sair da cadeia, aprendera a técnica fotográfica, fizera filmes pornográficos e comerciais e planejara realizar um filme que cobriria o espaço de tempo entre 1900 e o ano 2000.
Marriage (1975) parece que não foi lançado no Brasil. O gato e a rainha (Le chat et les souris, 1975), comédia com Jean Pierre Aumont, Serge Reggiani, Michèle Morgan, não foi visto por este comentarista. Mas a filmografia de Lelouch não pára por aqui. Em meados dos anos 70, o fôlego de Lelouch se arrefece para ressurgir mais forte nos 80 (Retratos da vida/Les uns et les autres, 1981) e nos 90 (com o admirável Os miseráveis, 1993, versão livre, e totalmente lelouchiana do livro homônimo do célebre Victor Hugo), além de Tem dias de lua cheia. Em 1976, Se tivesse que refazer tudo... (Si c'était à refaire), melodrama que marca o retorno da atriz Anouk Aimée (de Um homem, uma mulher), e assinala o primeiro trabalho de Catherine Deneuve com o diretor, trata, como sempre, do amor ("L'amour toujours l'amour").
Leitura original de Os miseráveis, famosa obra de Victor Hugo, numa versão completamente livre e adaptada a outros tempos, o filme é um delírio na composição de sua estrutura narrativa, de sua mise-en-scène. Belmondo faz um ex-pugilista analfabeto que ajuda uma família de judeus durante a Segunda Guerra Mundial e vem a encontrar paralelos significativos entre a sua vida e a do personagem do escritor francês. A rigor, não se trata propriamente de uma adaptação, mas o livro é tomado como marca referencial. Les miserables apresenta o comportamento dos franceses durante a guerra, a perda de valores morais provocada pela opressão em suas diversas formas, e a idéia de que a História é um ciclo que se repete de tempos em tempos. Além de Belmondo, tem-se novamente Annie Girardot.
Entre seus últimos filmes, um episódio (segmento: França) de uma obra coletiva sobre o 11 de setembro dirigida por vários cineastas, A coragem de amar (Le courage d’aimer, 2005), e Crimes de autor (Roman de gare, 2007).
29 abril 2009
Homenagem aos 50 anos de "Redenção"

27 abril 2009
Carlos Vereza fala do PT no Jô
26 abril 2009
A liberdade do homem sob ameaça

Os anos 50 proporcionam o advento da desdramatização proposta por Roberto Rossellini (com filmes quase sem roteiro, ao sabor das intuições nos próprios locais das filmagens, a exemplo de Viagem à Itália/Viaggio in Itália, 1953 e, mais adiante, a antinarrativa de Michelangelo Antonioni e sua fantástica trilogia composta por A aventura, A noite, e O eclipse. Antonioni impôs, com maestria, o silêncio como produtor de sentidos e de significações. Mesmo em obras do grande Ingmar Bergman da década de 50, podemos observar que há preocupação de compor os filmes com diálogos incessantes.
Mas, mudando de assunto, também nos filmes dos anos 40, 50, praticamente todos os personagens fumavam demais. Recentemente, vendo O homem de Alcatraz, de John Frankenheimer, pomo-nos a observar que Burt Lancaster, seu intérprete principal, em todas as tomadas (em todas, repetimos, sem exceção) está sempre com um cigarro já acesso, a colocar, com força e disposição, a fumaça no pulmão, tragando-o com prazer, ou a acendê-lo.
A lei fascista contra fumantes aprovada em São Paulo não permite mais a liberdade do fumante em lugar nenhum, reservando para este a condição de inimigo público número 1. Pelos seus artigos draconianos, quem é fumante somente pode, a rigor, fumar em casa. É claro que o cigarro é agente cancerígeno, mas a lei, fascista, repetimos, haveria de conceder aos fumantes lugares destinados especialmente a eles para que pudessem também ser cidadãos livres. Com esta onda nefasta do politicamente correto, vinda dos Estados Unidos, está-se à procura de um inimigo com um fanatismo descabido. E o inimigo atual finalmente foi encontrado: o cigarro.
Mas, para colar os dois assuntos, antigamente os personagens dos filmes fumavam muito e falavam mais ainda. Fumar era chic, dava charme, status para o fumante. As mulheres elegantes portavam sempre uma cigarreira folheada a ouro com os cigarros enfileirados como numa parada militar presos por um fino cordão sofisticado. Constituí-se num ato de elegância a mulher oferecer ao cavaleiro um cigarro, tirando-o de sua cigarreira dourada.
Não estamos aqui a proclamar as virtudes do cigarro. Faz mal, sim, à saúde. Mas quem fuma tem o direito de fumar. O mais importante de tudo é a liberdade. Não se pode tolhê-la assim sem mais nem menos. Até os ridículos fumódromos foram proibidos em São Paulo. E como está difícil se achar uma barraca que venda cigarros! Se você mora num bairro, tem que percorrer alguns quilômetros para achar um posto que os venda. O que difere de tempos atrás, quando em qualquer birosca se achava este agente cancerígeno - e quem se lembra dos cigarros a retalho?
Estamos a nos lembrar que, em tempos idos, em todas as casas, e em todos os cômodos, encontrávamos aqueles cinzeiros enormes de vidro ou de cristal, com as bagas amassadas. Vale ressaltar que até comprar cinzeiros está difícil. E a coisa se complica ainda mais quando se trata de um bar. Como, para o fumante, tomar uma cervejinha ou um chopinho sem a companhia prazerosa de um cigarrinho?
Uma vez, por coincidência, no Roda Vida, foi entrevistada uma fumante inveterada, a economista Maria da Conceição Tavares. No meio do programa, ela se queixou de ter sido proibida, durante a entrevista, de fumar seu cigarro, o que a deixava nervosa. Semana seguinte, foi convidado Paulo Autran (que, por sinal, morreu de câncer no pulmão por causa do cigarro). Autran aceitou com uma condição "sine qua non": que pudesse fumar seu cigarrinho. Os produtores rasgaram a regra e o deixaram à vontade. E no programa inteiro acendeu vários cigarros, dando vazão a seus pulmões sedentos da nicotina.
25 abril 2009
Glauber Rocha, crítico guerreiro

Os escritos de cinema dos grandes críticos do pretérito estão, desde a década passada, sendo reunidos em livros, porque, dada a efemeridade da crítica publicada em jornais, muitos textos importantes estavam desaparecidos nas poeira dos arquivos. Francisco Luiz de Almeida Salles, Paulo Emílio Salles Gomes, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Vianna, entre outros, podem ser lidos nas antologias de suas críticas. Mas, surpreendentemente, os ensaios de Walter da Silveira, o único verdadeiro ensaísta de cinema surgido na Bahia, apesar de reunidos para publicação, em pesquisa exaustiva, sofrem sistemáticos boicotes para vir à luz, e Walter da Silveira, vale ressaltar, foi o mestre confesso de Glauber Rocha, conforme ele mesmo declarou em vários artigos e em um, especialmente, quando da sua morte ocorrida em novembro de 1970.
As críticas de Glauber Rocha estão atreladas, em sua maioria, à constituição de um cinema engajado, que registre a problemática do homem contemporâneo, que desmistifique os falsos mitos e o maniqueísmo, instaurando a ambiguidade do ser numa relação dialética com a História. A preocupação essencial de seus textos é refletir sobre aqueles grandes cineastas que, além de radiografar o seu tempo, também proporcionaram um avanço nas estruturas da linguagem cinematográfica, como Serguei Eisenstein, Jean-Luc Godard, Luchino Visconti, Orson Welles, Jean Renoir, entre tantos outros. Em alguns casos, era capaz de elogiar um filme por questão política, como a crítica benevolente que fez a Bahia de Todos os Santos, de Trigueirinho Neto, porque via, neste filme, um impulso importante como semente para o estabelecimento de um cinema genuinamente baiano, ainda que a obra de Trigueirinho esteja eivada em graves desequilibrios estruturais.
A crítica praticada nos anos 50, exceção se faça a Walter da Silveira, e alguns luminares do eixo Rio-São Paulo, era uma crítica que se restringia ao cinema hollywoodiano. O advento de Glauber Rocha nas páginas do Jornal da Bahia mudou o panorama crítico da província, com um enfoque mais centrado no cinema brasileiro (e no baiano que surgia) e nas obras dos grandes mestres, que eram mostradas pelo Clube de Cinema da Bahia. Glauber, no entanto, não desdenhava dos nomes do cinema americano, principalmente John Ford e o gênero western, o cinema americano por excelência na sábia definição de André Bazin. A bem da verdade, alguns cineastas dos Estados Unidos, como Robert Aldrich, Nicholas Ray, Robert Wise, Samuel Fuller, Richard Brooks etc, foram responsáveis pela renovação da linguagem cinematográfica que iria se radicalizar com a emergência de Jean-Luc Godard e Alain Resnais.
Sobre este estilista, Glauber foi um dos poucos críticos de sua época que lhe soube ver os inegáveis atributos. Minnelli, o cineasta que revolucionou o filmusical (A roda da fortuna, O pirata...), também se notabilizou por ser um realizador de dramas ásperos e imensos (Deus sabe quanto amei, Assim estava escrito, A cidade dos desiludidos...), além de comédias perfuratrizes do american way of life. Assim Glauber vê uma delas, Chá e simpatia: (...) "Chá e simpatia por isso é um filme de triunfos: vitória da ternura e elevação da mulher sobre os homens de musculatura e fala grossa; a seqüência na qual Deborah Kerr se entrega ao jovem Tom Lee é o selo dessa dignificação feminina: é a revelação de uma potencialidade de amor inato na mulher sem respeito geográfico, político ou moral; por isso, Chá e simpatia não é apenas um filme bonito, sensibilizante, mas um filme de imensas profundezas: a revelação sobretudo de um poeta agudamente participante como Robert Anderson."
O século do cinema ajuda a compreender o fenômeno estético glauberiano a partir de suas preferências. Brando a princípio, seu nível de exigência cresce com o livro e não é difícil verificar, em suas obras cinematográficas, as influências contagiantes de seus diretores mais aclamados. Em Deus e o diabo na terra do sol, para muitos sua obra-prima, mas esta se encontra também em Terra em transe(o maior filme brasileiro de todos os tempos, ultrapassando, inclusive, Limite, de Mário Peixoto), há, nítidas, as marcas de um John Ford (no enquadramento dos grandes espaços ou em seqüências como a da morte do fazendeiro na feira e o consequente massacre da casa de Manuel, o vaqueiro), Eisenstein (a matança dos beatos em Monte Santo calcada na Escadaria de Odessa de O encouraçado Potemkin), Akira Kurosawa (os rodopios do cangaceiro Corisco), a tragédia grega (o cego Júlio como fio condutor da narrativa) e, em Terra em transe, Orson Welles (a biografia de um aventureiro), Alain Resnais (a memória pulsante na agonia final de Paulo Martins/Jardel Filho). Um amálgama que não diversifica mas une um estilo, o estilo glauberiano.
Na crítica de Rastros de ódio (The seachers), de John Ford, nota, no prefácio, Ismail Xavier: "A fórmula aí é curiosa, e nos lembra a pergunta de Godard - "imperialismo ou mise-en-scène? " - diante da cena decisiva de Rastros de ódio em que se dá a inversão na postura do Tio Etham (John Wayne). Perto do final do filme, ele ergue de modo paternal a jovem sobrinha, repetindo o gesto de reencontro feito quando ela era criança; o lance é dramático porque ele parece estar na iminência de matá-la por não aceitar de volta a moça que procurou durante anos para encontrá-la transformada em "índia". Neste e em outros momentos, Rastros de ódio faz, da tensão e da violência, um caminhopara a poesia. Não é difícil ver na composição do personagem de Ethan uma consciência trágica muito cara a Glauber, pois estão lá nos seus próprios filmes estas figuras de não-reconciliação que entendem estar elas mesmas contaminadas por aquilo que combatem, vivendo como sombras amarguradas sem futuro, condenadas a não ter lugar no mundo melhor que julgam preparar (como no caso de Antônio das Mortes)."
Num momento em que a crítica cinematográfica impressa se encontra cada vez mais rarefeita, quase desaparecida, com exceção de poucos, pouquíssimos nomes (Inácio Araújo, Luiz Carlos Merten...), e o cinema se tornou um objeto nos papers acadêmicos, que colocam a emoção excludente de qualquer tentativa de análise, ler os escritos glauberianos traz de volta o prazer da leitura de textos inflamantes nos quais a teoria se aliava à praxis, uma exortação para uma tomada de consciência do poder da arte cinematográfica no sentido de mudar as mentalidades e mudar o mundo, que, viu-se depois, com a derrocada do status político do cinema, não passava, na verdade, de uma grande utopia. Mas, sem a utopia, não vive a arte, não vive o cinema. O século do cinema representa um momento de efervescência criadora da crítica cinematográfia, que refletia o seu tempo, o seu aqui e agora.
22 abril 2009
21 abril 2009
O peido cultural

"A notícia, na Folha do último dia 28, era pequena, mas chamativa: uma funcionária, demitida por "exceder-se em flatulência" no local de trabalho, venceu demanda judicial interposta na 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Os magistrados decidiram pela readmissão da empregada e pelo pagamento de R$ 10 mil por danos morais.
Atrás desse curioso episódio está longa história, que se baseia numa função fisiológica absolutamente normal, mas nem por isso menos perturbadora. Flatulência é a emissão de gases intestinais, uma coisa que poderia passar despercebida, como é a expiração.
Mas essa, em geral, não é ruidosa -a não ser quando a pessoa ronca, o que não raro é fonte de conflito entre marido e mulher- e é sem odor, a não ser quando há mau hálito, o que sempre resulta em constrangimento. Já no flato, existe uma complexa mistura de gases, alguns dos quais, os compostos sulfurosos, principalmente, produzem aquele característico odor, que há milênios ofende narinas.
Ah, sim, e o ruído. A última linha de "O Inferno", de Dante, parte da "Divina Comédia" [editora 34], diz "Ed elli avea del cul fatto trombetta"/ "E ele usou o traseiro como trombeta", o que pode parecer um exagero, mas traduz a indignação das pessoas.
Não só Dante se entregou ao exercício dessa forma de escatologia literária. Na clássica comédia "As Nuvens" [ed. 34], de Aristófanes [comediógrafo grego do século 5º a.C. que se celebrizou pela irreverência], há um diálogo no qual Sócrates sustenta que, quando as nuvens colidem, se produz um forte ruído, ou seja, o trovão.Para explicar o fenômeno, compara-as com o homem que, tendo comido muito, produz gases. E pergunta: "Se o ventre humano, que é relativamente pequeno, faz tanto barulho, como não o farão as nuvens, que são muito maiores?"
Nas "Mil e uma Noites" [ed. Globo], lemos a história de um homem que, tendo soltado gases durante a cerimônia de seu próprio casamento, não vê outra solução senão fugir para o exterior. Em "Gargântua e Pantagruel" [ed. Itatiaia], Rabelais assim descreve a ressurreição de Epistémon: "De repente Epistémon começou a respirar, depois abriu os olhos, depois bocejou, depois espirrou, depois soltou um grande peido. Ao que disse Panurge: "Agora está certamente curado'".
Em "Contos de Cantuária" [T.A. Queiroz], de Geoffrey Chaucer, autor inglês do século 14, o flato é usado como agressão. O conquistador Absolom está tentando roubar um beijo da trêfega Alison, mulher do carpinteiro Nicholas. Na escura noite, sem quase nada enxergar, aproxima-se da janela da casa e, sussurrando, pede que a mulher diga onde está. Mas é Nicholas que responde -soltando, pela janela, um agressivo flato.Em "Molloy" [ed. Globo], de Samuel Backett, há uma certa condescendência para com os gases: "Trezentos e quinze peidos em 19 horas, uma média de 16 peidos por hora. Não é demais. Quatro peidos a cada 15 minutos. É nada". A mesma tolerância mostrou o imperador romano Claudius, que assinou lei permitindo a emissão de gases em banquetes, mas fê-lo movido por supostas razões de saúde: acreditava-se à época que reter os gases era prejudicial para o organismo.
De maneira geral, soltar um flato era falta grave. Edward de Vere, duque de Oxford, teve o azar de fazê-lo (coisa que Freud explicaria) no exato momento em que prestava juramento de lealdade à depois cinematográfica rainha Elizabeth 1ª.
Tão envergonhado ficou que se impôs um exílio de sete anos. Quando de seu retorno à corte, Elizabeth teria dito, para consolá-lo: "Meu senhor, para dizer a verdade, já esqueci aquele flato".Aliás, em termos da associação nobreza-flatulência, o duque não ficaria sozinho. Segundo nos conta Jô Soares, em "O Xangô de Baker Street" [Cia. das Letras], dom Pedro 2º soltava gases em pleno palácio, o que, aliás, no julgamento mencionado, foi usado como argumento pelo juiz Ricardo Artur Costa e Trigueiros.
A pessoa pode reter os gases, mas será que consegue emiti-los voluntariamente?Em "A Terra", de Émile Zola, há um personagem que consegue fazê-lo e ganha apostas com sua habilidade. Houve um contemporâneo do escritor que conseguia fazê-lo e se tornou famoso por isso: Joseph Pujol (1857-1945), autodenominado Le Pétomane (O Peidômano).
O marselhês Pujol tinha um extraordinário controle de seus músculos abdominais e do esfíncter anal, o que lhe permitia façanhas assombrosas. Exibindo-se no célebre Moulin Rouge, para audiências que incluíam Edward, príncipe de Gales, e Sigmund Freud, conseguia tocar flauta por meio de um tubo de borracha inserido em seu ânus, emitindo também os sons do hino nacional e de melodias por ele compostas.
A história de Pujol inspirou pelo menos dois filmes -o britânico "Le Petomane", de 1979, com Leonard Rossiter, e o italiano "Il Petomane", de 1983, com Ugo Tognazzi-, o musical "The Fartiste" -premiado como melhor do ano em 2006, no festival internacional Fringe, em Nova York-, vários artigos e livros, incluindo o best-seller "Quem Comeu meu Queijo?", de Jim Dawson, uma abrangente história da flatulência.Uma história que, como se constata, mostra aspectos curiosos e surpreendentes da relação humana com o corpo, particularmente no que se refere ao componente gasoso deste."
19 abril 2009
O bloguista contempla Maio de 1968 na Bahia

Neste "ano que nunca terminou" era estudante secundarista, fazia o segundo ano Clássico no Colégio Central da Bahia, o inesquecível Central. O golpe de 64 ainda dava margem para manifestações e passeatas (como a dos 100 mil realizada no Rio) somente vindo a endurecer de vez a partir de 13 de dezembro de 1968, com o execrável Ato Institucional número 5, que veio a cercear todas as liberdades e impedir qualquer expressão da liberdade. A ditadura brutal, pronta e acabada tem início com o AI 5, que é, a rigor, um golpe dentro do golpe, quando a linha dura militar assumiu de vez o controle da situação.
Os estudantes secundaristas tinham ampla participação nos debates culturais da província. O Central era um pólo aglutinador, fonte das decisões que faziam as passeatas estudantis, que movimentavam o centro histórico da soterópolis. Havia uma consciência política na maioria dos estudantes, que, nas ruas da cidade, protestavam, com panfletos e passeatas contra "a ditadura". Esta, como disse, somente se faria dita e dura a partir de dezembro de 68 com o AI 5 e, portanto, neste ano houve margem, ainda que com os militares no poder, Costa e Silva, para os gritos de revolta.
É bem de ver que os brasileiros viviam sob a tutela dos milicos bem ao contrário dos ventos libertários que sacudiam a Europa e os Estados Unidos. Mas o espírito da época se espalhava pelos centros mais civilizados e um sopro também atingia a velha Salvador.
Os debates culturais eram feitos em mesas de bar. E o cinema tinha uma predominância nos bate-papos. Discutia-se uma nova maneira de as imagens em movimentos ter uma função transformadora. Jean-Luc Godard, com seus filmes renovadores, discutia com seu cinema as contradições da sociedade capitalista com uma visão de mundo particular.
No cinema brasileiro, já se prenunciava, em 1967, com Terra em transe, de Glauber Rocha, e o Tropicalismo, uma nova onda de expressão das idéias políticas e de mudanças no comportamento das pessoas. Tentava-se romper com o pensamento conservador e este rompimento se fazia não somente em termos de hábitos e costumes mas era levado às artes.
A efervescência de 1968, já distante quarenta anos, marca um momento de ebulição como poucas vezes observado no século que passou. Ao contrário da apatia, do desinteresse, do pragmatismo, do consumismo desenfreado, hoje observados, havia brechas para o sonho de mudança e se combatia o marasmo. Na França, a ordem era que a imaginação tomasse o poder. Na velha província, escutava-se os ecos dos comandos libertários, ainda que sem a possibilidade de concretizar a revolta. Mas tudo, é bom de ver, restringia-se a uma elite estudantil e intelectual. O povo mesmo que é bom estava totalmente alheio ao que se passava. Como de hábito.
No Rio, a passeata dos cem mil marcou um grande tento. Houve uma empolgação geral em termos de participação social, da intervenção do homem para fazer emergir um mundo melhor. Mas o caldo de 68 no Brasil veio desaguar no AI 5 e no começo dos anos de chumbo, quando muitos talentos tiveram que sair do país, em exílio doloroso. Ou foram mortos nos porões da ditadura.
Por outro lado, foi durante a pior fase da ditadura que surgiu O Pasquim, que, apesar de severamente censurado, constituiu-se num jornal crítico e irônico como nunca mais se fez algo parecido neste país. Nunca houve uma convergência tão forte de talentos unidos numa causa: a do jornalismo crítico e cultural, bandeira oposicionista do "status quo".
A Universidade teve presença marcante nos debates desse ano efervescente. Os estudantes liam Marcuse, Lucaks, Marx, Graciliano, Joyce, e a arte tinha que ser engajada, comprometida com a transformação da realidade.
1968 foi o ano de O bandido da luz vermelha, carro-chefe do cinema dito "underground", que tentava, numa narrativa anárquica, refletir o caos e a angústia de uma geração. Desespero que influenciou alguns filmes baianos, a exemplo de Meteorango Kik, o herói intergalático, de André Luiz Oliveira, Vôo interrompido, de José Umberto, Caveira my friend, de Álvaro Guimarães.
O teatro baiano participava do grito revolucionário com obras polêmicas que desestruturavam a cena tradicional, como Stop, Stop, de João Augusto, no Teatro Vila Velha, ou Uma obra do governo, de Dias Gomes, em mise-en-scène dilacerante dirigida por Álvaro Guimarães.
