Um corpo que cai (Vertigo), entre 29 votantes, recebeu 12 votos (41%), uma expressiva margem de diferença, e, segundo os leitores deste blog, é o melhor filme de Alfred Hitchcock. Um corpo que cai, assim como outros filmes do mestre, levou vinte anos sem ser visto pela platéia mundial até que, morto o artista, a sua filha, Pat, resolveu liberar as obras que o pai tinha guardado. Não se sabe o motivo, mas o fato é que, em 1984, um pacote Hitchcock foi relançado com pompa e circunstância, a ponto de ter vindo ao Rio, para marketing do pacote, o veterano James Stewart. Os filmes do citado pacote eram Um corpo que cai, Janela indiscreta, O homem que sabia demais, Festim diabólico, e O terceiro tiro. A nova geração de críticos e cinéfilos somente sabia da existência de Vertigo, e dos demais aqui citados, de ouvir falar. A reapresentação dos filmes guardados possibilitou uma revisão e a aclamação de Vertigo e de Rear window como dois dos maiores, não somente de Hitch, mas da história do cinema. A Folha de S.Paulo, por exemplo, em 1995, na data comemorativa do centenário do cinema, fez pesquisa extensa e abrangente entre os críticos do mundo inteiro (é possível achar nos arquivos da Folha via internet), que deu, mais uma vez, a Cidadão Kane, de Orson Welles, o título de o maior filme de todos e a Um corpo que cai um significativo segundo lugar.Seguidores
20 fevereiro 2008
"Vertigo" é o melhor de Hitch
Um corpo que cai (Vertigo), entre 29 votantes, recebeu 12 votos (41%), uma expressiva margem de diferença, e, segundo os leitores deste blog, é o melhor filme de Alfred Hitchcock. Um corpo que cai, assim como outros filmes do mestre, levou vinte anos sem ser visto pela platéia mundial até que, morto o artista, a sua filha, Pat, resolveu liberar as obras que o pai tinha guardado. Não se sabe o motivo, mas o fato é que, em 1984, um pacote Hitchcock foi relançado com pompa e circunstância, a ponto de ter vindo ao Rio, para marketing do pacote, o veterano James Stewart. Os filmes do citado pacote eram Um corpo que cai, Janela indiscreta, O homem que sabia demais, Festim diabólico, e O terceiro tiro. A nova geração de críticos e cinéfilos somente sabia da existência de Vertigo, e dos demais aqui citados, de ouvir falar. A reapresentação dos filmes guardados possibilitou uma revisão e a aclamação de Vertigo e de Rear window como dois dos maiores, não somente de Hitch, mas da história do cinema. A Folha de S.Paulo, por exemplo, em 1995, na data comemorativa do centenário do cinema, fez pesquisa extensa e abrangente entre os críticos do mundo inteiro (é possível achar nos arquivos da Folha via internet), que deu, mais uma vez, a Cidadão Kane, de Orson Welles, o título de o maior filme de todos e a Um corpo que cai um significativo segundo lugar.18 fevereiro 2008
O cinema, de novo, no Instituto Goethe
Durante os anos de chumbo, década de 70, principalmente, o Instituto Goethe (Icba) se constituiu num pólo aglutinador para todos aqueles que, amantes das artes e da liberdade, não tinham outro point no qual não sentissem a vigilância dos agentes do sistema, porque o Icba (no Corredor da Vitória) era, na verdade, um espaço quase consular.17 fevereiro 2008
Ganha quem pode
A discussão sobre Tropa de elite, discussão maniqueísta, superada, que tomou conta dos meios pensantes no último quartel do ano passado, voltou a se manifestar com a premiação do filme de José Padilha com o cobiçado (e prêmio importante) Urso de Ouro do Festival de Berlim. Na foto ao lado, estamos a ver o diretor, com um gouro vermelho e de óculos escuros, Wagner Moura, Maria Ribeiro, e mais dois, acho que o produtor Marcos Prado e um outro da entourage.Ano passado, como foi até objeto de uma pesquisa neste blog, vários filmes brasileiros, além de Tropa de elite, se destacaram. Em primeiro lugar, Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, que tensiona as relações afetivas entre o documentário e a ficção nas suas fronteiras tênues. O resultado é comovente e uma obra de impacto que justifica a fama do realizador como o maior documentarista do cinema brasileiro. E outro documentário que se destaca no panorama: Santiago, de João Moreira Salles. Interessante observar que o documentário está a adquirir um status nobre que não possuía. E tudo por causa de nossos talentosos documentaristas, a exemplo de Coutinho, Salles, Vladimir Carvalho, Sílvio Tendler, Geraldo Sarno, entre tantos outros. Há um filme especialíssimo, que possui sensibilidade no retrato dos anos de chumbo: O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer. Não é sempre que num ano se possa apontar quatro ou cinco filmes dignos de nota.
Dois filmes, pelo menos, que concorrem ao Oscar (os outros não os vi) são excelentes e surpreendentes em se tratando de cinema contemporâneo: Onde os fracos não têm vez (No country for old men), de Joel e Ethan Coen, e Sangue negro (There Will Be Blood), de Paul Thomas Anderson, diretor que já vinha a despertar interesse pela maneira de seus enfoques temáticos, a se mostrar um realizador original e de certa singularidade, ainda que a copiar o estilo narrativo de Robert Altman em Magnólia, principalmente, e Boogie Nights. Mas em There will be blood, Anderson se supera, pois realiza um épico sobre a América na qual o empreendedorismo é um elemento propulsor da prosperidade. Em questão: o empreendedor (Daniel-Day Lewis, excepcional) e a religião, duas faces de uma mesma moeda. Mas o que impressiona em There will be blood é a maneira de Anderson tratar o tema, um modo de se manifestar pelas imagens em movimento a conferir a estas uma dimensão poética e trágica em acerto paradoxal. Não economiza tempo para expor a tragédia de suas criaturas, principalmente a angústia existencial do personagem interpretado por Lewis. O cinema de Anderson não se importa com a tesoura, mas com o poder de verdade que emana de seus enquadramentos rigorosamente pensados em função da dramaturgia e da plástica da imagem.
Revi o DVD duplo, com muitos extras, de A cor púrpura (The color purple, 1985), um Spielberg de grande sensibilidade, que retrata conflito entre negros numa moldura narrativa com acentos dickensianos. Danny Glover, Whoopi Goldberg (irreconhecível ainda jovem), Oprah Winfrey (gorda, feia, bem diferente da apresentadora glamourizada de seu programa atual), Margaret Avery, Adolph Caesar. Spielberg passeia por vários assuntos, vários temas, em sua já extensa filmografia, mas sempre a saudade do lar, a família como pólo aglutinador. O seu novo filme, a quarta aventura de Indiana com um Harrison Ford em meados dos 60, Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, tem no elenco, além de Ford, Cate Blanchet (que se encontra em cartaz no segundo ato de Elizabeth, a rainha), Karen Allen, John Hurt (ator inglês de fleugma inconfundível), entre outros.
Vendo, ontem, Sangue negro, numa sala do Multiplex Iguatemi, verifiquei que a dublagem virá a ser implantada nos filmes estrangeiros. Pelo menos no lixo oriundo da indústria cultural hollywoodiana. Ir ao Multiplex, para mim, é um imenso sacrifício, como já disse aqui várias vezes. Mas tenho que ver certos filmes, que são imperdíveis, a exemplo de Sangue negro e Onde os fracos não têm vez. Apesar de me incomodar sobremaneira com os celulares, que são atendidos durante a projeção sem a menor cerimônia, sem o menor respeito por aqueles que se encontram a ver o filme, com os imensos sacos de pipoca (por que tão grandes?), pelos copos de refrigerantes que beiram ao litro. E, principalmente, pelas conversas a latere praticadas por verdadeiros débeis mentais. Há pessoas que comentam o filme em voz alta. Impressionante. Já falei isso aqui. Mas volto a me referir. Mas sempre foi assim, disse-me um rapaz, equivocado. Não, antigamente havia silêncio, respeito, de vez em quando uma piada, que era, de fato, engraçada. Nos cinemas mais populares, havia uma gritaria, mas no sentido de interação com a ação do filme. A cavalaria que chegava para salvar os personagens. Nas salas de cadeira de pau, o público batia nas cadeiras, mas era no propósito de interagir, de torcer pelo mocinho, etc. Não o comportamento debilóide de hoje. Isso não existia não. Mas estava a falar que a dublagem está por vir. Fica para depois.
Vi uma chamada no híbrido Telecine Cult de A malvada (All about Eve, 1950), que, absurdo dos absurdos, vai ser exibido na sua versão colorizada, um atentado à integridade da obra cinematográfica e assassinato cultural dos mais pesados. Filme de Joseph L. Mankiewicz, com Bette Davis, George Sanders, Ann Baxter, trata-se de um clássico da sétima arte sobre os bastidores do teatro. O canal Cult, que se diz propagador do bom cinema, ao admitir a colorização de filmes antigos, está assassinando as obras cinematográficas. Já basta o abominável full screen (tela cheia). Não vejo mais filme no Cult originariamente feito em cinemascope e todo desfigurado, espichado, como é hábito do canal passar os filmes neste formato, a deformá-los na sua integridade original.
16 fevereiro 2008
Programa reformulado da nova oficina

A oficina tem uma carga horária de 24 (vinte) horas – três horas por semanas num total de 08 (oito) aulas.
Os filmes, da relação abaixo, serão exibidos em aula, e reservada uma hora (ou mais a depender do tempo de duração de cada um) para a exposição teórica e discussão da obra cinematográfica a ser apresentada sempre em vinculação explícita ao conteúdo programático.
Com apenas oito aulas (de três horas, cada uma), a escolha dos filmes ficou restrita àqueles que se afinam com o conteúdo programático de cada dia. Assim, ficaram fora do programa realizadores da maior importância, a exemplo de Ingmar Bergman, Charles Chaplin, Federico Fellini, Akira Kurosawa, entre tantos outros. A não inclusão deles não implica que os escolhidos sejam maiores ou superiores. Apenas uma questão de aplicação, como já disse, em relação ao conteúdo de cada aula. A dificuldade na seleção, a ver o tempo exíguo da oficina, leva obrigatoriamente à omissão de alguns grandes cineastas.
E assim como certos autores excepcionais ficaram de fora, não foi possível encaixar, dentro sempre dos conteúdos, o cinema brasileiro, que tem grandes e importantes obras, como Terra em transe e Deus e o diabo na terra do sol, ambas de Glauber Rocha, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, entre outras tantas.
Objetiva a oficina dar uma introdução ao cinema, como o seu nome já diz. O caráter é de introdução, portanto, introdução a uma linguagem, introdução a uma estética.
AULA 1 (10.03.)
A linguagem cinematográfica como produtora de sentidos. O elo semântico e o elo sintático. O cinema como linguagem e como estética. Narrativa e fábula no discurso cinematográfico. O nascimento do cinema e o processo de constituição de sua linguagem. A transformação do mundo em discurso a se servir do próprio mundo.
Filme base: O PASSAGEIRO: PROFISSÃO REPÓRTER (Professione reporter, Itália/França/Espanha, 1974), de Michelangelo Antonioni.
AULA 2 (17.03.)
Linguagem. Técnica. Estética. Os movimentos de câmera e a montagem como produtoras da significação. A mise-en-scène. Hitchcock como inventor de fórmulas e a simbiose forma/conteúdo. As estruturas da narrativa.
Filme base: UM CORPO QUE CAI (Vertigo, Estados Unidos, 1957), de Alfred Hitchcock.
AULA 3 (24.03.)
A transição da estética da arte muda para o cinema falado. A plástica das imagens e os recursos da montagem. A estética da arte muda. Montagem narrativa e montagem ideológica. Eisenstein como renovador da estética cinematográfica. A singularidade de seus filmes no contexto histórico.
Filme base: O ENCOURAÇADO POTEMKIN (Brenonosets Potiokim, União Soviética, 1925), de Sergei Eisenstein.
AULA 4 (31.03.)
Orson Welles e o ponto de partida da linguagem do cinema contemporâneo. O específico fílmico. O cinema e as outras artes. O romance filmado como uma utopia. As linguagens e suas singularidades. O problema da transfer.
Filme base: CIDADÃO KANE (Citizen Kane, Estados Unidos, 1941), de Orson Welles.
AULA 5 (07.04.)
A representação do real. Os modos de representação da realidade no cinema: realismo, idealismo, expressionismo, surrealismo. Ponto de vista e estrutura. Documentário e ficção. As vertentes do realismo. O expressionismo além de sua fonte inspiradora.
Filme base: AURORA (Sunrise, 1928), de Friedrich Wilhelm Murnau
AULA 6 (14.04.)
Cinema de gênero e cinema de autor. A consolidação de Hollywood através do studio system e do star system. Os grandes gêneros. A autoria possível dentro do sistema. Significação poética do western.
Filme base: OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane, Estados Unidos, 1953), de George Stevens.
AULA 7 (28.04.)
Importância do neo-realismo italiano. A Nouvelle Vague. A política dos autores. A revista Cahiers du Cinema e o aparecimento de uma nova crítica. A desdramatização e a antinarrativa de Rossellini, Antonioni e Godard. A angústia do homem contemporâneo.
Filme base: O DESPREZO (Le mépris, França, 1963), de Jean-Luc Godard
AULA 8 (05.05.)
A transformação na psicologia da percepção. O descondicionamento do espectador em função da fábula proposto por David Lynch. O cinema compreendido como estrutura audiovisual. Por que um filme tem que contar sempre uma história? Novas propostas para uma percepção mais sensitiva do qual racional e lógica.
Filme base: A CIDADE DOS SONHOS (Dr. Mulholland/ Mulholland drive, 2001), de David Lynch
Um filme é para sempre, de Ruy Castro (ed. Companhia das Letras)
A Linguagem Cinematográfica, de Marcel Martin (ed. Brasiliense)
Conhecer o Cinema, de Antonio Costa (ed. Globo)O Cinema, de André Bazin (ed. Brasiliense)O Cinema como Arte, de Rudolf Arnheim (ed. Aster - Lisboa)A Experiência do Cinema, org. Ismail Xavier (ed. Graal)O Gênio do Sistema, Thomas Schatz (ed. Companhia das Letras)Hitchcock/Truffaut, de François Truffaut (ed. Companhia das Letras)Cinema – O Mundo em Movimento, de Inácio Araujo (ed. Scipione)Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, Jacques Aumont e Michel Marie (ed. Papirus)As Teorias dos Cineastas, de Jacques Aumont (Papirus
Um Filme É um Filme, de José Lino Grunewald (ed. Companhia das Letras)
O Prazer dos Olhos, de François Truffaut (Jorge Zahar ed.)
Um Filme por Dia, de Antonio Moniz Viana (ed. Companhia das Letras)
15 fevereiro 2008
Introdução ao cinema de Godard

As primeiras letras, fê-las na Suíça, mas logo se transfere para Paris a fim de estudar no tradicional Liceu Buffon e, em seguida, forma-se em Etnologia pela Sorbonne. Em inícios da década de 50, vem a conhecer, na Cinematheque Française, Henri Langlois, com quem faz logo amizade. Publica em La Gazzette du Cinema suas primeiras críticas, que despertam curiosidade em cinéfilos aguerridos como François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette, André Bazin, que o convidam para ser crítico permanente da revista Cahiers du Cinema. Resolvido a conhecer os Estados Unidos, abandona suas atividades críticas e, na volta, emprega-se como operário na construção da represa da Grande-Dixence, na Suíça, apesar de diplomado com nível superior. Quer, na verdade, “sentir-se operário” e, findo o trabalho, o que ganha, emprega na produção de seu primeiro exercício fílmico: o documentário Operation Béton (1954). Volta para a revista e, desta vez, a praxis conduz o crítico, pois, em Genebra, faz, em 16mm, Une femme coquette. No campo curtametragista realiza, ainda, Tous les garçons s’apellent Patrick (1957), Charlotte e son lules, em 1958, e, neste mesmo ano, Une histoire d’eau, em co-direção com François Truffaut.
A sorte grande de Jean-Luc Godard é ter encontrado o produtor Georges Beauregard, que, interessado em bancar filmes para a renovação do cinema francês, aposta no cineasta e produz, para ele dirigir, Acossado (About de souffle), com argumento escrito por Truffaut, obra marcante e que inaugura a Nouvelle Vague. A seguir, já em 1960, O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat), filme sobre a trágica aventura – e uma tanto ridícula, convenha-se – de um agente secreto ocasional em luta contra as forças revolucionárias argelinas. Neste filme, já afirma precocemente seu caráter de autor, curiosa síntese de cinéfilo e cineasta.
No ano seguinte, um de seus melhores trabalhos, Uma mulher é uma mulher (Une femme est une femme), 1961, comédia ácida sobre a nostalgia do filmusical americano com alusão a Vincente Minnelli, entre outros, e com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina. Este filme merece ser destacado pela sua inusitada importância na época de seu aparecimento e pelo elogio ao cinema musical clássico realizado em Hollywood. A seguir, em 1962, vem Viver a Vida (Vivre sa vie), apólogo sobre uma mulher - Anna Karina, como de hábito – que vende seu corpo para, paradoxalmente, conservar a sua alma, dotado de profunda humanidade e de uma emoção insólita e pura.
A construção polifônica destes filmes, baseada numa tensão dialética entre a realidade e a fantasia, na qual se sintetizam vários planos superpostos – um relato fictício, um elemento autobiográfico, uma reflexão sobre a natureza do cinema, um tratamento documental, etc – dá origem ao que se pode considerar um novo gênero cinematográfico: o ensaio filmado. Este caráter dialético se faz mais patente nos “sketches” que realiza para vários filmes com um propósito claramente experimental: A preguiça, de Os Sete Pecados Capitais (Les sept péches capitaux, 1961), Rogopag (1962), Montparnasse-Levallois, episódio de Paris visto por... (Paris vu par..., 1964).
Segue Tempo de Guerra (Les Carabiniers, 1963), outro apólogo, mas, desta vez, feroz e sarcástico, num filme sobre a guerra, baseado numa comédia de Beniamino Joppolo, que adapta de Roberto Rossellini, A “escritura” de Godard se transforma, adquirindo mais virulência, com uma ressonância trágica e desencantada cada vez maior. Como prova, o admirável O Desprezo (Le Mépris, 1963), harmoniosa síntese de classicismo e modernidade. Reflexão sobre o cinema, este filme utiliza, com grande propriedade artística, os recursos da tela larga, do cinemascope, sendo indispensável ser visto e contemplado na sala de exibição em celulóide. Em alguns momentos, os corpos dos atores se transmudam em esculturas paralelas aos volumes arquitetônicos. Assim como a belíssima Brigitte Bardot, cujo corpo adquire, neste filme, um “teor escultural”. Beleza enquanto explicação da beleza, arte enquanto explicação da arte, cinema enquanto explicação do cinema.
A partir de 1963, a carreira de Jean-Luc Godard adquire uma atividade intensa, um ritmo febril, rodando dois ou três filmes por ano e saudado pela platéia dos ‘cinemas de arte e ensaio’ como um revolucionário, um “desconstrutor” da linguagem, um entusiasta do cinema enquanto ensaio fílmico. Uma geração chega a se formar, no Rio de Janeiro, para discutir Godard, constituída de jovens cariocas que, após as sessões de seus filmes, sentam-se nos barzinhos da rua Paissandú – a sala exibidora tem este nome – para discutir o último “travelling” do cineasta. A “godarmania” atinge a juventude nos tresloucados anos 60 e se espraia pelas principais centros intelectuais do planeta.
Cada novo filme de Jean-Luc Godard se constitui numa ambiciosa experiência em terrenos tão diversos como o poema romântico (Bande à Part, 1964) – inédito no Brasil, o ensaio psicológico (Uma Mulher Casada/Une Femme Mariée, 1964), e a ficção-científica (Alphaville, 1965). Por sua vez, O Demônio das Onze Horas (Pierrot, Le Fou, 1965) se estabelece como uma suma antológica de toda a sua obra, o ponto limite de uma série de experiências, num intento de recapitulação que parece anunciar o começo de uma nova etapa. Autor existencialista por excelência, sua obra se caracteriza por uma unidade profunda, ainda que a aparente disparidade de seus elementos. Seus filmes singulares – pelo menos os da primeira fase – podem ser integrados numa espécie de “macrofilme”, considerando-se a coerência de seus temas, seus personagens e seu estilo – e, como dizia Buffon, o estilo é o homem! Cineasta do instante, seus filmes resultam da justaposição de uma série de ‘momentos de verdade’ privilegiados, obtidos por meio de uma técnica de improvisação que tende a confundir os atores com seus personagens. A linguagem destes deixa de ser meio de comunicação para se converter em elemento expressivo – vide Belmondo em Pierrot, Le Fou a se dirigir aos espectadores quando uma estupefata Anna Karina lhe pergunta com quem está falando enquanto dirige um carro veloz pelo interior da França.
A síntese godardiana se encontra na “collage” dialética a meio caminho entre a montagem de atrações de Eisenstein e a estética da pop art. Suas obras se incluem entre aquelas de estrutura narrativa complexa e de fragmentação, com a união dos elementos mais díspares: rupturas de tom de comédia a tragédia e vice-versa, sempre na busca desesperada da representação de um equilíbrio instável entre o personagem e o mundo circundante.
A revolução godardiana determina uma interferência na sintaxe cinematográfica. O realizador de ‘Acossado’, após conhecer profundamente o cinema clássico, principalmente o americano do ‘grande segredo’, pôde, então, efetuar uma evolução nesta sintaxe através de modificações nos procedimentos cinematográficos, a exemplo da estruturação fragmentada de seus filmes com a inclusão de material de origem diversa da icônica, como livros abertos, atenção à palavra que está sendo dita ou lida, a montagem sincopada que não obedece a uma continuidade narrativa, etc. Na verdade, Godard expande a linguagem, possibilitando-lhe um maior campo de expressão como é exemplo o ensaio fílmico. A sua influência é devastadora, notadamente nos cineastas adeptos de uma “nova vaga”. Note-se que A Ilha das Flores, de Jorge Furtado, tem muito do Godard de Duas Ou Três Coisas Que Eu Sei Dela (Deux Ou Trois Choses Que Je Sais D’elle).
Poder-se-ia dizer que a trajetória de Jean-Luc Godard se divide em três fases, cabendo, num critério mais rigoroso, até a inclusão de uma quarta fase. A primeira é aquela que começa vibrando com Acossado – que este comentarista considera ainda a sua obra-prima – e termina, mais ou menos, em A Chinesa (1968) ou Week-end à Francesa. Maio de 1968 é um tempo de mudança, de rupturas e o cineasta considera que nada mais tem a dizer com a ficção, pois o cinema, para ele, deve partir para uma “ação armada”. A opção preferencial determina-lhe um engajamento num “cinema coletivo” sem concessões que denomina de “Grupo Dziga Vertov”, cujos filmes devem incitar à revolução do homem, presa das armadilhas do destino e das vicissitudes de uma sociedade injusta.
A característica apontada de um cinema de “collage” pode ser ainda melhor observada nos filmes mais recentes do cineasta. Jean-Luc Godard antecipa a pós-modernidade com seus ensaios fílmicos que permitem à linguagem cinematográfica uma força expressiva que vai além do mero suporte para o desenvolvimento fabulístico. Neste particular, o cinema de Jean-Luc Godard é um cinema “avant la lettre”.
14 fevereiro 2008
O cinema como estrutura audiovisual

Não vi ainda Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, que se está a elogiar muito, mas Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007), derradeiro opus de Joel e Ethan Coen, é uma maravilha de filme, que recomendo, aqui, sem nenhuma hesitação. Obra de construção rigorosa, onde predomina a tensão das situações, como se um fio elétrico estivesse inserido na estrutura narrativa (e isso só se conseque quando se é um mestre na manipulação da linguagem cinematográfica), é um exemplo, No country for old men, do cinema como estrutura audiovisual e da possibilidade do cinema contemporâneo ainda mostrar que tem a dizer alguma coisa. Acredito que este filme é a cristalização de um estilo que se vinha a moldar com o tempo. Se os fratelli já mostraram em filmes anteriores a sua inegável e indiscutível capacidade de invenção de fórmulas, em Onde os fracos não têm vez alguns excessos são podados, e a obra cinematográfica se faz perfeita e livre de gralhas na sua brilhante estrutura narrativa. Não acredito que haja algum filme capaz de lhe superar neste ano. Talvez se Alain Resnais possa vir a lançar uma obra nova, pois este é um gênio que ainda pensa cinematograficamente num universo de realizadores que apenas estilizam o que já se fez. Há, nesta surpreendente obra fílmica, a revelação de um discurso cinematográfica que se estabelece, como já disse, na estrutura audiovisual, que é o cinema, para a emergência da produção de sentidos. No country for old men é cinema na mais exata expressão da palavra. O resto é conversa fiada.
A ida a um Multiplex para ver um filme de tal quilate, no entanto, aborreceu o blogueiro. Há, de fato, uma demencia precox na geração atual que frequenta as salas exibidoras. Um indivíduo a meu lado conversou durante a projeção com o celular ligado, a ponto de, quase com a psicopatia de Javier Bardem, levantar-me hidrófobo e gritar: "Pare de falar no celular, seu idiota!" Duas filas atrás, uma mulher, débil mental, repetia o que via na tela, a comer dois imensos sacos de pipoca. O que acontecia na tela ela repetia a seu infeliz companheiro: "Veja, ele matou mesmo o cara!" Paciência quase a estourar, percebi que minha tensão arterial tinha subido com um risco de enfarte ou AVC iminente. Mas o filme é tão bom que procurei esquecer os ruídos. E penetrar na sua mise-en-scène, a ignorar as bestas circundantes.
12 fevereiro 2008
Houve empate na pesquisa

11 fevereiro 2008
NOVA OFICINA DE INTRODUÇÃO AO CINEMA
Objetiva introduzir o aluno à linguagem e à estética da arte do filme. Considerando que a maioria das pessoas que vai ao cinema somente se preocupa com a história, a trama, o enredo, a oficina tem o propósito de desvendar que o cinema não se resume, apenas, ao elo semântico, mas a sua plenitude se estabelece pela conjunção entre o elo sintático (a linguagem, a maneira pela qual o realizador cinematográfico articula os elementos desta em função da explicitação do tema, do assunto) e o elo semântico (a significação em si). Muitas vezes, nos filmes dos grandes cineastas, a significação não advém, apenas, da história, ou seja, do elo semântico, mas da utilização dos elementos da linguagem cinematográfica, isto quer dizer, do elo sintático, da narrativa.
A oficina, portanto, tem um caráter eminentemente didático, na procura de oferecer a compreensão dos elementos básicos da linguagem do cinema tendo em vista a emergência de uma poética, de uma estética do filme. Também contempla a questão fundamental da narrativa e da fábula, sendo esta última compreendida com o que vulgarmente se convencionou chamar de enredo.
A oficina está programada em 8 (oito) aulas, uma vez por semana, às segundas, das 19 às 22 horas, com uma carga horária total de 24 horas. Com 20 vagas.Local da realização: Solar da Esquina, Largo de Santana, Sala 7 (casarão ao lado da "Acarajé de Regina" e em frente à casinha, que fica do outro lado da rua, de Yemanjá).
Data: de 10 de março a 5 de maio (data da última aula)Inscrição: a matrícula se dá com a apresentação do depósito de pagamento no banco da quantia estipulada, que é a de R$200,00 (duzentos reais). Feito o depósito, o candidato deve guardar o comprovante e enviar um e-mail notificando de sua realização. A entrega do comprovante deve ser feito obrigatoriamente quando da primeira aula.
Para maiores informações: e-mail para setaro@gmail.com Meus telefones: 3247.2290 e 88067572
Dados: Banco do Brasil. Agência: 3457-6. Conta: 648.427-1. Em nome de André Olivieri Setaro.
Quem se interessar pela oficina, escreva para o e-mail acima para que possa enviar, imediatamente, o programa.
IMPORTANTE: AO FINAL DO CURSO, CONFERIDO UM CERTIFICADO ASSINADO POR MIM.
10 fevereiro 2008
Hitch 2008

O cartaz atual de Alfred Hitchcock segundo a revista Vanity Fair cujo link para acessar se encontra no post abaixo. A foto original é a do mestre com a claquete de Psicose (Psycho, 1960). No desastrado remake de Gus Van Sant deste filme, uma das maiores complicações está na questão do tom dos personagens, que se adaptaram à gestualística da malfadada contemporaneidade. No filme de Hitch, havia elegância, postura, um tom particular.
Marnie, com Naomi Watts?
A revista Vanity Fair dedicou um número a recriar composições clássicas dos filmes de Alfred Hitchcock com astros e estrelas da atualidade. Para ilustrar o blog, escolhi a foto de Marnie, com Naomi Watts no lugar de Tippi Hedren. Considero Marnie um dos maiores filmes do mestre, uma obra de fôlego, sinfônica, além do mais. Quando lançada foi desprezada por uma crítica que não estava a entender o processo hitchcockiano de produzir sentidos. Mas o que importa aqui não é discutir Marnie, mas chamar a atenção para o link que contém muitas fotos atuais de antigos filmes de autor de Um corpo que cai (Vertigo). Ei-lo: http://community.livejournal.com/ohnotheydidnt/20148385.html08 fevereiro 2008
O pau que dá em Chico também dá em Francisco
Tuna Espinheira, velho de guerra, que acabou de finalizar (com Dolby) o seu primeiro longa, Cascalho, foi acusado por Walter Webb de aprontar em Andaraí, bela cidade do interior baiano onde rodou o seu filme. A mensagem de Webb, com seu costumeiro estilo machadiano, está em postagem abaixo. Já não queria mais ficar a martelar o caso Seqüestro/Revoada, mas creio que o apoio que recebeu é importante, e as acusações webberianas não podem ficar sem a devida resposta. O depoimento a favor do Velho é de Luiz Antonio Gerace (Chacra), presidente do Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual – STIC. Antes, porém, a mensagem de Tuna e, logo abaixo, o texto de Chacra.Velho Andre: Mandei o depoimento do atual Presidente do Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual – STIC.
Ele foi o Diretor de Produção do filme CASCALHO. Como eu sou cioso das palavras quando escrevo, do mesmo jeito sou cioso da minha conduta ética e profissional, quando faço um filme. Acabei de receber este texto que, julgo eu, sem medo de errar, está acima de qualquer suspeita, de autoria de um profissional respeitado e Presidente de um grande Sindicato de trabalhadores do Cinema e do Áudio Visual do Rio de Janeiro.
Gostaria que você o incluísse no seu Blog, uma vez que é um atestado que não acirra a baixaria arquitetada pelo, não vou dizer o nome, outro. Vale lembrar que, nos bons e respeitáveis, contatos com a comunidade de Andaraí, fomos agraciados com uma inesquecível, indelével homenagem: “CASCALHO”, a mais nova e aconchegante, Pousada da cidade, foi batizada assim por causa do filme. Fico Aqui.
ABS. Tuna
Independente da minha condição transitória, de ser o atual presidente do STIC. Antes de mais nada sou, e me orgulho muito de ser, um diretor de produção cinematográfico, formatado através dos tempos, dentro de um modelo brasileiro de fazer cinema. Neste sentido, gostaria de deixar patente, que não foram tantas ocasiões assim, como no caso da produção do ¨CASCALHO¨, em que pude exercer minha função em toda a sua plenitude. Respaldado que fui por uma equipe liderada por você, em que predominou, todo o tempo um clima ético-profissional, que fez com que não só eu, mas tambem os demais companheiros e companheiras da equipe, tivessemos a certeza de ter sido partícipes do resultado filmico, que esta produção pode oferecer hoje, não só para seus apoiadores, como tambem para nossas platéias.
Com um forte abraço,
Luiz Antonio Gerace (Chacra)
Presidente do STIC
07 fevereiro 2008
Pausa para olhar a beleza de Ingrid Bergman

Cary Grant e Ingrid Bergman em Interlúdio (Notorius, 1946), um dos mais brilhantes filmes de Alfred Hitchcock. Infelizmente a cópia em DVD distribuída pela Continental deixa muito a desejar. Acontece que Notorius foi recusado, a princípio, por um grande estúdio, e sua equipe encontrou guarida apenas na R.K.O. Assim, ficou desprotegido para o lançamento em DVD, e a Continental ou comprou seus direitos ou é capaz de o filme ter caído em domínio público. Pena porque a grande maioria dos filmes do mestre está lançada no disquinho em excelentes cópias, principalmente os filmes coloridos de Hitch, em Vistavision, a exemplo de Intriga internacional e Os pássaros, entre outros. Em Notorius presente a quintessência hitchcockiana. O mestre furou o conceito de obra-prima (que é a melhor de determinado artista) por ter realizado várias. Fica até difícil dizer: qual a obra-prima de Alfred Hitchcock?
Enquanto isso, nas telas brasileiras, o impacto de Onde os fracos não têm vez (No country for old men), dos irmãos Coen, obra especialíssima, e difícil de encontrar algo parecido no anêmico cinema da chamada contemporaneidade. Joel e Ethan Coen privilegiam, antes de tudo, em sua maneira de construir espetáculos, o cinema enquanto elo sintático. Para ver urgente, pois, não tenho dúvida, um dos maiores lançamentos de 2008. E encontrar filme bom, na atualidade, é como encontrar agulha no palheiro: muito difícil. Há interpretações inexcedíveis. Em primeiro lugar, destacaria Tommy Lee Jones (seria impossível encontrar outro ator tão bom para o personagem), Javier Bardem e Josh Brolin, todos a atuar segundo a batuta dos irmãos.
A pesquisa "quem é o maior de todos" já se encerrou. Venceu, com 60 por cento dos votos (17), Glauber Rocha. Em segundo lugar, Rogério Sganzerla com 21 por cento (6 votantes), e, em terceiro, Nelson Pereira dos Santos, com apenas 10 por cento e 3 votos. Roberto Farias, 7 por cento, 2 votos. Mário Peixoto, o realizador célebre de Limite, ficou sem votos. Votei em Glauber porque autor de duas obras-primas absolutas do cinema brasileiro: Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe. Nelson tem grandes filmes (Vidas secas), mas uma filmografia irregular. Rogério realizou o extraordinário O bandido da luz vermelha, que está na minha relação dos cinco maiores brasileiros de todos os tempos.
Encerrei o affair Revoada, a salvar, apenas, algum fato novo significativo que venha a acontecer. E a esperar que o realizador, o autor do filme, José Umberto, consiga reaver o seu domínio sobre o corte final.
06 fevereiro 2008
Sociedade de Estudos do Cangaço solidariza-se com Zé

Tuna dá o troco
O Walter Webb tentou, usando as mentiras insidiosas, única coisa que sabe fazer, atirar contra mim, como não sabe escrever e o raciocínio é rasteiro, acertando o próprio pé, porque atinge o Emilio Tapioca, ao qual ele se refere como testemunha contra mim, uma vez que o citado fez parte da produção de CASCALHO. Retornei mais de três vezes a Andaraí e sempre fui bem recebido, andei por lá de cabeça erguida e pretendo voltar sempre. Ele chama de direito de resposta as suas mal traçadas linhas e não responde nada. Eu não o acusei de nada, embora ele esteja respondendo processo pó malversação com o dinheiro da produção de REVOADA e seqüestro do filme. Eu apenas disse e repito: “Walter Webb vai morrer afogado no próprio vomito”. Referia-me as suas acusações, sem provas, ao Zé Umberto, eivadas de baixaria. Ele diz que não sou do tempo dele. É verdade, quanta felicidade por não tê-lo conhecido! Qualquer que seja o tempo que ele andou por aqui, deixou apenas um rastro de histórias de picaretagens. Foi isto que sempre ouvi. Qual foi o trabalho que ele fez? Basta ler tudo que foi escrito sobre o cinema baiano para se constatar que ele não pertence a esta história, seu nome é noves fora zero. Ilustre desconhecido,vá procurar o seu bloco, vá se “assuntar.”
Tuna Espinheira
Nota: André, caso você publique o arroto deste abominável Webb, peço para incluir este meu texto.
Tuna
Não mais responderei a este abominável homem dos noves-fora.
ABS. Tuna Espinheira"
