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29 março 2007

Por que todo filme de Blake Edwards é bom?


Por que todo filme de Blake Edwards é simpático, fluente, agradável de ver, inusitado em certos momentos, dotado de timing surpreendente? Não é, no entanto, um realizador tão valorizado como deveria ser, ainda que tenha, pelo mundo, admiradores que guardam na memória seus filmes. Mas é verdade que às vezes somos exagerados, como o estou sendo aqui, neste blog, pois Edwards tem, na sua ficha filmográfica, pequenos filmes incapazes de se assomarem como obras surpreendentes. Mas, de uma maneira geral, o dito acima (Por que todo filme de Blake...) não fica deslocado porque são tantos os filmes atraentes de Edwards que ficamos impressionados com a sua sensibilidade, o seu senso de humor notável, a sua picardia, o seu extraordinário sentido de espetáculo como se fazem ver em obras como Victor/Victoria (1982), talvez a última comédia do grande cinema americano, A corrida do século (The great race, 1965), Um convidado bem trapalhão (The party, 1968), esta uma comedia de antologia, uma das mais engraçadas de todos os tempos, Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961), A pantera cor-de-rosa em seu conjunto, excetuando-se aquela do filho desta, oportunismo do autor, O que você está fazendo na guerra, papai? (What Did You Do in the War, Daddy? ,1966), entre outras. Blake também se faz implacável em dramas ásperos e sérios, dotados de contundência e tensão inusitadas, a ver em obras como Vício maldito (Days of wines and roses, 1962), ou em Escravas do medo (Experiment in terror, 1962), um exercício de thirller a fazer valer o que fizera em seriados acima da média como Peter Gunn e Mr. Lucky. E, de repente, revendo em televisão que se diz ‘cult’, ainda que em tela deformada e cheia, o abominável full screen, perceber que há, e muito, encantamento num filme perdido de sua filmografia, Minha adorável espiã (Darling Lili, 1970), com Rock Hudson e Julie Andrews.
Mas o assunto renderia muito mais. Blake Edwards é inesgotável. Pena aqueles que lhe fazem reservas geralmente tão mal humorados e tão medíocres.Na foto, Blake Edwards quando, ano passado ou retrasado, recebia, pelo conjunto da obra, um Oscar honorário.

28 março 2007

Macarrão de linha



Com a perversa dolarização da economia, as contas mensais de um classe média brasileiro não fecham. O energúmeno do FHC detonou o processo (que se poderia dizer inicado por Collor, mas houve um homem mais nobre, Itamar Franco, que, substituindo este, deteve um pouco o processo de esfacelamento do Brasil, que, sim, foi efetuado com a garra e disposição necessárias pelo príncipe dos sociólogos). Por ser um classe média, e no intuito de melhorar meus proventos, abri uma fábrica artesanal de macarrão que, graças a Deus e a Edelzuita, está dando certo - veja a foto de um produto de minha empresa micro que, dia que passa, anda, célere, para se tornar macro. Como me sinto como empresário? Bem, muito bem. O lucro, ainda não o vi, pois, agora, tudo é investimento. Mas me vejo no futuro com um cachimbo a tomar Johnny Walker selo azul, que custa, cada garrafa, cinco mil dólares. Deus seja louvado!

27 março 2007

"Mise-en-transe"


Em Terra em transe, de Glauber Rocha, quando Jardel Filho se desloca de metralhadora em punho no pátio onde se encontram vários personagens, que rodeiam José Lewgoy – e, entre eles, Francisco Millani, Mário Lago, Paulo César Pereio,Glauce Rocha etc, pode-se falar com toda a pertinência de uma mise-en-scène, pois as pessoas entram e saem de campo, do enquadramento, como se estivessem a executar alguma dança. Assim, metteur-en-scène seria aquele que mete em cena, ou, melhor, aquele que coloca em cena, e, em conseqüência, mise-en-scène, colocado em cena, metido em cena. Terra em transe não é à toa que pode ser considerado o maior de todos os filmes brasileiros, pois aqui encontramos pura mise-en-scène, puro cinema, para se ser mais exato. Nesta obra ímpar, de singularidade majestosa, sente-se a influência de um Orson Welles aqui,deum Godard ali,de um Alain Resnais acolá.

23 março 2007

Objetos mágicos recuperados


A jornalista Clara Fagundes viu os objetos, que se dizem mágicos, da exposição de Ediane e escreveu suas impressões no texto a seguir:
"A exposição de Ediane do Monte recupera objetos mágicos. A matéria-prima é mulher. Expostas do cabelo ao sapato, em barro, tintas, pedras. Sapatos, muitos sapatos, pintados, esculpidos. São sapatos de bruxa, que remetem a lendas antigas.
Penetra surdamente no reino de objetos encantados, que encarnam suas amas. Que brincam de joguinhos geométricos. Que namoram e atraem seus objetos-pares, em pequenos conjuntos, mini-exposições.
Os cabelos tecem ninhos emaranhados, cerzidos em delicados aconchegos. Pintados nos auto-retratos, se fazem acompanhar de papeis de ervas quase secretas, feitos no ateliê-casa. Pão da arte. Sobre o papel, se insinuam pequenos traços – cabelos?
Ediane comete pequenos atentados poéticos nas subversões de materiais: pintura a barro, escultura de cabelos, colagem em pedra. São burburinhos experimentais pouco pedantes; a narrativa continua sendo dos objetos-mulher.
Um deles, uma escultura-sapato meio bamba, dessas que um dia se perguntaram se chegariam a ser expostas, me soprou uma antiga lenda do folclore europeu. Com moral da história ao fim, do modo que se costuma contar às crianças. Publicada em livro, para que não se possa dizer que ele inventou."

Desutilidades poéticas


A vernissage da exposição Desutilidades Poéticas da artista e poeta Ediane do Monte, que é minha amiga, e que divide o seu tempo entre a Alemanha e o Brasil, ocorrerá no dia 10 de abril de 2007, às 19 h, no Goethe-Institut.

A mostra é composta por diferentes experiências estéticas que se traduzem em quadros e objetos reinventados a partir de materiais diversos, entre os quais fios de cabelo e papel reciclado.

Há um certo caráter conceitual nas propostas da artista. As relações que ela estabelece são enigmáticas e obrigam o expectador a lidar com uma escrita estranha, a lidar com um outro mundo.

Visitação: 11 de abril a 30 de abril 2007.Segunda-sexta das 9 as 18 h.
Entrada franca

Goethe -Institut,Avenida Sete de Setembro 1809-Vitória,4001 Salvador/Bahia-
Tel.(71) 3337-0120
www.goethe.de/bahia -


www.expoart.com.br/edianedomonte


Atenciosamente Produção de Divulgação.
Du Mont Ne Anderer

Contato: Ediane do Monte
Atelier Frida Kahlo II
Tel.:71- 3332-2123 ou 9954 -0282
geishartistica@hotmail.com

20 março 2007

...E haja saco!



Ir ao cinema hoje, já o disse aqui várias vezes, é como se ir ao fast food e se entupir de colesterol e triglicérides. Mas soube, através de um ótimo artigo de Saymon Nascimento (que pode ser lido neste link: http://www.nacoco.com.br/boulevard/cinemanovos.html) que novas salas de cinema se abrirão em Salvador. Tudo, no fundo, não passa de mercadoria. Nesta era globalizada, creio que o cinema, como era visto e amado antigamente, acabou-se, não existe mais. O chamado cinema de arte também virou mercadoria. Há ótimas perspectivas comerciais para o filme de arte (que na verdade não existe) e os empreendedores não perdem tempo. As salas dos cinemas alternativos andam cheias de pseudo-cinéfilos. E haja saco para aguentá-los. Bata-me, falar nisso, correndo, um abacate! Na foto que encima (ou ladeia) o post, eu (after enfarte e pontes de safena) com o cineasta alemão Wim Vanders.

Clint Eastwood no princípio



Artigo escrito especialmente para o site Coisa de Cinema, que recomendo, aos três leitores que tenho, a fazer, virtualmente, uma visita (http://www.coisadecinema.com.br). É sobre Clint, que aprecio desde quando comia spaghetti na Itália. Por sinal, acabei de comprar nas Lojas Americanas, por preço módico, Perseguidor implacável (Dirty Harry, 1971) para ter o prazer de reassisti-lo chez home. O mais é conversa fiada e aporrinhação de intelectuais ignorantes.
Considerando que existem três espécies de realizadores cinematográficos, o autor, o estilista, e o artesão, Clint Eastwood, o diretor do recente (e notável!) Cartas de Iwo Jima, seria o caso de um artesão que aos poucos foi se moldando como um autor de filmes. E um dos mais expressivos e significativos do cinema contemporâneo. Para se detectar um autor, é necessário que o realizador tenha já alguns filmes, a fim de que, na análise comparativa de suas obras, possa se estabelecer as constantes temáticas e estilísticas. Para que se configure como um autor, o cineasta precisa ter uma visão de mundo e uma visão de cinema, isto é, um universo ficcional próprio e uma maneira peculiar de explicitar o seu repertório temático através das imagens em movimento. Autores marcaram a história da arte do filme e, também, provocaram polêmica, principalmente quando da emergência, na França, via Cahiers du Cinema, da Política dos Autores (Politique des Auteurs). São autores de filmes, para ficar apenas em poucos exemplos, Ingmar Bergman, Fellini, Chaplin, Welles, Hitchcock, entre tantos outros, pois realizadores que possuem, nítidas, constantes temáticas e constantes estilísticas.

Já o estilista não possui universo ficcional próprio, mas tem uma maneira muito sua de articular os elementos da linguagem cinematográfica, um estilo particular, uma marca registrada. Não seria Steven Spielberg, por exemplo, um estilista? Ainda que em sua filmografia possam ser notadas preocupações relativas à necessidade do conforto familiar, do retorno à infância, do imaginário construído em torno da célula mater, etc. Mas o que tem a ver Parque dos dinossauros com A lista de Schindler? O que tem a ver Os caçadores da arca perdida com Amistad? Não se colocaria Spielberg no panteão dos autores nem dos artesãos. Estes se caracterizam pela ausência de constantes temáticas e pela inexistência de um estilo, de uma marca. Realizadores sem estilo, os artesãos, no entanto, sabem contar uma história, desenvolver uma narrativa em função da fábula e estão confinados à falta de ambição e propósitos outros que não estejam conectados com o desenvolvimento do roteiro. É verdade que um grande autor pode ser de mais valia para a história da arte do filme do que um grande artesão. Mas o fato de o realizador ser um autor não o credencia a ser melhor do que o artesão. Tudo na vida, como no cinema, é relativo. Muitas vezes, melhor um afiado artesão do que um autor chato, pachorrento, pretensioso, do qual o cinema está cheio pelas bordas.

Mas o objeto deste artigo é Clint Eastwood, caso um pouco raro de artesão que, aos poucos, foi se construindo como autor, e autor, diga-se de passagem, do primeiro time. Clint nasceu numa ladeira da cidade de San Francisco em 31 de maio de 1930. Vai fazer, portanto, 77 anos, já beirando os 80 e ainda em plena forma, ativo, lépido e fagueiro, prestes a iniciar um novo longa metragem. Família pobre, de parcos recursos, a obrigar o menino ao exercício da sobrevivência como entregador de pizzas, faxineiro de armazém, entre outros trabalhos do gênero. Rapaz, perambulava pelas ruas de San Francisco (com suas ladeiras celebrizadas em Bullit, de Peter Yates, ou, mesmo, no delirante Um corpo que cai/Vertigo, do mestre Hitch), a namorar as garotas nos anos dourados dos 50, mas com o pensamento nas telas do cinema. Em 1954, após muito batalhar, consegue participar de um sem número de seriados da Universal, fazendo pontas sem sucesso. Foi preciso esperar uma década para, em 1964, num intervalo do seriado Rawhide receber um convite para trabalhar num filme na Itália. Era Por um punhado de dólares, de Sergio Leone. Com este, participou de mais alguns filmes: Por uns dólares a mais, Três homens em conflito. De volta aos Estados Unidos, teve a sorte de encontrar Don Siegel, cineasta de grande dinamismo, de timing envolvente, que, pode se dizer, ensinou a Clint muitos dos segredos da arte de contar uma história com ritmo, eficiência, economia narrativa. Clint abriu uma produtora, a Malpaso, em 1968, e bancou alguns filmes de Siegel e, enquanto atuava, aprendia, perguntando, olhando, curioso. Perseguidor implacável (Dirty Harry, 1971), de Siegel, pode ser considerado – ao lado de Meu ódio será tua herança/The wild bunch, de Sam Peckinpah, o detonador da violência no cinema contemporâneo. Filme de ação irretocável, que marcou a década de 70, Dirty Harry estabeleceu a figura do policial lacônico interpretado por Clint, Harry Callaghan, que seria continuado em uma série de outros filmes (sem a marca de Siegel, entretanto). O “homem sem nome” dos filmes de Leone encontrara um novo posto na pele de Callaghan. Dirty Harry tem um precursor, que é Meu nome é Coogan (Coogan’s buff, 1968), do mesmo Siegel, com Clint como um policial interiorano que vai a Nova York buscar um criminoso que se evadira. A estruturação psicológica de Coogan é, mutatis mutandis, a mesma de Callaghan.

Ter uma empresa produtora ajudou muito a Clint na sua escalada como diretor. O seu princípio, no entanto, a julgar pelos seus filmes anunciadores da trajetória como cineasta, não oferece sinais do realizador que viria a ser. Em 1971, consegue financiamento para rodar Perversão paixão (Play misty for me), thriller sobre um radialista que se vê perseguido por ouvinte apaixonada, um exercício de suspense sem que se enxergue, nele, nada de extraordinário, mas a rotina comum aos filmes do gênero. Já a segunda tentativa, a de fazer um western fantasmagórico em O estranho sem nome (High plains drifter, 1972), com ele próprio e Verna Bloom, tem um cuidado visual que lembra Leone, e uma dinâmica no estabelecimento da ação que remete a Siegel, além do tema que beira, na tradição do gênero, o sobrenatural. O terceiro empreendimento, Interlúdio de amor (Breezy, 1973), melodrama sobre um homem de meia-idade (William Holden) que se apaixona por jovem (Kay Lenz) faz parecer que Clint, além de híbrido, é prolixo, considerando a salada de gêneros nos filmes dirigidos: um thriller fraquinho, um western com ponta inteligente, e um melodrama com clima seco.

Seria preciso esperar alguns anos para se ver em Clint um cineasta, pois Escalado para morrer (The eiger sanction), ação, cinema em movimento, de 1975, ainda não apresenta nada para surpreender. Josey Wales, o fora-da-lei (The outlaw Josey Wales, 1976), outro western, apesar de passar batido por uma crítica em busca das celebridades já carimbadas, e incapaz, como acontece sempre, salvo as exceções de praxe, de descobrir talentos, é filme interessante e muito acima da média, capaz de fazer ver o nascimento, em The outlaw Josey Wales, de um verdadeiro cineasta (e quem não acreditar pode tirar a dúvida no DVD). Clint trabalha ao lado de sua então esposa Sondra Locke (que depois viria, também, a dirigir, mas filmes insignificantes, à sombra do marido), que também aparece no filme seguinte, Rota suicida (The gauntlet, 1977), thriller de grande força, que, além de proporcionar excelente entretenimento, dá a seu diretor a oportunidade de conjugar ação e ironia, ironia e ação. Os que se seguem são fitas menores, obrigatórias, porém, na missão da sobrevivência: Bronco Billy (1980), Firefox, a raposa de fogo (Firefox, 1982), Impacto fulminante (Sudden impact, 1983), uma aventura de Callaghan dirigida por ele mesmo, que Clint filma para fazer caixa para um projeto mais ambicioso e com menos possibilidade de ser apoiado por um grande estúdio.

Para os que não enxergaram, e não conseguiram ver, que a semente do Clint cineasta estava em Josey Waley, seu filme de partida foi considerado em outro western, sombrio e magnífico, autoral, O cavaleiro solitário (Pale rider), em 1985. Neste, já se mostra que existe uma narrativa que transcende o mero entrecho fabular, fazendo despontar um pensamento que se faz imagem em movimento. Com o gênero em franca decadência, para não dizer desaparecido, a bilheteria lhe foi madrasta, precisando corrigir as burras de sua produtora com produto para consumo rápido: O destemido senhor de guerra (Heartbreak ridge, 1986).


Cartas generosas



O que se segue é uma impressão logo que vi Cartas de Iwo Jima, por assim dizer, no calor da hora. Publicado no vibrante site Nacocó (http://www.nacoco.com.br), porque já com um mês de nascido, é difícil sua localização. Trago-o, no entanto, para meu blog. E, depositando-o, de qualquer forma e de qualquer maneira, ainda que perseguido pela Net, que me tirou o acesso a internet, atualizo um pouco este blog já tão perdido e desatualizado. Já telefonei 64 vezes para a Net, e sempre em sinal ocupado. Falta somente ir ao escritório, que fica muito, muito longe, no Caminho dos Infernos, quer dizer, Caminho das Árvores.


Dizer o que de Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2007), de Clint Eastwood? Visto no dia anterior à escrita desta, ainda estou – coisa rara de acontecer no cinema contemporâneo! – sob o impacto de sua grandeza como obra cinematográfica, que atinge, a meu ver, acentos shakespearianos em alguns momentos como naquele em que os soldados se suicidam com granadas ou na estruturação psicológica do General Tadamichi Kuribayashi, um personagem bem eastwoodiano, por sinal, com retidão ética e determinação (que tem interpretação inexcedível de Ken Watanabe). Dizer, então, que é o maior lançamento de 2007, uma obra de grande humanidade que foge à raia medíocre na qual estão lotados quase todos os filmes atuais? A indústria cultural hollywoodiana, comandada por executivos que nada têm a ver com o cinema, patrocina espetáculos que se apóiam nos efeitos especiais em detrimentos dos personagens, que ficam relegados à condição de títeres, de marionetes, de homens sem alma.

Assim, nos filmes atuais, poucos os cineastas com a estatura humanitária de Clint Eastwood, que, sobre ser um realizador que domina uma narrativa quase muscular, se destina a explicitar, com os elementos da linguagem, apenas o absolutamente necessário, mas sem, com isso, desprezar a magia do espetáculo cinematográfico. Eastwood é um realizador do essencial, mas, discípulo confesso de Sergio Leone, Don Siegel, e Howard Hawks, vê-se, em seus filmes, que utiliza mais as lições dos dois últimos, evitando o espalhafato estético do primeiro (ainda que de grande impacto e que atinge o que os antigos estetas chamavam de maravilhoso). Em Letters from Iwo Jima, cujas filmagens foram feitas imediatamente depois de A conquista da honra (Flags of our fathers), o que inspirou o cineasta foram as cartas deixadas por Kuribayashi, escritas para seus entes queridos enquanto comandava, da desértica e vulcânica ilha japonesa de Iwo Jima (e a rodagem da fita foi feita nela, in loco), a batalha que marcou a participação de seu país na Segunda Guerra Mundial. A glorificação, e a desmistificação dessa glorificação, já tinha sido objeto de Flags of our fathers, e aqui, em Letters from Iwo Jima, Eastwood pensou nos sentimentos japoneses, pois a guerra, desumana, castradora, é uma só. Os americanos, para enfatizar os esforços de guerra, fizeram alguns filmes heróicos sobre o tema, em particular Iwo Jima, o portal da glória (Sands of Iwo Jima), de Allan Dwan, quatro anos depois de findo o conflito, em 1949, com John Wayne.

A fotografia de Tom Stern procura despir o colorido para fazer emergir um matiz cinza, pois uma guerra, como disse Eastwood, não poderia ser filmada em technicolor. Stern sabe trabalhar com a luz e como se esta fosse um cinzel esculpi as sombras e os contornos dos soldados inundados pelo luar. Em alguns momentos, os enquadramentos, ainda que cinzentos, dão a impressão de quadros expressionistas. Este trabalho da luz está de acordo com as solicitações do drama que está sendo contado. Tudo funciona, em Letters from Iwo Jima, como um conjunto harmônico em função da explicitação temática como de hábito em toda obra fílmica que se queira expressiva. A grande maioria dos filmes, no entanto, privilegia a fábula (entendida esta como a trama, o enredo, a história). Clint Eastwood fala da História sem, contudo, ficar preso aos grilhões da história. Neste particular, além da fotografia, há também o uso do som dolby para acentuar o impacto desumano da guerra como elemento de destruição e perda. De qualquer forma, as cenas de batalha, nas trincheiras ou pelos aviões, são filmadas com um rigor extremado para causar impacto.

Baseado nos livros epistolares Picture Letters from Commander in Chief, de Kuribayashi (o general, comandante chefe), e de
Tsuyoko Yoshido (o soldado que era padeiro antes de entrar na guerra, e foi o responsável pela permanência das cartas de seu chefe, quando as enterra para ser descobertas na posteridade), o filme de Clint Eastwood tem um claro objetivo ao mostrar a amargura da vitória em A conquista da honra (lembrando, em certos aspectos, Baionetas caladas/Fixed bayonets, de Samuel Fuller, 1951, com Richard Basehart, Gene Evans). E o toque de humanidade se insinua a partir mesmo das primeiras tomadas, com a chegada de Kuribayashi a Iwo Jima, quando, ainda no avião, recorda-se da sua casa, pedindo desculpas por ter saído sem ter limpado o chão da cozinha. O veio condutor do espetáculo que se vai armando, nas frias trincheiras do combate, tem como leitmotiv as cartas do general e do soldado. Elas, em flash-backs, em seqüências cuja fotografia sai de suas cinzas para adquirir um colorido mais intenso embora discreto, conduzem o espectador a certos fatos pretéritos que podem definir melhor as personalidades dos protagonistas. Como o momento no qual o soldado é surpreendido, no aconchego de seu lar, ao lado de sua mulher, grávida, pelos soldados que vêem convoca-lo para a guerra. Ou na seqüência em que um outro salva um cão da morte anunciada e depois, descoberto, vem a perder a sua graduação, seqüência que lembra o Akira Kurosawa de Dodeskaden ou de tantos outros que realizou com sua particular maneira de ver o homem e as coisas. Acredito, mas fica na mera suposição, que Clint Eastwood, nesta seqüência, tenha querido homenagear o mestre japonês.

Errou quem disse que o conceito de honra dos nipônicos não fora bem compreendido e mostrado por Clint Eastwood em Letters from Iwo Jima. Há, sim, no filme, uma certa demonstração de uma cultura feudal de samurai que ainda se impregnava pelos soldados japoneses. Um dos representantes dessa cultura está no personagem que tenta, por duas vezes, matar o soldado-padeiro, a segunda vez tentando cortar-lhe a cabeça, quando é dominado por Koribayashi. Não é certo dizer, como li em uma crítica ao filme, que este se tornara mais brando e consciente por ter passado um período de estudos nos Estados Unidos. O flash-back rememorativo do jantar em sua homenagem, quando recebe de presente um revólver – signo mais que presente em todo o transcorrer da narrativa – é apenas indicativo e não demonstrativo, indicativo do choque entre personalidades de culturas diversas. Eastwood, como disse bem Inácio Araújo em relação a Cartas de Iwo Jima, não é realizador de chutar cachorro morto.

Nenhum outro filme que concorreu ao Oscar se compara a Cartas de Iwo Jima, que é, desde já, um dos grandes momentos do cinema da década que se iniciou no pálido 2001. Para os descrentes nas possibilidades expressivas do cinema contemporâneo, como este que escreve estas mal traçadas, Cartas de Iwo Jima foi um bálsamo, que o deixou, ainda que a crueldade da guerra, mais feliz com as possibilidades criadoras do cinema nesta que se chama de contemporaneidade. Obrigado Clint Eastwood, muito obrigado!

Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, Estados Unidos, 2006), 2h20. Drama de guerra. Direção de Clint Eastwood. Roteiro de Iris Yamashita e Paul Haggis baseado em obra de Tadamichi Kuribayashi e Tsuyoko Yoshido. Com Ken Watanabe, Tsuyoshi Ihara e Kazunari Ninomiya.

A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers, Estados Unidos, 2006), 2h12. Drama de guerra. Roteiro de Paul Haggis e William Broyles Jr. baseado em obra de James Bradley e Ron Powers. Direção de Clint Eastwood. Com Adam Beach, Ryan Phillippe e Jesse Bradford.

13 março 2007

A ambulância das coisas




ROSEMARY
Basta, para se ter uma idéia do talento de Roman Polanski, a tomada fixa da cabine telefônica em O bebê de Rosemary (Rosemary’s baby, 1968), tomada demorada que concentra no rosto agoniado de Mia Farrow toda a sua carga dramática e emotiva. Rosemary, a personagem da atriz neste filme impressionante, apavorada por descobrir que está sendo envolvida com uma seita diabólica, acaba de fugir do consultório de seu médico especializado em obstetrícia por desconfiar que também faz parte do complô, e refugia-se numa cabine para telefonar para o seu antigo médico. Com a chegada de Rosemary à cabine – após deambular pelas ruas da cidade em impressionante caracterização, grávida e desengonçada, Polanski se aplica num plano fixo de seu rosto para desenvolver todo o clima de angústia e desespero. É de pequenos momentos e de pequenos gestos que se fazem os grandes filmes. Polanski é um realizador que sabe pensar cinematograficamente, que intui o possível impacto que uma determinada seqüência possa ter pelo seu sentido agudo no que se refere à utilização dos elementos determinantes da linguagem cinematográfica. Na tomada em questão, uma lição de cinema, mas, antes de concluí-la, o realizador de Chinatown, faz uma brincadeira com a chegada, frente à cabine, de um corpulento homem que parece o médico, mas que, na verdade, trata-se do produtor William Castle, famoso por seus terroríficos classe B.

VAMPIROS DA NOITE
Por falar em William Castle, lembro de um seu filme, que vi apenas uma vez nos anos 60, Trama diabólica (se não há engano memorialístico, o título original é Homicidal). Visto num poeira da Baixa dos Sapateiros, no Pax, precisamente, o filme, quando pouco antes de atingir o clímax, tem sua narrativa interrompida e aparece, na tela, um relógio com um tic tac macabro. Uma voz em off anuncia que o produtor do filme vai conceder alguns minutos para que os “cardíacos e pessoas nervosas” (sic, ainda que de memória) possam sair da sala de projeção, pois o clímax, chocante segundo as palavras, podia provocar danos naqueles mais sensíveis. O fato foi que, realmente, vi, e me lembro que vi, pessoas saindo da sala. Em seguida (eu não saí), dá-se o desfecho pleno de apelações e planos de detalhes. Castle gostava muito de assustar, chocar pelo estrépito das imagens. O que mais assusta, na minha opinião, no entanto, é o desenrolar sutil, a ausência de choques no transcorrer da narrativa, reservados estes para os momentos certos. William Castle, talvez sem o saber, foi um pioneiro no marketing. Não sei quem foi o gênio baiano que inventou, aqui em Salvador, para o lançamento de O vampiro da noite (Horror of Dracula, 1958), de Terence Fisher, com Christopher Lee, em 1960, colocar, nos dois cinemas em que a fita foi apresentada, uma ambulância na porta. Uma tabuleta em cima da bilheteria avisava que “pessoas nervosas e cardíacas” (a implicância com cardíacos, lembro-me bem, verdadeira) não deviam comprar os ingressos para ver o filme, mas, se assim procedessem, e viessem a se sentirem mal, a gerência dispunha de uma ambulância para a sua locomoção à emergência mais próxima.

NUAS, MAS NÃO VIOLENTADAS
O exibidor Francisco Pithon, que reinou no circuito soteropolitano nas décadas de 60 e 70, gostava de promover alguns filmes que lançava com certo estardalhaço e originalidade. Quando, em meados dos anos 60, foi lançado, no Guarany, Sodoma e Gomorra, de (sim, é verdade) Robert Aldrich, com Stewart Granger e Rossana Podestá, Pithon contratou duas belas mulheres que se vestiram com a indumentária idêntica à usada pelos personagens femininas de Sodoma e Gomorra, postando-as, num pequeno pódio, ao lado, cada uma, das duas bilheterias. O público pensou que fossem figurantes do próprio filme, que ficou, assim, muito badalado. Aldrich, diretor americano renovador na década de 50 (A morte num beijo) e desmistificador (da guerra em Morte sem glória/Attack), e do índio (Apache) realizou Sodoma e Gomorra como encomenda. Vi apenas no lançamento há, portanto, mais de quarenta anos. Recordo-me mais da promoão das moças seminuas e belas na porta do Guarany do que do filme (parece que, no fim, Granger, embora aconselhado a não olhar para trás, após o dilúvio das cidades, teimoso como uma mula, não obedece o conselho e vira pedra). Rossana Podestá era uma atriz italiana muito bonita (fez Helena de Tróia com Robert Wise), e esteve aqui, na Bahia, para o lançamento de Os sete homens de ouro, acompanhada do marido Marco Viccario, que era também o diretor do filme. Nesta ocasião, e quem sabe o caso é o jornalista José Augusto Berbert de Castro, protagonista da história. Hospedados no Grande Hotel da Barra, no praia do Porto (que foi considerada por jornalista inglês uma das mais belas praias do mundo), Podestá, seu marido, filhos, receberam a imprensa – nesta época, ainda que atento ao cinema e às suas coisas, não militava no jornalismo e lia apenas as críticas e comentários, adolescente que era. Bebert escrevia uma coluna sobre cinema no jornal A Tarde e se formou em medicina, apesar de nunca a ter exercido. A família da artista passou o dia inteiro no Porto e, de noite, um dos filhos, um garoto, teve brutal insolação. Viccario e Podestá, desolados e aflitos, lembraram que um jornalista, Bebert, era também médico. Embora um médico para ser temido, por causa de seu afastamento da prática, Bebert atendeu ao chamado, pois oportunidade de ouro para ficar mais íntimo de gente famosa, principalmente Podestá, uma beleza de mulher.

UM COPPOLA ANTONIÔNICO
A conversação (The conversation, 1974), de Francis Ford Coppola, com Gene Hackman, revisto recentemente, é uma obra que atesta o grande talento desse realizador antenado com seu tempo e sua circunstância e, principalmente, extremamente preocupado com a natureza da arte do filme. A conversação, filme sem atrativos comercial e talvez por isso tão esquecido e pouco visto, é uma obra que se aproxima, pela sua angústia narrativa, de Blow up, de Michelangelo Antonioni. Sente-se, no personagem vivido por Gene Hackman, aquela angústia para descobrir que atormenta o personagem do fotógrafo (David Hemmings) no filme do mestre italiano. Mais de trinta anos depois, o impacto continua o mesmo, ainda que o cinema, do ponto de vista tecnológico, tenha dado saltos atléticos. Mas a beleza do plano final, com Hackman, apartamento virado de cabeça para baixo na procura de algum objeto capaz de grampo qualquer, a fazer de conta que toca o saxofone, é um dos pontos altos do cinema na década de 70.

A MORTE DOS TRAILERS NA CONTEMPORANEIDADE
Os trailers contemporâneos estão todos padronizados e submetidos à dolorosa estética do vídeoclip (nada contra esta em si, mas que se restrinja aos videoclips propriamente ditos e não se incorpore, como está a acontecer, à narrativa cinematográfica). A imagem surge rápida, e um escurecimento, também na maior rapidez, engole-a, por assim dizer, para, em seguida, surgir outra. Decididamente: já não se fazem mais trailers como antigamente. Havia um savoir-faire de trailers no cinema americano que a partir dos anos 80 foi se diluindo para emergir uma espécie assim de savoir-non-faire. Dava gosto se ver os trailers, o que não acontece nos dias que correm – e correm assustadoramente rápido, levando-nos com eles, a todos, sem exceção, ao refúgio da Implacável, impressão da passagem temporal que varia de pessoa a pessoa, atacando, esta impressão, principalmente os mais velhos. Antes dos malditos trailers contemporâneos, que não gosto de vê-los – porque mesmo trailers de filmes bons, a exemplo de Os infiltrados, estão construídos dentro da pavorosa estética do vídeoclip, tinha prazer em conferi-los, chegando mesmo, quando se podia fazer isso, a ficar para a outra sessão somente para rever os trailers. No esquema atual, o espectador compra o ingresso para uma determinada sessão e, terminada esta, é expulso da sala de projeção. Nos bons tempos que não voltam mais (não creio ser saudosismo mas a constatação de uma época mais calma e mais inteligente, e, caso saudosismo, que o seja, e daí?), o indivíduo que comprasse o ingresso podia entrar, por exemplo, duas da tarde e só sair quando da última sessão.

COM A CARA DE QUEM ESTÁ ACORDANDO
Lembrei-me agora que gostava muito de ir às sessões das 22 horas. Pelo menos aqui na Bahia (interessante observar que se chama a cidade de Salvador de Bahia, ou seja, ao invés de aqui em Salvador – que pode também ser usado, aqui na Bahia, como está sendo usado por mim neste blog) as sessões eram assim estabelecidas: 14, 16, 18, 20 e 22 horas. Quando o filme tinha duração acima de 120 minutos: 14, 16:30, 19 e 21:30 horas. Em caso de duração maior: 14, 17 e 20 horas. Nas superproduções como ...E o vento levou, Ben Hur, Spartacus, duas únicas sessões, uma vespertina, outra noturna, ou, como se gostava de dizer (e aí sim com ênfase saudosista), uma matinée, e uma soirée, às 15 e 21 horas. Mas estava querendo contar uma história sem importância acontecida comigo. Há algumas décadas (volto ao assunto, mas parece que a nova geração se esqueceu que existe o verbo Haver, pois encontro em todo canto expressões do tipo: a dez dias fui ao cinema, etc), indo a uma sessão das 22 horas, dormi um sono profundo nas poltronas do finado cinema Bahia, que ficava à rua Carlos Gomes e atualmente abriga os apóstolos da Igreja Universal do Reino de Deus. Pois muito bem! Finda a sessão, os funcionários, ainda que sempre fizessem revista, não me encontraram, e continuei nos braços de Morfeu até a manhã seguinte, quando encontrei o chão sendo lavado e a porta, aberta, possibilitando-me sair com a cara de quem está acordando. A cara de quem está acordando é um dos fatores ocultos que determinam a desordem conjugal.

10 março 2007

A NET PODE MATAR


Peço, com o coração nas mãos, e encarecidamente a todos que suportam ler este blog, que não contratem nunca os serviços da Net, pois empresa que sabota aqueles que nela confiam ou nela precisam, como é o meu caso. Exercendo o monopólio de tv a cabo e internet a cabo, a Net (vade retro!) faz o que quer e bem entende com o pobre consumidor. Estou há dez dias (mais sem atualizar o blog, considerando que a última postagem data de 25 de fevereiro) sem conexão, e já telefonei 32 vêzes para a Net, que está, sempre e sempre, em comunicação, com aquele sinal de ocupado. Não tenho a quem apelar. Apelo, portanto, a você que está me lendo para que se livre da Net ou que nunca com ela mantenha um contrato de prestação de serviços. A Net pode enfartar, pode causar um AVC, pode deixar aquele que precisa de seus serviços com glicose elevada no sangue, tensão arterial alta.

25 fevereiro 2007

"Nacocó": site baiano e cultural já no ar


Quero recomendar, para leitura não somente neste domingo mas em qualquer dia da semana, não um blog, mas um site: Nacocó, que se intitula hebdomadário onomatopéico. Não satisfeito com o que li, fui ao 'pai dos burros', o dicionário Aurélio, e não encontrei, nele, o vocábulo. Trata-se de um site criado e executado por alunos da Faculdade de Comunicação da UFBa. Os textos, variados e bons, falam de qualquer assunto destituído da sem-cerimônia característica dos jovens e dos mais afoitos, daqueles que procuram, para ser verdadeiros, não ter papas na língua. Entre as matérias a destacar, já que não posso falar, aqui, de todas, chamo a atenção para a copiosa e muito interessante entrevista com o professor universitário eantropólogo Renato da Silveira, que dá verdadeira lição de disciplina e seriedade na investigação científica, revelando, também, episódios interessantes de sua vida agitada como militante político. A cronista do Nacocó, Emanuella Sombra, fala de suas observações das coisas da vida: a mulher em torno de um garrafa de cerveja, a venda de abadás, quando não está a verificar os méritos e os desméritos de um filme (como faz com A rainha/The queen, de Stephen Frears). Por falar em cinema, hoje é dia da entrega dos Oscars, a grande festa de Hollywood, cujo marketing, gigantesco, tornou o espetáculo mundial. Peço licença ao Nacocó para dar dois dedos de prosa a respeito da estatueta baseada na genitália de um tio de Bette Davis, se não me engano (não é exatamente isso, mas peço aos entendidos no assunto que me corrijam). O Oscar não serve como aferição do valor de uma obra cinematográfica, mas é uma grande festa para consolidar cada vez mais a indústria cultural de Hollywood. Premia-se aqueles filmes que são interessantes para a indústria do cinema. Quantos filmes e quantos cineastas não foram alijados da competição na história da cobiçada estatueta? O melhor do Oscar são as homenagens especiais (como a feita a Robert Altman ano passado), uma ou outra retrospectiva, porque, de um modo geral, já não se fazem astros e estrelas como antigamente. A última grande estrela do cinema, segundo Larry King, foi Elizabeth Taylor. Voltemos ao Nacocó.


Editado por seis mãos, as de Vitor Pamplona, Emanuella Sombra e Diego Damasceno, o Nacocó é ilustrada por Vânia Medeiros e tem, entre seus colaboradores, Beth Ponte, Daniel Telles, Eliana Mara, Rodrigo Cerqueira, Saymon Nascimento, Yuri Ávila, Virgínia Sundown. Mandei um comentário sobre Cartas de Iwo Jima, mas não sei se já está no ar. A foto que ilustra a postagem foi resultado de uma pesquisa de imagens no Google, na qual coloquei o nome 'Nacocó', e apareceram várias, entre esta, que ilustra o post dominical.De qualquer forma, o link do acesso é o seguinte:

22 fevereiro 2007

A mistificação do avental branco



Da série 'Medicina faz mal a saúde'. Os médicos, de um modo geral, sentem-se deuses, mas a culpa, em boa parte, é dos clientes que se colocam muitos servis em relação a eles. Tenho um livro traduzido do alemão que analisa o problema, mostrando que o paciente deve ser, sempre, um impaciente, e ter uma visão crítica do próprio tratamento. As próprias pessoas, familiares do paciente, por exemplo, por ignorância, dão-lhe o conselho de 'entregar-se ao médico'. Grande erro. Por outro lado, há certos médicos que são sumidades, verdadeiro cientistas, a exemplo de um Zerbine, de um Jatene, entre poucos. A maioria se caracteriza pela autoritarismo disfarçado de simpatia hipócrita (daí a necessidade de o paciente ter visão crítica e não se deixar levar pela conversa do médico). Sim, poderia me dizer, mas não são somente os médicos que são assim. E os advogados e outros profissionais liberais? É verdade, existe muita arrogância por toda parte, mas com os médicos há uma mística especial, que deve ser combatida para o bem da própria humanidade como a postagem infra pode mostrar.

Medicina faz mal a saúde


Passei, ano passado, quase dois meses hospítalizado. Tive um cinematográfico enfarte agudo do miocárdio e penei até que fossem implantadas duas majestosas pontes de safena. A bem da verdade, fui muito bem tratado pelos médicos e enfermeiras, ainda que algumas destas, principalmente quando no inferno do centro de tratamento intensivo - as famigeradas UTIs, gostassem de exibir autoridade porque, frustradas, precisam, nestas oportunidades, exercer poder. E nada melhor para o exercício do poder do que em cima de um paciente, de um ser temporariamente inválido. Mas de um modo geral, feita a ressalva, sou muito crítico em relação a médicos, que, na sua grande maioria, tirante as sumidades de praxe, são arrogantes e ignorantes. O texto que vai abaixo foi tirado da internet e quem o escreveu foi Sérgio Gwercman.

Dr. Vernon Coleman, tem 57 anos, gosta de escrever livros de ficção e já publicou 12 romances. Divide seu tempo entre o interior da Inglaterra e uma cobertura no centro de Paris. Sofre de "cotovelo de tenista" nos dois braços por causa da má postura ao digitar. Diz que os hospitais mais matam do que curam e que é preciso ser muito saudável para sobreviver a um deles.

Por Sérgio Gwercman

Um selo colado na testa advertindo sobre os perigos que podem causar à saúde. Se dependesse do inglês Vernon Coleman, esse seria o uniforme ideal dos médicos. Dono de um diploma em medicina e um doutorado em ciências, Coleman abandonou a carreira após dez anos de trabalho para ganhar a vida escrevendo livros com títulos sugestivos do tipo : "Como Impedir o seu Médico de o Matar"
Autor de 95 livros, o inglês é um auto-intitulado defensor dos direitos dos pacientes. Em seus textos, publicados nos principais jornais do Reino Unido, costuma atacar a indústria farmacêutica - para ele, a grande financiadora da decadência - e, principalmente, os médicos que recusam tratamentos que excluam a utilização de remédios e cirurgias. Dono de opiniões polêmicas, Coleman ainda afirma que 90% das doenças poderiam ser curadas sem a ajuda de qualquer droga e que quanto mais a tecnologia se desenvolve, pior fica a qualidade dos diagnósticos.

Como um médico deve se comportar para oferecer o melhor tratamento possível a seu paciente?
Os médicos deveriam ver seus pacientes como membros da família. Infelizmente, isso não acontece. Eles olham os pacientes e pensam o quão rápido podem se livrar deles, ou como fazer mais dinheiro com aquele caso. Prescrevem remédios desnecessários e fazem cirurgias dispensáveis. Ao lado do câncer e dos problemas de coração, os médicos estão entre os três maiores causadores de mortes atualmente. Os pacientes deveriam aprender a ser céticos com essa profissão. E os governos, obrigá-los a usar um selo na testa dizendo "Atenção: este médico pode fazer mal para sua saúde".

Qual a instrução que pacientes recebem sobre os riscos dos tratamentos?
A maior parte das pessoas desconhece a existência de efeitos colaterais. E grande parte dos médicos não conhece os problemas que os remédios podem causar. Desde os anos 70 eu venho defendendo a introdução de um sistema internacional de monitoramento de medicamentos, para que os médicos sejam informados quando seus companheiros de outros países detectarem problemas. Espantosamente, esse sistema não existe. Se você imagina que, quando uma droga é retirada do mercado em um país, outros tomam ações parecidas, está errado. Um remédio que foi proibido nos Estados Unidos e na França demorou mais de cinco anos para sair de circulação no Reino Unido. Somente quando os pacientes souberem do lado ruim dos remédios é que poderão tomar decisões racionais sobre utilizá-los ou não em seus tratamentos.

Você considera que os médicos são bem informados a respeito dos remédios que receitam a seus pacientes?
A maior parte das informações que eles recebem vem da companhia que vende o produto, que obviamente está interessada em promover virtudes e esconder defeitos. Como resultado dessa ignorância, quatro de cada dez pacientes que recebem uma receita sofrem efeitos colaterais sensíveis, severos ou até letais. Creio que uma das principais razões para a epidemia internacional de doenças induzidas por remédios é a ganância das grandes empresas farmacêuticas. Elas fazem fortunas fabricando e vendendo remédios, com margens de lucro que deixam a indústria bélica internacional parecendo caridade de igreja. Acompanhando didaticamente alunos do 6º ano (prestes a entrar na vida profissional) constatei que apenas 5% conhecia a farmacocinética dos produtos que propunham aos pacientes. Entre profissionais experientes não consigo estimar, no entanto suponho ser porcentagem menor, pois a prática usual em vários empregos com períodos extensos e irregulares diminuem a possibilidade de aprender, especialmente bioquímica e farmacologia. Para aumentar este problema, temos alterações periódicas na composição dos produtos comerciais com vistas a aumentarem o preço, por serem considerados medicamentos novos. O que dificulta mais ainda o escasso tempo médico dedicado à atualização.

E o que os pacientes deveriam fazer? Enfrentar doenças sem tomar remédios?
É perfeitamente possível vencer problemas de saúde sem utilizar remédios. Cerca de 90% das doenças melhoram sem tratamento, apenas por meio do processo natural de autocura do corpo. Problemas no coração podem ser tratados (não apenas prevenidos) com uma combinação de dieta, exercícios e controle do estresse. São técnicas que precisam do acompanhamento de um médico. Mas não de remédios.

Receber remédios não é o que os pacientes querem quando vão ao médico?
É verdade que muitos pacientes esperam receber medicamentos. Isso acontece porque eles têm falsas idéias sobre a eficiência e a segurança das drogas. É muito mais fácil terminar uma consulta entregando uma receita, mas isso não quer dizer que é a coisa certa a ser feita. Os médicos deveriam educar os pacientes e prescrever medicamentos apenas quando eles são essenciais, úteis e capazes de fazer mais bem do que mal.

Que problemas os remédios causam?
Sonolência, enjôos, dores de cabeça, problemas de pele, indigestão, confusão, alucinações, tremores, desmaios, depressão, chiados no ouvido e disfunções sexuais como frigidez e impotência.


Em um artigo, você cita três greves de médicos (em Israel, em 1973, e na Colômbia e em Los Angeles, em 1976) e diz que elas causaram redução na taxa de mortalidade. Como a ausência de médicos pode diminuir o risco à vida?
Hospitais não são bons lugares para os pacientes. É preciso estar muito saudável para sobreviver a um deles. Se os médicos não matarem o doente com remédios e cirurgias desnecessárias, uma infecção o fará. Sempre que os médicos entram em greve as taxas de mortalidade caem. Isso diz tudo. Aqui no Brasil pudemos constatar o mesmo durante greve prolongada de médicos no Rio de Janeiro

Muitas pessoas optam por terapias alternativas. Esse é um bom caminho?
Em diversas partes do mundo, cada vez mais gente procura práticas alternativas em vez de médicos ortodoxos. De certa maneira, isso quer dizer que a medicina alternativa está se tornando a nova ortodoxia. O problema é que, por causa da recusa das autoridades em cooperar com essas técnicas, muitas vezes é possível trabalhar como terapeuta complementar sem ter o treinamento adequado. Medicina alternativa não é necessariamente melhor ou pior que a medicina ortodoxa. O melhor remédio é aquele que funciona para o paciente.


Em um de seus livros, você afirma que a tecnologia piorou a qualidade dos diagnósticos. A lógica não diz que deveria ter acontecido o contrário?
Testes são freqüentemente incorretos, mas os médicos aprenderam a acreditar nas máquinas. Quando eu era um jovem doutor, na década de 70, os médicos mais velhos apostavam na própria intuição. Conheci alguns que não sabiam nada sobre exames laboratoriais ou aparelhos de raios-X e mesmo assim faziam diagnósticos perfeitos. Hoje, os médicos se baseiam em máquinas e testes sofisticados e cometem muito mais erros que antigamente. Infelizmente tenho constatado mais agravantes neste aspecto de exames:
1- 70% dos resultados de exames onde os pacientes referem que estão normais (ditos pelos médicos que solicitaram) tenho encontrado alterações documentadas no próprio exame (constado nos valores de referência). Isto reflete dupla negligência; do médico que não valorizou a alteração e do paciente que não se dignou a comparar seus resultados com os valores de referência fornecidos.
2- Alguns exames esclarecedores muitas vezes não são solicitados ou valorizados, entre eles cito dois que são pungentes: marcadores tumorais e pesquisa de sangue oculto nas fezes.
3- Realizam exames que já não têm nexo em nosso contexto, como, por exemplo, a mamografia (o ultrassom de mamas é muito mais sensível nos processos iniciais, como tem noticiado fartamente nossa imprensa popular há 3 anos e as publicações técnicas há 7 anos).
4- Solicitam exames caros e arriscados sem indicação clínica adequada (o exemplo aqui é do cateterismo cardíaco - embora eu sempre insista neste assunto, aconteceu com minha família dois acidentes com o contraste durante cateterismo, um por indicação monetária e não clínica e o outro com indicação clínica que resultou em óbito durante o exame)
5- Aonde é importante os exames laboratoriais ao invés de exame físico, a maioria insiste no exame físico. Aqui o exemplo mais pungente é o toque retal para avaliar próstata, pois o ultrassom pode mostrar dezenas de vezes melhor do que a palpação, indicando nodulações (ou outras alterações) internas ou na face anterior onde não é possível palpar. Semelhante perspectiva podemos assumir perante o toque vaginal para avaliar útero e ovários.
6- Solicitam exames complexos e/ou arriscados sem terem realizados os exames mais simples e inócuos previamente. Aqui podemos utilizar o exemplo do ecocardiograma (ultrassom cardíaco) sem Eletrocardiograma ou Rx de tórax prévios. Aqueles que quiserem entender melhor sobre exames, sugiro o link indicado nos meus link favoritos: Guide to Clinical Preventive Services, of Columbia University Medical Center

Você faz ferrenha oposição aos testes médicos realizados com animais em laboratórios. De que outra maneira novas drogas poderiam ser desenvolvidas?
Faz muito mais sentido testar novas drogas em pedaços de tecidos humanos que num rato. Os resultados são mais confiáveis. Mas a indústria não gosta desses testes porque muitos medicamentos potencialmente perigosos para o homem seriam jogados fora e nunca poderiam ser comercializados. Qual o sentido de testar em animais? Existe uma lista de produtos que causam câncer nos bichos, mas são vendidos normalmente para o uso humano. Só as empresas farmacêuticas ganham com um sistema como esse.



O que você faz para cuidar da saúde?
Eu raramente tomo remédios. Para me manter saudável, evito comer carne, não fumo, tento não ficar acima do peso e faço exercícios físicos leves. Para proteger minha pressão, desligo a televisão quando médicos aparecem na tela apresentando uma nova e maravilhosa droga contra depressão, câncer ou artrite que tem cura garantida, é absolutamente segura e não tem efeitos colaterais.

21 fevereiro 2007

A comédia como graça e vanguarda



Jerry Lewis, um dos maiores comediantes de toda a história do cinema, nasceu no dia 16 de março de 1926, a completar, portanto, daqui a menos de um mês, 81 anos. Já publiquei o texto abaixo quando dos seus oitent'anos, mas o faço novamente, considerando que os selvagens não conhecem Lewis - e os selvagens não lêem o blog. Então a publicação somente faz sentido em função daqueles que possam compartilhar da sua admiração pelo comediante, que pode ser considerado um dos mais inventivos da arte da comédia. Pelo menos, ainda que rasgando o conceito, tem duas obras-primas: O otário (The patsy, 1964) e O professor aloprado (The nutty professor, 1963). Obras-primas, diga-se de passagem, do processo de criação cinematográfico em todos os tempos.
Enquanto nos dias atuais inexiste uma, por assim dizer, poética do gag, mas uma exacerbação das situações num speed escatológico ou na procura nerd do ridículo, sempre sem nenhuma inventividade cinematográfica, as comédias de tempos idos evocavam o riso pela imaginação criadora, quer do ponto de vista do ser, quer do ponto de vista da narrativa fílmica. Assim, faz-se necessário, aqui, relembrar com urgência urgentíssima a genialidade de Jerry Lewis, um dos maiores comediantes do cinema em todos os tempos, e de seu singular O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), obra-prima não só da comédia mas do cinema. Inclui-se nessa excelência criadora também O otário. Artista criador, revolucionário mesmo na concepção de uma mise-en-scène originalíssima, Jerry Lewis é um poeta ou, como disse Jean-Luc Godard, “o mais progressista cineasta do cinema americano dos anos 60”. Versão (ou inversão?) de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, O Professor Aloprado conta como um pacato e modesto professor de química, feio, dentuço, desengonçado e mal ajambrado, consegue criar uma fórmula capaz de lhe impor a beleza e o charme. Apaixonado por uma de suas alunas (Stella Stevens), ele tenta conquistá-la quando toma a poção mágica e vira o charmoso Buddy Love. A fórmula, no entanto, tem duração limitada e, de repente, a criatura se transforma, aos poucos, no criador, principalmente nos momentos idílicos entre Buddy e Stella, mas ele, sabidamente, desaparece. Buddy Love provoca celeuma na escola, deixando, estupefatos e apaixonados, desde a secretária (a lewsiana Kathleen Freeman), as alunas e até o grave e circunspecto diretor. O clímax se dá no baile de formatura no momento em que Buddy, o convidado de honra, se metamorfoseia no desengonçado professor.
A inventividade de Jerry Lewis no plano da linguagem cinematográfica é imensa. Cenas brilhantes que se encontram em qualquer antologia que se preze da comediografia cinematográfica: (1) o processo de transformação do professor Kelp em Buddy Love com um extraordinário uso da cor poucas vezes observado na história da arte do filme; (2) a câmera subjetiva em lugar de Buddy finda a metamorfose (e ainda quando o espectador não sabe do resultado) e o espanto dos transeuntes que circulam na porta da boate; (3) a seqüência do ginásio traduz com absoluta perfeição a frustração essencial do personagem lewisiano diante da mitificação esportiva norteamericana; (4) a ambigüidade estampada no close up de Stella Stevens, quando Buddy inicia os tiques diccionais de seu criador; (5) o professor a olhar e imaginar Stella na porta da sala em várias mudanças de sua indumentária; (6) depois da noite perdida, e de ressaca, o professor pálido, na aula, ouvindo, desesperado, o ruído exagerado do giz riscando o quadro, a aluna que assoa o nariz, etc, numa conjugação funcional da imagem e do som; (7) toda a seqüência do baile de formatura, e, em especial, a cena da transformação da criatura no criador; entre muitas outras.
Lewis desmistifica o espetáculo, revelando seus códigos com uma coragem inusitada para a linguagem da época. O final é de uma terrível elegância, quando os principais atores, um a um, como se estivessem num palco de teatro, agradecem enquanto seus nomes são creditados na tela. O último é Jerry Lewis que, literalmente, quebra a lente da câmera. Este artista mal compreendido, que somente vem a receber o respeito crítico a partir do número especial que lhe dedica o sisudo Cahiers du Cinema, é o máximo representante da comicidade non sense do cinema americano posterior a 1945. Lewis parodia, com seus filmes dirigidos nos anos 60, e com singular acerto, as frustrações psicológicas do american way of life. Os seus instrumentos de análise (ou, se se quiser, o seu método) estão na utilização imaginativa da técnica do gag.
Gênio da comédia, cantor das orquestras de Jimmy Dorsey e Ted Florita, Jerry Lewis (Joseph Levitch, New Jersey, 1926) forma dupla com Dean Martin em 1946, atua em televisão e rádio, e, em pouquíssimo tempo, torna-se popular coast to coast em toda a América. A dupla mais burlesca do mundo do espetáculo logo é convidada para ingressar no cinema – e isto se faz através da Paramount. Entre 1949 e 1956, Lewis começa uma extraordinária carreira solo sob as ordens de um mestre da comédia: Frank Tashlin. Aliás, a sua separação de Dean Martin revela que o êxito da dupla radica fundamentalmente no talento cômico de Lewis. Artistas e modelos (1955), filme que assinala a sua estréia sob a direção de Tashlin, dá início a uma série de títulos que se constituem em agudas sátiras da sociedade norte americana expostas com um estilo refinado que se aproxima algumas vezes do cartoon e das histórias em quadrinhos. É, porém, quando Jerry Lewis decide montar uma companhia independente (a Jerry Lewis Productions Inc.) que emerge o seu gênio. Desde O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy,1960), obra de estréia, o indicativo da originalidade na arte de conceber a mise-en-scène está presente. Neste filme, não há progressão dramática mas uma sucessão de sketchs, assim como em Mocinho encrenqueiro (The errand boy, 1961). O Terror das mulheres (The ladie´s man, 1961) deslancha a sua fase de obras-primas absolutas (se é possível a um artista ter mais de uma obra-prima!). Filme que representa na obra de seu autor um inequívoco manifesto sobre a concepção da mulher e uma irrefutável fulminação do matriarcado, O Terror das mulheres é delirantemente desmistificador (a partir mesmo do cenário, uma grande mansão na qual os segredos do décor são revelados ao público). Vem O professor Aloprado em 1963 e, em seguida, O Otário (The Patsy, 1964), outra obra magistral, onde aperfeiçoa, amadurece e enriquece definitivamente o seu estilo: a crueldade que consiste em fazer rir de si próprio; a magistral utilização do showburn; o gosto do espetáculo e a vontade em revelar ao espectador o décor, o desdobramento de sua personalidade autor-ator, a explosão em personagens múltiplas, etc. Lewis continua a filmar, tem uma crise nos anos 70, mas seus maiores filmes, os geniais, estão na década de 60. Mas o que dizer de O fofoqueiro (The big mother, 1967), filme absolutamente genial? Fica-se por aqui, no entanto, não por questão de espaço, que na internet, é infinito, mas por questões de pressa e contenção. Porque há, ainda, muito o que falar da genialidade lewsiana. Um dos maiores conhecedores da obra de Lewis é o ensaista Sérgio Augusto, que dei uma das mais elucidativas entrevistas dos últimos tempos sobre jornalismo cultural. Augusto acho que nos filmes de Lewis há, por assim dizer, uma espécie de psicanálise da vida americana.
P.S: Revi quase todos os filmes dirigidos por Jerry Lewis e, na minha opinião, a sua obra-primíssima é O Otário (The Patsy, 1964), que pode ser encontrado em excelente cópia em DVD. Impressionante a capacidade de Lewis em experimentar e inovar, subvertendo códigos estabelecidos.Não é à toa que Jean-Luc Godard o considerou um dos mais progressistas cineastas do cinema americano.Infelizmente, para a maioria, que o aprecia, ele é considerado, apenas, um excelente comediante, vinculado, inclusive, às sessões da tarde da Globo dos anos 80. A nova geração, pude pesquisar, não tem capacidade, infelizmente, de entender a genialidade lewsiana. Pena. Ledo e ivo engano. Um ensaio sobre a obra lewsiana de autoria de Chris Fujiwara pode ser lido no seguinte link: http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/03/lewis.html

19 fevereiro 2007

A morte matada do jornalismo cultural



Não há dúvida da decadência imensa do jornalismo contemporâneo, da regressão que se abateu sobre a imprensa, principalmente no jornalismo cultural. Sou do tempo em que lia o Quarto Caderno do Correio da Manhã, quando, na redação deste, pontificavam, como num Petit Trianon, homens e sábios como Otto Maria Carpeaux, Antonio Houaiss, Cony, Moacyr Werneck de Castro, Paulo Francis, entre outros. A entrevista que Sérgio Augusto concedeu ao site Digestivo Cultural é leitura obrigatória e que bem reflete o caos da chamada contemporaneidade. Está neste link: http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10


Leio Sérgio Augusto (companheiro de geração do saudoso Paulo Perdigão) desde os tempos em que escrevia no Jornal do Brasil, fazendo parte do Conselho de Cinema, que se reunia toda sexta para criticar determinado filme da semana (naquele época toda semana tinha um filme a respeitar), e que era composto (salvo omissão da memória) por Alex Viany, Alberto Shatovsky, Ely Azeredo (por onde anda este, que, na época, era detestado pelos cinemanovistas, mas que tinha um estilo surpreendente), José Carlos Avellar (o antípoda de Ely em visão de mundo e visão de cinema), Valério Andrade, Sérgio Augusto, José Wolff, Ronald F. Monteiro, entre outros que posso ter esquecido assim no momento em que digito este post.


Sérgio Augusto depois foi para O Pasquim em sua época de ouro. Tem artigos (melhor dizendo: ensaios) espalhados pelas melhores revistas e jornais brasileiros. Escreveu recentemente As penas do ofício (que já mandei buscar na Livraria Cultura via internet), há alguns anos, Lado B, e entre muitos outros, tem um livro essencial sobre a chanchada brasileira: Este mundo é um pandeiro.

A leitura da entrevista é algo que não se deve perder.