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22 maio 2009

Herberto Sales, Tuna Espinheira e "Cascalho"

Tuna Espinheira está com seu longa, Cascalho, em exibição no cine Brasília desde o dia 1 de maio. A convite do Professor e membro da Academia de Letras da Bahia Aleilton Fonseca vai também exibí-lo em Feira de Santana no próximo dia 28 de maio. Após a projeção, uma conversa informal com o realizador. Transcrevo aqui um texto de Tuna, o velho guerreiro, sobre o seu filme. Na foto, Herberto Sales sendo condecorado pela então prefeita Lídice da Matta, tendo, ao fundo, óculos escuros na camisa, o cineasta.
"O romance Cascalho, de Herberto Sales, é hoje – e o tempo (único juiz categorizado), dá fé e assina em baixo – um livro clássico, emblemático, do chamado Ciclo do Garimpo.
Gabriel Garcia Marques escreveu livros maravilhosos, entre eles o surpreendente: Viver Para Escrever. Este de memórias. É só lê-lo para revisitar o principal da obra deste mestre. No Brasil, entre outros, Zé Lins do Rego, foi ainda mais radical, usou a memória como ferramenta substancial no seu oficio de escritor maior
.
Herberto viveu nas terras outrora férteis em diamantes, em Andaraí, ouviu estórias, vivenciou um passado ainda latente, e, com a alma em chamas foi ungido para escrever, registrar a Odisséia das Lavras Diamantinas
Nada como a memória com o necessário talento para temperar um bom livro.

Na passagem comemorativa dos 50 anos de Cascalho, em Salvador, tive a oportunidade de conhecer, em carne e osso, o autor da saga do garimpo. Eu tinha, formigando, já um bom tempo, uma utopia confessada a mim mesmo e gente próxima, de roteirizar o romance Cascalho. Conversando com ele, o próprio, Herberto, temperados ambos, com doses de Whisky, aproveitando a licença poética do momento, eu disse: “Tinha vontade de filmar o seu livro”, laconicamente ele me respondeu: “Faça o roteiro e me mande”.
Mergulhei de corpo e alma nas páginas daquele livro cinquentão, jamais imaginei o quanto de terrível é mexer na criação alheia. Adaptar uma obra literária para o cinema, é uma espécie de ato de heresia a cada vez que se suprime um personagem, corta pedaços da estória, espreme o enredo para caber no filme, entre outras intrusões... Enfim, pisa-se no solo sagrado da criação...

O roteiro técnico ficou pronto, submetido ao crivo do autor, foi aprovado e sacramentado. A partir daí só restava cair em campo, confiando na Corte Celeste de plantão e no Axé dos Orixás.

Herberto Sales, selou sua cumplicidade com o nosso projeto, com um texto do gênero a quem interessar possa... Vai na íntegra:
“Caro amigo ( ou amiga ) – O portador destas mal traçadas linhas é o conhecido homem de cinema Tuna Espinheira, de quem tenho o prazer de ser amigo e admirador, nem se fala.
Ele está ( para minha honra ) tratando de fazer um filme do meu romance Cascalho. Deus o ajude.
Faça de conta que quem está apresentando esta carta sou eu. Todavia, sou bastante modesto para reconhecer que Tuna Espinheira ( se isso é possível ) me representa melhor que eu próprio.
E isto é verdade e dou fé”.
Herberto Sales,
São Pedro da Aldeia – 10.04.95.
Herberto já não estava entre nos quando (em 2003) seus personagens se encarnaram nos atores: Wilson Mello, Othon Bastos, Gildasio Leite, Lúcio tranchesi, Irving São Paulo, Arildo Deda, Agnaldo Lopes, Emanuel Cavalcanti, Caco Monteiro, Rosa Espinheira, Jorge Coutinho, Bertho Filho, Julio Góes e povoaram a cidade de Andaraí (terra natal do escritor ), onde se passa a estória, nos anos trinta. No cenário exuberante da Chapada Diamantina.

Só no final do ano 2008 – DC – O filme em questão, ficou pronto, ou seja, com a armadura necessária para as exigências técnicas do mercado comercial. Infelizmente (não cabe aqui chorar aos pés do Caboclo) sem condições de bradar aos quatro ventos sua chegada ao escurinho do cinema... Não temos a menor dúvida que a propaganda é a alma do negócio... Por conta da circunstancia particular nossa, com Deus é servido... Sugerimos aos espectadores de boa vontade, se estiverem de acordo, fazer o boca a boca, avisando aos não avisados, seria esta, de resto, uma maneira de tentar não permitir que, a correnteza do descaso arraste ao Deus dará... Mais este filme para o ossuário geral da Utopia do fazer cinema no Brasil.

Sem propaganda o fita em cartaz tem vida curta. Portanto os primeiros serão os primeiros, dificilmente os últimos chegarão primeiro... É só prestar atenção ao terceto final do exemplar e coincidente (com vistas à nossa estória) soneto de Mário Quintana: “Pobres cartazes por aí afora/Que anunciam: Alegria – Risos/ Depois do Circo já ter ido embora”.

O cinema não tem vocação para a clandestinidade... Que os anjos nos digam Amém... Aleluia!!!!!!!"

Tuna Espinheira e-mail:
tunaespinheira@terra.com.br
Tuna Espinheira é cineasta, roteirista e diretor do filme: Cascalho

21 maio 2009

O gênio está em Cannes




Da AFP
O cineasta francês, Alain Resnais, 86 anos, e que há 50 anos deixou para a posteridade o austero e inovador Hiroshima meu amor, fez soprar nesta quarta-feira em la Croisette um vento de fantasia e leveza com Les Herbes folles (As ervas daninhas) - uma história interpretada por um casting surpreendente.
Alain Resnais, que completará 87 anos no dia 3 de junho, não colocava um filme em competição em Cannes desde 1980, com Mon Oncle d'Amérique /Meu tio da América, que lhe valeu o Grande Prêmio Especial do Júri e o da Crítica Internacional.
O filme Les Herbes folles, muito aplaudido na projeção para a imprensa, representa a adaptação fiel do romance L'incident, de Christian Gailly. O título do filme evoca as plantas que crescem à mercê do vento, em local onde não são esperadas. A dentista Marguerite Muir (Sabine Azéma) tem a bolsa roubada. Georges Palet (André Dussolier) encontra a carteira e a entrega a uma delegacia de polícia. Intrigado pela fotografia da identidade desta mulher, ele procura entrar em contato com ela.A história poderia parecer banal, mas não o é em seu desenvolvimento nem em seu tratamento, tanto por parte do diretor do filme quanto do escritor do livro.
Alain Resnais lembrou, durante entrevista à imprensaa, que se seguiu à projeção, que Christian Gailly havia sido saxofonista, para explicar o ritmo "sincopado de jazz" do filme. A maneira de Christian Gailly empregar a sintaxe "dava os efeitos que me parecem muito perto das improvisações do jazz e da música em geral", explicou o diretor, indicando que a música de Mark Snow foi utilizada durante a filmagem para dar o ritmo.
O filme, do começo ao fim surpreende o espectador de mil maneiras: diálogos inesperados, absurdo de situações, turbilhão de achados visuais.Tudo isso é apresentado por um casting brilhante, com Sabine Azéma e André Dussolier na cabeça, assim como Roger Pierre num papel coadjuvante. Em outros papéis mais ou menos importantes, estão presentes Anne Consigny, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Michel Vuillermoz, Annie Cordy, e a voz de Edouard Baer. O realizador de Hiroshima meu amor e O ano passado em Marienbad (1961) passa ao mundo, desde o início, a imagem de um cineasta cerebral, adaptando autores difíceis como Alain Robbe-Grillet, Marguerite Duras e temas complexos.
Fotos de Kleber Mendonça Filho diretamente de Cannes, que apanhei na internet.

20 maio 2009

Mostra do cinema baiano

Clique na imagem para vê-la maior e mais legível.

"The getaway", de Sam Peckinpah


Thriller vigoroso, sem falsos moralismos (o crime, afinal, para o casal protagonista, compensa), Os implacáveis (The getaway, 1972), de Sam Peckinpah (1924/1984), incorpora, inclusive, procedimentos resnaisianos ao gênero (como nos lances de memória, que se poderia dizer flashes de memória, quando Steve McQueen, logo na apresentação, dentro da cela, pensa na mulher que deixou, Ali MacGraw), além da montagem procurar, ao mostrar o trabalho dos presidiários, uma associação não de continuidade, mas de significações através das ações humanas e dos objetos que adquirem, na composição peckinpahniana, um sentido que é acrescido à representação da imagem, como queria André Bazin. Há quase trinta e sete anos de sua realização, The getaway se mostra uma obra ágil, vibrante, como se tivesse sido realizada nos dias atuais. Aliás, Peckinpah em Meu ódio será tua herança (The wild bunch, 1968) já preconizava um cinema de cortes rápidos em determinadas seqüências (como a do tiroteiro final avassalador e terminal), nunca, porém, como se faz hoje, com a abominável estética da tesourinha, quando a narrativa cinematográfica vira um papel picado não deixando ao olhar qualquer possibilidade de contemplação. The wild bunch é um filme que detona uma escrita que seria tomada como base pelos cineastas (como o uso da câmera lenta para enfatizar e robustecer a violência).
Em 1994, seguindo à risca o roteiro de Walter Hill (que viria a dirigir ótimos filmes de ação), Roger Donaldson realizou um remake de The getaway, que serve de exemplo, apesar de um filme fraquíssimo, como a mão de um grande diretor é que determina a excelência de um filme. O caso de Gus Van Sant no remake de Psicose é também exemplar, porque, mesmo contando com os préstimos do mesmo roteirista de Hitch, o resultado foi desastroso.
O primeiro filme notável de Peckinpah, depois de realizados vários filmes de ação, está em Pistoleiro ao entardecer (Ride the high country, 1961), western outonal, crepuscular, que prenuncia a morte do gênero, com Joel McCrea e Randolph Scott como dois velhos pistoleiros que já sentem os sinais do tempo e da finitude da vida, mas, mesmo assim, insistem na permanência como cowboys. Obra melancólia, de rara beleza, que também pode ser comparada a O homem que matou o facínora, do grande John Ford, também um western do crepúsculo.
McQueen, um tipo admirável, raro se se pensar no cinema contemporâneo tão cheio de adamascados, teve um affair impetuoso e implacável com Ali MacGraw, que, na época, era esposa do presidente da Paramount. Na cena em que ele bate nela, encostados num carro numa estrada, Peckinpah o orientou no sentido de socá-la com vontade. Ele é um vigarista que, ao sair da prisão, rouba um banco e foge com a mulher para o México. No trajeto tem que enfrentar os rivais que o perseguem e querem matá-lo.
Clique na imagem para vê-la maior.

19 maio 2009

Arte japonesa e outras

Sem assunto, pensei, a ver esta arte japonesa, em Toshiro Mifune, o primeiro ator que conheci do cinema nipônico. Com aqueles panos brancos a resguardar suas entranhas em O sétimo samurai, do grande Akira Kurosawa. Vi, menino e adolescente, muitos filmes japoneses distribuídos pela Toho, que passavam em São Paulo e vinham muitos para Salvador. Rashomon apenas vi muitos anos depois em cinemateca. Kurosawa, apreciei à medida em que seus filmes eram lançados. Lembro-me agora assim de memória de outros diretores como Kaneto Shindo (A ilha nua), Masaki Kobayashi (Harakiri, Onibaba, As quatro faces do medo, Guerra e humanidade...), Eizo Sugawa (Caça às feras), Shonei Inamura (Todos porcos), e, talvez, o maior de todos, Kenji Mizoguchi com seu encantador Contos da lua vaga, que me impressionou deveras. Mas Yasujiro Ozu vim somente a ter o grande prazer em conhecê-lo na última década através do disquinho e de alguns filmes baixados na internet que me foram emprestados. Comprei Bom dia. E quero comprar, para tê-lo em casa, Contos da lua vaga. Diria que Kurosawa é hors concurs. Há dele filmes belíssimos. Lembro-me de Toshiro Mifune a atuar em Grand Prix, de John Frankenheimer (ninguém nunca na história do cinema filmou tão bem corridas de automóveis). Frankenheimer, na sua fase anos 60, é o máximo. Mesmo depois, como pude constatar agora na revisão de Domingo negro (Black sunday, 1977) é de um impacto superior. Qual o realizador cinematográfico que tem uma sistemática utilização dos efeitos de intensificação dramática das situações por meio de um equilibrado uso da montagem e da música? John Schlesinger? William Friedklin?

17 maio 2009

Da selvageria nas salas de cinema


É um inferno a ida, atualmente, ao cinema para ver um filme, principalmente nos complexos dos shoppings. Mas a falta de educação, a gestualidade brutal, a ausência de respeito, não se restringem apenas às salas dos dominantes centros de compras. Também nas salas alternativas, verifica-se o mesmo comportamento selvagem. Nestas, a maioria é constituída de pseudos-cinéfilos, pessoas que querem aparecer, se mostrar. Mas antigamente não era assim? perguntou-me um gaiato com um saco de pipocas na mão? Não, não era assim, o público se comportava e, nos chamados cinemas poeiras, havia uma certa agitação, gritos, mas tudo em interação com o filme, uma espécie de torcida. Ir ao cinema hoje para mim é um inferno. É preciso escolher as sessões vazias.
Para que o processo de comunicação seja perfeito, segundo dizem os comunicólogos, entre a emissão e a recepção não deve haver ruídos. Estes, no entanto, estão presentes quando se vai atualmente às salas exibidoras de filmes, não importa sejam elas situadas em complexos, sejam elas consideradas alternativas, porque a falta de polidez e educação está generalizada. Entre os ruídos mais notórios que atrapalham sobremaneira a contemplação da obra cinematográfica, e os mais incomodativos, pelo menos na minha visão idiossincrática, estão aqui quatro exemplos:
1) Conversa ao celular. O telefone portátil deve ser desligado por todo o cinéfilo que se preza. Atendê-lo, durante a projeção de um filme, se constitui numa agressão ao próximo, num desrespeito a seu semelhante. A começar do toque da chamada, que se diversifica e tem seu volume cada vez mais alto. E as conversas, as abobrinhas descarregadas, que azucrinam aquele que, querendo apenas contemplar o filme, fica obrigado a escutá-las.
2) A comilança. Se antes tínhamos o barulho do amassar dos sacos de pipocas, e das mandíbulas ansiosas a mastigá-las, atualmente a sala exibidora se tornou um fast food, onde se come de tudo. O espectador, logo quando entra, chega a carregar uma bandeja plena de comida e guloseimas diversas.
3) Conversinhas descabidas. Os espectadores conversam durante o filme, o que incomoda muito. Vale observar que as conversas, geralmente papos demenciais, referem-se aos fatos de suas vidas cotidianas. O filme, impávido, rola na tela, indiferente às combinações urdidas no escurinho da sala.
4) Risadinhas fora de hora. Decididamente, a maioria dos espectadores que vai ao cinema, hoje, não está muito interessada no que se passa na tela, não. O ir ao cinema se constitui, apenas, numa das fases do shoppear. Mas, então, o comportamento das pessoas é completamente dissonante, principalmente quando riem de situações que nada têm de engraçadas. Há, na verdade, um fosso cultural, entre a cultura da platéia e a cultura dos personagens na tela, quando o filme não faz parte do lixo cultural.Há muitos outros ruídos entre a emissão e a recepção de um filme. Mas vamos ficar, por ora, nestes quatro, os mais abusados e irritantes. O fato é que o comportamento da platéia atualmente vem em decorrência de seu comportamento diante da televisão, principalmente nas novelas. A teledramaturgia televisiva, porque um discurso aberto, condicionou de tal maneira o consumidor, que, quando este vai ao cinema, se comporta da mesma maneira que se comporta ao ver televisão, não considerando que o filme, ao contrário da novela, é um discurso fechadíssimo, limitado em seu tempo, em sua duração. Quem gosta de ver um filme com atenção, em silêncio, sofre muito hoje em dias nas salas dos chamados complexos. Mas o interessante é que esse comportamento vândalo não se limita aos Multiplexes, mas está a ser notado, também, nas chamadas salas alternativas, redutos de pseudo-intelectuais e pseudo-cinéfilos.Sacrifica-se, hoje, indo-se ao cinema, a sensibilidade.

Veja-se, na imagem, a contradição: uma propaganda do governo sobre educação pelo vídeo que tem a pipoca como atrativo. O que vejo nisso é a ignorância, a deseducação e o caos.

15 maio 2009

Uma das maiores comédias de todos os tempos

Sem tirar os méritos de Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), de Billy Wilder, que é uma das melhores comédias do cinema em todos os tempos, obra de rara sensibilidade, engenho e arte, creio, no entanto, que há uma notável influência sobre The apartment de Em busca de um homem (Will success spoil Rock Hunter?, 1957), de Frank Tashlin, outro notável realizador que anda esquecido pela crítica revisionista, que tanto está a redescobrir cineastas importantes nas suas pesquisas arqueológicas (o exemplo da revista eletrônica Contracampo, nesse particular, é único, pois está a trazer à baila antigos diretores que já estavam completamente olvidados, a exemplo de Ida Lupino).

Tashlin, desenhista de cartoon, quando ingressa na arte de fazer comédias, demonstra um sentido de cinema extraordinário, a explorar a sátira ao american way of life com um senso metalinguístico, que, poder-se-ia dizer, é avant la lettre. Em busca de um homem, título meio idiota para Will success spoil Rock Hunter? é uma comédia cujos elementos de sua fabulação estão presentes em The apartment. Assim como, depois que revi A marca da maldade (Touch of evil, 1958), de Orson Welles, creio que Hitchcock, para Psicose (Psycho, 1960), inspirou-se na sequência de Janet Leigh, no filme de Welles, trancada no hotel, e, inclusive, chega a convidar a mesma atriz para o papel de Marion Crane.

Em Will success spoil Rock Hunter?, Tony Randall, assim como o Jack Lemmon do filme de Wilder, é um executivo de empresa americana bem típica que deseja ascender e, para isso, faz concessões a fim de atingir o topo. Quando consegue, e a cena na qual é premiado com a chave do banheiro exclusivo é hilariante, compreende que a vida não consiste apenas no desejo de ascensão por qualquer preço. Enquanto isso, a esfuziante Jayne Mansfield chega à cidade para a alegria de todos, inclusive de sua sobrinha, fã incondicional da atriz (Tashlin soube aproveitar o talento de seu sexy appeal, neste Rock Hunter e em Sabes o que quero/The girl can't help it, 1956). Randall (Rockwell Hunter) então tem a idéia de explorar a sua sexualidade na indústria publicitária onde trabalha e vem a conseguir o sucesso, apesar da contrariedade de sua noiva, que não quer vê-lo tão entusiasmado com ela.

A cor, o cinemascópio, a cenografia tudo produz um cartoon-like visual mágico, e, ainda por cima, há uma maestria inconteste, e novo, no uso do distanciamento brechtiano. A apresentação dos créditos já é um primor neste distanciamento, com Tony Randall a anunciá-los e a errar o nome certo do filme. Em The girl can't help it, Tom Ewell, no início também dos créditos, aparece em um formato de tela padrão e, de repente, se dá conta que o filme é em cinemascope e, também de repente, a tela se alarga no formato adequado à lente anamórfica.

Filme brilhante, um dos maiores da década de 50, precisa ser, e urgentemente, revisitado.

14 maio 2009

"O homem que não dormia", de Edgard Navarro

Aviso aos navegantes: quem quiser acompanhar as notícias das filmagens de O homem que não dormia, de Edgard Navarro, deve acessar o blog feito especialmente para o filme: http://ohomemquenaodormia.blogspot.com/
As filmagens foram realizadas em Igatú (Chapada Diamantina) e conta, no seu elenco, com o mítico Luis Paulino dos Santos, o cineasta que deu início a Barravento e depois sofreu sumária demissão, assumindo, em seu lugar, para fazer seu primeiro longa, Glauber Rocha.

13 maio 2009

"O Guarany" é novamente premiado

Para ler o que está escrito é necessário clicar na imagem para que seja aberta em outra janela em tamanho maior.

"Pas sur la bouche", de Alain Resnais



O cinema contemporâneo não perdeu a sua inventividade, ainda que são raros os exemplos de filmes imaginativos e de invenção. Um deles, Beijo na boca, não! (Pas sur la bouche, 2003)), com Audrey Tautou de Alain Resnais, que foi lançado no Brasil devido ao sucesso de Medos privados em lugares públicos (Coeurs), que levou quase um ano em cartaz em São Paulo e parece que ainda se encontra em exibição. O resto é conversa fiada.

Baseado num opereta cômica de 1925, Resnais segue à risca o texto original. A acreditar ter sido o primeiro homem de sua esposa, um rico industrial desconhece inteiramente o fato dela ter sido casada com um americano e que o motivo da separação foi por causa de sua (dele) recusa em ser beijado na boca. Um belo dia, porém, o americano, pela força das circunstâncias e do destino, é convidado para jantar na casa do casal. E as confusões se sucedem.

O que parece, aqui, um tanto ingênuo, dito assim ligeiramente, transforma-se, nas imagens em movimento, em algo inventivo, divertido, a estabelecer um paradoxo teatro-cinema.

A ver obrigatoriamente.

10 maio 2009

"Guernica", de Picasso, em 3D

"Hello, Dolly!"

Quando do lançamento de Alô Dolly! (Hello Dolly!, 1969), de Gene Kelly, a crítica foi amplamente desfavorável, considerando-o um musical à antiga, trama frouxa e boba, e filme dotado de espetaculosidade exagerada. Revisto agora no Telecine Cult (que conservou o cinemascope original - aliás foi filmado em 70mm, mas na versão exibida o formato da tela está em toda a sua integridade espacial), não receio dizer que Hello Dolly!, que o achei na tela doméstica sem querer, ainda no princípio, deixou-me preso ao sofá sem poder deixar de contemplá-lo até o fim. O filme levou a Fox à falência, porque seus executivos não perceberam que se estava em fins dos agitados anos 60 e o mundo estava mudado. Ano antes, 1968, houve a explosão do festival de Woodstock, Hair despontava nos teatros, e o romantismo clássico estava no rés-do-chão com a emergência do sexo libertário. Não havia mais lugar para a casamenteira Dolly Levin e suas peripécias para fazer casar os habitantes de Yonkers.
O filmusical, que atingiu seu ápice entre 1942, quando da vinda de Nova York para Hollywood de Vincente Minnelli, que introduziu a musica e a dança como molas propulsoras da trama (não mais o enredo como pretexto para a explosão dos números musicais como acontecia antes de Minnelli), entrou em decadência a partir de 1958 (e muitos exegetas consideram Gigi, de Minnelli, o último musical clássico), ainda que nos anos 60 o gênero tivesse sofrido uma certa transformação em função de obras superproduzidas não mais com a simplicidade de outrora, a exemplo de Amor, sublime amor (West Side Story, 1961), A noviça rebelde (1965), ambos de Robert Wise, A moedinha da sorte, de George Sidney, Funny Girl (1968), de William Wyler, Positivamente Millie, de George Roy Hill, e Mary Poppins, de Robert Setevens, ambos estrelados por Julie Andrews, e o magnífico My Fair Lady, de George Cukor, com Rex Harrison e Audrey Hepburn, entre outros, como A estrela, de Wise, com Andrews. Tenho particular admiração por Positivamente Millie, que o acho extraordinário.
Ao contrário dos filmes da fase de ouro do gênero musical, principalmente os produzidos pelo gênio de Arthur Freed, há uma grandiloquência em Hello Dolly! que não se encontrava nos antigos. O filme, se, por um lado, tem o esplendor da magnífica tela em 70mm, e Kelly, o diretor, sabe usar o espaço cinematográfico com rara sensibilidade, caracteriza-se por uma enxurrada de belíssimos números musicais, quer seja pela música inebriante, quer seja pelas danças acrobáticas (e, nesse particular, a executada pelos garçons no restaurante Harmonia Garden, sobre ser um prenúncio para a entrada triunfal de Dolly, é de uma perfeição admirável). Mas diante de tanta beleza, desse hino pela alegria de viver, por que a exigência de um tema nobre? É bem característica da crítica de antanho esta procura quase desesperada pela nobreza temática para justificar o valor cinematográfico de um filme. Escapista? Sim, e daí? O fato é que Hello Dolly! é um espetáculo que surpreende pela beleza de sua encenação. E há, ainda, no auge de sua carreira depois do Oscar de Funny Girl, o talento de Barbra Streisand, que dá um show particular, principalmente quando canta a música que dá nome ao filme em seu dueto com Louis Armstrong.
A impressão que se tem é a de que a trama funciona apenas como pretexto para a explosão dos números musicais e, principalmente, para a apoteose da chega de Dolly Levin ao Harmonia Garden. Se é verdade que há esta intenção de preparação, a excelência dos números precedentes, porque extraordinários, não interfere no espetáculo, e um nome deve, aqui, ser ressaltado: o de Michael Kidd, um cenógrafo brilhante, um artista que somente podia nascer na idade de ouro dos filmusicais.
A ação se passa em Nova York em 1890. Uma viúva jovem (Barbra Streisand) é especialista em arranjar casamentos ricos. Seu objetivo se concentra em fazer com o sua chapeleira Irene (Marianne McAndrew) seja cortejada pelo milionário Horace Vandergeider (interpretação estupenda de Walter Matthau), que mora em Yonkers, que pede a Dolly que leve sua sobrinha Ermengarde (Jaoyce Ames) a Nova York a fim de livrá-la de um namorado impertinente, Ambrose (Tommy Tuna). Dolly, porém, que gosta dos dois, leva-os juntos. No trem (e o número da roupa de domingo é espetacular!, inspirado, talvez, naquele de Judy Garland em Agora seremos felizes/Meet me in St'Louis, 1944, de Minnelli), seguem também dois rapazes que trabalham para Horace, Cornelius (o talentosíssimo Michael Crawford) e Barnaby (Danny Lockin). Em Nova York, Irene e sua assistente Minnie (E. J. Peaker) começam a flertar com Cornelius e Barnaby, a ignorar quem são na realidade. Cornelius se apaixona por Irene, Barnaby por Minnie e Dolly, após muitas peripécias, consegue o que queria: casar-se com Horace.
A história de Hello Dolly! começou com um peça inglesa, A day well spent, de John Oxenford, encenada em Londres em1835. Em 1842, o teatrólogo austríaco Johann Nestrov fez uma versão vienense intitulada Einen jus will er sich machen. Em 1938, Thorton Wilder adaptou a idéia com o título de The merchant of Yonkers, peça dirigida por Max Reinhardt (o célebre diretor de teatro do expressionismo alemão). O próprio Wilder reescreveu a peça, que, com o título de The matchmaker, fez sucesso no Festival de Edimburgo e em Londres em 1954, com Ruth Gordon. Em 1958, a Paramount filmou a peça de Wilder: Mercadora da felicidade (The matchmaker), com Shirley Booth, Shirley MacLaine e Paul Ford, Anthony Perkins, sob a direção de Joseph Anthony. Sua versão musical, no entanto, demorou para chegar. Em 1964, ela foi lançada na Broadway, com Carol Channing, entre outros. Esta versão cinematográfica é o segundo filme de Barbra Streisand (o primeiro o já citado Funny Girl) e o nono na carreira do grande Gene Kelly - que é responsável pela co-direção daquele que é considerado o melhor musical de todos os tempos: Cantando na chuva (Singi'in in the rain, 1952), de Kelly e Stanley Donen. Vi, há quarenta anos (estou cada vez mais jovem), numa superprodução de Oscar Ornstein, a versão brasileira de Alô Dolly! com Bibi Ferreira no papel principal.
A música é de Jerry Herman, coreografia do genial Michael Kidd e a luz poderosa de Harry Stradling (De Luxe/Todd-Ao/70mm/Color).

08 maio 2009

É para matar ou curar?

Passei, em novembro e dezembro de 2006, quase dois meses hospítalizado. Tive um cinematográfico enfarte agudo do miocárdio e penei até que fossem implantadas duas majestosas pontes de safena. A bem da verdade, fui muito bem tratado pelos médicos e enfermeiras, ainda que algumas destas, principalmente quando no inferno do Centro de Tratamento Intensivo - as famigeradas UTIs, gostassem de exibir autoridade porque, frustradas, precisam, nestas oportunidades, exercer poder. E nada melhor para o exercício do poder do que em cima de um paciente, de um ser temporariamente inválido. Mas de um modo geral, feita a ressalva, sou muito crítico em relação a médicos, que, na sua grande maioria, tirante as sumidades de praxe, são arrogantes e ignorantes. Lembrei-me deste artigo ao ler a notícia de que a Faculdade de Medicina da UFBa foi considerada uma das piores do Brasil pelo MEC. A bem da verdade, esta faculdade era considerada um centro de excelência há algumas décadas atrás, com sumidades da área como Estácio de Lima, Fernando Carvalho Luz, Fernando São Paulo, entre muitos outros. O que está a acontecer? Estamos rolando ladeira abaixo? O texto que vai abaixo foi tirado da internet e quem o escreveu foi Sérgio Gwercman.
Dr. Vernon Coleman, tem 57 anos, gosta de escrever livros de ficção e já publicou 12 romances. Divide seu tempo entre o interior da Inglaterra e uma cobertura no centro de Paris. Sofre de "cotovelo de tenista" nos dois braços por causa da má postura ao digitar. Diz que os hospitais mais matam do que curam e que é preciso ser muito saudável para sobreviver a um deles.

Por Sérgio Gwercman
Um selo colado na testa advertindo sobre os perigos que podem causar à saúde. Se dependesse do inglês Vernon Coleman, esse seria o uniforme ideal dos médicos. Dono de um diploma em medicina e um doutorado em ciências, Coleman abandonou a carreira após dez anos de trabalho para ganhar a vida escrevendo livros com títulos sugestivos do tipo : "Como Impedir o seu Médico de o Matar" Autor de 95 livros, o inglês é um auto-intitulado defensor dos direitos dos pacientes. Em seus textos, publicados nos principais jornais do Reino Unido, costuma atacar a indústria farmacêutica - para ele, a grande financiadora da decadência - e, principalmente, os médicos que recusam tratamentos que excluam a utilização de remédios e cirurgias. Dono de opiniões polêmicas, Coleman ainda afirma que 90% das doenças poderiam ser curadas sem a ajuda de qualquer droga e que quanto mais a tecnologia se desenvolve, pior fica a qualidade dos diagnósticos.

Como um médico deve se comportar para oferecer o melhor tratamento possível a seu paciente?

Os médicos deveriam ver seus pacientes como membros da família. Infelizmente, isso não acontece. Eles olham os pacientes e pensam o quão rápido podem se livrar deles, ou como fazer mais dinheiro com aquele caso. Prescrevem remédios desnecessários e fazem cirurgias dispensáveis. Ao lado do câncer e dos problemas de coração, os médicos estão entre os três maiores causadores de mortes atualmente. Os pacientes deveriam aprender a ser céticos com essa profissão. E os governos, obrigá-los a usar um selo na testa dizendo "Atenção: este médico pode fazer mal para sua saúde"
.
Qual a instrução que pacientes recebem sobre os riscos dos tratamentos?
A maior parte das pessoas desconhece a existência de efeitos colaterais. E grande parte dos médicos não conhece os problemas que os remédios podem causar. Desde os anos 70 eu venho defendendo a introdução de um sistema internacional de monitoramento de medicamentos, para que os médicos sejam informados quando seus companheiros de outros países detectarem problemas. Espantosamente, esse sistema não existe. Se você imagina que, quando uma droga é retirada do mercado em um país, outros tomam ações parecidas, está errado. Um remédio que foi proibido nos Estados Unidos e na França demorou mais de cinco anos para sair de circulação no Reino Unido. Somente quando os pacientes souberem do lado ruim dos remédios é que poderão tomar decisões racionais sobre utilizá-los ou não em seus tratamentos.

Você considera que os médicos são bem informados a respeito dos remédios que receitam a seus pacientes?
A maior parte das informações que eles recebem vem da companhia que vende o produto, que obviamente está interessada em promover virtudes e esconder defeitos. Como resultado dessa ignorância, quatro de cada dez pacientes que recebem uma receita sofrem efeitos colaterais sensíveis, severos ou até letais. Creio que uma das principais razões para a epidemia internacional de doenças induzidas por remédios é a ganância das grandes empresas farmacêuticas. Elas fazem fortunas fabricando e vendendo remédios, com margens de lucro que deixam a indústria bélica internacional parecendo caridade de igreja. Acompanhando didaticamente alunos do 6º ano (prestes a entrar na vida profissional) constatei que apenas 5% conhecia a farmacocinética dos produtos que propunham aos pacientes. Entre profissionais experientes não consigo estimar, no entanto suponho ser porcentagem menor, pois a prática usual em vários empregos com períodos extensos e irregulares diminuem a possibilidade de aprender, especialmente bioquímica e farmacologia. Para aumentar este problema, temos alterações periódicas na composição dos produtos comerciais com vistas a aumentarem o preço, por serem considerados medicamentos novos. O que dificulta mais ainda o escasso tempo médico dedicado à atualização.

E o que os pacientes deveriam fazer?
Enfrentar doenças sem tomar remédios?É perfeitamente possível vencer problemas de saúde sem utilizar remédios. Cerca de 90% das doenças melhoram sem tratamento, apenas por meio do processo natural de autocura do corpo. Problemas no coração podem ser tratados (não apenas prevenidos) com uma combinação de dieta, exercícios e controle do estresse. São técnicas que precisam do acompanhamento de um médico. Mas não de remédios.Receber remédios não é o que os pacientes querem quando vão ao médico?É verdade que muitos pacientes esperam receber medicamentos. Isso acontece porque eles têm falsas idéias sobre a eficiência e a segurança das drogas. É muito mais fácil terminar uma consulta entregando uma receita, mas isso não quer dizer que é a coisa certa a ser feita. Os médicos deveriam educar os pacientes e prescrever medicamentos apenas quando eles são essenciais, úteis e capazes de fazer mais bem do que mal.

Que problemas os remédios causam?
Sonolência, enjôos, dores de cabeça, problemas de pele, indigestão, confusão, alucinações, tremores, desmaios, depressão, chiados no ouvido e disfunções sexuais como frigidez e impotência.Em um artigo, você cita três greves de médicos (em Israel, em 1973, e na Colômbia e em Los Angeles, em 1976) e diz que elas causaram redução na taxa de mortalidade. Como a ausência de médicos pode diminuir o risco à vida?Hospitais não são bons lugares para os pacientes. É preciso estar muito saudável para sobreviver a um deles. Se os médicos não matarem o doente com remédios e cirurgias desnecessárias, uma infecção o fará. Sempre que os médicos entram em greve as taxas de mortalidade caem. Isso diz tudo. Aqui no Brasil pudemos constatar o mesmo durante greve prolongada de médicos no Rio de Janeiro

Muitas pessoas optam por terapias alternativas. Esse é um bom caminho?
Em diversas partes do mundo, cada vez mais gente procura práticas alternativas em vez de médicos ortodoxos. De certa maneira, isso quer dizer que a medicina alternativa está se tornando a nova ortodoxia. O problema é que, por causa da recusa das autoridades em cooperar com essas técnicas, muitas vezes é possível trabalhar como terapeuta complementar sem ter o treinamento adequado. Medicina alternativa não é necessariamente melhor ou pior que a medicina ortodoxa. O melhor remédio é aquele que funciona para o paciente.
Em um de seus livros, você afirma que a tecnologia piorou a qualidade dos diagnósticos. A lógica não diz que deveria ter acontecido o contrário?Testes são freqüentemente incorretos, mas os médicos aprenderam a acreditar nas máquinas. Quando eu era um jovem doutor, na década de 70, os médicos mais velhos apostavam na própria intuição. Conheci alguns que não sabiam nada sobre exames laboratoriais ou aparelhos de raios-X e mesmo assim faziam diagnósticos perfeitos. Hoje, os médicos se baseiam em máquinas e testes sofisticados e cometem muito mais erros que antigamente. Infelizmente tenho constatado mais agravantes neste aspecto de exames:
1- 70% dos resultados de exames onde os pacientes referem que estão normais (ditos pelos médicos que solicitaram) tenho encontrado alterações documentadas no próprio exame (constado nos valores de referência). Isto reflete dupla negligência; do médico que não valorizou a alteração e do paciente que não se dignou a comparar seus resultados com os valores de referência fornecidos.
2- Alguns exames esclarecedores muitas vezes não são solicitados ou valorizados, entre eles cito dois que são pungentes: marcadores tumorais e pesquisa de sangue oculto nas fezes.
3- Realizam exames que já não têm nexo em nosso contexto, como, por exemplo, a mamografia (o ultrassom de mamas é muito mais sensível nos processos iniciais, como tem noticiado fartamente nossa imprensa popular há 3 anos e as publicações técnicas há 7 anos).
4- Solicitam exames caros e arriscados sem indicação clínica adequada (o exemplo aqui é do cateterismo cardíaco - embora eu sempre insista neste assunto, aconteceu com minha família dois acidentes com o contraste durante cateterismo, um por indicação monetária e não clínica e o outro com indicação clínica que resultou em óbito durante o exame)
5- Aonde é importante os exames laboratoriais ao invés de exame físico, a maioria insiste no exame físico. Aqui o exemplo mais pungente é o toque retal para avaliar próstata, pois o ultrassom pode mostrar dezenas de vezes melhor do que a palpação, indicando nodulações (ou outras alterações) internas ou na face anterior onde não é possível palpar. Semelhante perspectiva podemos assumir perante o toque vaginal para avaliar útero e ovários.
6- Solicitam exames complexos e/ou arriscados sem terem realizados os exames mais simples e inócuos previamente. Aqui podemos utilizar o exemplo do ecocardiograma (ultrassom cardíaco) sem Eletrocardiograma ou Rx de tórax prévios. Aqueles que quiserem entender melhor sobre exames, sugiro o link indicado nos meus link favoritos: Guide to Clinical Preventive Services, of Columbia University Medical Center.

Você faz ferrenha oposição aos testes médicos realizados com animais em laboratórios. De que outra maneira novas drogas poderiam ser desenvolvidas?
Faz muito mais sentido testar novas drogas em pedaços de tecidos humanos que num rato. Os resultados são mais confiáveis. Mas a indústria não gosta desses testes porque muitos medicamentos potencialmente perigosos para o homem seriam jogados fora e nunca poderiam ser comercializados. Qual o sentido de testar em animais? Existe uma lista de produtos que causam câncer nos bichos, mas são vendidos normalmente para o uso humano. Só as empresas farmacêuticas ganham com um sistema como esse.

O que você faz para cuidar da saúde?
Eu raramente tomo remédios. Para me manter saudável, evito comer carne, não fumo, tento não ficar acima do peso e faço exercícios físicos leves. Para proteger minha pressão, desligo a televisão quando médicos aparecem na tela apresentando uma nova e maravilhosa droga contra depressão, câncer ou artrite que tem cura garantida, é absolutamente segura e não tem efeitos colaterais

07 maio 2009

Imagens da folia

A consagrada artista plástica Ediane do Monte está com uma exposição no Centro de Convenções até o dia 13 de maio chamada Imagens da Folia dentro da programação do Encontro Internacional sobre os 30 anos da Lei Franco Basaglia: reformas psiquiatricas e transformacão cultural no Brasil e no mundo. A exposição revela as suas fotografias captadas durante a Primeira Parada de Orgulho Louco, que se realizou pelas ruas da Barra ano passado. Doentes mentais de todos os tipos e de todas as cores saíram em protesto contra os manicômios e fizeram uma festa. Loucos de todo o mundo, uni-vos!!

06 maio 2009

Do cinema e dos "ratos endinheirados"


Tomo a liberdade de transcrever o lúcido e coerente comentário de Inácio Araújo em seu excelente blog (http://inacio-a.blog.uol.com.br/ ) sobre o drama do financiamento do filme brasileiro. É um assunto para reflexão.
(1) Fazer um filme requer dinheiro; 2) Cinema é atividade deficitária.

A questão última, incontornável, deixada por essas duas constatações é: o cinema (brasileiro) precisa existir ou não?

Há quem, como o Daniel, não tem paciência com o Danilo. Há quem, como o Milton, responda com argumentos aos raciocínios divergentes.

Tenho a impressão de que raciocínios como o do Danilo resultam, em grande medida, de velhos preconceitos em relação ao cinema nacional, somados a essa indignação meio vaga que rola pelos blogs um pouco contra tudo e contra todos, esse tipo de suspeição indiferenciada que transitava pelo "M – O Vampiro de Dusseldorf", com um espírito de linchamento no ar. Ele atinge políticos, em primeiro lugar e por razões meio óbvias, mas pode espirrar em qualquer um.

Como existe um rescaldo neoliberal nessa história, qualquer pessoa com relação direta com o Estado torna-se suspeito.

Assim, o módico subsídio ao cinema torna-se o "meu imposto", aquele mito de que Roland Barthes deu conta nos anos 50 ("Mitologias"). Não se trata do cidadão, trata-se do cidadão reduzido à condição de contribuinte. E indignado.

As contas do Daniel me parecem certas. Mais ou menos eu já as apliquei a um jornalista que veio com esse papo quando eu não queria conversa: dei uma moeda de cinco centavos e pronto.

Mas é claro que a coisa é mais complicada.

Mais resistente, também. E o cinema também tem parte nisso.

Vou tentar fazer uma enumeração, no sentido de abreviar as coisas, para não aborrecer ninguém, ou aborrecer o mínimo possível.

1) A renúncia fiscal é, sim, uma renúncia da sociedade. Se é pequena ou grande, é outra história. Dentro dela, dois aspectos: a) por que o cinema chama tanto a atenção se, de fato, é tão pequeno?; e b) por que o cinema acha que não deve nunca prestar contas disso, que se trata de uma espécie de obrigação da sociedade sustentá-lo e não de uma opção?

2) Quanto ao aspecto b), devo dizer logo de cara que me parece completamente indispensável o financiamento dos filmes pelo Estado. No entanto, é preciso convir que nunca criamos mecanismos capazes de escapar às suspeitas de favorecimento e coisas assim. O fato de transferir a responsabilidade da esfera pública (Embrafilme no passado) para a privada (leia-se: Petrobrás, BNDES, Eletrobrás, etc.) não altera o fundamental. Ou antes, piora: quem decide que filmes serão feitos ou não? São comissões "da sombra". A Embrafilme ao menos se expunha. Teoricamente, mas se expunha. Agora, não.

3) Quanto dinheiro é necessário para fazer um filme? De vez em quando o MinC lança um edital do "baixo orçamento", um pouco como quem atira moedas aos pobres no trânsito. Mas não promove uma mísera discussão sobre o orçamento dos filmes e sua relação entre custo e eficácia. Nem promove uma mínima ação para baixar o custo dos filmes e facilitar que se façam mais filmes. Ora, já vi projetos (isso já faz anos) em que o valor do roteiro era de R$ 300 mil. Hoje seria o dobro. O que deve ser mais do que a Clarice Lispector, digamos, recebeu de direitos autorais ao longo da vida. O roteiro não valia nada, por supuesto, o que é outra história. Mas é preciso haver diretrizes claras sobre certas coisas, traçar linhas entre o justo e o abuso. Não é fácil, mas é necessário. Nem todo filme pode ser barato. Mas há que se evitar o mais possível esse tipo de abuso.

4) Quanto vale o trabalho de um ator? Me lembro que, quando morei na França, os orçamentos eram montados em torno disso. O Delon "valia" 500 mil entradas em Paris, a Deneuve, 400 mil. Faz sentido. Quanto vale aqui a Fernanda Montenegro? Ou o Tony Ramos? Não se pode aferir. Porque em termos de mercado tudo é absolutamente distorcido, sobretudo pela TV. Então, não se pode falar em termos de mercado. O valor de um filme nunca é o de troca. Tem de haver um outro valor. Todo mundo que gosta de cinema sustenta que o melhor filme do ano foi o do Tonacci. A "classe", quando deu seu prêmio, nem passou perto, entre outras porque não deve tê-lo visto. Um problema a que se devia dedicar a Ancine é este: partir da percepção de que existe o caos nesse setor e ver de conter esse caos. Por isso, não deve causar indignação quando alguém sugere que "seu imposto" é usado para pagar "celebridades". Pode até ser uma fantasia, não importa. Mas também é verdade que os orçamentos de cinema raramente são claros. Transparentes, para usar a palavra do momento.

5) Quando um filme é proposto a qualquer comissão, o mínimo a exigir dele devia ser um plano de marketing. Ou seja, com quem esse filme pretende falar e como. Qual é seu ponto de venda? Na prática, isso se chama trailer. O trailer devia ser feito antes do filme (não o trailer físico, é claro). Mas como exigir isso num não mercado como o nosso? Em outras palavras: se não se resolve a questão da distribuição, se ao menos não se começa a pensar nela, para que fazer os filmes? Para ficar no fundo de um armário? Para que os filmes da Globo façam um milhão de espectadores, sejam aceitáveis ou não, só porque possuem uma grande máquina de publicidade por trás e trabalham no sentido de reiterar algo que o espectador já se acostumou a ver? (casos recentes: "Se Eu Fosse Você" e "Divã").

6) Se a maior parte dos filmes não leva espectadores ao cinema, como exigir que os exibidores ponham filmes nacionais na tela? Eles têm prejuízo, é claro. Isso posto, por que não existe um mecanismo para subsidiar as salas de cinema? A construção e a manutenção delas. Daí pode-se exigir, em troca, a exibição de filmes brasileiros dentro de certas normas a serem definidas.

7) E por falar nisso por que o preço das entradas é tão absolutamente pornográfico, proibitivo, restritivo, feito para ricos? Cinema sempre foi arte de pobres, para pobres, para "o povo". Não é aceitável que ninguém se preocupe com isso e ache que cinema custar o que custa é um fato da natureza. Não é.

8) Acima de todas essas coisas, me parece que o cinema não pode ser pensado como um caso isolado. Porque o preconceito também não é isolado. Há os que não vão ceder por nada. Eles acham que o dinheiro, público, é uma coisa para ser enfurnada. Não é. Isso é um pensamento construído sobre premissas falsas, sobre a idéia de que não existe investimento, mas gasto. É esse pensamento que levar a supor que Bolsa Família é distribuição indevida do "meu imposto", que só serve para incentivar a preguiça, essas coisas. Ele não leva em conta que isso promove distribuição de renda, faz a sociedade funcionar sobre a construção e existência de um mercado interno (não se espantem, eu estudei Celso Furtado em tempos muito remotos). Em geral, quem pensa assim são uns ferrados, mas assumem o pensamento dos "ratos endinheirados". Nesse particular tenho muitas dúvidas. Ou antes: se eu tomo a periferia de São Paulo, essa coisa que chamam de bairros, não são na verdade bairros. São depósitos de gente. De pessoas que não têm a mínima chance de acesso a bens culturais. Mas é aí que se pode construir o mercado brasileiro de cinema. É aí que pode surgir o cinema barato. Aí que os Céus, Cieps e que outro nome tenham precisam existir para mostrar filmes, peças de teatro. Enfim, para fazer a função do cinema, que é tornar as pessoas felizes e informadas. Não endinheiradas. Mas felizes, informadas, integradas à cultura. Aí o cinema pode entrar e mostrar uma série de coisas sobre o Brasil e o mundo. A preço acessível, isto é, justo. Sem essa história de ONG. Isso é obrigação do mesmo Estado que dá dinheiro para cineastas e que tais. Mostrar os filmes. Fazer com que existam. Montar filmotecas (isso hoje é barbada, o DVD é barato). Ora, como querem que as escolas públicas depois funcionem na hora do Enem? Não pode. Então formamos uma sociedade de analfabetos funcionais e esperamos que funcione. Não funciona. O cinema não é tudo. Mas também não é essa coisa só de dar dinheiro para ratos endinheirados, pagar salário de celebridades. Os filmes têm uma função. Precisam de um empurrãozinho, caramba.

9) Peço que me perdoem por esse post que mais parece discurso do Fidel Castro, mas o assunto é mesmo interminável e mais cedo ou mais tarde íamos topar com ele. Então que seja agora, que estamos numa entressafra cinematográfica dolorosa (ah, tem tantos filmes nacionais que podiam ser lançados nessa hora em que a indústria está meio fora de eixo), e em que acabei de sobrevoar São Paulo. De cima é uma visão terrível. Não sei como se pode viver aqui não sendo rico. É que nem sociedade de casta: ¾ das pessoas estão condenadas a vegetar, sem chance nenhuma. A TV é que engana e faz parecer que não é.

10) Para quem quiser pensar no assunto (e para completar o decálogo), fica aí a frase luminosa do Rogério Sganzerla: "Um país sem cinema é que nem um país sem luz elétrica".