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13 março 2007

A ambulância das coisas




ROSEMARY
Basta, para se ter uma idéia do talento de Roman Polanski, a tomada fixa da cabine telefônica em O bebê de Rosemary (Rosemary’s baby, 1968), tomada demorada que concentra no rosto agoniado de Mia Farrow toda a sua carga dramática e emotiva. Rosemary, a personagem da atriz neste filme impressionante, apavorada por descobrir que está sendo envolvida com uma seita diabólica, acaba de fugir do consultório de seu médico especializado em obstetrícia por desconfiar que também faz parte do complô, e refugia-se numa cabine para telefonar para o seu antigo médico. Com a chegada de Rosemary à cabine – após deambular pelas ruas da cidade em impressionante caracterização, grávida e desengonçada, Polanski se aplica num plano fixo de seu rosto para desenvolver todo o clima de angústia e desespero. É de pequenos momentos e de pequenos gestos que se fazem os grandes filmes. Polanski é um realizador que sabe pensar cinematograficamente, que intui o possível impacto que uma determinada seqüência possa ter pelo seu sentido agudo no que se refere à utilização dos elementos determinantes da linguagem cinematográfica. Na tomada em questão, uma lição de cinema, mas, antes de concluí-la, o realizador de Chinatown, faz uma brincadeira com a chegada, frente à cabine, de um corpulento homem que parece o médico, mas que, na verdade, trata-se do produtor William Castle, famoso por seus terroríficos classe B.

VAMPIROS DA NOITE
Por falar em William Castle, lembro de um seu filme, que vi apenas uma vez nos anos 60, Trama diabólica (se não há engano memorialístico, o título original é Homicidal). Visto num poeira da Baixa dos Sapateiros, no Pax, precisamente, o filme, quando pouco antes de atingir o clímax, tem sua narrativa interrompida e aparece, na tela, um relógio com um tic tac macabro. Uma voz em off anuncia que o produtor do filme vai conceder alguns minutos para que os “cardíacos e pessoas nervosas” (sic, ainda que de memória) possam sair da sala de projeção, pois o clímax, chocante segundo as palavras, podia provocar danos naqueles mais sensíveis. O fato foi que, realmente, vi, e me lembro que vi, pessoas saindo da sala. Em seguida (eu não saí), dá-se o desfecho pleno de apelações e planos de detalhes. Castle gostava muito de assustar, chocar pelo estrépito das imagens. O que mais assusta, na minha opinião, no entanto, é o desenrolar sutil, a ausência de choques no transcorrer da narrativa, reservados estes para os momentos certos. William Castle, talvez sem o saber, foi um pioneiro no marketing. Não sei quem foi o gênio baiano que inventou, aqui em Salvador, para o lançamento de O vampiro da noite (Horror of Dracula, 1958), de Terence Fisher, com Christopher Lee, em 1960, colocar, nos dois cinemas em que a fita foi apresentada, uma ambulância na porta. Uma tabuleta em cima da bilheteria avisava que “pessoas nervosas e cardíacas” (a implicância com cardíacos, lembro-me bem, verdadeira) não deviam comprar os ingressos para ver o filme, mas, se assim procedessem, e viessem a se sentirem mal, a gerência dispunha de uma ambulância para a sua locomoção à emergência mais próxima.

NUAS, MAS NÃO VIOLENTADAS
O exibidor Francisco Pithon, que reinou no circuito soteropolitano nas décadas de 60 e 70, gostava de promover alguns filmes que lançava com certo estardalhaço e originalidade. Quando, em meados dos anos 60, foi lançado, no Guarany, Sodoma e Gomorra, de (sim, é verdade) Robert Aldrich, com Stewart Granger e Rossana Podestá, Pithon contratou duas belas mulheres que se vestiram com a indumentária idêntica à usada pelos personagens femininas de Sodoma e Gomorra, postando-as, num pequeno pódio, ao lado, cada uma, das duas bilheterias. O público pensou que fossem figurantes do próprio filme, que ficou, assim, muito badalado. Aldrich, diretor americano renovador na década de 50 (A morte num beijo) e desmistificador (da guerra em Morte sem glória/Attack), e do índio (Apache) realizou Sodoma e Gomorra como encomenda. Vi apenas no lançamento há, portanto, mais de quarenta anos. Recordo-me mais da promoão das moças seminuas e belas na porta do Guarany do que do filme (parece que, no fim, Granger, embora aconselhado a não olhar para trás, após o dilúvio das cidades, teimoso como uma mula, não obedece o conselho e vira pedra). Rossana Podestá era uma atriz italiana muito bonita (fez Helena de Tróia com Robert Wise), e esteve aqui, na Bahia, para o lançamento de Os sete homens de ouro, acompanhada do marido Marco Viccario, que era também o diretor do filme. Nesta ocasião, e quem sabe o caso é o jornalista José Augusto Berbert de Castro, protagonista da história. Hospedados no Grande Hotel da Barra, no praia do Porto (que foi considerada por jornalista inglês uma das mais belas praias do mundo), Podestá, seu marido, filhos, receberam a imprensa – nesta época, ainda que atento ao cinema e às suas coisas, não militava no jornalismo e lia apenas as críticas e comentários, adolescente que era. Bebert escrevia uma coluna sobre cinema no jornal A Tarde e se formou em medicina, apesar de nunca a ter exercido. A família da artista passou o dia inteiro no Porto e, de noite, um dos filhos, um garoto, teve brutal insolação. Viccario e Podestá, desolados e aflitos, lembraram que um jornalista, Bebert, era também médico. Embora um médico para ser temido, por causa de seu afastamento da prática, Bebert atendeu ao chamado, pois oportunidade de ouro para ficar mais íntimo de gente famosa, principalmente Podestá, uma beleza de mulher.

UM COPPOLA ANTONIÔNICO
A conversação (The conversation, 1974), de Francis Ford Coppola, com Gene Hackman, revisto recentemente, é uma obra que atesta o grande talento desse realizador antenado com seu tempo e sua circunstância e, principalmente, extremamente preocupado com a natureza da arte do filme. A conversação, filme sem atrativos comercial e talvez por isso tão esquecido e pouco visto, é uma obra que se aproxima, pela sua angústia narrativa, de Blow up, de Michelangelo Antonioni. Sente-se, no personagem vivido por Gene Hackman, aquela angústia para descobrir que atormenta o personagem do fotógrafo (David Hemmings) no filme do mestre italiano. Mais de trinta anos depois, o impacto continua o mesmo, ainda que o cinema, do ponto de vista tecnológico, tenha dado saltos atléticos. Mas a beleza do plano final, com Hackman, apartamento virado de cabeça para baixo na procura de algum objeto capaz de grampo qualquer, a fazer de conta que toca o saxofone, é um dos pontos altos do cinema na década de 70.

A MORTE DOS TRAILERS NA CONTEMPORANEIDADE
Os trailers contemporâneos estão todos padronizados e submetidos à dolorosa estética do vídeoclip (nada contra esta em si, mas que se restrinja aos videoclips propriamente ditos e não se incorpore, como está a acontecer, à narrativa cinematográfica). A imagem surge rápida, e um escurecimento, também na maior rapidez, engole-a, por assim dizer, para, em seguida, surgir outra. Decididamente: já não se fazem mais trailers como antigamente. Havia um savoir-faire de trailers no cinema americano que a partir dos anos 80 foi se diluindo para emergir uma espécie assim de savoir-non-faire. Dava gosto se ver os trailers, o que não acontece nos dias que correm – e correm assustadoramente rápido, levando-nos com eles, a todos, sem exceção, ao refúgio da Implacável, impressão da passagem temporal que varia de pessoa a pessoa, atacando, esta impressão, principalmente os mais velhos. Antes dos malditos trailers contemporâneos, que não gosto de vê-los – porque mesmo trailers de filmes bons, a exemplo de Os infiltrados, estão construídos dentro da pavorosa estética do vídeoclip, tinha prazer em conferi-los, chegando mesmo, quando se podia fazer isso, a ficar para a outra sessão somente para rever os trailers. No esquema atual, o espectador compra o ingresso para uma determinada sessão e, terminada esta, é expulso da sala de projeção. Nos bons tempos que não voltam mais (não creio ser saudosismo mas a constatação de uma época mais calma e mais inteligente, e, caso saudosismo, que o seja, e daí?), o indivíduo que comprasse o ingresso podia entrar, por exemplo, duas da tarde e só sair quando da última sessão.

COM A CARA DE QUEM ESTÁ ACORDANDO
Lembrei-me agora que gostava muito de ir às sessões das 22 horas. Pelo menos aqui na Bahia (interessante observar que se chama a cidade de Salvador de Bahia, ou seja, ao invés de aqui em Salvador – que pode também ser usado, aqui na Bahia, como está sendo usado por mim neste blog) as sessões eram assim estabelecidas: 14, 16, 18, 20 e 22 horas. Quando o filme tinha duração acima de 120 minutos: 14, 16:30, 19 e 21:30 horas. Em caso de duração maior: 14, 17 e 20 horas. Nas superproduções como ...E o vento levou, Ben Hur, Spartacus, duas únicas sessões, uma vespertina, outra noturna, ou, como se gostava de dizer (e aí sim com ênfase saudosista), uma matinée, e uma soirée, às 15 e 21 horas. Mas estava querendo contar uma história sem importância acontecida comigo. Há algumas décadas (volto ao assunto, mas parece que a nova geração se esqueceu que existe o verbo Haver, pois encontro em todo canto expressões do tipo: a dez dias fui ao cinema, etc), indo a uma sessão das 22 horas, dormi um sono profundo nas poltronas do finado cinema Bahia, que ficava à rua Carlos Gomes e atualmente abriga os apóstolos da Igreja Universal do Reino de Deus. Pois muito bem! Finda a sessão, os funcionários, ainda que sempre fizessem revista, não me encontraram, e continuei nos braços de Morfeu até a manhã seguinte, quando encontrei o chão sendo lavado e a porta, aberta, possibilitando-me sair com a cara de quem está acordando. A cara de quem está acordando é um dos fatores ocultos que determinam a desordem conjugal.

10 março 2007

A NET PODE MATAR


Peço, com o coração nas mãos, e encarecidamente a todos que suportam ler este blog, que não contratem nunca os serviços da Net, pois empresa que sabota aqueles que nela confiam ou nela precisam, como é o meu caso. Exercendo o monopólio de tv a cabo e internet a cabo, a Net (vade retro!) faz o que quer e bem entende com o pobre consumidor. Estou há dez dias (mais sem atualizar o blog, considerando que a última postagem data de 25 de fevereiro) sem conexão, e já telefonei 32 vêzes para a Net, que está, sempre e sempre, em comunicação, com aquele sinal de ocupado. Não tenho a quem apelar. Apelo, portanto, a você que está me lendo para que se livre da Net ou que nunca com ela mantenha um contrato de prestação de serviços. A Net pode enfartar, pode causar um AVC, pode deixar aquele que precisa de seus serviços com glicose elevada no sangue, tensão arterial alta.

25 fevereiro 2007

"Nacocó": site baiano e cultural já no ar


Quero recomendar, para leitura não somente neste domingo mas em qualquer dia da semana, não um blog, mas um site: Nacocó, que se intitula hebdomadário onomatopéico. Não satisfeito com o que li, fui ao 'pai dos burros', o dicionário Aurélio, e não encontrei, nele, o vocábulo. Trata-se de um site criado e executado por alunos da Faculdade de Comunicação da UFBa. Os textos, variados e bons, falam de qualquer assunto destituído da sem-cerimônia característica dos jovens e dos mais afoitos, daqueles que procuram, para ser verdadeiros, não ter papas na língua. Entre as matérias a destacar, já que não posso falar, aqui, de todas, chamo a atenção para a copiosa e muito interessante entrevista com o professor universitário eantropólogo Renato da Silveira, que dá verdadeira lição de disciplina e seriedade na investigação científica, revelando, também, episódios interessantes de sua vida agitada como militante político. A cronista do Nacocó, Emanuella Sombra, fala de suas observações das coisas da vida: a mulher em torno de um garrafa de cerveja, a venda de abadás, quando não está a verificar os méritos e os desméritos de um filme (como faz com A rainha/The queen, de Stephen Frears). Por falar em cinema, hoje é dia da entrega dos Oscars, a grande festa de Hollywood, cujo marketing, gigantesco, tornou o espetáculo mundial. Peço licença ao Nacocó para dar dois dedos de prosa a respeito da estatueta baseada na genitália de um tio de Bette Davis, se não me engano (não é exatamente isso, mas peço aos entendidos no assunto que me corrijam). O Oscar não serve como aferição do valor de uma obra cinematográfica, mas é uma grande festa para consolidar cada vez mais a indústria cultural de Hollywood. Premia-se aqueles filmes que são interessantes para a indústria do cinema. Quantos filmes e quantos cineastas não foram alijados da competição na história da cobiçada estatueta? O melhor do Oscar são as homenagens especiais (como a feita a Robert Altman ano passado), uma ou outra retrospectiva, porque, de um modo geral, já não se fazem astros e estrelas como antigamente. A última grande estrela do cinema, segundo Larry King, foi Elizabeth Taylor. Voltemos ao Nacocó.


Editado por seis mãos, as de Vitor Pamplona, Emanuella Sombra e Diego Damasceno, o Nacocó é ilustrada por Vânia Medeiros e tem, entre seus colaboradores, Beth Ponte, Daniel Telles, Eliana Mara, Rodrigo Cerqueira, Saymon Nascimento, Yuri Ávila, Virgínia Sundown. Mandei um comentário sobre Cartas de Iwo Jima, mas não sei se já está no ar. A foto que ilustra a postagem foi resultado de uma pesquisa de imagens no Google, na qual coloquei o nome 'Nacocó', e apareceram várias, entre esta, que ilustra o post dominical.De qualquer forma, o link do acesso é o seguinte:

22 fevereiro 2007

A mistificação do avental branco



Da série 'Medicina faz mal a saúde'. Os médicos, de um modo geral, sentem-se deuses, mas a culpa, em boa parte, é dos clientes que se colocam muitos servis em relação a eles. Tenho um livro traduzido do alemão que analisa o problema, mostrando que o paciente deve ser, sempre, um impaciente, e ter uma visão crítica do próprio tratamento. As próprias pessoas, familiares do paciente, por exemplo, por ignorância, dão-lhe o conselho de 'entregar-se ao médico'. Grande erro. Por outro lado, há certos médicos que são sumidades, verdadeiro cientistas, a exemplo de um Zerbine, de um Jatene, entre poucos. A maioria se caracteriza pela autoritarismo disfarçado de simpatia hipócrita (daí a necessidade de o paciente ter visão crítica e não se deixar levar pela conversa do médico). Sim, poderia me dizer, mas não são somente os médicos que são assim. E os advogados e outros profissionais liberais? É verdade, existe muita arrogância por toda parte, mas com os médicos há uma mística especial, que deve ser combatida para o bem da própria humanidade como a postagem infra pode mostrar.

Medicina faz mal a saúde


Passei, ano passado, quase dois meses hospítalizado. Tive um cinematográfico enfarte agudo do miocárdio e penei até que fossem implantadas duas majestosas pontes de safena. A bem da verdade, fui muito bem tratado pelos médicos e enfermeiras, ainda que algumas destas, principalmente quando no inferno do centro de tratamento intensivo - as famigeradas UTIs, gostassem de exibir autoridade porque, frustradas, precisam, nestas oportunidades, exercer poder. E nada melhor para o exercício do poder do que em cima de um paciente, de um ser temporariamente inválido. Mas de um modo geral, feita a ressalva, sou muito crítico em relação a médicos, que, na sua grande maioria, tirante as sumidades de praxe, são arrogantes e ignorantes. O texto que vai abaixo foi tirado da internet e quem o escreveu foi Sérgio Gwercman.

Dr. Vernon Coleman, tem 57 anos, gosta de escrever livros de ficção e já publicou 12 romances. Divide seu tempo entre o interior da Inglaterra e uma cobertura no centro de Paris. Sofre de "cotovelo de tenista" nos dois braços por causa da má postura ao digitar. Diz que os hospitais mais matam do que curam e que é preciso ser muito saudável para sobreviver a um deles.

Por Sérgio Gwercman

Um selo colado na testa advertindo sobre os perigos que podem causar à saúde. Se dependesse do inglês Vernon Coleman, esse seria o uniforme ideal dos médicos. Dono de um diploma em medicina e um doutorado em ciências, Coleman abandonou a carreira após dez anos de trabalho para ganhar a vida escrevendo livros com títulos sugestivos do tipo : "Como Impedir o seu Médico de o Matar"
Autor de 95 livros, o inglês é um auto-intitulado defensor dos direitos dos pacientes. Em seus textos, publicados nos principais jornais do Reino Unido, costuma atacar a indústria farmacêutica - para ele, a grande financiadora da decadência - e, principalmente, os médicos que recusam tratamentos que excluam a utilização de remédios e cirurgias. Dono de opiniões polêmicas, Coleman ainda afirma que 90% das doenças poderiam ser curadas sem a ajuda de qualquer droga e que quanto mais a tecnologia se desenvolve, pior fica a qualidade dos diagnósticos.

Como um médico deve se comportar para oferecer o melhor tratamento possível a seu paciente?
Os médicos deveriam ver seus pacientes como membros da família. Infelizmente, isso não acontece. Eles olham os pacientes e pensam o quão rápido podem se livrar deles, ou como fazer mais dinheiro com aquele caso. Prescrevem remédios desnecessários e fazem cirurgias dispensáveis. Ao lado do câncer e dos problemas de coração, os médicos estão entre os três maiores causadores de mortes atualmente. Os pacientes deveriam aprender a ser céticos com essa profissão. E os governos, obrigá-los a usar um selo na testa dizendo "Atenção: este médico pode fazer mal para sua saúde".

Qual a instrução que pacientes recebem sobre os riscos dos tratamentos?
A maior parte das pessoas desconhece a existência de efeitos colaterais. E grande parte dos médicos não conhece os problemas que os remédios podem causar. Desde os anos 70 eu venho defendendo a introdução de um sistema internacional de monitoramento de medicamentos, para que os médicos sejam informados quando seus companheiros de outros países detectarem problemas. Espantosamente, esse sistema não existe. Se você imagina que, quando uma droga é retirada do mercado em um país, outros tomam ações parecidas, está errado. Um remédio que foi proibido nos Estados Unidos e na França demorou mais de cinco anos para sair de circulação no Reino Unido. Somente quando os pacientes souberem do lado ruim dos remédios é que poderão tomar decisões racionais sobre utilizá-los ou não em seus tratamentos.

Você considera que os médicos são bem informados a respeito dos remédios que receitam a seus pacientes?
A maior parte das informações que eles recebem vem da companhia que vende o produto, que obviamente está interessada em promover virtudes e esconder defeitos. Como resultado dessa ignorância, quatro de cada dez pacientes que recebem uma receita sofrem efeitos colaterais sensíveis, severos ou até letais. Creio que uma das principais razões para a epidemia internacional de doenças induzidas por remédios é a ganância das grandes empresas farmacêuticas. Elas fazem fortunas fabricando e vendendo remédios, com margens de lucro que deixam a indústria bélica internacional parecendo caridade de igreja. Acompanhando didaticamente alunos do 6º ano (prestes a entrar na vida profissional) constatei que apenas 5% conhecia a farmacocinética dos produtos que propunham aos pacientes. Entre profissionais experientes não consigo estimar, no entanto suponho ser porcentagem menor, pois a prática usual em vários empregos com períodos extensos e irregulares diminuem a possibilidade de aprender, especialmente bioquímica e farmacologia. Para aumentar este problema, temos alterações periódicas na composição dos produtos comerciais com vistas a aumentarem o preço, por serem considerados medicamentos novos. O que dificulta mais ainda o escasso tempo médico dedicado à atualização.

E o que os pacientes deveriam fazer? Enfrentar doenças sem tomar remédios?
É perfeitamente possível vencer problemas de saúde sem utilizar remédios. Cerca de 90% das doenças melhoram sem tratamento, apenas por meio do processo natural de autocura do corpo. Problemas no coração podem ser tratados (não apenas prevenidos) com uma combinação de dieta, exercícios e controle do estresse. São técnicas que precisam do acompanhamento de um médico. Mas não de remédios.

Receber remédios não é o que os pacientes querem quando vão ao médico?
É verdade que muitos pacientes esperam receber medicamentos. Isso acontece porque eles têm falsas idéias sobre a eficiência e a segurança das drogas. É muito mais fácil terminar uma consulta entregando uma receita, mas isso não quer dizer que é a coisa certa a ser feita. Os médicos deveriam educar os pacientes e prescrever medicamentos apenas quando eles são essenciais, úteis e capazes de fazer mais bem do que mal.

Que problemas os remédios causam?
Sonolência, enjôos, dores de cabeça, problemas de pele, indigestão, confusão, alucinações, tremores, desmaios, depressão, chiados no ouvido e disfunções sexuais como frigidez e impotência.


Em um artigo, você cita três greves de médicos (em Israel, em 1973, e na Colômbia e em Los Angeles, em 1976) e diz que elas causaram redução na taxa de mortalidade. Como a ausência de médicos pode diminuir o risco à vida?
Hospitais não são bons lugares para os pacientes. É preciso estar muito saudável para sobreviver a um deles. Se os médicos não matarem o doente com remédios e cirurgias desnecessárias, uma infecção o fará. Sempre que os médicos entram em greve as taxas de mortalidade caem. Isso diz tudo. Aqui no Brasil pudemos constatar o mesmo durante greve prolongada de médicos no Rio de Janeiro

Muitas pessoas optam por terapias alternativas. Esse é um bom caminho?
Em diversas partes do mundo, cada vez mais gente procura práticas alternativas em vez de médicos ortodoxos. De certa maneira, isso quer dizer que a medicina alternativa está se tornando a nova ortodoxia. O problema é que, por causa da recusa das autoridades em cooperar com essas técnicas, muitas vezes é possível trabalhar como terapeuta complementar sem ter o treinamento adequado. Medicina alternativa não é necessariamente melhor ou pior que a medicina ortodoxa. O melhor remédio é aquele que funciona para o paciente.


Em um de seus livros, você afirma que a tecnologia piorou a qualidade dos diagnósticos. A lógica não diz que deveria ter acontecido o contrário?
Testes são freqüentemente incorretos, mas os médicos aprenderam a acreditar nas máquinas. Quando eu era um jovem doutor, na década de 70, os médicos mais velhos apostavam na própria intuição. Conheci alguns que não sabiam nada sobre exames laboratoriais ou aparelhos de raios-X e mesmo assim faziam diagnósticos perfeitos. Hoje, os médicos se baseiam em máquinas e testes sofisticados e cometem muito mais erros que antigamente. Infelizmente tenho constatado mais agravantes neste aspecto de exames:
1- 70% dos resultados de exames onde os pacientes referem que estão normais (ditos pelos médicos que solicitaram) tenho encontrado alterações documentadas no próprio exame (constado nos valores de referência). Isto reflete dupla negligência; do médico que não valorizou a alteração e do paciente que não se dignou a comparar seus resultados com os valores de referência fornecidos.
2- Alguns exames esclarecedores muitas vezes não são solicitados ou valorizados, entre eles cito dois que são pungentes: marcadores tumorais e pesquisa de sangue oculto nas fezes.
3- Realizam exames que já não têm nexo em nosso contexto, como, por exemplo, a mamografia (o ultrassom de mamas é muito mais sensível nos processos iniciais, como tem noticiado fartamente nossa imprensa popular há 3 anos e as publicações técnicas há 7 anos).
4- Solicitam exames caros e arriscados sem indicação clínica adequada (o exemplo aqui é do cateterismo cardíaco - embora eu sempre insista neste assunto, aconteceu com minha família dois acidentes com o contraste durante cateterismo, um por indicação monetária e não clínica e o outro com indicação clínica que resultou em óbito durante o exame)
5- Aonde é importante os exames laboratoriais ao invés de exame físico, a maioria insiste no exame físico. Aqui o exemplo mais pungente é o toque retal para avaliar próstata, pois o ultrassom pode mostrar dezenas de vezes melhor do que a palpação, indicando nodulações (ou outras alterações) internas ou na face anterior onde não é possível palpar. Semelhante perspectiva podemos assumir perante o toque vaginal para avaliar útero e ovários.
6- Solicitam exames complexos e/ou arriscados sem terem realizados os exames mais simples e inócuos previamente. Aqui podemos utilizar o exemplo do ecocardiograma (ultrassom cardíaco) sem Eletrocardiograma ou Rx de tórax prévios. Aqueles que quiserem entender melhor sobre exames, sugiro o link indicado nos meus link favoritos: Guide to Clinical Preventive Services, of Columbia University Medical Center

Você faz ferrenha oposição aos testes médicos realizados com animais em laboratórios. De que outra maneira novas drogas poderiam ser desenvolvidas?
Faz muito mais sentido testar novas drogas em pedaços de tecidos humanos que num rato. Os resultados são mais confiáveis. Mas a indústria não gosta desses testes porque muitos medicamentos potencialmente perigosos para o homem seriam jogados fora e nunca poderiam ser comercializados. Qual o sentido de testar em animais? Existe uma lista de produtos que causam câncer nos bichos, mas são vendidos normalmente para o uso humano. Só as empresas farmacêuticas ganham com um sistema como esse.



O que você faz para cuidar da saúde?
Eu raramente tomo remédios. Para me manter saudável, evito comer carne, não fumo, tento não ficar acima do peso e faço exercícios físicos leves. Para proteger minha pressão, desligo a televisão quando médicos aparecem na tela apresentando uma nova e maravilhosa droga contra depressão, câncer ou artrite que tem cura garantida, é absolutamente segura e não tem efeitos colaterais.

21 fevereiro 2007

A comédia como graça e vanguarda



Jerry Lewis, um dos maiores comediantes de toda a história do cinema, nasceu no dia 16 de março de 1926, a completar, portanto, daqui a menos de um mês, 81 anos. Já publiquei o texto abaixo quando dos seus oitent'anos, mas o faço novamente, considerando que os selvagens não conhecem Lewis - e os selvagens não lêem o blog. Então a publicação somente faz sentido em função daqueles que possam compartilhar da sua admiração pelo comediante, que pode ser considerado um dos mais inventivos da arte da comédia. Pelo menos, ainda que rasgando o conceito, tem duas obras-primas: O otário (The patsy, 1964) e O professor aloprado (The nutty professor, 1963). Obras-primas, diga-se de passagem, do processo de criação cinematográfico em todos os tempos.
Enquanto nos dias atuais inexiste uma, por assim dizer, poética do gag, mas uma exacerbação das situações num speed escatológico ou na procura nerd do ridículo, sempre sem nenhuma inventividade cinematográfica, as comédias de tempos idos evocavam o riso pela imaginação criadora, quer do ponto de vista do ser, quer do ponto de vista da narrativa fílmica. Assim, faz-se necessário, aqui, relembrar com urgência urgentíssima a genialidade de Jerry Lewis, um dos maiores comediantes do cinema em todos os tempos, e de seu singular O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), obra-prima não só da comédia mas do cinema. Inclui-se nessa excelência criadora também O otário. Artista criador, revolucionário mesmo na concepção de uma mise-en-scène originalíssima, Jerry Lewis é um poeta ou, como disse Jean-Luc Godard, “o mais progressista cineasta do cinema americano dos anos 60”. Versão (ou inversão?) de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, O Professor Aloprado conta como um pacato e modesto professor de química, feio, dentuço, desengonçado e mal ajambrado, consegue criar uma fórmula capaz de lhe impor a beleza e o charme. Apaixonado por uma de suas alunas (Stella Stevens), ele tenta conquistá-la quando toma a poção mágica e vira o charmoso Buddy Love. A fórmula, no entanto, tem duração limitada e, de repente, a criatura se transforma, aos poucos, no criador, principalmente nos momentos idílicos entre Buddy e Stella, mas ele, sabidamente, desaparece. Buddy Love provoca celeuma na escola, deixando, estupefatos e apaixonados, desde a secretária (a lewsiana Kathleen Freeman), as alunas e até o grave e circunspecto diretor. O clímax se dá no baile de formatura no momento em que Buddy, o convidado de honra, se metamorfoseia no desengonçado professor.
A inventividade de Jerry Lewis no plano da linguagem cinematográfica é imensa. Cenas brilhantes que se encontram em qualquer antologia que se preze da comediografia cinematográfica: (1) o processo de transformação do professor Kelp em Buddy Love com um extraordinário uso da cor poucas vezes observado na história da arte do filme; (2) a câmera subjetiva em lugar de Buddy finda a metamorfose (e ainda quando o espectador não sabe do resultado) e o espanto dos transeuntes que circulam na porta da boate; (3) a seqüência do ginásio traduz com absoluta perfeição a frustração essencial do personagem lewisiano diante da mitificação esportiva norteamericana; (4) a ambigüidade estampada no close up de Stella Stevens, quando Buddy inicia os tiques diccionais de seu criador; (5) o professor a olhar e imaginar Stella na porta da sala em várias mudanças de sua indumentária; (6) depois da noite perdida, e de ressaca, o professor pálido, na aula, ouvindo, desesperado, o ruído exagerado do giz riscando o quadro, a aluna que assoa o nariz, etc, numa conjugação funcional da imagem e do som; (7) toda a seqüência do baile de formatura, e, em especial, a cena da transformação da criatura no criador; entre muitas outras.
Lewis desmistifica o espetáculo, revelando seus códigos com uma coragem inusitada para a linguagem da época. O final é de uma terrível elegância, quando os principais atores, um a um, como se estivessem num palco de teatro, agradecem enquanto seus nomes são creditados na tela. O último é Jerry Lewis que, literalmente, quebra a lente da câmera. Este artista mal compreendido, que somente vem a receber o respeito crítico a partir do número especial que lhe dedica o sisudo Cahiers du Cinema, é o máximo representante da comicidade non sense do cinema americano posterior a 1945. Lewis parodia, com seus filmes dirigidos nos anos 60, e com singular acerto, as frustrações psicológicas do american way of life. Os seus instrumentos de análise (ou, se se quiser, o seu método) estão na utilização imaginativa da técnica do gag.
Gênio da comédia, cantor das orquestras de Jimmy Dorsey e Ted Florita, Jerry Lewis (Joseph Levitch, New Jersey, 1926) forma dupla com Dean Martin em 1946, atua em televisão e rádio, e, em pouquíssimo tempo, torna-se popular coast to coast em toda a América. A dupla mais burlesca do mundo do espetáculo logo é convidada para ingressar no cinema – e isto se faz através da Paramount. Entre 1949 e 1956, Lewis começa uma extraordinária carreira solo sob as ordens de um mestre da comédia: Frank Tashlin. Aliás, a sua separação de Dean Martin revela que o êxito da dupla radica fundamentalmente no talento cômico de Lewis. Artistas e modelos (1955), filme que assinala a sua estréia sob a direção de Tashlin, dá início a uma série de títulos que se constituem em agudas sátiras da sociedade norte americana expostas com um estilo refinado que se aproxima algumas vezes do cartoon e das histórias em quadrinhos. É, porém, quando Jerry Lewis decide montar uma companhia independente (a Jerry Lewis Productions Inc.) que emerge o seu gênio. Desde O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy,1960), obra de estréia, o indicativo da originalidade na arte de conceber a mise-en-scène está presente. Neste filme, não há progressão dramática mas uma sucessão de sketchs, assim como em Mocinho encrenqueiro (The errand boy, 1961). O Terror das mulheres (The ladie´s man, 1961) deslancha a sua fase de obras-primas absolutas (se é possível a um artista ter mais de uma obra-prima!). Filme que representa na obra de seu autor um inequívoco manifesto sobre a concepção da mulher e uma irrefutável fulminação do matriarcado, O Terror das mulheres é delirantemente desmistificador (a partir mesmo do cenário, uma grande mansão na qual os segredos do décor são revelados ao público). Vem O professor Aloprado em 1963 e, em seguida, O Otário (The Patsy, 1964), outra obra magistral, onde aperfeiçoa, amadurece e enriquece definitivamente o seu estilo: a crueldade que consiste em fazer rir de si próprio; a magistral utilização do showburn; o gosto do espetáculo e a vontade em revelar ao espectador o décor, o desdobramento de sua personalidade autor-ator, a explosão em personagens múltiplas, etc. Lewis continua a filmar, tem uma crise nos anos 70, mas seus maiores filmes, os geniais, estão na década de 60. Mas o que dizer de O fofoqueiro (The big mother, 1967), filme absolutamente genial? Fica-se por aqui, no entanto, não por questão de espaço, que na internet, é infinito, mas por questões de pressa e contenção. Porque há, ainda, muito o que falar da genialidade lewsiana. Um dos maiores conhecedores da obra de Lewis é o ensaista Sérgio Augusto, que dei uma das mais elucidativas entrevistas dos últimos tempos sobre jornalismo cultural. Augusto acho que nos filmes de Lewis há, por assim dizer, uma espécie de psicanálise da vida americana.
P.S: Revi quase todos os filmes dirigidos por Jerry Lewis e, na minha opinião, a sua obra-primíssima é O Otário (The Patsy, 1964), que pode ser encontrado em excelente cópia em DVD. Impressionante a capacidade de Lewis em experimentar e inovar, subvertendo códigos estabelecidos.Não é à toa que Jean-Luc Godard o considerou um dos mais progressistas cineastas do cinema americano.Infelizmente, para a maioria, que o aprecia, ele é considerado, apenas, um excelente comediante, vinculado, inclusive, às sessões da tarde da Globo dos anos 80. A nova geração, pude pesquisar, não tem capacidade, infelizmente, de entender a genialidade lewsiana. Pena. Ledo e ivo engano. Um ensaio sobre a obra lewsiana de autoria de Chris Fujiwara pode ser lido no seguinte link: http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/03/lewis.html

19 fevereiro 2007

A morte matada do jornalismo cultural



Não há dúvida da decadência imensa do jornalismo contemporâneo, da regressão que se abateu sobre a imprensa, principalmente no jornalismo cultural. Sou do tempo em que lia o Quarto Caderno do Correio da Manhã, quando, na redação deste, pontificavam, como num Petit Trianon, homens e sábios como Otto Maria Carpeaux, Antonio Houaiss, Cony, Moacyr Werneck de Castro, Paulo Francis, entre outros. A entrevista que Sérgio Augusto concedeu ao site Digestivo Cultural é leitura obrigatória e que bem reflete o caos da chamada contemporaneidade. Está neste link: http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10


Leio Sérgio Augusto (companheiro de geração do saudoso Paulo Perdigão) desde os tempos em que escrevia no Jornal do Brasil, fazendo parte do Conselho de Cinema, que se reunia toda sexta para criticar determinado filme da semana (naquele época toda semana tinha um filme a respeitar), e que era composto (salvo omissão da memória) por Alex Viany, Alberto Shatovsky, Ely Azeredo (por onde anda este, que, na época, era detestado pelos cinemanovistas, mas que tinha um estilo surpreendente), José Carlos Avellar (o antípoda de Ely em visão de mundo e visão de cinema), Valério Andrade, Sérgio Augusto, José Wolff, Ronald F. Monteiro, entre outros que posso ter esquecido assim no momento em que digito este post.


Sérgio Augusto depois foi para O Pasquim em sua época de ouro. Tem artigos (melhor dizendo: ensaios) espalhados pelas melhores revistas e jornais brasileiros. Escreveu recentemente As penas do ofício (que já mandei buscar na Livraria Cultura via internet), há alguns anos, Lado B, e entre muitos outros, tem um livro essencial sobre a chanchada brasileira: Este mundo é um pandeiro.

A leitura da entrevista é algo que não se deve perder.

18 fevereiro 2007

Impacto e estesia



O dvd de Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone, lançamento em edição especial, que já saiu há algum tempo, cheia de extras, é, simplesmente, uma beleza. O filme, com o passar do tempo – é de 1968, ficou ainda melhor, não perdendo em nada do seu impacto inicial, quando o vi pela primeira vez na gigantesca tela do cinema Tupy em cópia de 70mm. Ainda que a dimensão da tela doméstica não possua o mesmo poder de envolvimento e êxtase – sim, é a palavra correta em se tratando de uma obra-prima como essa, momento, sem exagero, de rara inspiração em toda a história da arte do filme, vejo Era uma vez no Oeste como se fosse uma sinfonia, como se uma música de imagens. A partitura do maestro Ennio Morricone está tão entrosada no filme que faz parte dele, e, neste caso, poderia dizer que Morricone é uma espécie assim de co-autor da obra da mesma maneira que Michel Legrand o é de Os guarda-chuvas do amor, de Jacques Demy. Morricone, com sua extraordinária musicalidade, exerce, aqui, em Era uma vez no Oeste, não apenas uma complementação da narrativa, mas uma mise-en-musique. E Leone é um esteta, um mestre absoluto, que sintetiza neste western sui generis toda a sua primeira fase constituída de obras que rascunham esta belíssima reflexão sobre a estética westerniana num prisma novo e insinuante, apátrida, singular e original. Quem viu Por uns dólares a mais, Por um punhado de dólares e O bom, o mau e o feio – também conhecido por Três homens em conflito – pode testemunhar que estes filmes são uma anunciação de Era uma vez no Oeste. A sua revisão comprova a magnificência de Sergio Leone que, nos anos 80, com seu canto de cisne, Era uma vez na América, traumatizou toda uma década, realizando uma das maiores obras de toda a história do cinema. Pena que a morte prematura – ia fazer 60 anos – o tenha levado embora.
Morricone compôs quatro temas fundamentais destinados a cada um dos personagens principais: Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson e Henry Fonda – magnífico no papel de vilão, cínico, cruel, frio, super maquiado, super estilizado, capaz de matar até criancinhas com irrepreensível sangue frio. Quando os personagens se cruzam, as partituras também entram em rodízio com um resultado impressionante em se tratando da relação música e imagem. A seqüência inicial, de abertura, é uma obra-prima à parte, que mostra a espera, por três pistoleiros, em uma velha e encardida estação, da chegada do trem. Morricone chegou a compor um tema, mas desistiu e, influenciado por John Cage – para quem todo ruído num concerto é música, fez dos ruídos uma espécie de sinfonia. Assim, o estalar dos dedos de um dos pistoleiros, a gota d’água que cai modorrenta no chapéu de Woody Strode, a mosca que fica zoando no rosto de Jack Élan, o ranger do moinho, a chegada estrepitosa do trem, etc, formam uma tensão inusitada. Leone tem um sentido de duração que difere da maioria dos cineastas, aproximando-o mais, na utilização do tempo cinematográfico, dos realizadores japoneses. Gosta de alternar extremos close ups com planos gerais de grande amplitude, provocando, com isso, um contraste nos códigos perceptivos. Mas para Leone o rosto humano não é uma face oculta, mas, e principalmente, também uma paisagem. Seus closes demoram na tela, enchendo-a, para perscrutar a alma humana, para adentrar na interioridade dos seres. Tudo é muito estilizado e rigoroso sem perder, contudo, o caráter de introspecção.
O argumento de C’era una volta in West/Once upon a time in West foi escrito a seis mãos: as de Bernardo Bertolucci, o consagrado cineasta de O último tango em Paris, as de Dario Argento, diretor cult de terroríficos e crítico afamado, e as de Sergio Donati, que ficou responsável pela decupagem, além, é claro, da participação de Leone em todas as fases do processo de criação cinematográfica.O dvd é especial mesmo e tem muitos extras, inclusive um documentário precioso com depoimentos de Tonino Delli Colli, o fotógrafo, Alex Cox, Gabrielle Ferzetti, Bertolucci, Claudia Cardinale, Henry Fonda, entre outros. O híbrido Telecine Cult o exibiu criminosamente, há pouco, em full screen (a abominável tela cheia, que me fez, quase, quebrar o aparelho de televisão). Para assistir de joelhos.

16 fevereiro 2007

Coimbra sai do cinema e da vida


Dele já se disse que era o maior artesão do cinema brasileiro (como escreveu Carlos Reichenbach em seu Reduto do Comodoro). O fato é que menino de calças curtas vi, e fiquei impressionado, A morte comanda o cangaço, realizado em 1960, que talvez seja mesmo superior a O cangaceiro, de Lima Barreto. É verdade que precisaria revê-lo para confirmar a impressão de um garoto, mas o fato é que A morte comanda o cangaço, quando de seu lançamento há quase cinquenta anos, conquistou o público, levando muita gente a aplaudir a aventura patrocinada por Coimbra.


O cinemanovismo, dando preferência aos autores de filmes (e quantos autores chatos, pachorrentos!), desprezava os artesãos. Uma indústria que se queira cinematográfica necessita mais de artesãos competentes do que de autores aporrinhantes. Carlos Coimbra longe estava, portanto, dos ideais do pessoal que tinha como bandeira o Cinema Novo, que, se, por um lado, proporcionou a eclosão de talentos como a de um Glauber Rocha, por outro, esta a verdade, afastou o público dos cinemas e deu de aborrecer a muitos cinéfilos, que, obrigados pelas circunstâncias, e pela necessidade de se estar in, amargaram muitos filmes entediantes e vazios. Um filme de Coimbra, neste particular, não proporcionava nem chamava o sono, mas despertava as emoções do espectador. Este blog, na sua pequenez, presta, neste post, a sua homenagem a Carlos Coimbra.


15 fevereiro 2007

Candeias e Coimbra: antípodas


Fevereiro assinala o desaparecimento de dois realizadores paulistas, que poderiam ser caracterizados como antípodas: Ozualdo R. Candeias e Carlos Coimbra.O primeiro era um artista, um intuitivo, um poeta das imagens em movimento, tendo realizado, em 1967, um dos filmes mais expressivos e mais belos de toda a história do cinema brasileiro: A margem. Já Coimbra se caracteriza por ter sido um realizador aplicado, um artesão, em contraposição ao estilista e ao autor de filmes. Há uma, por assim dizer, carpintaria em seus trabalhos que não pode deixar de ser reconhecida, como em A morte comanda o cangaço, Independência ou morte, O santo milagroso (cito de memória e a postagem não pretende analisar a ficha filmográfica do cineasta). Se se aplicava muito na confecção do roteiro, prendia-se à gramática cinematográfica, que a queria bem colocada e, com isso, por paradoxal, a ausência de mais empenho criativo capaz de um desabrochar poético. Candeias era o oposto. Um intuitivo, as imagens vinham-lhe da imaginação, e capaz de audácias porque não existia, para ele, peias na língua do cinema. Se Coimbra era um CDF, Candeias um moleque (e Meu nome é Tonho, versão de Hamlet, para o mundo do jegue e dos boçais, é um exemplar bastante significativo). O Canal Brasil (Net/Sky, 66) está a fazer uma homenagem a Candeias nesta semana, mas com seus filmes menos significativos. Não gosto, por exemplo, de Caçada sangrenta, que, excetuando-se um ou dois momentos candeilianos, é um veículo para a apostasia de David Cardoso, que o produziu. Também A freira e a tortura, com uma bela - e nua - Vera Gimenez é pouca coisa para o talento do cineasta. Creio que foi quase impossível conseguir cópias de A margem ou Meu nome é Tonho. A foto é de Candeias já no seu outuno crepuscular.


Fiz, nos anos 80, uma entrevista com Candeias para a minha coluna de cinema da Tribuna da Bahia. Nos jardins etílicos do Instituto Goethe no Corredor da Vitória.

14 fevereiro 2007

Risos deslocados e folia industrial



Gostaria de ter incluído, nos dez mandamentos para se ser um bom cinéfilo, um que considero de modelar importância para fazer valer o sossego do espectador: a proibição, se possível fosse, das risadas fora de hora. A patuléia costuma rir de certas situações que nada têm de engraçadas e, quando chegam os momentos certos de humor, desconhece-nos porque ignorante. Um filme de humor inglês, por exemplo, faz parte de uma cultura que nada tem a ver com a cultura baiana, por exemplo, principalmente a que se formou nas últimas décadas, bebendo de um caldo cultural ácido e desestruturante, que faz emergir a deselegância e a ignorância, nunca a inteligência, o bom senso, ou, mesmo, o non sense. A bem da verdade, o comportamento de vândalos não se restringe à Salvador, mas é fato em grandes cidades como São Paulo, Rio, Beagá, Porto Alegre, Curitiba, Recife, etc. Para ficar num exemplo do momento: estamos em pleno Carnaval, que, se antes, era romântico, melodioso, atraente, atualmente é um inferno. O Carnaval soteropolitano é excludente (o povo não tem mais vez pois esmagado pelos blocos e camarotes de luxo), é um espetáculo para ser visto por pessoas bem aquinhoadas pela sorte, que podem pagar uma fortuna por um camarote ,e por uma juventude que também tira do bolso boa soma para comprar o ingresso em bloco considerado, ingresso que se traduz no abadá. Industrializado, mina de ouro para poucos que enchem suas burras, o Carnaval de Salvador, na opinião deste bloguista, não tem graça nem espirituosidade, mas muito barulho, muito som, muita algazarra. Corro dele como o diabo da cruz. Não é mesmo 'cinéfilo'?

12 fevereiro 2007

Para ser um bom cinéfilo





Freqüentar atualmente os cinemas é um ato de sacrifício para quem gosta da arte do filme, de vê-lo em silêncio, tal a esbórnia, a esculhambação estabelecidas por uma avalanche de debilóides. Assim, para efeito prático e didático, vejo-me na obrigação de oferecer aqui, fugindo, com isso, aos propósitos iniciais do blog, algumas regras de condutas, normas comportamentais, se se quiser. Vou jogar, neste espaço virtual, uma tábua que contém uma espécie assim de dez mandamentos para quem queira ser um bom cinéfilo.


1) Procurar ver o filme com a máxima atenção, evitando se mexer, mantendo, na medida do possível, postura firme e atenta.

2) Desligar o celular. No caso de ter alguém prestes a morrer, cuja notícia fatal poderá ser dada a qualquer momento, evitar, neste dia, ir ao cinema.

3) Não comer pipoca. Comprar, se muito, drops, tábuas de chocolate, evitando, sempre, qualquer barulho no ato de desembrulhar estes.

4) Não conversar com a sua companhia. Ficar em silêncio. No máximo, uma troca de palavras muita rápída para fazer observar algo importante. Mesmo assim crê-se inconveniente.

5) Evitar encostar as pernas na cadeira vizinha. E acomodar seu braço para não aborrecer o vizinho. Evitar ficar olhando para os lados mesmo nos intervalos, salvo se o interesse, neste caso, venha a ser outro.

6) Ficar sentado até que o último fotograma se apague da tela. A maioria dos espectadores, dado o desenlace, no entanto, já procura a porta de saída.

7) Procurar sentir nos créditos finais uma continuação da mise-en-scène e, caso não se interesse pelos letreiros, sentir a partitura, deixar-se levar pela música.
8) Evitar ficar masclando chiclete. Incomoda.

9) Pode chorar à vontade. Nesse caso, levar lenço.

10) Ter no cinema a dimensão de uma função e não de uma rinha de galos.
A foto que ilustra a postagem é de um quadro do grande e genial Matisse, contemplação quase diária desse neurastênico bloguista.

11 fevereiro 2007

Platéia de débeis mentais



Atualmente, nos dias que correm, quando preciso ir aos cinemas (como acontece no momento quando os dois filmes de Clint Eastwood, imperdíveis, entram em cartaz), evito as horas da algazarra, restrigindo-me às primeiras e últimas sessões. Se, por acaso, for a uma sessão no sábado de tarde, por exemplo, corro o risco de ter elevada a minha tensão arterial, e, quem sabe?, ter até um troço por lá. O público mudou muito, acompanhando a decadência cultural, bem de acordo, aliás, com o lixo que está a ver, com o momento presente. Lembro-me das finas e majestosas bombonières de tempos idos, com os drops, os chocolates, as guloseimas enfileiradas, a maneira de tragá-los em silêncio, a se comer como um passarinho. Já ver um semelhante masclar chiclete em minha frente, porque sou neurastênico, me incomoda, tenho que sair de sua companhia, fico nervoso. Vamos aos fatos, no entanto!
O que se observa atualmente dentro das salas de exibição cinematográfica é um, por assim dizer, ato de selvageria, que determina os gestos predatórios, os comportamentos esdrúxulos e incompatíveis com o homem civilizado. O filme pouco importa para aqueles que o assistem nos complexos Multiplex ou Aeroclube (estou me referindo ao mercado de Salvador), constituindo-se num mero pretexto - ou, mesmo, conseqüência - do ato de ir ao shopping ou, se quiser, shoppear. Vai-se aos centros de compras da cidade para passear, consumir, praticar o lazer, após a destruição das praças e dos jardins e do comércio tradicional que se fazia nas ruas e avenidas de um centro deteriorado pela inércia, falta de vontade política, descaso pela memória. O ir ao cinema, então, se transformou numa das etapas desse processo de shoppear. Após a perambulação pelo shopping, o desfile costumeiro, o encontro com amigos, surge o cinema como uma espécie de saideira do passeio. A maioria do público, adolescente, que faz parte dessa chamada muito propriamente geração fim-de-mundo, não se programa para ver determinado filme com antecedência. Os multiplexados consumidores do lixo cultural ficam atraídos pelos cartazes, inclinando-se pela fita que, por acaso, sugira ação e aventura, sexo e violência e tenha, no seu elenco, um ator ou atriz da moda.
Após a tomada do circuito exibidor pelas multinacionais estrangeiras, com a entrada em cena da UCI, Cinemark, etc, que conseguiram fechar os cinemas de rua, restando, apenas, pequenos oásis fora desse esquema - a Sala de Arte do Bahiano e a Walter da Silveira, pode-se observar desde 1998 - data da inauguração do Multiplex - uma mudança nos hábitos, nas maneiras, no comportamento diante do espetáculo cinematográfico. Estimulados pelo modelo americano, os jovens associam o cinema à pipoca e as empresas procuram dar-lhes a consciência de que é preciso comer para ver. Assim, a comilança tornou-se uma regra, com as companhias estabelecendo em suas salas de espera verdadeiros centros de fast food. O comer para ver virou um reflexo condicionado a ponto de os jovens não admitirem assistir a um filme sem a complementação das bacias de pipocas e refrigerantes gigantescos, além de hambúrgueres variados. E, para pasmo geral, como não bastasse tal festim de colesterol, vendem-se, agora, dentro das salas, os estimulantes guloseimosos que tanto desesperam os cinéfilos que gostam, em paz e sossego, de ver um filme. Acrescente-se a isso, as conversas laterais, o atendimento solícito de celulares em plena audiência fílmica, os risos fora de hora, que geram a total ausência de integração entre a emissão da obra cinematográfica e a sua recepção. Para o amante do bom cinema, ir aos complexos de salas, quer seja no Iguatemi, quer seja no Aeroclube, tornou-se um inferno. Registra-se, com isso, dois fenômenos: o da incivilidade e o da falta de educação. Mas o interessante a observar é que no passado havia um certo respeito, um comportamento diferente mesmo nos chamados cinemas populares, os poeiras. Se, atualmente, nota-se uma apatia e desinteresse diante do filme, o que se observava antes era uma interação, ainda que barulhenta, em salas de segunda, entre o público e o espetáculo cinematográfico. Gritava-se e batia-se nas cadeiras (de pau) quando a cavalaria chegava a tempo de salvar os personagens de um ataque de índios, torcia-se pelo herói, aplaudia-se um beijo romântico... Qual a causa dessa selvageria, dessa decadência, dessa brutalidade? Entre outros fatores, um poderoso: a influência devastadora da teledramaturgia que condicionou o receptor a uma passividade absoluta. Considerando que um filme tem uma duração limitada, todo e qualquer plano lhe é importante. O que não ocorre na televisão com as novelas, pois, aqui, o enchimento tradicional de lingüiça se faz no sentido de possibilitar a quem as assista uma desatenção já prevista. Assim, quem assiste a três capítulos de uma novela pode deixar de ver quatro ou cinco, e, quando retorna, encontra a história perfeitamente inteligível. A história é sempre repetida em vários ângulos a fim de dar ao receptor uma possibilidade de encontrá-la sempre compreensível. Resultado: a deformação provocada pela teledramaturgia televisiva - no modo de recebê-la, no modo de assisti-la, pois existem ótimas novelas, diga-se logo de passagem - fez com que a nova geração pratique a mesma atitude descompromissada quando diante de uma obra cinematográfica. Pensa-se numa choldra de débeis mentais, numa escumalha de aloprados imberbes, alucinados diante da tela luminosa da sala de projeção. Uma patuléia desvairada que se agita no escuro à procura de um modo de ser mais peculiar às tribos ágrafas. Ir aos complexos, hoje, principalmente nas sessões vespertinas de fim de semana, é um convite ao desespero, salvo se a pessoa também faz parte dessa patuléia, dessa choldra, dessa escumalha.

10 fevereiro 2007

A mão



"O homem é consciência e mão"
São Tomás de Aquino

Passou a mão pelo cabelo e pensou comprar um xampu na loja em frente; passou a mão pelo bolso vazio e sentiu ter esquecido a carteira em casa. Como pagar, então, o extrato do cartão de crédito que estava na data do vencimento? Passou a mão novamente - e inconscientemente - na barba por fazer e se lembrou que não tinha dinheiro sequer para comprar um simples aparelho de barbear. Ah!, esta mão! Passou-a na nuca e sentiu um aperto forte, uma dor aguda, sinal de tensão alta; passou a mão na testa e a sentiu quente, com febre, mas como procurar um atendimento se seu plano de saúde fora cancelado? A mão, no entanto, sinalizadora de seus tormentos, indicativa de suas aflições, não ficou imóvel na caminhada que praticava todo santo dia em direção à pracinha perto de sua casa. Passou novamente a mão na camisa áspera e sentiu-a com um pequeno rasgão; passou a mão no outro bolso, que, furado, permitiu-a tocar a cueca; levou-a aos cabelos em desalinho, que, sem ver a cor de um sabonete há séculos, denunciava um deslizar sebáceo. Bem que sua namorada, um belo dia, ainda que chuvoso, chamara-lhe de seboso. Homem gorduroso. Nojento. Onde andaria Emerenciana, mulher que chegara a gostar, apesar de possuir uma perna menor que a outra? Admirava-lhe, porém, o mancar, pois, isto, a diferenciava das demais. A lembrança de Emerenciana fê-lo fraquejar e deambular, os passos incertos, riscando, como um bêbado, tonto, agarrando-se às paredes, quase caindo. Passou a mão nas paredes de uma igreja, ferindo os dedos, que sangravam, e por que sangravam, chupava o sangue, penitenciando-se das aflições. Retrato perfeito de um homem acabado, pária da vida cujo único consolo sentia-o nas mãos. O estomago roncava, pedia-lhe uma boquinha, algo que pudesse preencher as suas mucosas. Passou a mão nos dentes esburacados, nas gengivas despossuídas e sentiu, asqueroso, a halitose denunciadora. Passou a mão numa garota bonita que lhe atravessava o caminho, rebolativa, insinuante, mas o troco fora um tapa bem aplicado em seu rosto sofrido e humilhado. O bofetão, de tão violento, conduziu-o ao chão, esparramado numa poça de lama. Lembrou-se, então, do evangelho: Levanta-se Lázaro!. E levantou-se, considerando-se um morto, que, de repente, ressuscitara. Caminhando mais alguns passos, deparou-se com uma linda mulher, mas, reparando bem, era uma imagem estampada num cartaz de cinema. Mais adiante é que resolveu atacar, já desesperado, no mais fundo dos poços, uma madame, de aparência da alta sociedade. Roubou-lhe a bolsa, apesar dos gritos dela, mas conseguiu dobrar a esquina e chegar a sua moradia. Entrando em casa, abriu o objeto do assalto e constatou, eufórico, apopléctico, muitas notas de 100 reais. Pensou num futuro mais risonho e franco. Mas, de repente, um dor lancinante apertou-lhe o coração, tal qual uma fogueira que lhe queimava o peito. Não teve tempo de pedir socorro. O enfarte agudo do miocárdio determinou-lhe a queda na cama, com a língua mordida, esfacelada em duas, a face roxa, desfigurada pela agonia. Uma semana depois os vizinhos sentiram o cheiro de carne putrefata. Arrombaram a porta de seu quarto. Foi enterrado na Quinta de Lázaro numa vala comum. Chamava-se Eusébio Bispo dos Santos

04 fevereiro 2007

Poesia e lirismo em obra singular








Domingo é um dia melancólico por natureza. Mas a melancolia é feita pela subjetividade da pessoa. Assim há aqueles que a sentem com mais intensidade, e outros que nem a percebem, imbuídos pelo calor da praia e pela sensação de ebriedade dada pela cerveja praieira. Neste particular, devo ressaltar que há exatos 30 anos não vou à praia, apesar de morar na Bahia. Lembro-me que a última vez, em 1987, fui meio à força, a muque, estando em Mar Grande para passar um dia e, porque todos iam, tive que ficar sentado por horas a fio na areia. Mas levei comigo uma caixa de isopor cheia de latinhas de cerveja, companheiras boas e amáveis, que me fizeram esquecer do sol, do calor, da inutilidade de ali estar. Mas estou tomando um atalho, porque o que queria falar aqui era de outro assunto, e de um filme, Os guarda-chuvas do amor, que revi pela manhã, assustando a melancolia domingueira e fazendo-me possuir pelo prazer estético. Mas, antes de entrar no assunto em pauta do post, gostaria de recomendar, aqui, um blog amigo. Façam uma visita: http://jongas.blogspot.com/

O autor dessa proeza original – e única na história do cinema, o francês Jacques Demy, pertence à Nouvelle Vague mas pode ser considerado um cineasta atípico. Dá início a sua carreira com um curta, Le Sabotier de Val du Loire, em 1956, ao qual se seguem outros três em anos sucessivos, entre eles, Le Bel Indiferent (O Belo Indiferente), inspirado no texto aclamado de Jean Cocteau. Em pleno auge do movimento – do qual participa com filmes e a amizade de Truffaut, Rohmer, Chabrol..., dirige o seu primeiro longa metragem, Lola, A Flor Proibida (Lola), revelando-se um dos talentos mais sugestivos do movimento. Lola, iluminado pelo artista da luz Raoul Coutard – um dos principais diretores de fotografia da Nouvelle Vague, já anuncia, de certa forma, Os Guarda-Chuvas do Amor, pois todo ele é conduzido em ritmo de balé, com amor e humor, traduzindo com extremo lirismo as paisagens de Nantes. Georges Sadoul, historiador francês, enquadra Lola numa espécie de “neo-realismo poético”, aproximando-o de As Damas do Bois de Bologne, do jansenista Robert Bresson. Para uma introdução na poética de Les Parapluies... é bom que se veja um pouco desta Lola, cujo personagem (Anouk Aimée), dançarina de cabaré em Nantes, cortejada sempre por um amigo de infância (Marc Michel), reencontra o seu amor perdido com o qual, há alguns anos, tivera um filho, e, neste reencontro, ela se casa com ele. Uma característica de quase todos os filmes demynianos: o encontro e o desencontro permeado pelo acaso.
Catherine Deneuve em princípio de carreira – já tinha trabalhado com Roger Vadim antes de Demy – é a terna Geneviève que está noiva de Guy (Nino Castelnuovo), mas este, de repente, é convocado para a guerra da Argélia. Esperando o noivo voltar, ela se vê obrigada a confessar à mãe (Anne Vernon) que está grávida de Guy. O tempo passa. A mãe, desesperada, obriga a filha a se casar com um pretendente, Roland Cassard (Marc Michel), rico proprietário de uma loja de jóias. Ela, conformada, aceita. O tempo passa. Guy volta da guerra, ferido, procura Geneviève mas não a encontra. Sua tia Elisa está morta e, para não ficar sozinho, busca consolo em Madeleine (Ellen Farmer), uma mulher que cuidava de Elisa quando doente e que sempre o amou em silêncio.O tempo passa. Guy, já casado com Madeleine, abre um posto de gasolina na periferia de Cherbourg. Numa noite de Natal, Geneviève aparece, rica e charmosa, num reluzente carro de luxo, para colocar gasolina. Guy a vê e ambos tentam um diálogo mas nada mais têm a dizer.
Obra-prima, que reflete sobre a memória, a recordação, a nostalgia e a fugacidade do amor, Les Parapluies de Cherbourg, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964, derrotando, inclusive, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, tem uma fábula que, à primeira vista e se exposta pela narrativa oral, pode parecer uma história destinada às revistas sentimentais. Jacques Demy, no entanto, com sua varinha mágica, com sua mise-en-scène original, transforma-a numa espécie de conto poético musicado que é experiência que transcende o musical cinematográfico clássico americano. Os personagens, como numa ópera – mas o filme não é uma ópera, dizem suas falas cantando ao ritmo dos arranjos belíssimos de Michel Legrand. Pode-se, no caso de Os Guarda-Chuvas do Amor, falar em co-autoria entre Demy e Legrand, tal a conjunção perfeita entre musicalidade e ação dramática. Daí se dizer que Les Parapluies de Cherbourg é uma película que se estabelece como mise-en-musique. Assim como em outra obra excepcional – e pouco vista e apreciada – que é Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort, 1966), com Catherine Deneuve e Françoise Dorleac – sua irmã que seria vítima, logo após a conclusão do filme, de trágico acidente.O que torna Os Guarda-Chuvas do Amor uma obra de rara transcendência se encontra numa conjunção de fatores.Em primeiro lugar, a concepção da mise-en-scène de Demy, mas outros elementos ajudam a potencializar o encanto desse filme inesquecível: a deslumbrante fotografia de um artista que é Jean Rabier, que usa, aqui, a iluminação em função do tecido dramatúrgico; a cenografia de Bernard Evein, que utiliza fundos de papel pintado que estabelecem sutis acordes com os estados de ânimo dos personagens; e, claro, os diálogos todos cantados segundo as melodias do maestro Michel Legrand.