Quando fui ver A Troca (Changeling), o novo filme de Clint Eastwood, que a crítica está a cair em cima sem perceber a sua beleza de construção narrativa e a ácida visão da sociedade americana, o público presente a uma das salas do Multiplex Iguatemi se comportou como de hábito, isto é: sem prestar atenção ao filme, a falar o tempo todo no celular, com aquelas risadas fora de hora, e a tradicional comilança e meleira geral. Mas o que mais me incomodou foi a presença de um garoto de uns quatro anos de idade, que, acompanhado dos pais, gritava a todo momento. A estranheza foi maior porque, depois verifiquei, o filme é classificado como impróprio para menores de 16 anos e tem muita violência. Como o porteiro do cinema permitiu que o garoto entrasse mesmo que com os pais? Mas o público da geléia geral não se incomoda com nada. Ninguém reclamou. A cada grito do menino, no entanto, minha tensão arterial oscilava e vi o filme muito consumido. A ponto de ter ido outro dia, em sessão noturna mais calma, para revê-lo com a paz e sossego necessários. Uma obra de excepcional qualidade e desde já um dos grandes filmes de 2009.O comportamento selvagem e os atos de vandalismo são fatos recentes (de uma década para cá). Alguém chegou a me sugerir que sempre foi assim. Ledo e "ivo" engano. Antigamente havia mais respeito ao espetáculo cinematográfico, a platéia se comportava, gostava dos filmes, prestava a eles muita atenção. Via-os em silêncio, ainda que, de vez em quando, uma piada espirituosa fosse bem vinda. Nos cinemas de segunda categoria, situados na Baixa dos Sapateiros (Pax, Aliança...), a platéia gostava de externar as suas emoções e, muitas vezes, a fazer zoada. Mas neste caso havia uma integração entre a platéia e o filme que se estava a ver. O público reagia quando a mocinha, em mãos de bandidos sanguinários, via o mocinho chegar para salvá-la. Ou quando a cavalaria, no último momento, evitava um determinado massacre. Havia umas palavras e expressões que eram sempre gritadas quando um homem beijava, na boca, uma mulher, o que se chamava de colada (havia um censura rigorosa que estabelecia o tempo do beijo cinematográfico). Neste momento, ouvia-se um Chupa, Caetano!!, que até hoje não vim a compreender. Nada a ver com o compositor santo-amarense, pois, naquela época, ainda era um menino de calças curtas em sua cidade natal. Ainda está para ser investigado este insólito: Chupa, Caetano!!
A sociedade de consumo tirou a condição de cinéfilo para torná-lo, via a propaganda massiva, um mero consumidor de filmes. A maioria das pessoas que vai ao cinema hoje é constituída de consumidores e não de cinéfilos. O ir ao cinema atualmente é apenas uma das fases do shoppear. Vai-se aos shoppings e não aos cinemas. Quando as pessoas terminam de passear pelos corredores dos shoppings é que decidem ir aos cinemas, a escolher os filmes pelos cartazes, pela simpatia de um determinado astro ou estrela. E se comportam nas salas escuras como autênticos débeis mentais.
Nos tempos em que havia civilidade, educação, respeito, vendia-se tábuas de chocolate, drops, balas, chicletes, etc, numa bombonière discreta. Todos os cinemas tinham suas "bombonières", assim chamadas porque a sociedade brasileira sofreu a influência francesa - tanto é que nos ginásios se aprendia mais francês do que inglês e a Casa da França era disputada pelos alunos. Nos poeiras, assim chamadas as salas de segunda categoria, cadeiras de madeira, sem ar condicionado, havia um baleiro que circulava, antes das sessões, com uma cesta rigorosamente arrumada com os "queimados". Tudo em fila, uma disposição dos drops, chocolates, chicletes e outros, quase militar. E o baleiro também se apresentava com a sua farda, que tinha até um boné "oficial". Não me lembro de pipocas nesta época (e, falar nisso, estou a ficar velho). Se existiam, elas eram vendidas com muita discrição nas portas dos cinemas e poucas as pessoas que as compravam. Atualmente o cinema é monstruosamente associado às pipocas. Nada contra as pipocas. Até gosto. Mas não dentro das salas exibidoras, pois provocam ruídos não apenas no comer como, também, no amassar dos saquinhos. E nos dias de hoje os chamados "saquinhos" foram substituídos por verdadeiras bacias - que podem ser reaproveitadas para a lavagem de roupa miúda, como calcinhas e cuecas.
O menino que gritava semana passada numa sessão vespertina de A troca é um atestado da bagunça generalizada na qual se encontram as salas exibidoras. Vai-se hoje ao cinema não para apreciar os filmes, como já disse, mas para esculhambar, ainda que o termo seja um tanto forte. Mas é isso mesmo. Foi-se a época em que o cinema era quase como uma função como no teatro. A música que anunciava o início da sessão, o suceder de luzes coloridas, a cortina que se abria solenemente, o gongo anunciador. E as salas eram grandes, entre 1.500 e 2000 lugares, com platéia e balcão. O extinto Capri, que ficava no Largo 2 de julho, tinha uma ladeira expressionista que unia o balcão à platéia. O espectador que quisesse ir ver o filme nesta última tinha que descer a tal ladeira sinuosa, cenário exemplar que fazia lembrar a cenografia de O gabinete do Dr. Caligari, filme alemão da escola expressionista realizado em 1919.









