Seguidores

08 fevereiro 2006

Três Fullers essenciais




A Aurora, distribuidora de DVDs, que é do crítico Ernesto Barros e um sócio, lançou três filmes fundamentais de Samuel Fuller: Eu matei Jesse James (I shot Jesse James, 1949), Paixões que alucinam (Shock corridor, 1963), e O beijo amargo (The naked kiss, 1964). Obras essenciais, principalmente os dois últimos, para todos aqueles que desejam conhecer o cinema de impacto de Fuller, um dos diretores mais vigorosos do cinema americano em todos os temposAs imagens são de Shock corridor.

07 fevereiro 2006

O amigo gaúcho de Reichenbach

Não conheci nem nunca li os textos de Luiz César Cozzatti, dublê de psiquiatra e crítico cinematográfico, que faleceu semana passada (4 de fevereiro), deixando abalados seus amigos e admiradores. Faço aqui o registro para também lamentar a morte do crítico, que, a julgar por opiniões abalizadas, como a do cineasta Carlos Reichenbach e de Inácio Araújo, entre outros, era um profundo conhecedor da arte do filme. Pontificava em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e, por isso, nunca tive acesso às suas publicações mas, tenho certeza, se vier a conhecê-las, passarei a admirá-las. Luiz César Cozzatti era também membro permanente da comissão de seleção do Festival de Gramado. Há também a assinalar, na morte do crítico, que o brasileiro somente toma conhecimento das críticas cinematográficas publicadas no eixo Rio-São Paulo. A internet, nesse particular, tem prestado um bom serviço na divulgação de certos talentos. Transcrevo abaixo o lamento de Reichenbach pelo desaparecimento de Cozzatti, seu amigo gaúcho:

"Confesso que o impacto gerado pelo e-mail de Marcus Mello, me deixou inerte por vários minutos. Pensei imediatamente em escrever um post para o REDUTO a respeito da minha admiração pelo notável crítico gaúcho, cuja cultura cinematográfica me surpreendeu tanto quando nos conhecemos, lá pelos idos dos nos 70. Lembro de ter falado muito ao amigo Jairo Ferreira a respeito de Cozzatti e quando Ferreira leu os textos críticos dele, imediatamente incluiu em seu livro CINEMA DE INVENÇÃO. Assim como nosso outro grande amigo, o Dr. Luiz Ribas, Cozzatti era um "psiquiatra louco por cinema", daqueles raros garimpeiros de autênticas pepitas cinematográficas. Ficamos amigos, não só por ele gostar irrestritamente de AMOR, PALAVRA PROSTITUTA e FILME DEMÊNCIA, mas - e sobretudo - por uma "descoberta" mútua: SCANNERS, de Cronemberg, numa época em que o cineasta canadense era uma incógnita.Cozzati vai ficar na minha memória como daqueles raros "irmãos de universo" que cultivamos para sempre por comprenderem o mesmo dialeto da cinefilia."

Mais sobre Cozzetti no site de Carlos Reichenbach:
http://redutodocomodoro.zip.net/

06 fevereiro 2006

Da psicose antitabagista


Tenho consciência dos males causados pelo cigarro e gostaria, inclusive, de não ter esse vício., que foi adquirido na adolescência. Mas detesto a psicose antitabagista que se instalou. Numa viagem de avião, que não fica restrita ao vôo propriamento dito, mas à espera no aeroporto, à chegada uma hora antes para o check in, o tempo que se leva na sala de embarque, não se pode fumar. Nos shoppings centers também não. Frqüentava, por exemplo, uma choparia num restaurante árabe, que fica no Shopping Barra, em Salvador, mas após a probição rigorosa do tabaco em abril de 2005, desde esta data perdi meu chopp, pois somente posso beber quilometricamente se fumo. Buñuel, em seu livro de memórias escrito por Jean-Claude Carrière, Meu último suspiro, mas ditado por ele, tem um capítulo magistral onde faz a apologia do cigarro e da bebida. Claro, quem não fuma tem todo o direito de não se contaminar com aqueles que fumam, mas que sejam reservadas áreas para fumantes nos bares e restaurantes e nas aeronaves. Há, também, o direito de fumar. Por falar nisso, e vendo, ontem, O preço da traição (Mulholland falls, 1996), de Lee Tahamori, reparei que Nick Nolte fuma em todas as tomadas, e não apenas com o cigarro na mão ou na boca, mas acendendo-o com um isqueiro. Também seus parceiros, quando ele oferece cigarro, todos aceitam-no. Nos filmes dos anos compreendidos entre 30 e 60, praticamente todos os personagens fumavam. E era chic a mulher fumar, ter uma cigarreira folheada a ouro, etc.

Estive na Nona Mostra de Tiradentes e me impressionei com a possibilidade de se fumar nas mesas dos debates. Um avanço, considerando a proibição fechada em outros estados. Um cinzeiro estava à disposição de cada debatedor nos seminários programados. Além do êxito da mostra em si, vale registrar a abertura ao cigarro, um verdadeiro alívio para os fumantes inveterados como este bloguista.
O Hollywood que aparece aí ao lado, de maço verde, não é o que fumo. Fumo o vermelho, cor de sangue, o Original Blend, authentic taste.

05 fevereiro 2006

Thriller nada delicado


O Setaro's Blog está bastante desatualizado pela conjunção de compromissos, falta de tempo, viagens e preguiça. Mas pretendo ser mais assíduo com aqueles que gostam de perder seu tempo com a leitura de suas postagens.
Vi hoje, domingo, O preço da traição (Mulholland falls, 1996), de Lee Tamahori, diretor que veio da Nova Zelândia e se deu bem em Hollywood. Thriller, cuja ação se passa na década de 40, tem a visão cruel peculiar ao realizador, mas uma criação de atmosfera toda especial, principalmente pela iluminação de um artista que é Haskell Wexler, e a partitura de extrema funcionalidade de Dave Grusin. Vendo o filme, em DVD - já o tinha visto no cinema na década passada, lembrei-me de Chinatown, o genial trabalho de Roman Polanski. No elenco, Nick Nolte, a bela Melanie Griffith, filha de 'Tippi' Hedren, John Malkovich, Chazz Palminteri, Chris Penn, irmão de Sean Penn, que faleceu prematuramente na semana passada aos 40 anos, Treat Williams, Jennifer Connelly, que, menina, trabalhou em um dos meus favoritos de todos os tempos, Era uma vez na América, e, recentemente, apareceu em Água negra, de Walter Salles, entre outros. Gosto de um bom thriller. Como este Mulholland falls.
Mas mudando de um polo a outro, devo registrar que um dos melhores filmes brasileiros das duas últimas décadas é, sem dúvida, Crime delicado, de Beto Brant, que se tornaria, só com este trabalho, um dos maiores realizadores da cinematografia nacional, não existissem obras fortes como Matadores, Ação entre amigos e O invasor.

01 janeiro 2006

Desrespeitando os assinantes, os canais Telecine estão cada vez piores. Acabaram as mostras de realizadores importantes (como a do inesquecível Ernest Lubitsh, ou a de Jean Renoir, entre tantas outras) e, com elas, decretou-se a morte do Classic, que, em seu lugar, deu origem ao híbrido Cult. Mas o que causa espécie é o atentado contra a integridade da obra cinematográfica, com o espichamento do quadro nos filmes originariamente em cinemascope em função da sempre abominável tela cheia (full screen). Soube que houve uma mudança na gerência dos canais, e os novos responsáveis pensam somente em angariar audiência. Volto ao assunto, pois já postei uma reclamação semelhante, porque realmente considero inadmissível, por exemplo, que um filme O dirigível Hindenburg, de Robert Wise, disaster-movie com George C. Scott, que nada tem de cult (ou o que isso queira dizer), e abstraindo juízo valorativo, seja apresentado na horrenda tela cheia, pois espetáculo que requer o enquadramento íntegro. O Cult é um somatório de filmes sem muito critério: obras antigas se misturam com novas, provocando uma grade heterogênea. O Hindenburg, de Wise, diretor que já fez obras-primas (Punhos de campeão, Quero viver, entre outras), é um de seus filmes mais fracos e longe estar de uma cultuação, mas obra que mais parece adequada à vala do esquecimento. Quanto ao Canal Brasil, os intervalos continuam de amargar e desesperar. Alguns programas são completamente dispensáveis, como Tipos, de Oswaldo Montengro. E Pereio devia escolher melhor os seus entrevistados. Por, talvez, preguiça, entrevista amigos que ninguém conhece. Neste ponto, Selton Mello sabe escolher e é mais dinâmico, deixa o entrevistado falar. O que não acontece com Pereio, que, na recente reprise da entrevista com Gabeira, quando este ia abrir a boca, tinha que incontinenti fechá-la, por que Pereio o atrapalhava, falando, falando muito - e embolado.

29 dezembro 2005

Vampiros de almas, de Don Siegel, uma obra-prima.

Vampiros de almas

Muito da revolução na linguagem ocorrida nos anos 50 se deve aos talentos emergentes do cinema americano da década de 50, como Robert Aldrich (A morte num beijo), Stanley Kubrick (A morte passou por perto, O grande golpe), e, entre outros, evidentemente, como Nicholas Ray, Samuel Fuller, Donald Siegel ou, simplesmente, Don Siegel. Acabei de ver Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, 1955) no Telecine Cult, filme eletrizante, de impacto. A mise-en-scène de Siegel (a quem Clint Eastwood, confessadamente, afirmou ser seu mestre, juntamente com Sergio Leone), toda pontuada pela partitura musical, dá o tom do estilo de representação daquela época dentro de uma fórmula de filme B. Pena que os responsáveis pelos telecines tenham colocado Vampiros de almas na abominável tela cheia (full screen), considerando que originariamente foi filmado em Superscope com lente anamórfica.

27 dezembro 2005

Jean Seberg em Acossado (A Bout de souffle, 1959), de Jean-Luc Godard, filme detonador da Nouvelle Vague juntamente com Os Incompreendidos (Les quatre cent coups, 1959), de François Truffaut. Segundo a opinião desse bloguista, Acossado continua sendo não somente o melhor filme de Godard mas o mais expressivo da Nouvelle Vague. Não se cansa, o bloguista, de rever Acossado. Cinema e ao mesmo tempo explicação do cinema.

26 dezembro 2005

A CONEXÃO FRANCESA DE FRANKENHEIMER

Há filmes que, porque oriundos do chamado ‘cinemão’ (leia-se indústria cultural de Hollywood), são desprezados ‘a priori’ pela crítica. Como se uma boa obra cinematográfica não pudesse surgir do bojo industrial. Se o cinema hollywoodiano, atualmente, é um lixo, não se pode deixar, porém, de convir que, no passado, o cinema americano produziu algumas das melhores pérolas da sétima arte em todos os tempos. Por exemplo, vi, muito recentemente, em DVD, um filme que fora massacrado pela crítica quando do seu lançamento em meados da década de 70: ‘Operação França II’ (‘The French Connection II’, 1975), de John Frankenheimer. Não confundir com o primeiro, ‘Operação França’, de William Friedklin, feito no início dessa década, mas que recebeu elogios entusiasmados da crítica mais competente e mais ‘limpa’.

Surpreendentes o domínio formal de Frankenheimer – nesse particular Friedklin também é um mestre (e, para isso, basta ver ‘Jade’) e o tratamento temático inusitado e insólito para um filme que se pensaria numa continuação amorfa do primeiro. Obra de ‘mise-en-scène’, é, também, além de um extraordinário filme de ação e emoção, uma reflexão sobre o choque cultural entre a mentalidade americana e a francesa, pois o ‘tira’ interpretado por Gene Hackman, que deixou escapar o grande traficante Fernando Rey no final do primeiro, vai a Marselha para captura-lo, e, nessa cidade, fica subordinado, por estrangeiro, aos ditames da polícia francesa, cujo chefe, interpretado por Bernard Fresson, a princípio, não oferece condições para um desempenho livre de Hackman. Mas o que surpreende em ‘The French Connection II’ é a alternância inusual em fitas do gênero entre os momentos fortes e os momentos fracos. Todo rodado em Marselha, ‘The French Connection II’ tem também um registro documental que revela a geografia da cidade.

Há uma seqüência extraordinária nesse sentido, quando Hackman, que é capturado pela ‘gang’ de Fernando Rey e passa semanas tomando heroína para se viciar e, finalmente, é salvo e começa um tratamento de choque para a desintoxicação, fica na cela frente a frente com o policial francês. Este, para conter os ímpetos da abstinência da droga, oferece a Hackman uma garrafa de conhaque e os dois começam a conversar. Os planos são fixos e demorados e Hackman procura, na sua embriaguês, relembrar fatos passados e bem imbricados à cultura americana sob o olhar paciente, mas confuso, do policial. Nessa interlocução, inusitada, repita-se, para um ‘thriller’, está contida todo o choque existente entre duas culturas.

A narrativa de Frankenheimer parece que foi introduzida por um fio elétrico de alta tensão, pois o espectador, mesmo nos momentos em que nada acontece, fica ‘suspenso’, à espera que algo surja de repente. Mestre de obras nas quais a ação é a tônica, mas sempre procurando dar a esta um sentido de espetáculo e de ‘mise-en-scène, Frankenheimer foi um diretor de inegáveis atributos, ainda que, no final da carreira, não tenha demonstrado o vigor de outrora. Mas fez filmes importantes como ‘Sob o domínio do mal’, ‘Sete dias de Maio’, ‘O extraordinário marinheiro’, ‘O homem de Alcatraz’, entre muitos outros, para cair, no fim da vida, em mediocridades do tipo ‘Amazonas em chamas’. Antigamente se chegou a dizer: há ‘um frankenheimer na praça’, o que se traduz por autoria, por atestado de vigor, de profissionalismo, de bom espetáculo.

‘Operação França II’, realizado em 1975, antes que a infantilização temática tomasse conta de Hollywood, é um filme que merece ser revisto e, para isso, existe em DVD em cópia luminosa bem distribuída. A crítica, que fez vista grossa para esse filme de Frankheimer, considerando, ora vejam só, ‘medíocre continuação’, precisa, urgentemente, se ainda quiser enxergar e ver o cinema na sua essência, fazer uma revisão completa de seus postulados superados. O espetáculo reina em ‘The French Connection II’, há um sentido cinematográfico na direção de Frankenheimer que espanta e assombra. Para muitos, entretanto, a obra cinematográfica está presa ao elo semântico, ao elo do conteúdo, desconhecendo, muitos que se arvoram a comentaristas cinematográficas, a importância do elo sintático, da maneira pela qual o realizador articula os elementos da linguagem cinematográfica em função da explicitação temática.

Os ‘contemporâneos’, adeptos da chamada ‘contemporaneidade’, que virou jujuba em boca de pseudo-intelectual, podem ver as qualidades de um Almodóvar, Lynch, Von Trier, mas quando se trata de um Friedklin, de um Frankenheimer, a coisa fica mais difícil. Por que? Creio que a resposta está dada.
MARY LOUISE PARKER: É o meu tipo de mulher! Amo-a.

16 dezembro 2005

Filmes notáveis no "Reduto do Comodoro"

Aconselho uma visita ao blog de Carlos Reichenbach, Reduto do Comodoro (http://redutodocomodoro.zip.net/), onde o dublê de cineasta e bloguista está realizando um levantamento muito importante sobre os filmes marcantes, que ele chama, muito ajustadamente, notáveis. Impressionante o conhecimento filmográfico de Reichenbach, sua vivência e formação cinematográficas, o gosto pelo thriller e os chamados malditos, sempre procurando, na sua investigação, eleger a criação fílmica, um certo toque bizarro, sem, contudo, deixar de estar aberto a filmes diversos, como a inclusão, genial, do non sense de Tashlin em O rei dos mágicos (The gheisha boy), com Jerry Lewis, filme-escola deste como diretor que viria a ser a partir de fins dos anos 50. Entre os nacionais, destaco, entre muitos outros evidentemente, a inclusão de Tocaia no asfalto, filme baiano de 1962, de Roberto Pires, thriller rigoroso, uma produção genuinamente soteropolitana que demostra em Pires um realizador pleno no seu domínio formal da linguagem. Duas seqüências desse filme são primorosas: a tentativa de assassinato na Igreja de São Francisco, e a outra tentativa no cemitério do Campo Santo. Pires tinha uma carpintaria exemplar, uma espécie assim de ouriversaria no tratamento da linguagem, e pode ser considerado um dos maiores artesãos do cinema brasileiro. Seus últimos filmes, porém, não mais mostraram a garra dos primeiros, talvez por não contar com a infraestrutura que tinha o Ciclo Bahiano de Cinema. O site Reduto do Comodoro, ao incluir, entre os notáveis filmes nacionais, Tocaia no asfalto, faz justa homenagem ao cinema baiano, que teve, entre fins dos anos 50 até meados da década de 60, uma efervescência criadora única, singular, que nunca mais veio a retomar, esta, a verdade.

15 dezembro 2005

Menina de ouro, de Clint Eastwood, é, de longe, o filme mais importante do ano que se encontra no ocaso.

14 dezembro 2005

OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005

1) MENINA DE OURO (Million dollar baby, 2004), de Clint Eastwood. Através do itinerário de uma garota que luta para alcançar a glória no boxe, uma análise do homem e sua circunstância, um olhar arguto e ajustado nos trâmites determinados pela sociedade americana que provocam a solidão e a marginalização. Mais uma comprovação do talento soberbo de Eastwood, talvez o maior cineasta americano vivo.

2) OLIVER TWIST (Oliver Twist, 2005), de Roman Polansky. Para os exegetas de vanguarda e os hermenêuticos de plantão, ávidos de novidades inexistentes, um filme que, talvez, para eles, não faça jus ao passado do autor. Mas é um espetáculo cinematográfico de rara beleza, que envolve e encanta. Polansky possui uma carpintaria narrativa extraordinária, uma varinha de condão que faz de suas seqüências pura emoção.

3) BOM DIA, NOITE (Buongiorno, notte, 2003), de Marco Bellochio. Um realizador com aquilo que Truffaut considerava essencial a todo cineasta: estilo particular e visão de mundo. À luz de seu cinema, singular, marcante, uma interpretação do assassinato de Aldo Moro, mesclando o ‘affair’, em si, com uma pungente análise do ser enquanto criatura condicionada pelos fatos. Filme brilhante, um verdadeiro presente para o medíocre cinema da chamada contemporaneidade.

4) OS SONHADORES (The dreamers, 2003), de Bernardo Bertolucci. A ação se localiza nos agitados dias de Maio de 1968 em Paris, quando jovens fazem um inter-relacionamento nada disciplinar entre o sexo e o cinema. O cinema, aqui, é a vida. E, neste ‘recuerdo’, uma obra que possui um frescor nostálgico do próprio autor. E seu cinema é sempre brilhante, um sentido de ‘mise-en-scène’ ‘sui generis’, que faz do cineasta um dos mais importantes de sua geração.

5) MANDERLAY (Manderlay, 2005), de Lars Von Trier. Depois de ‘Dogville’, o que se podia esperar de Von Trier? Mas, aqui, não deixa de surpreender, abordando, com uma maneira única, a questão racial, tendo, nos negros, seu foco principal. Talvez, no oásis de talentos e de criadores, seja ele um dos raros em que se possa esperar a redenção do cinema enquanto produção de sentidos não amparada nos grilhões da mesmice.

6) AS MARCAS DA VIOLÊNCIA (A history of violence, 2005), de David Cronemberg. O plano-seqüência inicial faz lembrar aquele genial de ‘A marca da maldade’, de Orson Welles. O cartão de visitas já se mostra aí, neste momento. Um homem, casado, pacato, com vida bucólica, dono de uma lanchonete, mata um assaltante e a partir daí começa a ter o cotidiano modificado. A violência está dentro de cada um de nós. Filme exemplar, maduro, de um mestre.

7) GOSTO DE SANGUE (Blood simple, 1984), de Joel Cohen. A inserção dessa primeira obra de Coen, realizada nos anos 80, se justifica porque quando lançada fora cortada pelos produtores e somente agora se pôde ver, na íntegra, o filme como imaginado pelos irmãos realizadores. A produção de sentidos, aqui, advém do silêncio, dos movimentos de câmera, do corte, de um ruído específico, em suma, é o cinema vivo e sua expressão.
8) FILME FALADO, de Manoel Oliveira. Realizador português, com mais de 90 anos, faz uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, seus modismos, seus vazios, por meio de uma viagem de navio, quando os personagens conversam e da dialogação é que surgem os significados. Impressionante a lucidez de um homem dessa idade, quando a maioria dos cineastas contemporâneos está míope e bárbara. A ver obrigatoriamente em DVD.
9) O TEMPÊRO DA VIDA (Politiki kouzina, 2005), de Tassos Boulmetis. Filme grego de inusitada importância que passou em brancas nuvens. Boulmetis, ao tratar de uma história familiar, faz o encontro do intimismo com o realismo numa singular bifurcação que resulta poética, principalmente quando o contexto em que ela está inserida é a dos conturbados anos da guerra civil da década de 60 em seu país.

10) O JARDINEIRO FIEL (The constant gardener, 2005), de Fernando Meirelles. Baseado em um livro de John Le Carré (autor, entre outros, de ‘O espião que saiu do frio’), obra de grande beleza visual na qual Meirelles articula um sentido agudo de ‘mise-en-scène’, fornecendo, em doses homeopáticas, as informações necessárias para a compreensão de seu discurso imagético, que resulta belo e envolvente. É, sim, um grande cineasta, este Meirelles. Belíssimo filme.