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02 fevereiro 2008

A morte comanda o cangaço




Revi, há pouco tempo, A morte comanda o cangaço, nordestern do habilidoso artesão Carlos Coimbra (um dos melhores do cinema brasileiro), numa produção de Aurora Duarte. A sua lembrança vem bater em Revoada, de José Umberto, cujo imbroglio vem sendo discutido neste blog. E, ao que parece, a julgar pelas duas fotos aqui postas, a morte realmente comanda o cangaço no polêmico filme baiano vítima de seqüestro. Umberto quer resgatar um filão que já fez muito sucesso no passado: o do nordestern, cuja denominação foi dada por Salvyano Cavalcanti de Paiva. A nova geração não conhece, mas O cangaceiro (1953), de Lima Barreto, foi, talvez, o maior sucesso do cinema nacional em todos os tempos. A julgar pela bilheteria, o maior êxito é o de Dona Flor e seus dois maridos. Mas creio, assim como no caso de ...E o vento levou entre os mais celebrados pelo público,, que o filme mais visto da história da nossa cinematografia seja O cangaceiro.

01 fevereiro 2008

Cineasta fica nu para a platéia horrorizada



O crítico e animador Jairo Ferreira, autor de um importante livro, Cinema de Invenção tem, agora, seus escritos reunidos num blog precioso por Juliano Tosi (http://cinema-de-invencao.blogspot.com/). Transcrevo abaixo um episódio acontecido durante uma das jornadas baianas, em 1977, há, portanto, 31 anos, quando o cineasta Edgard Navarro, aborrecido com a cantilena de certos críticos, durante debate, tirou a roupa e ficou nu, com a mão no bolso. A ressalva que faço ao excelente trabalho de Tosi é que não existem nos textos referências à publicação nem alusão ao jornal nem à data. São imprescindíveis em se tratando de um trabalho como este. Jairo Ferreira, que, infelizmente, já morreu, foi na época a Salvador especialmente para cobrir a Jornada. Penso que o texto é da Folha de S. Paulo. O ano, tenho certeza, pois também fui testemunha ocular da nudez navarriana: 1977.
JAIRO FERREIRA Enviado especial

Salvador – Durante a mostra "O Horror Nacional", ocorrida no recente festival de Brasília, o eminente homem de cultura universal e de cinema brasileiro em particular, Francisco Luis de Almeida Salles, afirmou que "é preciso horrificar as pessoas para que elas readquiram a visão, pois sem horror não há visão". Essa frase lapidar cai como uma luva nesta 7ª Jornada Brasileira do Curta-Metragem que se realiza aqui em Salvador. A única diferença é a cor local: parafraseando Almeida Salles, posso dizer que è preciso haver um desnudamento cultural, pois só assim as pessoas poderão readquirir a visão e ver com olhos livres, como propunha o poeta Oswald de Andrade.

Explicando melhor: o nível dos filmes apresentados na Jornada está tão baixo que, pior. è impossível. Uma situação que. evidentemente, reflete-se nos debates que estão tão insossos, "dirigidos" e repetitivos que chegam a saturar. Inesperadamente, porém, um acontecimento da maior importância sacudiu a poeira da polêmica provinciana, embora ainda não tenha dado a volta por cima: durante um dos debates mais repressivos, o jovem cineasta Edgar Navarro tomou o microfone e disse o seguinte: "Quem tem o microfone tem o poder. Agora eu vou enrolar vocês todos com o fio deste microfone, vou tirar toda a minha roupa e espero que vocês abandonem esta sala, porque eu quero ficar nu e só aqui. Vocês falam muito em realidade social, mas esquecem que antes é preciso se descobrir a si mesmo".

Tudo isso pode parecer exagero, mas não é: aconteceu aqui em Salvador, aliás, o único lugar do Brasil onde essas coisas poderiam acontecer. Parece que o calor escaldante que faz nesta cidade provoca alterações físicas e mentais nas pessoas. Como foi que isso aconteceu? Qual era a situação anterior que levou o cineasta Navarro a tomar essa atitude tão radical? Bem. na verdade, a maioria das pessoas está encarando isso como folclore. Por ora é oportuna a opinião do diretor da Jornada do Curta-Metragem, Guido Araújo:

"A Jornada tem uma tradição de liberdade muito grande, conquistada com muito trabalho e esforço durante os últimos sete anos. Meu único temor é que atitudes como a de Edgar Navarro possam comprometer essa mesma liberdade, porque muitas pessoas podem interpretar de forma equivocada e negativa aquele gesto. Sempre lutei para que houvesse muita alegria neste encontro, mas o cineasta foi longe demais. Minha esperança é que ele justifique a sua atitude, fazendo dela algo mais conseqüente".

No dia em que foi exibido o filme "Exposed", de Edagard Navarro, o chamado astral baiano estava muito carregado. Os cineastas foram chamados à mesa pelo coordenador dos debates, o crítico José Carlos Avelar e, um por um, foram dizendo o que já tinham feito em cinema antes do filme exibido no dia. No momento em que Navarro pegou o microfone, recusou-se a dar prosseguimento aquela chatíssima explicação de "curriculum vitae" e recitou em francês um rápido poema de Marcel Proust, lembrando seus tempos de escola. Até aí, tudo bem. Acontece que, logo depois houve uma intervenção, ou melhor uma provocação de Bernardo Vorobov, programador do Museu da Imagem e do Som de São Paulo: "Eu acho que, dos 15 filmes apresentados hoje, somente três devem ser debatidos aqui". Foi o suficiente para que Navarro abandonasse a mesa, dizendo que tinha recebido um sinal. Foi sentar-se no meio da platéia, humildemente, pois seu filme "Exposed", um dos mais aplaudidos na Jornada até aquele dia, não tinha sido citado entre os três escolhidos por Vorobov, uma situação em parte assumida pelo coordenador dos debates. Dai para o "strip tease", foi só uma questão de tempo. No dia seguinte, porém, Navarro pegou o microfone (depois de muita batalha) e fez uma respeitável autocrítica:

"Eu estava muito triste porque meu filme não podia ficar excluído da discussão. Com a minha atitude não tive intenção de agredir ninguém, porque me considero um pacifista. Perdi a minha mãe aos nove anos. Tive que ler muito Freud para me manter vivo, para conseguir chegar até aqui. Agressão é o que houve naquele debate em direção a mim e não da minha parte".

A atitude do cineasta, certamente, esta muito coerente com o seu filme "Exposed", palavra que vem impressa no fim dos cartuchos de filme Super 8 e que significa "exposto". O que Navarro fez não foi outra coisa: ele expôs o filme e completou o ciclo, expondo-se a si mesmo física e mentalmente ao público. Comentário do cineasta Rogério Duarte:

"A partir desse filme, eu começo a respeitar o Edgar como um grande cineasta. O filme è sobre ele mesmo e tem momentos de cinema superior: a cena em que aquele fogo queima na tela. com a música cantada por Caetano, "Coração Materno", é de arrepiar".
Por enquanto, estou cobrindo e descobrindo a Jornada do Curta-Metragem no que ela possa ter de cinema, compreendido como invenção e criação, pois é isso o que falta ao atual cinema nacional. Essa não e apenas uma opinião pessoal minha: o consenso da grande maioria dos cineastas aqui presentes também acha que não adianta nada ter uma lei e um mercado de curta-metragem nas mãos e nenhuma idéia na cabeça. Esta é portanto uma Jornada que nem Freud explica. Tudo termina amanhã, quando será exibido "25" (Vinte e Cinco) de Ze Celso Martinez, que chegou anteontem aqui. Estão presentes também Cosme Alves Neto, da cinemateca do Museu de Arte dpRio de Janeiro, os críticos Jean-Claude Bernardet e Alberto Silva, cineastas como João Batista de Andrade e Thomas Farkaz, além do ministros das comunicações Euclides Quandt de Oliveira, que deverá chegar para uma mesa redonda. Resta esperar que eles expliquem o que nem Freud explica.

30 janeiro 2008

Tropa de elite vence o jogo de cena



Na pesquisa que fiz neste blog, aqui ao lado, e que se encerrou hoje, dia 30, para a escolha do melhor filme brasileiro de 2007, houve quatro opções, quando poderia, reconheço, ter havido mais uma ou duas. O fato é que dentre os 47 votantes, 31% escolheram Tropa de elite como o mais expressivo do ano ou, pelo menos, o que mais agradou a uma maioria votante. Em segundo lugar, empatados, Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, e O dia em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, cada um com 25% das preferências. O menos votado foi Santiago, de João Moreira Salles.

Na minha opinião, porém, o melhor filme brasileiro do ano que passou foi, sem dúvida, Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, que estabelece, aqui, uma reflexão tensa sobre as fronteiras tênues entre o documentário e a ficção, a fazer surgir, como o próprio título sugere, um jogo de cena. Santiago também é um documentário que se indaga como tal, a permitir que seu autor reflita sobre o processo de criação cinematográfica durante o desenrolar de sua narrativa. O filme de Coutinho, no entanto, é o mais envolvente, uma grande obra que ratifica o seu talento de documentarista criador, a exemplo de tantos filmes importantes como Cabra marcado para morrer, O fim e o princípio, Edifício Master, etc.

Cao Hamburguer conseguiu introduzir muita sensibilidade na descrição dos anos de chumbo, durante um campeonato de futebol, quando os pais de um garoto são pressionados pela ditadura militar em seu auge. Já Tropa de elite, thriller competente de José Padilha, divide as opiniões. Alguns o consideram de teor fascista, e outros, menos macomunados com as idéias fixas, um exercício para a exposição das fraturas expostas do nervoso centro urbano carioca, onde uma guerra civil já se instalou há muito tempo.

29 janeiro 2008

Entrevista exclusiva com José Umberto

Conheci José Umberto Dias quase em meados do século passado, quando ele, ainda estudante secundarista, do Colégio de Aplicação, entrou para um grupo de iniciação cinematográfica do qual eu, este bloguista, ainda de calças curtas, fazia parte. Era uma época diferente da atual, um momento histórico, 1966, de grande politização, de cultura literária, de sérios compromissos com a arte do filme. O oposto desta chamada contemporaneidade que se caracteriza pela cultura audiovisual tout court e um desprezo absoluto pela leitura, pela política, pela humanidade, pela solidariedade. Mas são fatos pretéritos. O que vale, aqui e agora, e o que se está a tentar desvendar, é este mistério em torno de um seqüestro fílmico cujo imbroglio, a rigor, bem que valeria um roteiro para ser inscrito num desses famigerados - e mendigados - concursos. José Umberto atendeu de pronto à minha solicitação para uma entrevista exclusiva para este blog. Formulei por escrito as perguntas que JU, recebendo-as, mas respondeu com a prontidão e a seriedade que lhe são características. Sem mais delongas, vamos a ela:
André Setaro: Por ser um filme aparentemente de gênero, o nordestern, o resultado final, que foge às normas da gramática tradicional, não ficou adequado ao mercado. Não estaria nisso, numa época em que a criatividade está ausente do cinema brasileiro diante da ânsia da captação de recursos e a inclusão mercadológica, o pomo da discórdia?

José Umberto: O cinema sendo aquilo que bate na tela... e o resto é sobra. Revoada se constitui num filme em busca de uma dramaturgia popular. O cangaço, para mim, converge para uma fenomenologia de juventude sertaneja pré-industrial. O jovem sem perspectiva que opta pela revolta através da lei do talião: olho por olho, dente por dente. Historicamente representa uma posição de vanguarda ética. Baseando-me nesses pressupostos, criei então uma estória linear (dando ênfase à oralidade de uma época que se foi) em que acentua o aprofundamento de personalidades originais dentro de um habitat. Um filme de personagens, portanto. E desenvolvo uma perseguição em que o último bando de cangaceiros é ceifado pela volante policial. A morte como limite da existência. Daí ultrapassar o regional e penetrar na dimensão universal. Embora centrado na dinâmica da cultura brasileira que deseja dialogar com o público inteligentemente.

AS: As leis de incentivo fiscal fazem com que o cineasta escreva um roteiro já a pensar no gosto da empresa patrocinadora. Os filmes nacionais, se, por um lado, ganharam em técnica, perderam, no entanto, em linguagem e estética, a considerar que o mercado não tolera experimentações. A extremada concepção autoral de Revoada não provocou certo atrito neste particular?

JU: Meu caro André, o filme ainda não está pronto. Realizei no Rio de Janeiro, com o montador Severino Dadá e o seu filho André Sampaio, uma pré-montagem/edição que ficou com 130 minutos. Analisei este material e estou com 148 alterações de mudança neste primeiro rascunho, vamos dizer assim. Acontece, porém, que retornei a Salvador para sofrer uma cirurgia de urgência e, por conta disto, o Sr. Rex Schindler se aproveita desta vulnerabilidade humana para seqüestrar todas as imagens e os sons de Revoada. Um total de mais de 16 horas. Um gesto truculento, maquiavélico, covarde e desumano que me obriga a tornar pública a questão. Não pela polêmica de torre de marfim... mas pela abertura saudável e lúcida de uma discussão que amplie a nossa visão do significado da situação atual do cinema brasileiro. Não devemos e nem podemos jogar a sujeira para baixo do tapete. Isso não. Enfrentemos de cara os nossos problemas sem subterfúgio.

AS: Não há, no cinema brasileiro, mais espaço para um Candeias, um Mojica Marins, entre tantos outros rebeldes e criadores. Tudo está muito moldado ao mercado - e Deus é o mercado!. A visceralidade do pretérito, os arroubos lingüísticos do Cinema Novo, por exemplo, deram lugar a um certo classicismo na concepção do espetáculo cinematográfico. Revoada é um filme que contraria a ação em movimento, a privilegiar, ao que parece, as tomadas longas e um excessivo tom teatral das interpretações. O que você tem a dizer sobre isso?

JU: Há espaço para tudo: basta querer e não ser conformista. E me desculpe, professor, eu não pretendo sair do foco deste presente debate. O nosso cinema está sendo subsidiado por incentivo fiscal. Logo, os cineastas têm responsabilidade pública. A nossa liberdade passa então pelo sagrado erário popular. Esse 1 milhão de reais aplicado em Revoada poderia ter ido para a educação, saúde ou para a segurança de nosso País. Mas não, foi para um filme, foi para o patrimônio cultural brasileiro. Quando percebi que o “produtor”, por mim indicado ao Ministério da Cultura, estava com um balancete onde apresentava indícios de corrupção... então me indignei como cidadão e apresentei uma Ação Popular na Justiça Federal e no Ministério Público desde agosto do ano passado. E aí minha consciência está tranqüila, André. Durmo em paz... uma vez que, quem não deve não teme. Busco a justiça dos homens: espero a sentença correta. E assim presto contas ao meu espírito. Só quero isso, e concluir meu filme para que o mundo possa assisti-lo e contemplá-lo.

AS: Apenas constatando fatos. O cinema experimental, se, algum dia, já pôde ser visto no mercado, não tem mais nem hora nem vez. A estética do videoclipe e as tomadas rápidas dão a tônica do espetáculo cinematográfico contemporâneo, chegando a haver, na minha opinião, uma morte agônica do verdadeiro cinema. Você não estaria, neste ponto, a se imaginar ainda nos tempos áureos do Cinema Novo?

JU: O meu tempo é este: aqui-e-agora. Quando converso com você, por exemplo, dedico o meu tempo a lhe ouvir e, se possível, responder. Costumamos a dedicar tempo às abstrações. No entanto, vivo um instante concreto de minha vida. Estou sendo violado como artista. Sinto-me na era da Inquisição: perseguido pela intolerância. Não aceito a impunidade, tão em moda. Não aceito a mediocridade, tão cultuada.
Assumo o meu exílio voluntário. Cultivo a minha solidão construtora. Por ventura, não estou só. Sei que tenho boas companhias, meu caro crítico de cinema. É uma sensação que me conforta, creia. Encaro o ceticismo como alto grau de evolução. Agora, não sou niilista.Aposto no crescimento interior. Na luz que se traz dentro de cada um. Acredito nos homens e nas mulheres de boa vontade, assim na terra como no céu.
O meu tempo é o tempo da criação. Sem me guiar por modismo ou por ortodoxia. Não acredito no novo nem no velho. Tenho fé na eternidade de um artista como O Aleijadinho, marco da imortalidade. Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos e Graciliano Ramos está no Panteón. A obra verdadeira transgride a temporalidade. Muitas vezes reconhecemos certos gênios após séculos. E o cinema é uma linguagem ainda na era infantil. Muita água rola debaixo da ponte. “Cinema é cachoeira” declarou o clássico Humberto Mauro.

AS: Há, creio, uma certa literatice no roteiro de Revoada, quando todo roteiro deve ser, antes de tudo, indicativo. Sei disso porque o li certa ocasião quando de um concurso de roteiro do qual ele fez parte. O discurso de seus cangaceiros é um somatório de literatura e teatro, a se perder de vista, nisso, o cinema. Por que não procurou um dínamo mais vibrante haja vista o que li nas mensagens em relação à montagem feita no sul?

JU: Nossa mente ainda está dominada pelos conceitos da física clássica. A dicotomia, por exemplo, é um vício ultrapassado de análise. A literatura, o teatro e o cinema são “dínamos vibrantes”. Eu não separo o que é íntegro: a unidade estética. Walter da Silveira nos ensinou que o homem pré-histórico já fazia cinema virtual nas cavernas rupestres: a busca da decomposição da imagem é um sonho arcaico. O cinema contemporâneo superou esse debate. O nó foi desatado. “O Ano Passado em Marienbad” (1961) de Alain Resnais e Robbe Grillet encerrou a fronteira do “específico cinematográfico”. As portas da percepção estão abertas. Basta entrar por elas e dar vez ao seu potencial criador. Tudo é possível, inclusive o impossível. Só é preciso estar atento e forte.

AS: Quem, na verdade, roubou seu samba?

JU: Parodiando Noel Rosa, cinema não se aprende no colégio, não é mesmo Tuna Espinheira?. O samba ta no sangue, camaradinho.
Aprontei o projeto integral de Revoada para participar do concurso “Baixo Orçamento” do MINC/Sav, em 2005. Confiei no Rex Schindler, que só teve o trabalho de dar sua assinatura, reconhecer firma em cartório e alugar o CGC. Foi ingenuidade, da minha parte. Reconheço meu erro: o erro da confiança. Pois bem, André. A obra foi aprovada e, da condição de Autor do Projeto eu passei a ser Refém da produtora Rex Schindler Filmes e Serviços Ltda. Sofri um golpe, enfim.
Lembremos, vale a pena relembrar, em 1960 foi produzido Barravento com o roteiro de autoria do Luiz Paulino dos Santos que também rodou, inicialmente, 40 por cento da totalidade do filme. O Sr. Rex Schindler também aplica o mesmo golpe: Paulino é expulso... e assume Glauber Rocha a realização.
Nós sofremos de profunda crise ética. Essa é a enorme tragédia. Pois ela degenera a alma. E a cultura do esperto se apega à impunidade. A maldade, então, ganha status de instituição. É uma forma de ascensão social: nos Autos da Justiça Federal o Sr. Rex Schindler anexa uma foto ao lado de Jorge Amado. Para mim é como se a foto legitimasse a situação atual da cultura baiana: poderia ser também ao lado do Elevador Lacerda ou, alguns meses atrás, abraçado com ACM. Cultura do cartão postal, da fachada ou do sistema de coronelismo. A estrutura de dominação esboça-se pela artimanha que o poeta satírico barroco Gregório de Mattos já versava na Bahia colônia.

AS: Tenho notado que a lista dos chamados cineastas baianos não se manifestou a respeito, privilegiando os apupos e os parabéns corporativos. Você se acha, no momento, um peixe fora d'água do cinema baiano atual?

JU: O poeta Drummond se achava gauche. Eu também. Mas é que vivemos uma época sem lucidez. Ta difícil ser lúcido. Não é só Revoada que parou. Pau Brasil de Fernando Belens também paralisou. Por que? Quais as razões? Quais os motivos, pessoal? Hein?... Não podemos ir empurrando a miséria com a barriga. Um dia a casa cai... E são todos filmes promovidos pelo Estado brasileiro. Dão-se recursos financeiros e não se cobram resultados? É assim? Desse jeito... reticências.

AS: Hitchcock disse que todo filme tem que, obrigatoriamente, envolver o espectador. Mas você, assim é se me parece, segue a linha de um Tarkovsky em seu cinema, um cinema mais de mise-en-présence do que de mise-en-scène. Aqui não vai nenhuma crítica mas uma constatação. O que tem a dizer?

JU: Você assistiu ao meu último filme: Lua Violada? Se assistiu, você mesmo pode responder a questão como crítico de cinema. Quanto a Revoada só posso me pronunciar com o filme pronto. Não só eu me posicionar (minha posição é o filme em si), mas sobretudo a platéia. Já fiz vários filmes: não falo com a parede. Falo com gente: tou falando agora com você. Tou dialogando. Não vivamos com idéias pré-concebidas. Tarkovski não tem linha: ele é um poeta e se expressa com o cinema. O Bergman gostava muito dele. Como eu gosto de John Cassavetes, por exemplo. Porém isso não quer dizer nada. Não existe filme que não envolva espectador. Não existe nenhum. Agora, de que modo se envolver ? De que modo se relacionar? Há mil faces de heróis. Há mil perfis de cinema. Há, inclusive, o conceito do quase-cinema. A expressão é heterogênea: isso enriquece, companheiro. Veja só o padrão global de televisão (uniformização) engessando até o cinema, o teatro... sem falar no modo de falar do povo brasileiro. Vá num igarapé no alto Amazonas que tem lá uma cabocla falando igual à novela das oito. Isso é apocalíptico.

AS: Qual o interesse dos 'seqüestradores' em montar o filme à sua revelia?

JU: Pra dizer a verdade: Rex Schindler só pensou no dinheiro do Ministério da Cultura. Em nenhum instante ele pensou no filme: nunca leu o roteiro de Revoada, pra você ter uma idéia... até surrealista. Mas nosso País é o Febeapá do samba do crioulo doido. Esse folclore tem que acabar. Senão, permaneceremos subdesenvolvido em berço esplêndido. E o Brasil não merece esse atraso.

AS: Cavalo desce escada?

JU: Estarei sempre subindo escada. Ela nos eleva. Voar é com os pássaros. Todos têm direito de terem asas... e saírem em Revoada. Porque a solidariedade, o perdão e a compaixão salvam. E a libertação se oxigena nas alturas. Gagárin subiu além da atmosfera e gritou como uma criança: “A Terra é azul”. Foi a frase mais bela do século XX. Por que? Pelo simples fato dela estar repleta de espiritualidade: foi o coração que falou alto naquele momento iluminado.
Por favor, senhores, deixem-me terminar meu filme em paz e com liberdade de expressão. É só o que peço. E tenho todo o direito deste mundo: Revoada saiu de minhas vísceras. Só desejo produzir beleza para todos que o assista. Não mereço essa mutilação, meu povo. Afastemos o Demônio e nos rejubilemos com a consciência cósmica que é Deus, causa sui.

28 janeiro 2008

Revoada de mensagens



Uma verdadeira revoada de mensagens estou a receber sobre o "seqüestro" do material filmado por José Umberto Dias, que disse ter seu filme simplesmente "roubado" no sul do país. Segundo o realizador de O anjo negro, Rex Schindler (mas, até tú, Rex?) e Walter Webb são os responsáveis pelo "confisco" de Revoada, que se encontrava sendo montado pelo técnico Severino Dadá. Aqui não posso dizer mais nada. Apenas ouvir as "partes". Vou ouvir José Umberto e, para quem quiser se manifestar sobre o imbroglio, o blog está à disposição. Estranho o silêncio estrondoso da lista do Cinema Baiano, a famigerada Cineba, mais afeita aos apupos e aos elogios do que à investigação dos fatos, esta, a verdade verdadeira. Creio que a verdade deva vir à tona. O que está a acontecer? Trata-se de dinheiro público em jogo num país de miserabilidade absoluta como o Brasil governado pelos interesses do capitalismo internacional. Mas vamos em frente que atrás vem gente.

Ainda sobre o "seqüestro"


Recebi de Walter Webb, um dos acusados de ter sequestrado o material filmado de Revoada, nordestern de José Umberto Dias, conforme fartamente noticiado neste blog em outras postagens, uma mensagem. Ele agradece um outro e-mail que mandei para notificá-lo. Creio ser dever dá-la a público:


Caro Andre Setaro....Tenho ainda do ano passado, cópia editada por J.Umberto do Revoada, com 2 horas e vinte minutos de duração.Caso voce tenha interesse, posso enviá-la, o que dará uma ideia do que é este filme...Rex tentou minimizar a coisa que foi entendido como cerceamento da liberdade, mas Maximo Barro, 123 filmes, todos do Khouri, Babenco, Georgetti, Pieralisi, etc, Professor Emerito de Cinema da FFAp, e membro efetivo do Conselho Nacional de Cinema, considerou que, no minimo, daria para ser feito um curta de 18 minutos, e olhe lá.... Obrigado pelo Email e pela sua isenção. Jornalista honesto hoje, como voce, não mistura amizade com profissão. Abraços Walter

27 janeiro 2008

Que fique bem entendido

As informações sobre o suposto seqüestro de Revoada me foram fornecidas pelo autor do filme, cineasta José Umberto. Não fiz, e nem quero fazer, juízo de valor nas postagens. Por ser um espaço democrático, o blog está aberto também àqueles que se sentirem, por acaso, ofendidos com as acusações do diretor de Revoada. O propósito de estar a informar sobre os problemas do cinema baiano se deve à necessidade de se ter total transparência quando se toca em dinheiro público.

Consumido pela febre da indignação



Tuna Espinheira, logo que soube do seqüestro, me enviou esta mensagem de indignação:

"Velho,

Li, consumido pela febre da indignação, o relato do horror perpetrado contra o filme do Zé Umberto, REVOADA. A dupla citada, personagens da história deste filme de horror, deve, com a maior urgência, dar uma explicação convincente. Por enquanto está de parabéns o André Setaro por ter botado a boca no mundo. Trata-se de uma produção financiada com dinheiro público. Portanto, este tipo de roupa suja obriga-se a ser lavada em praça pública. Triste Bahia... Vade Retro Satanás.
Tuna Espinheira, indignado

Do seqüestro: e a transparência?

Coloco aqui o que se encontra escrito pelo Dr. Ricardo Ramos na Ação Popular com Pedido Liminar que se encontra na Justiça Federal. Pelo visto, a transparência não é a característica da produtora que se associou a José Umberto para fazer Revoada. Mas não estou aqui a fazer juízo valorativo. O que vai abaixo é uma transcrição dos autos do processo para exemplificar apenas. E a imagem ao lado é a do realizador, antes de saber que iria tomar uma rasteira de seus amigos Rex Schindler e Walter Webb. Para deixar claro, a linguagem do texto infra é a do advogado a se dirigir ao juiz. Daí o Exa. A vida tem seus dissabores, não é mesmo?
"Por amostragem, Exa, o tópico “1500”, da pseudo-demonstração contábil fornecida pela Rex Schindler Ltda., alude a “Equipamentos”, item no qual há menção a gastos no montante de R$ 89.692,00 (oitenta e nove mil, seiscentos e noventa e dois reais) referentes a pretenso contrato de aluguel de câmara Aton super 16.
A pessoa jurídica de direito privado” Brian Sewell Produções Cinematográficas”, sediada no Estado do Rio de Janeiro, atendendo a pleito lhe dirigido pelo Sr. José Umberto Dias, encaminhara orçamento para aluguel da mesma câmara “Aaton”, inclusos todos os seus acessórios, perfazendo, pois, um total de R$8.064,00 (oito mil e sessenta e quatro reais), por semana de utilização.

Ora, em aritmética simples, tendo a rodagem do filme “Revoada” sido feita em quatro semanas na Chapada Diamantina, neste Estado, logo, o custo pelo aluguel do equipamento totalizaria no período de sua utilização, retro firmado, R$32.256,00 (trinta e dois mil, duzentos e cinqüenta e seis reais).

Perceba, nobre magistrado, num único e singelo tópico da demonstração de gastos encaminhada pela Rex Schindler Ltda., a discrepância de valores, entre os reais, manejáveis no mercado, e aquele que objetivou a anunciada contratação pela pessoa jurídica privada acionada: diferença dos orçamentos da monta de R$57.436,00 (CINQUENTA E SETE MIL, QUATROCENTOS E TRINTA E SEIS REAIS)!!!
Outra empresa, Hagadê, sediada no Estado de São Paulo, consultada acerca dos valores para a locação do equipamento supra mencionado (câmara Aaton e acessórios) encaminhara orçamento para uma semana, no valor de R$8.871,00 (oito mil, oitocentos e oitenta e um reais), muito aquém, também, do valor utilizado para a locação, conforme contas da produtora Rex Schindler Ltda.

Há , igualmente, menção nas contas da Rex Schindler Ltda., à efetivação de “empréstimo”para pagamento com a última parcela. De maneira vaga e imprecisa há referência a “empréstimo”, sem caracterização da destinação dos valores tomados a este título...

Ademais, acusa, a Rex Schindler Ltda., em sua demonstração de contas, o recebimento de R$940.000,00 (NOVECENTOS E QUARENTA MIL REAIS), quando no edital, item 8, resta consignada a fórmula de pagamento dos valores para a produção do longa metragem de R$ 1.000.000,00 (HUM MILHÃO DE REAIS), através da qual ficam reservados 10% deste total (R$100.000,00 – CEM MIL REAIS) para “após a entrega das cópias” (grifos, item 8, alínea d), remetendo-se ainda ao item 9.1. alínea “a” do ato convocatório.

Não tendo sido entregue cópia “standard - 35mm do filme”, posto que em estágio final consubstanciado nas práticas de edição de som, mixagem, gravação da música, captação de sons adicionais, gravação de ruídos em sala etc., como pôde o Ministério da Cultura já ter pago 40% do valor atinente à última parcela, em ofensa o que reza o próprio edital?"

Filme baiano é seqüestrado pelo produtor



A confusão está armada. Em 2005, o realizador baiano José Umberto Dias ganhou concurso de roteiros do Minc com Revoada, filme que tenta resgatar o cangaço no cinema brasileiro através da fuga de cangaceiros do bando da Lampião após a morte de seu chefe.

Revoada assinala a segunda incursão longametragista de José Umberto, cujo primeiro filme de longa duração, O anjo negro, data de 1973, há, portanto, 35 anos que espera uma segunda chance para poder se expressar pelas imagens em movimento de maneira mais efetiva e profissional. Nunca deixou, no entanto, de fazer filmes, a registrar, em sua carreira, iniciada em 1967, com Perâmbulo, e com destaque maior em Vôo interrompido (1969), média metragem que se considera o primeiro filme realmente marginal baiano, uma incursão por todas as bitolas. Quando do boom superoitista, realizou, entre outros, Urubú e Brabeza, a obter prêmios em festivais nacionais. O cangaço sempre esteve nas suas cogitações e em sua fita de estréia no longa, O anjo negro, há uma alusão explícita com a introdução de um personagem que é cangaceiro. O registro, porém, ficou mais forte quando conseguiu finalizar A musa do cangaço, nos idos dos 80, depoimento exclusivo de Dadá, que foi mulher de Corisco, que, aqui neste filme, faz surpreendentes relatos sobre a vida dos cangaceiros. Corisco e Dadá foram estilizados em Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, o grande filme do cinema brasileiro. O primeiro, em interpretação inexcedível de Othon Bastos, e Dadá personificada por Sônia dos Humildes.

Mas o que interessa saber é que José Umberto, depois de tanta luta, um verdadeiro calvário, uma via-crucis, para realizar Revoada, tomou uma rasteira quase no final da escapada, a bout de souffle. Amargurado com o que aconteceu ("Há dor que a palavra é intraduzível."), José Umberto lamenta a sorte: "O cinema é uma arte infeliz", que diz ter ouvido da boca russa de Tarkovski. O que ele conta é estarrecedor e não pode ficar sob o pano quente das conveniências, como é praxe no cinema baiano: "Meu filme foi "seqüestrado" pela dupla diabólica Rex Schindler/Walter Webb da casa do montador Severino Dadá, no Rio de Janeiro"

Vítima de um problema de saúde grave, que precisou da intervençao cirúrgica, segundo o realizador a 'dupla diabólica' se aproveitou de sua condição de inválido para exagerar a gravidade de sua doença e, assim, intervir no copião e levá-lo para longe. A deduzir de seus comentários, o autor do "seqüestro" parace que foi Walter Webb, mas com o apoio e a conivência da velho produtor Rex Schindler. Está a se repetir, como farsa, a história de Barravento mais de quarenta anos depois, quando o controle do filme foi retirado das mãos de Luís Paulino dos Santos, num verdadeiro golpe, para instalar o comando sob Rex Schindler e Glauber Rocha. Tenho, eu aqui André Setaro, um grande respeito pela figura de Rex Schindler e fiquei estarrecido, a ser verdade o que se conta, o seu ato e o seu comportamento de seqüestrador de fitas, um homem que, atualmente, se diz tão cristão e tão evangélico.

Conta Zé: "Rex entrou no concurso MINC só por eu não ter CGC. Somente. Pois sou o AUTOR de todo o projeto, como você sabe. Assim que ele foi aprovado (coisa que ele não esperava nem contava), eu saí da condição de Autor e passei à situação de Refém: nunca vi um extrato bancário do R$Hum milhão recebido do erário público!"

Este post é apenas o primeiro de outros. A história continua. E já se encontra na Justiça Federal uma Ação Popular com Pedido de Liminar. Aguardem.

A coisa é, como estão a ver, simplesmente estarrecedora.


25 janeiro 2008

O chicote em ação



Ainda que poucos os comentários aqui no blog, estou a receber e-mails indignados em relação ao chicote dos amestradores, principalmente de pessoas que acham uma grande idéia a introdução dos famigerados preparadores de elenco. Aliás, a expressão é de Tuna Espinheira, esta do chicote, que, acho, caiu muito bem. Nada mais desnecessário, na minha opinião, do que a inclusão de preparadores de elenco numa produção cinematográfica. Estes são, como já disse, mas não custa nada repetir, verdadeiros sádicos com o chicote na mão, que tentam fazer uma espécie de psicanálise em grupo. Segundo um ator conhecido, cujo nome não vem ao caso revelar, o preparador de elenco é "um porre" e atrapalha muito em vez de ajudar, a deixar, sempre, os intérpretes extenuados. Um ator que passa por tal experiência sádica muitas vezes precisa ir, finda a filmagem, a um psiquiatra para pedir uma receita de remédios tarja preta. Porque não se discute tal desnecessidade nas milhões de mostras e festivais patrocinadas com o dinheiro público que abundam pelo país. Já repararam que em qualquer cafundó-de-judas tem, agora, um evento cinematográfico? Como a produção nacional é pequena, geralmente são os mesmos filmes que circulam. E há as mobílias de festivais, as mesmas pessoas que sempre são convidadas numa espécie de ação entre amigos: "Eu lhe convido e você me convida" Uma boa forma de ganhar dinheiro atualmente é o sujeito se tornar produtor cultural, abrir uma empresa, captar recursos, e fazer surgir um festival de cinema em sua cidade. Tem que ter certa capacidade administrativa.
As leis de incentivo fiscal ao cinema brasileiro, além de engessar os filmes, para os moldar ao gosto das empresas patrocinadoras, estão corroídas.O cinema nacional deveria ser ajudado pela televisão como é feito na Europa. A entrada da Globo somente veio a jogar mais lixo no mercado.
Romero Azevêdo, ilustre pesquisador e professor de cinema da Paraíba, postou um comentário, que, por pertinente, faço editar aqui: "Logo vai surgir num desses festivais que abundam por aí o prêmio de "Melhor Preparador de Elenco".É o fim da picada !" Ha, ha, ha, ha, e mais um ha! Eis o que digo. Mais do que fim da picada, meu caro, vai ser uma desmoralização para o festival que adotar tão nauseabundo prêmio. Mas como tudo é novidade, a imperar o modismo, caso seja adotado o infeliz prêmio que o seja projetado por um chicote. Nada seria tão convincente. Vale notar para o discurso dos preparadores do elenco. Além de espancar a mente e o corpo dos intérpretes, traumatizando-os muitas vezes, com a tal de "regressão à infância", já notaram como qualquer preparador de elenco fala demais nas entrevistas? Um papo que mistura psicanálise, direção de atores, e, em alguns casos, yoga. Sim, não há exagero no que digo. É a pura verdade. "Vergonha, Vergonha!", parafraseando Joseph Conrad em Corações nas trevas no "Horror, Horror!"
A imagem é de uma preparadora de elenco em ação.

23 janeiro 2008

O chicote dos amestradores

Chego até a ser radical: filme que tem preparador de elenco eu não vejo de jeito nenhum. É uma aberratio, sem dúvida, a aparição desse diretor de atores cuja característica mais sobressalente é o sadismo e a ânsia de psicanalizar os intérpretes, a os levar ao esgotamento físico e mental. Para que isso? Já falei nesta monstruosidade que é um modismo da contemporaneidade e que tanto tem encantado os inocentes úteis. Mas, conversando ontem com o Velho Tuna, Tuna Espinheira, cineasta baiano, ele também a julgar, isso, uma monstruosidade, me relatou, depois, em mensagem enviada:
"Velho,
O que são, verdadeiramente, a figura da moda dos Diretores de Atores? As produções atuais, digo: aquelas que levam a parte mais polpuda da grana que o Governo renuncia para as famigeradas Lei de Incentivo, somando com os ricos subsídios do BNDS, Furnas, Petrobrás, etc, etc , formando, certamente um caixa mais adiposo que o orçamento, costumam se orgulhar e alardear a presença destes técnicos mágicos, milagrosos, que tiram leite em pedra. (Refiro-me aos atores), pouco importa o nível de qualidade de cada um. Críticos e comentaristas eunucos já começam a antepor um selo de qualidade
nos filmes rodados sob o chicote destes amestradores... Vade Retro.
O importante livro, “Afinal Quem Faz Os Fimes”, de Peter Bogdanovich, traz como epígrafe o seguinte: “ Eu gostava de quase todos que me fazia perceber quem diabos estava fazendo o filme [...] Porque o diretor é quem conta a história, e deve ter o seu próprio método de conta-la”. Ass. Haward Hawks. Ora, a relação do diretor/ator é viceral para o sincronismo dramático de um para o outro na feitura de filme. A batuta tem que ser do maestro e não do afinador de instrumentos. Será que a observação, uma feliz definição do fazer cinema, está defasada!? Parafraseando o título do livro citado: afinal o que fazem os diretores quando o filme está sendo filmado? Recebem a massa pronta e põe no molde?
Aproveito para recomendar a leitura do livro ao qual me referi. Editado pela Companhia das Letras. Gostosissimo de ler e aprender."
Tuna Espinheira

22 janeiro 2008

Graça, beleza e estilo: Shirley MacLaine


Revi, há poucos dias, a extraordinária comédia Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), de Billy Wilder, que me fascina há décadas, e me lembrei que Shirley MacLaine era uma das minhas atrizes preferidas, pois uma comediante total, que atua bem, dança, canta, uma profissional completa, além de sua graça e beleza particulares, encantadoras.Dando um busca no maior banco de dados de cinema do planeta, o IMDB, vim a verificar que a minha musa já se encontra com severos 73 anos (nasceu em 1934, 24 de abril).Acompanhei sua carreira com o andar de minha carruagem existencial, e o primeiro filme que vi com ela foi A volta ao mundo em 80 dias (Around the world in eighty days, 1956), superprodução de Michael Todd dirigida por Michael Andreson (soube que Oscarito foi convidado para o papel de Passpartourt, mas o grande e genial artista brasileiro se recusou porque não queria viajar, largar a sua feijoada aos domingos, na Penha, onde morava, e foi substituído por Cantiflas). Um filme naquela época demorava muito para ser lançado no Brasil. A volta ao mundo em 80 dias, por exemplo, produzido em 1956, somente dois anos depois teve sua estréia na Bahia. O mais demorado de todos, Os dez mandamentos, de Cecil B. De Mille, que também produzido em 1956 somente veio a ser lançado em Salvador em 1960. Quatro anos de atraso!

Ainda que menino de calças curtas, apaixonei-me logo pela Princesa Aoura, o seu personagem no filme de Michael Tood. Antes, no entanto, MacLaine já tinha participado de outros filmes - que somente pude vê-los depois nas reprises: Artistas e modelos (Artists and models, 1955), de Frank Tashlin, comédia acima da média onde já se pode encontrar os sinais da genialidade de Jerry Lewis, e O terceiro tiro (The trouble with Harry, 1955), de Alfred Hitchcock.

A verdadeira persona de MacLaine ainda estava por vir.E aparece em Deus sabe quanto amei (Some came running, 1958), drama áspero de Vincente Minnelli que o tenho entre os meus favoritos. No mesmo ano de The apartment, 1960, carreira consolidada, trabalha em mais dois filmes Onze homens e um segredo (Ocean' eleven), de Lewis Millestone (que Soderbergh se inspirou para três filmes, mas todos inferiores ao original), e Can Can, de Walter Lang, musical com Maurice Chevalier, Louis Jordan, Frank Sinatra, que passou há algum tempo no Cult mas que não pude ver, porque deformado na abominável tela cheia (full screen), quando o filme é orignariamente em cinemascope.

William Wyler convida a esfuziante MacLaine para um papel contido em filme sério sobre lesbianismo, que desagradou os padrões morais da época: Infâmia (The children' hour, 1961), onde divide o elenco com Audrey Hepburn. Tenho uma relação afetiva com Minha doce gueixa (My Geisha, 1962), de Jack Cardiff, diretor inglês bissexto mas um grande diretor de fotografia, porque o vi adolescente e a minha memória lhe foi seletiva. Vi lançado em DVD. Será que ainda tem a capacidade de encantar? O seu par, neste comédia romântica, é Yves Montand na sua fase americana depois do sucesso de Adorável pecadora (Let's make love, 1960), de George Cukor.

Não pretendo aqui esmiuçar a filmografia dessa grande atriz, mas citar apenas alguns filmes encantadores nos quais ela participou, a exemplo de Irma, la douce (1963), de Billy Wilder, Um marido de reserva (The bliss of Mrs. Blossom,1968), de Joseph MacGrath, Sweet Charity (1969), de Bob Fosse, Os abutres têm fome (Two mules for sister Sara, 1970), western com Clint Eastwood dirigido por Don Siegel, Laços de ternura (Terms of endearment, 1983), com Jack Nicholson, Madame Sousatzka (1988), de John Schlesinger.

Nunca tive o privilégio, porém, habitante de província que sou, de vê-la no palco nos seus brilhantes Shirley MacLaine in concert. Mas como tudo na vida, a grande estrela não tem mais condições de cantar e dançar como antes, mas está, ainda, a trabalhar em filmes alguns com lançamentos previstos para 2009.

Tudo isso para dizer apenas isso: Eu te amo Shirley MacLaine!!
E leiam-me no Terra Magazine de hoje quando faço uma homenagem a Federico Fellini e aos 50 anos de Cabíria.

20 janeiro 2008

Tuna Espinheira manda ver



A comentar o meu artigo recente no site Coisa de Cinema (http://www.coisadecinema.com.br/matArtigos.asp?mat=2220), Tuna Espinheira acha que deveria ter tocado no lobby das agências de propaganda que toma conta dos marketeiros encarregados da liberação de recursos das empresas para o financiamento dos filmes pelas chamadas leis de incentivo. Seu desabafo:

"Seu artigo “Cascalho no Dolby ou para que se produzir se não há exibição?" mostra algumas irrefutáveis verdades sobre a miséria do cinema baiano. Enfatiza, principalmente, a quase impossibilidade dos filmes, depois de prontos, adentrarem no escurinho do cinema comercial, ou seja, a finalidade precípua, o sopro de vida, o caminhar com as próprias pernas que é a vocação de toda obra cinematográfica. Repito uma frase que exemplifica: O cinema não têm nada a ver com a clandestinidade. Já teve o seu apogeu como arte destinada às massas. Fez rir, chorar, entortou cabeças, mudou costumes, transportou culturas num imenso dialogo entre os povos, os mais diversos. Hoje já não é mais aquele brioso Trio Elétrico, não mais arrasta multidões, mas entre aqueles que não morreram, ainda tem muita gente que lhe segue o rastro. O mundo precisa, o Brasil e a Bahia idem, do registro da imagem em movimento. Ante de tudo o cinema é arte, a mais universal e completa, e, no bojo de tudo isto, poderoso instrumento sócio-cultural e político. Quero referir-me, exatamente, a estes filmes a que você toca quando fala na enorme pedra no caminho para as salas de exibição. Há que se aprender a nadar contra a correnteza, nossa briga significa a resistência do cinema brasileiro de baixo orçamento, que mostra a cara do Brasil, sem sotaque, despido da “estética cosmética”, o “voyerismo” masturbatório, a vulgarização da violência, etc, etc. É a utopia que não abrimos mão, é a renovada briga: “O Petróleo é Nosso”

Depois me sugere atacar o lobby, o que concordo: "Li o seu artigo. Acho que é realista, mas uma faca de dois gumes. Não resta dúvidas que produzir um filme e não conseguir exibi-lo é algo calamitoso, patético, um desperdício. Agora deixar de produzir e permitir o vagão da mediocridade correr solto, essa não! Conselho e água só se oferece a quem pede, portanto vou só sugerir: Porque você não fala, usando a coluna com milhares de leitores, sobre grande fraude das famigeradas “Leis de Incentivo”? É de amplo conhecimento que um grupelho de aquinhoadas pessoas, grilaram este terreno. Esta é a principal “saúva” que corroi o cinema brasileiro. São as grandes empresas de publicidade, com seus esgrimistas marketeiros que dão apoio a esta gente. Em cada portão, como no Castelo de Kafka, seja da empresa privada ou que restou da pública, têm um porteiro-marketeiro, cabe a eles selecionar os projetos sedentos de um lugar ao sol debaixo das asas destas, cartas marcadas, leis de incentivo. O chapéu do Governo financia todos os filmes destes amigos do Rei. No quadro atual a finada Embrafilme que, com erros e tropeços, prestou muito serviço ao nosso cinema, principalmente, no que toca a distribuição, fica na lembrança como uma época de ouro. Como faz falta um Alex Vianny, um Dr. Walter da Silveira. Os andrajos do cinema de baixo orçamento é o que resta do antigo vigor do nosso cinema.
Fui informado que já se encontra em curso uma mega produção, já com todo apoio do Estado, na surdina, mais duas estão por vir. É neste sentido que falo em faca de dois gumes. E os Editais? E a prata da casa? Vamos continuar sempre como a província doadora de sangue? Dr, Walter foi um grande defensor do filme produzido na Bahia, trabalhado por baianos. Pelo visto a boa terra vai voltar, mais uma vez, a ser a casa da mãe Joana. Vade Retro..."

Francis Vale, cineasta de Fortaleza (Ceará), comenta, em mensagem enviado ao Velho Tuna, a grande esculhambação que reina, aboluta, no reino do dinheiro e coisas públicas: Abrindo aspas:

"Velho Tuna,

Li com atenção o material que você mandou.É a legítima expressão da verdade. A situação não está nada animadora. As leis de incentivo que, em princípio,parecem democráticas, viraram privilégio de uma minoria. E os editais constituem jogo de cartas marcadas. Hoje em dia, só se fala em filmes de três, quatro, seis milhões. E o pior:aqueles que não são distribuidos pela Globo ou pelas "majors" são exibidos apenas em alguns festivais e depois ficam mofando nas prateleiras. O Poder Público está adotando uma política de total desperdício. Financiafilmes que não são nem serão vistos, por falta de uma ação mais realista,maispé no chão. Para você ver como nós retrocedemos. Depois daquela histórica reunião deOlinda, ficou estabelecido que a Embra patrocinaria dez custas portrimestre,o que dava um total de quarenta por ano. E muitos desses filmes eramexibidosno circuito exibidor antes do filme estrangeiro. Hoje, os editais do MINC e de outros entes estatais não chegam a financiar nem os quarenta por ano e aexibição fica limitada a alguns festivais. Sem contar que esses editaisrecebem milhares de projeto. Se você fizer as contas direitinho, a proporção entre os projetos apresentados e os selecionados vai ficar algo em torno de setenta pra um. Ou seja, um completo absurdo. Quando se fala no B.O. doMINC a proporção é mais de cem pra um, uma vez que são apenas cinco projetosselecionados para muito mais de quinhentos projetos inscritos. É maisdifícildo que ganhar na centena do jogo do bicho. Estou pensando uma coisa com a qual certamente você não vai concordar. Creio que com o advento da TV digital o espaço para os nossos filmes será aTV. Com a multiplicação dos canais, as emissoras terão que adquirir um número maior de programas. Certamente esses programas ainda serão filmesamericanos.No entanto, já há articulação e discussão no Governo no sentido de forçar asemissoras a adquirir obras da produção independente, respeitando percentuais de cada região. Aquilo que está na Constituição e até hoje não foiregulamentado. O projeto de lei foi aprovado na Cãmara mas empancou noSenado. Pois bem. Se o mercado que pode nos restar é esse, o Poder Público deveriafinanciar mais filmes ( curta, médias e longas) em digital. Aumentaria a quantidade e, em consequência, apuraria uma melhor qualidade. E teria um local de exibição até certo ponto garantido. Por outro lado, a exibição digital já está acontecendo em alguns lugares e tende a se generalizar. Basta dizer que festivais como Cannes e Veneza já estão exibindo em digital. Com relação aos curtas, eu não tenho a menor dúvida. Vou lhe citar meu caso particular. Filmei em digital. Gastei uns trinta por cento do orçamento para fazer o transfer. Resultado: a película foi exibida em três festivais. Aúltima vez foi aí na Jornada da Bahia. Em compensação, em DVD eu já fizváriasexibições e distribui algumas dezenas de cópias. Também passou na TVE daqui.Quer dizer: se eu fosse esperar pela exibição da película, teria ficado nos festivais e na prateleira. Por conta disso, eliminei qualquer veleidade de filmar em película. Passaranos para fazer um filme que não vai ser exibido não é mais comigo. E se você for ver, a Kodak e os laboratórios ficam com uma parte expressiva da grana.Eliminando negativos e serviços laboratoriais, fica menos difícil. Outra coisa: no caso dos curtas, há hoje uma rotatividade muito grande. Temgente que ganha um edital hoje(como estreante), faz seu primeiro filme em 35,fica frustrado com a pouca repercussão da obra e desiste de fazer cinema. É isso que tenho observado. Então, a essa moçada que está estreando deveria ser oferecido financiamento para trabalhos em digital. As obras em 35 deveriam ser financiadas apenas para quem já tivesse alguma estrada. Aí odesperdício seria bem menor. Mas no Brasil ninguém tá ligando pra isso. Se agente for falar nisso em público arrisca levar umas boas porradas.É isso. Falei mais que deputado baiano. Desculpa aí. Mas quero que você fale bem mais, pois sua opinião é muito importante pra mim."

Um abraço doFrancis

O rei da comédia

Será que vai ser necessária a morte de Jerry Lewis para que venha a ser considerado um dos maiores comediógrafos de todos os tempos? Jerry Lewis, para muita gente, é conhecido como um mero comediante das sessões das tardes globais dos anos 80. Poucos aqueles que sabem que foi um realizador revolucionário, desmistificador, quando começou a dirigir filmes no final da década de 50. Seu apogeu, contudo, durou pouco, e seu pique criativo se esgota ao final dos anos 60, quando entra em depressão, ainda que em 80 volte a dirigir com, pelo menos, um exemplar genial cujo título original é Smorgasbord (em português: As loucuras de Jerry Lewis, título que difama)
Sobre este filme, Smorgasbord, escreveu Inácio Araújo na Folha de S.Paulo (26.04.1999): "Não existe comediante mais subestimado na história do cinema do que Jerry Lewis. Por algum motivo, temos vergonha do riso, ou, pelo menos, de desfrutar de um riso que não tenha motivo profundo (ao menos aparente). Entre seus filmes não existe nenhum mais subestimado do que As Loucuras de Jerry Lewis.O título brasileiro, vazio, indica que os distribuidores não sabiam o que fazer com o filme, nem com o título original (Smorgasbord). Na verdade não há mesmo muito a fazer: o nonsense nega-se, por definição, a dar sentido às coisas. Nesse caso, mais vale relaxar e deixar-se levar por essas gags onde desfila um mundo insano".
Sérgio Augusto, discípulo de Antonio Moniz Vianna, o maior crítico de cinema que o Brasil já teve (Walter da Silveira foi um ensaísta, bem entendido), famoso jornalista carioca, exerceu também a crítica cinematográfica nas décadas de 60 e 70, considerado um dos mais perspicazes analistas da arte do filme. No momento em que Jerry Lewis fez 80 anos, ele, o mais competente exegeta do comediante, escreveu, no Estadão (25.03.2006), um excelente artigo, cujos principais textos vou transcrevê-los aqui nesta coluna, tomando, porém, o cuidado de apor, neles, as devidas aspas.

Quando o conheceu pessoalmente, em carne e osso:
"Hollywood, sábado, 2 de novembro de 1963, por volta das 18 horas. A alguns metros de mim, Jerry Lewis em carne, osso, volteios e caretas. Dos jornalistas convidados para a estréia mundial do filme Deu a Louca no Mundo, eu era o mais jovem, quase uma criança, e, certamente, o mais ardoroso fã de Lewis na platéia de seu show de TV, naquela noite dedicado à multiestelar comédia de Stanley Kramer. O que significa que ao show compareceu quase todo o elenco do filme: de Milton Berle e Sid Caesar a Mickey Rooney e Jimmy Durante, passando por Ethel Merman, que nos brindou com um pot-pourri de Cole Porter. Não obstante, o infante aqui só tinha olhos para o mestre-de-cerimônias. Que não me decepcionou, roubando a cena com os pés nas costas - ou quase isso, literalmente. Agitado, sarcástico, inteligente (145 de Q.I., a mesma marca de Benjamin Franklin e Galileu), cheio de cacoetes, inteligente, fumando sem parar. Nenhuma decepção: era esse mesmo o Jerry Lewis que eu imaginara encontrar - o meninão espasmódico, o bagunceiro arrumadinho, o biruta absurdista. Podem ficar com Jim Carrey. Não aceito imitações."

E mais: "Como explicar, sem a psicanálise, as freqüentes posições fetais de seus personagens, o gosto pelas calças curtas e meias soquetes, as carências afetivas, os constantes conflitos familiares, os pesadelos, as fobias, as transferências, a fixação em heróis dos quadrinhos? Seu incontrolável narcisismo seria o único responsável por sua volúpia transformista? Lewis se desdobrava em dois em Mensageiro Trapalhão, O Professor Aloprado e O Fofoqueiro, e em sete em Uma Família Fulera. Ok, Alec Guinness encarou oito papéis em As Oito Vítimas, mas nunca encarnou, de lambujem, a própria mãe, como Lewis fez em O Terror das Mulheres."

Descoberto pelos franceses: "Desprezado pelos críticos americanos, inclusive por aqueles mais afinados com o gosto da crítica francesa, como Andrew Sarris, Lewis transformou-se na segunda maior idiossincrasia francesa aos olhos dos francófobos da direita americana. A primeira continua sendo o escargot, que talvez já tivesse perdido a supremacia se Lewis ainda fosse o que era na década de 60. O governo francês lhe deu a Légion d'Honneur, a Cinemateca Francesa dedicou-lhe uma retrospectiva em 1964 e o Festival de Cannes o convidou para jurado e para receber um prêmio especial em 1979. Saiu na França, em 1970, o primeiro ensaio monográfico a seu respeito: o volume 59 da coleção Cinéma d'Aujourd'hui, da Seghers, escrito por Gérard Recasens."

Ainda mais: "Por estas bandas, as mais simpáticas acolhidas às comédias de Lewis traziam a assinatura de Moniz Vianna, que aprendera a gostar do comediante nas melhores patuscadas (Artistas e Modelos e Ou Vai ou Racha) da dupla Jerry Lewis-Dean Martin dirigidas por Frank Tashlin, e José Lino Grünewald, para quem o Lewis cineasta, discípulo assumido, porém mais ousado, de Tashlin, até porque mais metalingüístico, "fez o cinema absorver o moderno com uma precisão avassaladora" - notadamente a partir de O Terror das Mulheres, atingindo o ápice com a mais inventiva e perturbadora adaptação de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson: O Professor Aloprado. Claro que não foi da refilmagem de The Nutty Professor, com Eddie Murphy, que tiraram o professor John Frink da série Os Simpsons.
"A dupla Martin-Lewis (sim, por incrível que pareça, era nessa ordem) encheu de alegria a minha infância.
A foto é de O professor aloprado, com Lewis e a bela Stella Stevens.