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05 fevereiro 2008

"Que que eu tenho com isso?"

Severino Dadá é um dos mais competentes montadores do cinema brasileiro. Seu nome foi citado aqui, nos últimos dias, porque o responsável pela montagem de Revoada, de José Umberto. Para encerrar, pelo menos aqui no blog, salvo fato novo importante de última hora, a vítima do suposto seqüestro me comunica que tem, registrado em cartório, um Contrato de Co-Produção com a Rex Schindler Filmes e Serviços Ltda. onde é o responsável pela parte artística do filme (onde entra montagem/edição, etc.). Enviou-me o contrato, mas como se encontra em arquivo word não sei como colocá-lo aqui. Sim, pelo que li, José Umberto é o responsável pelo corte final do filme.
Mas Severino Dadá é já uma figura bastante conhecida de todo o cinema brasileiro. Em Tenda dos milagres (1975), de Nelson Pereira dos Santos, com a estrutura do filme-dentro-do-filme, Dadá aparece como ele mesmo, que é o montador do próprio filme. Entre os muitos filmes que montou, Corisco & Dadá, de Rosemberg Cariry, Nem tudo é verdade, de Rogério Sganzerla, um filme de Jorge Sanjinés (a dividir a moviola com Geraldine Chaplin), etc.
Apenas aqui constato fatos. Segundo reportagem, ontem, segunda, de A Tarde, Rex Schindler confessa que vai montar mesmo o filme de Umberto, a desrespeitar, com isso, cláusula contratual. Mas o que é que se pode fazer? Umberto entrou na Justiça Federal. É cangaceiro e bom de briga.

04 fevereiro 2008

Profumo di Dino Risi

Nos auspiciosos anos 60, reinavam, no cinema italiano, as comédias em episódios, que faziam a delícia dos cinéfilos. Havia, nesta cinematografia, os monstros sagrados (Fellini, Visconti, Antonioni...) e diretores do segundo time que, algumas vezes, podiam ser considerados geniais, a exemplo de Damiano Damiani, Valerio Zurlini, Mauro Bolognini, Pasquale Festa Campanille, Mario Monicelli, Pietro Germi (seu Divórcio à italiana é uma obra-prima e assinala o melhor desempenho de Marcello Mastroianni), entre outros que, assim a citar de memória, poderia incidir em severas omissões. O fato é que o cinema italiano, o grande cinema italiano, não mais exsite, e os cineastas que ainda pontuam não podem ser comparados aos que pontificaram na sua idade de ouro.

Mas estou a me lembrar de Dino Risi, excelente comediográfo. Em DVD, já há algum tempo, saiu Aquele que sabe viver (Il sorpasso, 1962), com Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintgnant, e Catherine Spaak. No ano seguinte, 1963, realizou uma comédia em episódios de rara inspiração: Os monstros (I mostri, 1963), com um cast exultante: Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Lando Buzzanca, Michele Mercier (a Angélica da famosa série), etc. Os dois primeiros, Gassman e Tognazzi, no entanto, dominam tudo e a todas na interpretação de vários tipos hilários e diferentes. Pelo humor, e um humor que provoca o riso instantâneo, Risi analizava a sociedade italiana da época, principalmente sob o ponto de vista do absurdo das situações.

Outro filme de Risi que marcou época, o episódio de As bonecas (I bambole, 1965) intitulado La telefonata. Grande sucesso de bilheteria, um filme em sketchs dirigidos também por Mauro Bolognini, entre outros magníficos. Mas estou a colher de memória os filmes de Dino Risi, não a haver, aqui, nenhum outro propósito que a lembrança de um cineasta que ofereceu muita alegria e prazer aos amantes do bom cinema. Mas se consultar a sua filmografia, imensa, a verificação de que muitos títulos, principalmente os derradeiros, já não tiveram mais acolhida no mercado exibidor brasileiro. Se não há engano de memória, a maioria de seus filmes foi distribuída pela Condor, aquela do pássaro que, ao levantar vôo, era acompanhado de chiados da platéia.

Há uma comédia, magistral, que me deixou de ressaca alguns dias: Nós as mulheres somos assim (Noi donne, siamo fatte cosi, 1971), com Enrico Maria Selerno e Monica Vitti (atriz emblemática dos anos 60 e 70 que se dividiu entra a angústia antoniônica e a comédia sentimental ou o filme paródico com vida inteligente (Modesty Blaise, de Joseph Losey). Que delicadez no estabelecimento das situações, no tom, a musicalidade da mise-en-scène, etc. Dez anos atrás, porém, Dino Risi faria um filme que não permitia o tom cômico, a perscrutar a tragédia da existência, a complicação dos relacionamentos, a dor da pobreza: Uma vida difícil (Une vita difficile, 1961), com interpretações notáveis de Alberto Sordi e Lea Massari.

Falar de Risi é falar de muitos filmes importantes, agradáveis, por vezes geniais. É falar de Os complexos (I complessi, 1965, episódio Una giornata decisiva, e o grande cartaz, aqui, é Nino Manfredi). A constatação que vem à tona, quando aqui estou a lembrar Risi, é que o cinema italiano era muito rico e acabou, a julgar pelo lixo que resta e um ou dois mais proeminentes. E se for mencionar o grande Mario Monicelli?

Se Al Pacino é um ator excepcional e trabalhou bem a sua personagem de Perfume de mulher, o original, no entanto, pertence a Dino Risi e a Vittorio Gassman em Profumo di donna, em 1974, obra muito superior à americana. Em Telefones brancos (Telefoni bianchi, 1976), sempre com Gassman (ator de sua preferência e que participou de muitos filmes da filmografia de Dino Risi), o grande cineasta realiza uma obra que procura reproduzir o cinema italiano da época do fascismo, um cinema que era chamado o cinema dos telefones brancos.

O prazer de ter visto Férias à italiana (L'ombrellone, 1966), com Enrico Maria Salerno e Sandra Milo (sim, a felliniana Milo de Oito e meio e tantos outros) extravassa o tempo e permanece com a gente até onde houver memória e sensibilidade.
Vittorio Gassman é uma presença marcante na extensa filmografia de Dino Risi. E como existiam excelentes diretores no cinema italiano dos anos 60! A constatação chega a constranger o cinéfilo contemporâneo, que se encontra pulverizado por um novo tipo de cinefilia. De repente, no meio do cipoal de comédias brilhantes, pode-se se encontrar um Risi político, à maneira de seu colega Damiano Damiani (e alguém ainda se lembra de Florestano Vancini, Antonio Pietrangeli?) em Um crime chamado justiça (In nome del popolo italiano, 1972), com Gassman, evidentemente, e Ugo Toganazzi. Em Splendor, de Ettore Scola, Risi é citado em um bom texto de Il sorpasso. Mas deve ficar bem claro que Dino Risi não se resume apenas a este.
Dino Risi nasceu em 1916. Creio que ainda está vivo. Há uma boa entrevista com ele nos extras do DVD de Aquele que sabe viver (Il sorpasso). Se vivo, está velho: 92 anos. Não são todos que possuem o pique de Manoel de Oliveira. Deve estar aposentado. O primeiro filme que vi de Risi, mas me lembro muito pouca coisa, foi Pobres e milionários (Paveri milionari, 1959), com Renato Salvatori, que, no ano seguinte, brilharia em Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti.

Mas preciso parar de falar de Dino Risi.

A imagem é do cartaz de Telefones brancos, um filme que precisa ser urgentemente resgatado.

03 fevereiro 2008

Rapto ou seqüestro?

Marcos Jacob, em desacordo com o que escrevi sobre o imbroglio de Revoada, solicita-me a publicação de sua mensagem que acabo de receber. Que seja feita a sua vontade:
"Conforme publicações em seu blog, a palavra da vez é SEQÜESTRO quando você se refere ao filme REVOADA, do qual também participei. Pois bem, estou vendo que você vem tomando uma posição "unilateral" por já ter trabalhado com o "Visionário diretor" José Umberto. Penso que, como jornalista e tendo um currículo de respeito, deveria evitar frases como esta: "a morte realmente comanda o cangaço no polêmico filme baiano vítima de seqüestro." (retirada do blog).
Vamos recorrer à etimologia para entendermos o que o Diretor de Revoada quis dizer com "SEQÜESTRO":
Seqüestro vem do latim SEQUESTER: Depositário (de objeto em litígio), Mediador, intermediário.Esses sinônimos acima qualificam os Produtores da maneira correta, na qual eles se encontram neste momento, ou seja, são MEDIADORES e deixaram o filme para o diretor montar "AD LIBITUM". Houve problemas por razões subjetivas do diretor. A produtora Rex Schindler e Walter Webb, que vêm sendo tachados de "dupla diabólica", receberam os méritos de confiança do Diretor José Umberto e cumpriram o combinado: PRODUZIRAM O FILME.Ou será que ele quis se referir ao significado atual da palavra, em epígrafe, que seria RAPTO?, que também vem do latim: RAPTO, cuja raiz é RAPIO e significa: arrebatar, tomar violentamente ou à força, arrastar, raptar, roubar, pilhar, o que NÃO ACONTECEU.
Caso seja o segundo significado o diretor deveria tomar outras medidas, você não acha? Gostaria que seu blog, que está bonito em cultura cinematográfica, mantivesse a posição democrática, em um país plutocrata, e cultivasse mais a posição de MEDIADOR. Não quero com isto, criticar o Diretor José Umberto, quero sim dizer que houve exageros. E por falar em democracia, por favor, divulgue em seu blog, IPSE LITTERIS, OK? "
Por: Marcos Jacob (letras/pós(ndo) em filologia/etimologia da Universidade de São Paulo(USP).

Direito de resposta

Escrevi, há poucos dias, um artigo para a revista eletrônica baiana Nacocó(http://www.nacoco.com.br/boulevard/sequestroinsolito.shtml) sobre o seqüestro de Revoada, de José Umberto, como se encontra bem noticiado neste blog. Walter Webb, produtor associado do filme, considera-se atingido como o seqüestrador e me pede direito de resposta. Disse na matéria que o autor, cineasta José Umberto, é que está a acusá-lo como tal, juntamente a Rex Schindler. As palavras saem, por assim dizer, da boca de José Umberto. O fato é que se se sente incomodado, o seu direito de resposta, afinal de contas, desagrade a quem desagradar, é um direito. Abrindo cuidadosamente as aspas, o texto como veio a mim:
"Acusado de ser SEQUESTRADOR de um filme produzido na Bahia, tenho que me conformar com a adesividade dos conceitos emitidos na terrinha que nasci mas que vivo ás leguas, em um Paraíso mais disciplinado, sem as torpes acusações sen fundamento e de uma pulsilinimidade sem precedentes...Chegaram mesmo a voltar 40 anos - onde a maioria dos detratores nem nascido eram - a por Luis Paulino,Glauber e Rex, relebrando o affair BARRAVENTO, onde quem dava as ordens, escolhleu elenco e era Produtor-Executivo era Glauber de Andrade Rocha. Sua atitude foi legal, pois o diretor contratad não cumpria o cronograma de filmagem e iss irritou tambem o Diretor de Fotogfrafia., o magnifico Toni Rabatoni...Daí para a tomada de atitude da Produção foi acertadissima..Precisamos acabar com esta estória de que o Produtor não manda no filme. Na epoca de Barravento não existia Leis de incentivo, e foi Rex Schindler que botou o dinheiro dele na obra...Hoje não existe mais a figura do produtor no Brasil. Quem produz é o Governo.O Ministerio da Cultura que cultua a corrpção, pois amaioria dos diretores no Brasil estão ricos, pois orçam um filme em 4 milho~es - por exemplo - e gasta 2. Embolsa o restante, mas apresenta Notas Fiscais comprovando os gastos de soma pretendida...Existe diretories no eixo Rio S.Paulo, que fazem 4 filmes por ano, e não querem que o filme seja exibido. Pra que? Ficou aquem da espectativas, pois o dinheiro gasto foi a metade do que deveria ser.... REVOADA, recebeu um milhão, que na verdade eu trabalhei com c450 mil reais para realizar um filme de longa-metragem com 75 poessoas na equipe, 16 locaço~es das mais dificeis em materia de locomoção, Vários carros desistiram no meio da filmagem por estarem se decompondo com as estradas terriveis da Regiao..Realizamos o filme em 4 semanas, estava previstas 8 - e seguramos o Diretor com a verdade. Primeiro dia de filmagens reunimos toda a equipe e comentamos que se o filme não terminasse em 4 semanas , ele não chegaria até o final, ppois não haveria como banca-lo...Tivemops enorme sucesso com a planificação. O filme que o Diretor queria foi feito, todas as sequencias - até mesmo coisas superfulas, no nosso entendimento - foram produzidas e com toda condição para o Diretor...Desde o dia 8 de abril do ano passado que as filmagens terminaram, logo o Diretor viajou para o Rio de Janeiro a fim de começar o processo de pos-produção com montagem e edição feito pelo grande profissional Severio Dáda, que terminou brigando com o Diretor que não admitia edição no ponto de vista tecnico. Dadá colava a fita quando ouvia a voz "ação" e cortava paraproxima emenda quando ouvia a voz "corta"...Me ligou, e me comunicou do que estava acontecendo. Á esta altura eu já estava em outra produção e apenas recebi uma copia do REVOADA com 2 horas e 23 minutos. Era uma coisa terrivel..Brincadeira de amador em VHS...Neste tempo, o DIRETOR, pegou todo o material em DVCAMM e alguma coisa em Mini-DV e viajou para Salvador com este material, deixando o Dadá a ver navios...Minhja unica participação nesta fase de pós produção, foi tentar um acordo com o laboratorio MEGA para, oparticipar como Produtor-Associado, pois o orçamento de finalização cpomo estava querendo o Diretor chega a mais de 346 mil reais. Cade o dinheiroi. Não existe. Nuinca existiu. Este filme teria que ter um orçamemnto de no minio 2 milhoes e meio de cReais. Fazer com l milhão - que não chega em nossas maõs isso, e só o Diretor no dia que foi creditado na conta do Rex Schindler, levou l20 mil reais, com os impostos e l0% da produtora Captador - A REx Schindler Filmes - o dinheiro entregue para a Prod.Executiva foi aquilo acima especificado. 450 mil reais..Nem um curta se faz com isso. Historia de Futebol.,do Machiline custou l milhao e meio e foi rodado nun campo dec futebol, e não em 16 locações...Outra atidude que tomei visando ajudar o filme, foi mostra-lo a dois ícones do cinema brasileiro...Galileu Garcia, Diretor Assistente de O Cangaceiro, e diretor de CARA DE FOGO, o filme considerado referencial do cinema paulista, e tambem, Maximo Barro, um dos malhores montadores , Membro do Conselho Nacional da Cinema, e Prof,. Emérito da Cadeira de Cinema, na FAAP. Todos eles ficaram horrorizados com o filme, que Maximo sugeriu se eu permitisse, com a copiam em DVD que lhes mostrei, ele faria uma precia de como deveria ser o filme,. A ideia era depois enviar a Diretor para ver se ele aprovaria ou não. Se não, ficaria mesmo a versão de mais de 2 horas, e o Laboratorio não entraria numa coisa assim...De lá pra cá´não sei nem quero saber de Revar mais estes insanos que me acusam de Sequestrador, sendo que eles é que fizeram cinema MARGINAL, e não um profissonal que tem se dedicado desde l958 ao cinema de longa-metram, documentirios e comerciais, que voces aí chamam de Reclame..Não vamos citar aqui momentos dee verdadeira chavasca onde atitudes nsanas,. foram apreciadas por uma equipe enorme, mas no intuito de não ser acusado de baixo nivel, abdicamos desta ideia....Revoada está nas maõs do Diretor. Ou ele muda 45 minutos da pelicula ou o filme não passará nem na sala Walrter da Silveira, que não se conformará em ter seu nome aviltado com uma projeção deste nivel...Mas aqueles que me criticam, vejam o filme. Querem a versão inicial, peça ao Diretor para lhesw mostrar. Veua se é possivel alguem fazer um filme assim, sem continuidade, recitado - opera buffa - e mise-en-scene das mais caóticas quando não imitando descaradamente Deus e o Diabo na Terea do Sol.....Walter WEBB....."

O desespero de Veronika Voss



Nos anos 70, principalmente, e 80, viu-se, no Instituto Goethe, quase todos os filmes do chamado Cinema Novo Alemão, oportunidade em que se pode conhecer as filmografias completas de Werner Herzog, Alexander Kluge, Rainer Werner Fassbinder, Win Wenders, Johannes Schaaf, entre muitos outros. A cinematografia germânica ressuriu na década de 60, a acompanhar os surtos inovadores de outros países, a exemplo de Free Cinema inglês, da Nouvelle Vague francesa, do Cinema Novo brasileiro, entre outros. Após o apogeu do expressionismo alemão, com o advento nazista, o cinema alemão, salvo pouquíssimos exemplares, desapareceu do cenário internacional, a permanecer com filmes, finda a Segunda Guerra Mundial, ingênuos, sentimentos, cujo maior exemplo é a trologia de Sissi, com Romy Schneider, e obras do gênero de A família Trapp. O desespero de Veronika Voss, de Fassbinder, é um exemplo da força expressiva de um cinema novo e ousado.
Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, obra crepuscular de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), O Desespero de Veronika Voss é o seu penúltimo filme (o derradeiro: Querelle, baseado em texto de Jean Genet) antes de morrer aos 36 anos vitimado por uma overdose de álcool e cocaína. O DVD, distribuído pela Versátil, conserva o formato original da tela de cinema (1.66:1) e apresenta uma cópia luminosa, perfeita, capaz de dar ao filme toda a sua expressividade, principalmente porque a sua plástica da imagem é fundamental, pois se insere no próprio tecido dramático. O que assombra em O desespero de Veronika Voss é a iluminação expressionista de Xaver Schwarzenberger, que trabalha o preto e branco com extrema funcionalidade, a permitir que a produção de sentidos do filme se faça muito pela sua plástica ao invés de se restringir (como a maioria das obras cinematográficas) ao conteúdo da fábula. Neste particular, a luz (muitas vezes estourada) é o elemento que sufoca o espectador, inserindo-o num mundo desordenado e caótico. O branco assume uma dimensão asfixiante, como nas seqüências no interior da clínica. Não se pode ter uma compreensão de O desespero de Veronika Voss sem a percepção da expressão fotográfica.
Estilizadíssimo, com uma evocativa reconstituição da década de 50 na Alemanha, o filme, como em quase todos os de Fassbinder, é influenciado pelo melodrama de Douglas Sirk. Com o cineasta de Veronika Voss, o gênero assume uma potencialização e, pelo excesso de sua construção tonal, beira ao paradoxo. Esta obra-prima faz parte dos filmes que o autor rodou sobre o seu país do pós-guerra.
Narra o drama existencial de uma atriz decadente (vivida por Rosel Zech, que tem, aqui, um desempenho antológico, e, no DVD, quase uma hora de extra com seu depoimento tomado exclusivamente para o lançamento neste formato), que, antiga estrela da UFA (Universum Films AG) durante o nazismo, vicia-se em morfina. Vem a conhecer um jornalista esportivo que, fascinado por ela, tenta ajudá-la. A visão de Fassbbinder do mundo e das pessoas é cruel: não existe lugar para o afeto, pois todos querem exercer o domínio pelo outro, e as instituições da sociedade são podres e contaminadas por natureza. O filme parece ser a premonição do desespero do realizador, que viria a morrer também de angústia existencial pela tragicidade da vida. O Desespero de Veronika Voss também poderia ter um sub-título: O Desespero de Rainer Werner Fassinder.

Há uma seqüência que define bem a estética fassbinderiana: aquela num bar quando Veronika convida Robert para um encontro e, na mesa, plenamente iluminada como numa luz pentecostal, ela fala do cinema diante dele. O cinema é luz, e Fassbinder, neste filme, esculpe as cenas com a luz. Há, em O Desespero de Veronika Voss, a influência não somente de Sirk (Palavras ao Vento; Tudo que o Céu Permite; Imitação da vida) como a de Max Ophuls e, principalmente, a de Josef Von Stenberg, para quem o cinema era essencialmente composição plástica. Realizador consagrado (O Anjo Azul, O Expresso de Shangai), Sternberg foi o responsável pelo lançamento de Marlene Dietrich, que, dele, disse um dia: “Sternberg fazia brotar a beleza de um jogo de luzes e sombras”.
Filme sobre uma atriz em decadência, mas, também, sobre a Alemanha dos anos 50, e, principalmente, uma obra que reflete a luz criadora que potencializa a estesia da arte do filme, O Desespero de Veronika Voss faz lembrar, também, Crepúsculo dos Deuses (o célebre Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder, com William Holden e uma interpretação inexcedível de Gloria Swanson. Rosel Zech, a Veronika de Fassbinder, não lhe fica atrás.

02 fevereiro 2008

A morte comanda o cangaço




Revi, há pouco tempo, A morte comanda o cangaço, nordestern do habilidoso artesão Carlos Coimbra (um dos melhores do cinema brasileiro), numa produção de Aurora Duarte. A sua lembrança vem bater em Revoada, de José Umberto, cujo imbroglio vem sendo discutido neste blog. E, ao que parece, a julgar pelas duas fotos aqui postas, a morte realmente comanda o cangaço no polêmico filme baiano vítima de seqüestro. Umberto quer resgatar um filão que já fez muito sucesso no passado: o do nordestern, cuja denominação foi dada por Salvyano Cavalcanti de Paiva. A nova geração não conhece, mas O cangaceiro (1953), de Lima Barreto, foi, talvez, o maior sucesso do cinema nacional em todos os tempos. A julgar pela bilheteria, o maior êxito é o de Dona Flor e seus dois maridos. Mas creio, assim como no caso de ...E o vento levou entre os mais celebrados pelo público,, que o filme mais visto da história da nossa cinematografia seja O cangaceiro.

01 fevereiro 2008

Cineasta fica nu para a platéia horrorizada



O crítico e animador Jairo Ferreira, autor de um importante livro, Cinema de Invenção tem, agora, seus escritos reunidos num blog precioso por Juliano Tosi (http://cinema-de-invencao.blogspot.com/). Transcrevo abaixo um episódio acontecido durante uma das jornadas baianas, em 1977, há, portanto, 31 anos, quando o cineasta Edgard Navarro, aborrecido com a cantilena de certos críticos, durante debate, tirou a roupa e ficou nu, com a mão no bolso. A ressalva que faço ao excelente trabalho de Tosi é que não existem nos textos referências à publicação nem alusão ao jornal nem à data. São imprescindíveis em se tratando de um trabalho como este. Jairo Ferreira, que, infelizmente, já morreu, foi na época a Salvador especialmente para cobrir a Jornada. Penso que o texto é da Folha de S. Paulo. O ano, tenho certeza, pois também fui testemunha ocular da nudez navarriana: 1977.
JAIRO FERREIRA Enviado especial

Salvador – Durante a mostra "O Horror Nacional", ocorrida no recente festival de Brasília, o eminente homem de cultura universal e de cinema brasileiro em particular, Francisco Luis de Almeida Salles, afirmou que "é preciso horrificar as pessoas para que elas readquiram a visão, pois sem horror não há visão". Essa frase lapidar cai como uma luva nesta 7ª Jornada Brasileira do Curta-Metragem que se realiza aqui em Salvador. A única diferença é a cor local: parafraseando Almeida Salles, posso dizer que è preciso haver um desnudamento cultural, pois só assim as pessoas poderão readquirir a visão e ver com olhos livres, como propunha o poeta Oswald de Andrade.

Explicando melhor: o nível dos filmes apresentados na Jornada está tão baixo que, pior. è impossível. Uma situação que. evidentemente, reflete-se nos debates que estão tão insossos, "dirigidos" e repetitivos que chegam a saturar. Inesperadamente, porém, um acontecimento da maior importância sacudiu a poeira da polêmica provinciana, embora ainda não tenha dado a volta por cima: durante um dos debates mais repressivos, o jovem cineasta Edgar Navarro tomou o microfone e disse o seguinte: "Quem tem o microfone tem o poder. Agora eu vou enrolar vocês todos com o fio deste microfone, vou tirar toda a minha roupa e espero que vocês abandonem esta sala, porque eu quero ficar nu e só aqui. Vocês falam muito em realidade social, mas esquecem que antes é preciso se descobrir a si mesmo".

Tudo isso pode parecer exagero, mas não é: aconteceu aqui em Salvador, aliás, o único lugar do Brasil onde essas coisas poderiam acontecer. Parece que o calor escaldante que faz nesta cidade provoca alterações físicas e mentais nas pessoas. Como foi que isso aconteceu? Qual era a situação anterior que levou o cineasta Navarro a tomar essa atitude tão radical? Bem. na verdade, a maioria das pessoas está encarando isso como folclore. Por ora é oportuna a opinião do diretor da Jornada do Curta-Metragem, Guido Araújo:

"A Jornada tem uma tradição de liberdade muito grande, conquistada com muito trabalho e esforço durante os últimos sete anos. Meu único temor é que atitudes como a de Edgar Navarro possam comprometer essa mesma liberdade, porque muitas pessoas podem interpretar de forma equivocada e negativa aquele gesto. Sempre lutei para que houvesse muita alegria neste encontro, mas o cineasta foi longe demais. Minha esperança é que ele justifique a sua atitude, fazendo dela algo mais conseqüente".

No dia em que foi exibido o filme "Exposed", de Edagard Navarro, o chamado astral baiano estava muito carregado. Os cineastas foram chamados à mesa pelo coordenador dos debates, o crítico José Carlos Avelar e, um por um, foram dizendo o que já tinham feito em cinema antes do filme exibido no dia. No momento em que Navarro pegou o microfone, recusou-se a dar prosseguimento aquela chatíssima explicação de "curriculum vitae" e recitou em francês um rápido poema de Marcel Proust, lembrando seus tempos de escola. Até aí, tudo bem. Acontece que, logo depois houve uma intervenção, ou melhor uma provocação de Bernardo Vorobov, programador do Museu da Imagem e do Som de São Paulo: "Eu acho que, dos 15 filmes apresentados hoje, somente três devem ser debatidos aqui". Foi o suficiente para que Navarro abandonasse a mesa, dizendo que tinha recebido um sinal. Foi sentar-se no meio da platéia, humildemente, pois seu filme "Exposed", um dos mais aplaudidos na Jornada até aquele dia, não tinha sido citado entre os três escolhidos por Vorobov, uma situação em parte assumida pelo coordenador dos debates. Dai para o "strip tease", foi só uma questão de tempo. No dia seguinte, porém, Navarro pegou o microfone (depois de muita batalha) e fez uma respeitável autocrítica:

"Eu estava muito triste porque meu filme não podia ficar excluído da discussão. Com a minha atitude não tive intenção de agredir ninguém, porque me considero um pacifista. Perdi a minha mãe aos nove anos. Tive que ler muito Freud para me manter vivo, para conseguir chegar até aqui. Agressão é o que houve naquele debate em direção a mim e não da minha parte".

A atitude do cineasta, certamente, esta muito coerente com o seu filme "Exposed", palavra que vem impressa no fim dos cartuchos de filme Super 8 e que significa "exposto". O que Navarro fez não foi outra coisa: ele expôs o filme e completou o ciclo, expondo-se a si mesmo física e mentalmente ao público. Comentário do cineasta Rogério Duarte:

"A partir desse filme, eu começo a respeitar o Edgar como um grande cineasta. O filme è sobre ele mesmo e tem momentos de cinema superior: a cena em que aquele fogo queima na tela. com a música cantada por Caetano, "Coração Materno", é de arrepiar".
Por enquanto, estou cobrindo e descobrindo a Jornada do Curta-Metragem no que ela possa ter de cinema, compreendido como invenção e criação, pois é isso o que falta ao atual cinema nacional. Essa não e apenas uma opinião pessoal minha: o consenso da grande maioria dos cineastas aqui presentes também acha que não adianta nada ter uma lei e um mercado de curta-metragem nas mãos e nenhuma idéia na cabeça. Esta é portanto uma Jornada que nem Freud explica. Tudo termina amanhã, quando será exibido "25" (Vinte e Cinco) de Ze Celso Martinez, que chegou anteontem aqui. Estão presentes também Cosme Alves Neto, da cinemateca do Museu de Arte dpRio de Janeiro, os críticos Jean-Claude Bernardet e Alberto Silva, cineastas como João Batista de Andrade e Thomas Farkaz, além do ministros das comunicações Euclides Quandt de Oliveira, que deverá chegar para uma mesa redonda. Resta esperar que eles expliquem o que nem Freud explica.

30 janeiro 2008

Tropa de elite vence o jogo de cena



Na pesquisa que fiz neste blog, aqui ao lado, e que se encerrou hoje, dia 30, para a escolha do melhor filme brasileiro de 2007, houve quatro opções, quando poderia, reconheço, ter havido mais uma ou duas. O fato é que dentre os 47 votantes, 31% escolheram Tropa de elite como o mais expressivo do ano ou, pelo menos, o que mais agradou a uma maioria votante. Em segundo lugar, empatados, Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, e O dia em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, cada um com 25% das preferências. O menos votado foi Santiago, de João Moreira Salles.

Na minha opinião, porém, o melhor filme brasileiro do ano que passou foi, sem dúvida, Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, que estabelece, aqui, uma reflexão tensa sobre as fronteiras tênues entre o documentário e a ficção, a fazer surgir, como o próprio título sugere, um jogo de cena. Santiago também é um documentário que se indaga como tal, a permitir que seu autor reflita sobre o processo de criação cinematográfica durante o desenrolar de sua narrativa. O filme de Coutinho, no entanto, é o mais envolvente, uma grande obra que ratifica o seu talento de documentarista criador, a exemplo de tantos filmes importantes como Cabra marcado para morrer, O fim e o princípio, Edifício Master, etc.

Cao Hamburguer conseguiu introduzir muita sensibilidade na descrição dos anos de chumbo, durante um campeonato de futebol, quando os pais de um garoto são pressionados pela ditadura militar em seu auge. Já Tropa de elite, thriller competente de José Padilha, divide as opiniões. Alguns o consideram de teor fascista, e outros, menos macomunados com as idéias fixas, um exercício para a exposição das fraturas expostas do nervoso centro urbano carioca, onde uma guerra civil já se instalou há muito tempo.

29 janeiro 2008

Entrevista exclusiva com José Umberto

Conheci José Umberto Dias quase em meados do século passado, quando ele, ainda estudante secundarista, do Colégio de Aplicação, entrou para um grupo de iniciação cinematográfica do qual eu, este bloguista, ainda de calças curtas, fazia parte. Era uma época diferente da atual, um momento histórico, 1966, de grande politização, de cultura literária, de sérios compromissos com a arte do filme. O oposto desta chamada contemporaneidade que se caracteriza pela cultura audiovisual tout court e um desprezo absoluto pela leitura, pela política, pela humanidade, pela solidariedade. Mas são fatos pretéritos. O que vale, aqui e agora, e o que se está a tentar desvendar, é este mistério em torno de um seqüestro fílmico cujo imbroglio, a rigor, bem que valeria um roteiro para ser inscrito num desses famigerados - e mendigados - concursos. José Umberto atendeu de pronto à minha solicitação para uma entrevista exclusiva para este blog. Formulei por escrito as perguntas que JU, recebendo-as, mas respondeu com a prontidão e a seriedade que lhe são características. Sem mais delongas, vamos a ela:
André Setaro: Por ser um filme aparentemente de gênero, o nordestern, o resultado final, que foge às normas da gramática tradicional, não ficou adequado ao mercado. Não estaria nisso, numa época em que a criatividade está ausente do cinema brasileiro diante da ânsia da captação de recursos e a inclusão mercadológica, o pomo da discórdia?

José Umberto: O cinema sendo aquilo que bate na tela... e o resto é sobra. Revoada se constitui num filme em busca de uma dramaturgia popular. O cangaço, para mim, converge para uma fenomenologia de juventude sertaneja pré-industrial. O jovem sem perspectiva que opta pela revolta através da lei do talião: olho por olho, dente por dente. Historicamente representa uma posição de vanguarda ética. Baseando-me nesses pressupostos, criei então uma estória linear (dando ênfase à oralidade de uma época que se foi) em que acentua o aprofundamento de personalidades originais dentro de um habitat. Um filme de personagens, portanto. E desenvolvo uma perseguição em que o último bando de cangaceiros é ceifado pela volante policial. A morte como limite da existência. Daí ultrapassar o regional e penetrar na dimensão universal. Embora centrado na dinâmica da cultura brasileira que deseja dialogar com o público inteligentemente.

AS: As leis de incentivo fiscal fazem com que o cineasta escreva um roteiro já a pensar no gosto da empresa patrocinadora. Os filmes nacionais, se, por um lado, ganharam em técnica, perderam, no entanto, em linguagem e estética, a considerar que o mercado não tolera experimentações. A extremada concepção autoral de Revoada não provocou certo atrito neste particular?

JU: Meu caro André, o filme ainda não está pronto. Realizei no Rio de Janeiro, com o montador Severino Dadá e o seu filho André Sampaio, uma pré-montagem/edição que ficou com 130 minutos. Analisei este material e estou com 148 alterações de mudança neste primeiro rascunho, vamos dizer assim. Acontece, porém, que retornei a Salvador para sofrer uma cirurgia de urgência e, por conta disto, o Sr. Rex Schindler se aproveita desta vulnerabilidade humana para seqüestrar todas as imagens e os sons de Revoada. Um total de mais de 16 horas. Um gesto truculento, maquiavélico, covarde e desumano que me obriga a tornar pública a questão. Não pela polêmica de torre de marfim... mas pela abertura saudável e lúcida de uma discussão que amplie a nossa visão do significado da situação atual do cinema brasileiro. Não devemos e nem podemos jogar a sujeira para baixo do tapete. Isso não. Enfrentemos de cara os nossos problemas sem subterfúgio.

AS: Não há, no cinema brasileiro, mais espaço para um Candeias, um Mojica Marins, entre tantos outros rebeldes e criadores. Tudo está muito moldado ao mercado - e Deus é o mercado!. A visceralidade do pretérito, os arroubos lingüísticos do Cinema Novo, por exemplo, deram lugar a um certo classicismo na concepção do espetáculo cinematográfico. Revoada é um filme que contraria a ação em movimento, a privilegiar, ao que parece, as tomadas longas e um excessivo tom teatral das interpretações. O que você tem a dizer sobre isso?

JU: Há espaço para tudo: basta querer e não ser conformista. E me desculpe, professor, eu não pretendo sair do foco deste presente debate. O nosso cinema está sendo subsidiado por incentivo fiscal. Logo, os cineastas têm responsabilidade pública. A nossa liberdade passa então pelo sagrado erário popular. Esse 1 milhão de reais aplicado em Revoada poderia ter ido para a educação, saúde ou para a segurança de nosso País. Mas não, foi para um filme, foi para o patrimônio cultural brasileiro. Quando percebi que o “produtor”, por mim indicado ao Ministério da Cultura, estava com um balancete onde apresentava indícios de corrupção... então me indignei como cidadão e apresentei uma Ação Popular na Justiça Federal e no Ministério Público desde agosto do ano passado. E aí minha consciência está tranqüila, André. Durmo em paz... uma vez que, quem não deve não teme. Busco a justiça dos homens: espero a sentença correta. E assim presto contas ao meu espírito. Só quero isso, e concluir meu filme para que o mundo possa assisti-lo e contemplá-lo.

AS: Apenas constatando fatos. O cinema experimental, se, algum dia, já pôde ser visto no mercado, não tem mais nem hora nem vez. A estética do videoclipe e as tomadas rápidas dão a tônica do espetáculo cinematográfico contemporâneo, chegando a haver, na minha opinião, uma morte agônica do verdadeiro cinema. Você não estaria, neste ponto, a se imaginar ainda nos tempos áureos do Cinema Novo?

JU: O meu tempo é este: aqui-e-agora. Quando converso com você, por exemplo, dedico o meu tempo a lhe ouvir e, se possível, responder. Costumamos a dedicar tempo às abstrações. No entanto, vivo um instante concreto de minha vida. Estou sendo violado como artista. Sinto-me na era da Inquisição: perseguido pela intolerância. Não aceito a impunidade, tão em moda. Não aceito a mediocridade, tão cultuada.
Assumo o meu exílio voluntário. Cultivo a minha solidão construtora. Por ventura, não estou só. Sei que tenho boas companhias, meu caro crítico de cinema. É uma sensação que me conforta, creia. Encaro o ceticismo como alto grau de evolução. Agora, não sou niilista.Aposto no crescimento interior. Na luz que se traz dentro de cada um. Acredito nos homens e nas mulheres de boa vontade, assim na terra como no céu.
O meu tempo é o tempo da criação. Sem me guiar por modismo ou por ortodoxia. Não acredito no novo nem no velho. Tenho fé na eternidade de um artista como O Aleijadinho, marco da imortalidade. Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos e Graciliano Ramos está no Panteón. A obra verdadeira transgride a temporalidade. Muitas vezes reconhecemos certos gênios após séculos. E o cinema é uma linguagem ainda na era infantil. Muita água rola debaixo da ponte. “Cinema é cachoeira” declarou o clássico Humberto Mauro.

AS: Há, creio, uma certa literatice no roteiro de Revoada, quando todo roteiro deve ser, antes de tudo, indicativo. Sei disso porque o li certa ocasião quando de um concurso de roteiro do qual ele fez parte. O discurso de seus cangaceiros é um somatório de literatura e teatro, a se perder de vista, nisso, o cinema. Por que não procurou um dínamo mais vibrante haja vista o que li nas mensagens em relação à montagem feita no sul?

JU: Nossa mente ainda está dominada pelos conceitos da física clássica. A dicotomia, por exemplo, é um vício ultrapassado de análise. A literatura, o teatro e o cinema são “dínamos vibrantes”. Eu não separo o que é íntegro: a unidade estética. Walter da Silveira nos ensinou que o homem pré-histórico já fazia cinema virtual nas cavernas rupestres: a busca da decomposição da imagem é um sonho arcaico. O cinema contemporâneo superou esse debate. O nó foi desatado. “O Ano Passado em Marienbad” (1961) de Alain Resnais e Robbe Grillet encerrou a fronteira do “específico cinematográfico”. As portas da percepção estão abertas. Basta entrar por elas e dar vez ao seu potencial criador. Tudo é possível, inclusive o impossível. Só é preciso estar atento e forte.

AS: Quem, na verdade, roubou seu samba?

JU: Parodiando Noel Rosa, cinema não se aprende no colégio, não é mesmo Tuna Espinheira?. O samba ta no sangue, camaradinho.
Aprontei o projeto integral de Revoada para participar do concurso “Baixo Orçamento” do MINC/Sav, em 2005. Confiei no Rex Schindler, que só teve o trabalho de dar sua assinatura, reconhecer firma em cartório e alugar o CGC. Foi ingenuidade, da minha parte. Reconheço meu erro: o erro da confiança. Pois bem, André. A obra foi aprovada e, da condição de Autor do Projeto eu passei a ser Refém da produtora Rex Schindler Filmes e Serviços Ltda. Sofri um golpe, enfim.
Lembremos, vale a pena relembrar, em 1960 foi produzido Barravento com o roteiro de autoria do Luiz Paulino dos Santos que também rodou, inicialmente, 40 por cento da totalidade do filme. O Sr. Rex Schindler também aplica o mesmo golpe: Paulino é expulso... e assume Glauber Rocha a realização.
Nós sofremos de profunda crise ética. Essa é a enorme tragédia. Pois ela degenera a alma. E a cultura do esperto se apega à impunidade. A maldade, então, ganha status de instituição. É uma forma de ascensão social: nos Autos da Justiça Federal o Sr. Rex Schindler anexa uma foto ao lado de Jorge Amado. Para mim é como se a foto legitimasse a situação atual da cultura baiana: poderia ser também ao lado do Elevador Lacerda ou, alguns meses atrás, abraçado com ACM. Cultura do cartão postal, da fachada ou do sistema de coronelismo. A estrutura de dominação esboça-se pela artimanha que o poeta satírico barroco Gregório de Mattos já versava na Bahia colônia.

AS: Tenho notado que a lista dos chamados cineastas baianos não se manifestou a respeito, privilegiando os apupos e os parabéns corporativos. Você se acha, no momento, um peixe fora d'água do cinema baiano atual?

JU: O poeta Drummond se achava gauche. Eu também. Mas é que vivemos uma época sem lucidez. Ta difícil ser lúcido. Não é só Revoada que parou. Pau Brasil de Fernando Belens também paralisou. Por que? Quais as razões? Quais os motivos, pessoal? Hein?... Não podemos ir empurrando a miséria com a barriga. Um dia a casa cai... E são todos filmes promovidos pelo Estado brasileiro. Dão-se recursos financeiros e não se cobram resultados? É assim? Desse jeito... reticências.

AS: Hitchcock disse que todo filme tem que, obrigatoriamente, envolver o espectador. Mas você, assim é se me parece, segue a linha de um Tarkovsky em seu cinema, um cinema mais de mise-en-présence do que de mise-en-scène. Aqui não vai nenhuma crítica mas uma constatação. O que tem a dizer?

JU: Você assistiu ao meu último filme: Lua Violada? Se assistiu, você mesmo pode responder a questão como crítico de cinema. Quanto a Revoada só posso me pronunciar com o filme pronto. Não só eu me posicionar (minha posição é o filme em si), mas sobretudo a platéia. Já fiz vários filmes: não falo com a parede. Falo com gente: tou falando agora com você. Tou dialogando. Não vivamos com idéias pré-concebidas. Tarkovski não tem linha: ele é um poeta e se expressa com o cinema. O Bergman gostava muito dele. Como eu gosto de John Cassavetes, por exemplo. Porém isso não quer dizer nada. Não existe filme que não envolva espectador. Não existe nenhum. Agora, de que modo se envolver ? De que modo se relacionar? Há mil faces de heróis. Há mil perfis de cinema. Há, inclusive, o conceito do quase-cinema. A expressão é heterogênea: isso enriquece, companheiro. Veja só o padrão global de televisão (uniformização) engessando até o cinema, o teatro... sem falar no modo de falar do povo brasileiro. Vá num igarapé no alto Amazonas que tem lá uma cabocla falando igual à novela das oito. Isso é apocalíptico.

AS: Qual o interesse dos 'seqüestradores' em montar o filme à sua revelia?

JU: Pra dizer a verdade: Rex Schindler só pensou no dinheiro do Ministério da Cultura. Em nenhum instante ele pensou no filme: nunca leu o roteiro de Revoada, pra você ter uma idéia... até surrealista. Mas nosso País é o Febeapá do samba do crioulo doido. Esse folclore tem que acabar. Senão, permaneceremos subdesenvolvido em berço esplêndido. E o Brasil não merece esse atraso.

AS: Cavalo desce escada?

JU: Estarei sempre subindo escada. Ela nos eleva. Voar é com os pássaros. Todos têm direito de terem asas... e saírem em Revoada. Porque a solidariedade, o perdão e a compaixão salvam. E a libertação se oxigena nas alturas. Gagárin subiu além da atmosfera e gritou como uma criança: “A Terra é azul”. Foi a frase mais bela do século XX. Por que? Pelo simples fato dela estar repleta de espiritualidade: foi o coração que falou alto naquele momento iluminado.
Por favor, senhores, deixem-me terminar meu filme em paz e com liberdade de expressão. É só o que peço. E tenho todo o direito deste mundo: Revoada saiu de minhas vísceras. Só desejo produzir beleza para todos que o assista. Não mereço essa mutilação, meu povo. Afastemos o Demônio e nos rejubilemos com a consciência cósmica que é Deus, causa sui.

28 janeiro 2008

Revoada de mensagens



Uma verdadeira revoada de mensagens estou a receber sobre o "seqüestro" do material filmado por José Umberto Dias, que disse ter seu filme simplesmente "roubado" no sul do país. Segundo o realizador de O anjo negro, Rex Schindler (mas, até tú, Rex?) e Walter Webb são os responsáveis pelo "confisco" de Revoada, que se encontrava sendo montado pelo técnico Severino Dadá. Aqui não posso dizer mais nada. Apenas ouvir as "partes". Vou ouvir José Umberto e, para quem quiser se manifestar sobre o imbroglio, o blog está à disposição. Estranho o silêncio estrondoso da lista do Cinema Baiano, a famigerada Cineba, mais afeita aos apupos e aos elogios do que à investigação dos fatos, esta, a verdade verdadeira. Creio que a verdade deva vir à tona. O que está a acontecer? Trata-se de dinheiro público em jogo num país de miserabilidade absoluta como o Brasil governado pelos interesses do capitalismo internacional. Mas vamos em frente que atrás vem gente.

Ainda sobre o "seqüestro"


Recebi de Walter Webb, um dos acusados de ter sequestrado o material filmado de Revoada, nordestern de José Umberto Dias, conforme fartamente noticiado neste blog em outras postagens, uma mensagem. Ele agradece um outro e-mail que mandei para notificá-lo. Creio ser dever dá-la a público:


Caro Andre Setaro....Tenho ainda do ano passado, cópia editada por J.Umberto do Revoada, com 2 horas e vinte minutos de duração.Caso voce tenha interesse, posso enviá-la, o que dará uma ideia do que é este filme...Rex tentou minimizar a coisa que foi entendido como cerceamento da liberdade, mas Maximo Barro, 123 filmes, todos do Khouri, Babenco, Georgetti, Pieralisi, etc, Professor Emerito de Cinema da FFAp, e membro efetivo do Conselho Nacional de Cinema, considerou que, no minimo, daria para ser feito um curta de 18 minutos, e olhe lá.... Obrigado pelo Email e pela sua isenção. Jornalista honesto hoje, como voce, não mistura amizade com profissão. Abraços Walter

27 janeiro 2008

Que fique bem entendido

As informações sobre o suposto seqüestro de Revoada me foram fornecidas pelo autor do filme, cineasta José Umberto. Não fiz, e nem quero fazer, juízo de valor nas postagens. Por ser um espaço democrático, o blog está aberto também àqueles que se sentirem, por acaso, ofendidos com as acusações do diretor de Revoada. O propósito de estar a informar sobre os problemas do cinema baiano se deve à necessidade de se ter total transparência quando se toca em dinheiro público.

Consumido pela febre da indignação



Tuna Espinheira, logo que soube do seqüestro, me enviou esta mensagem de indignação:

"Velho,

Li, consumido pela febre da indignação, o relato do horror perpetrado contra o filme do Zé Umberto, REVOADA. A dupla citada, personagens da história deste filme de horror, deve, com a maior urgência, dar uma explicação convincente. Por enquanto está de parabéns o André Setaro por ter botado a boca no mundo. Trata-se de uma produção financiada com dinheiro público. Portanto, este tipo de roupa suja obriga-se a ser lavada em praça pública. Triste Bahia... Vade Retro Satanás.
Tuna Espinheira, indignado

Do seqüestro: e a transparência?

Coloco aqui o que se encontra escrito pelo Dr. Ricardo Ramos na Ação Popular com Pedido Liminar que se encontra na Justiça Federal. Pelo visto, a transparência não é a característica da produtora que se associou a José Umberto para fazer Revoada. Mas não estou aqui a fazer juízo valorativo. O que vai abaixo é uma transcrição dos autos do processo para exemplificar apenas. E a imagem ao lado é a do realizador, antes de saber que iria tomar uma rasteira de seus amigos Rex Schindler e Walter Webb. Para deixar claro, a linguagem do texto infra é a do advogado a se dirigir ao juiz. Daí o Exa. A vida tem seus dissabores, não é mesmo?
"Por amostragem, Exa, o tópico “1500”, da pseudo-demonstração contábil fornecida pela Rex Schindler Ltda., alude a “Equipamentos”, item no qual há menção a gastos no montante de R$ 89.692,00 (oitenta e nove mil, seiscentos e noventa e dois reais) referentes a pretenso contrato de aluguel de câmara Aton super 16.
A pessoa jurídica de direito privado” Brian Sewell Produções Cinematográficas”, sediada no Estado do Rio de Janeiro, atendendo a pleito lhe dirigido pelo Sr. José Umberto Dias, encaminhara orçamento para aluguel da mesma câmara “Aaton”, inclusos todos os seus acessórios, perfazendo, pois, um total de R$8.064,00 (oito mil e sessenta e quatro reais), por semana de utilização.

Ora, em aritmética simples, tendo a rodagem do filme “Revoada” sido feita em quatro semanas na Chapada Diamantina, neste Estado, logo, o custo pelo aluguel do equipamento totalizaria no período de sua utilização, retro firmado, R$32.256,00 (trinta e dois mil, duzentos e cinqüenta e seis reais).

Perceba, nobre magistrado, num único e singelo tópico da demonstração de gastos encaminhada pela Rex Schindler Ltda., a discrepância de valores, entre os reais, manejáveis no mercado, e aquele que objetivou a anunciada contratação pela pessoa jurídica privada acionada: diferença dos orçamentos da monta de R$57.436,00 (CINQUENTA E SETE MIL, QUATROCENTOS E TRINTA E SEIS REAIS)!!!
Outra empresa, Hagadê, sediada no Estado de São Paulo, consultada acerca dos valores para a locação do equipamento supra mencionado (câmara Aaton e acessórios) encaminhara orçamento para uma semana, no valor de R$8.871,00 (oito mil, oitocentos e oitenta e um reais), muito aquém, também, do valor utilizado para a locação, conforme contas da produtora Rex Schindler Ltda.

Há , igualmente, menção nas contas da Rex Schindler Ltda., à efetivação de “empréstimo”para pagamento com a última parcela. De maneira vaga e imprecisa há referência a “empréstimo”, sem caracterização da destinação dos valores tomados a este título...

Ademais, acusa, a Rex Schindler Ltda., em sua demonstração de contas, o recebimento de R$940.000,00 (NOVECENTOS E QUARENTA MIL REAIS), quando no edital, item 8, resta consignada a fórmula de pagamento dos valores para a produção do longa metragem de R$ 1.000.000,00 (HUM MILHÃO DE REAIS), através da qual ficam reservados 10% deste total (R$100.000,00 – CEM MIL REAIS) para “após a entrega das cópias” (grifos, item 8, alínea d), remetendo-se ainda ao item 9.1. alínea “a” do ato convocatório.

Não tendo sido entregue cópia “standard - 35mm do filme”, posto que em estágio final consubstanciado nas práticas de edição de som, mixagem, gravação da música, captação de sons adicionais, gravação de ruídos em sala etc., como pôde o Ministério da Cultura já ter pago 40% do valor atinente à última parcela, em ofensa o que reza o próprio edital?"

Filme baiano é seqüestrado pelo produtor



A confusão está armada. Em 2005, o realizador baiano José Umberto Dias ganhou concurso de roteiros do Minc com Revoada, filme que tenta resgatar o cangaço no cinema brasileiro através da fuga de cangaceiros do bando da Lampião após a morte de seu chefe.

Revoada assinala a segunda incursão longametragista de José Umberto, cujo primeiro filme de longa duração, O anjo negro, data de 1973, há, portanto, 35 anos que espera uma segunda chance para poder se expressar pelas imagens em movimento de maneira mais efetiva e profissional. Nunca deixou, no entanto, de fazer filmes, a registrar, em sua carreira, iniciada em 1967, com Perâmbulo, e com destaque maior em Vôo interrompido (1969), média metragem que se considera o primeiro filme realmente marginal baiano, uma incursão por todas as bitolas. Quando do boom superoitista, realizou, entre outros, Urubú e Brabeza, a obter prêmios em festivais nacionais. O cangaço sempre esteve nas suas cogitações e em sua fita de estréia no longa, O anjo negro, há uma alusão explícita com a introdução de um personagem que é cangaceiro. O registro, porém, ficou mais forte quando conseguiu finalizar A musa do cangaço, nos idos dos 80, depoimento exclusivo de Dadá, que foi mulher de Corisco, que, aqui neste filme, faz surpreendentes relatos sobre a vida dos cangaceiros. Corisco e Dadá foram estilizados em Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, o grande filme do cinema brasileiro. O primeiro, em interpretação inexcedível de Othon Bastos, e Dadá personificada por Sônia dos Humildes.

Mas o que interessa saber é que José Umberto, depois de tanta luta, um verdadeiro calvário, uma via-crucis, para realizar Revoada, tomou uma rasteira quase no final da escapada, a bout de souffle. Amargurado com o que aconteceu ("Há dor que a palavra é intraduzível."), José Umberto lamenta a sorte: "O cinema é uma arte infeliz", que diz ter ouvido da boca russa de Tarkovski. O que ele conta é estarrecedor e não pode ficar sob o pano quente das conveniências, como é praxe no cinema baiano: "Meu filme foi "seqüestrado" pela dupla diabólica Rex Schindler/Walter Webb da casa do montador Severino Dadá, no Rio de Janeiro"

Vítima de um problema de saúde grave, que precisou da intervençao cirúrgica, segundo o realizador a 'dupla diabólica' se aproveitou de sua condição de inválido para exagerar a gravidade de sua doença e, assim, intervir no copião e levá-lo para longe. A deduzir de seus comentários, o autor do "seqüestro" parace que foi Walter Webb, mas com o apoio e a conivência da velho produtor Rex Schindler. Está a se repetir, como farsa, a história de Barravento mais de quarenta anos depois, quando o controle do filme foi retirado das mãos de Luís Paulino dos Santos, num verdadeiro golpe, para instalar o comando sob Rex Schindler e Glauber Rocha. Tenho, eu aqui André Setaro, um grande respeito pela figura de Rex Schindler e fiquei estarrecido, a ser verdade o que se conta, o seu ato e o seu comportamento de seqüestrador de fitas, um homem que, atualmente, se diz tão cristão e tão evangélico.

Conta Zé: "Rex entrou no concurso MINC só por eu não ter CGC. Somente. Pois sou o AUTOR de todo o projeto, como você sabe. Assim que ele foi aprovado (coisa que ele não esperava nem contava), eu saí da condição de Autor e passei à situação de Refém: nunca vi um extrato bancário do R$Hum milhão recebido do erário público!"

Este post é apenas o primeiro de outros. A história continua. E já se encontra na Justiça Federal uma Ação Popular com Pedido de Liminar. Aguardem.

A coisa é, como estão a ver, simplesmente estarrecedora.