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23 julho 2007

Sem pipoca e guaraná



O artigo que se segue não é meu, mas de Boris Fausto, que, publicado no Mais! da Folha de S.Paulo há coisa de um ano, arquivei-o por achá-lo informativo e muito interessante. Peço licença à Folha, se é que o pedido vale assim feito num blog, mas, movido pela coragem dos fracos, vou publicá-lo. Se a Folha quiser me processar, que poderei fazer já que nada tenho e sigo a filosofia de Diógenes, quando disse, refletindo, que o homem somente deve possuir aquilo que pode carregar com as mãos. De qualquer forma, historiador que é, não pensei que Boris Fausto tivesse a vivência cinematográfica que aqui demonstra. Vamos logo ao artigo, portanto, nesta segunda-feia, que se dizia, antigamente, ser 'dia de branco', início da semana, dia de batente, começo de rotina.
"Na cidade relativamente provinciana que era a São Paulo dos anos 50 do século passado, despontavam algumas atividades culturais significativas. É o caso do cinema, que tinha como seu pólo mais significativo a Cinemateca Brasileira, até hoje em pleno funcionamento. É justo lembrar que a cinemateca teve um antecedente ilustre -o "Clube de Cinema", organizado por nomes da qualidade de Paulo Emílio Salles Gomes e Décio de Almeida Prado. O grupo acabou sendo perseguido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão do Estado Novo, e teve de encerrar suas atividades, como menciona matéria da "Ilustrada", em 24/4 (leia em www.folha.com.br/061241), a propósito dos 60 anos de existência da cinemateca.
Aqui, recordo uma fase da instituição, quando ela foi sediada numa pequena sala, em um edifício da rua Sete de Abril, no centro da cidade, num tempo em que o centro ainda congregava o que havia de vida noturna de São Paulo. Na salinha da cinemateca, muito abafada nas noites de verão -ninguém imaginaria colocar ali um barulhento aparelho de ar condicionado-, um pequeno grupo, composto sobretudo de jovens, pôde assistir a uma série de filmes que ia das primeiras experiências de Georges Méliès (1861-1938) aos mais recentes daquela época, geralmente não exibidos no circuito comercial.

Duas tendências
Quase sempre, as exibições eram precedidas por uma apresentação e discussões acerca do que se ia ver. Duas tendências principais se digladiavam, com uma paixão que se traduzia na intensidade verbal. Embutida na disputa, estava a renitente discussão sobre conteúdo e forma na obra de arte, que se desdobrava em posições de engajamento e purismo.

Os ícones das duas tendências eram o italiano Paulo Giolli e Rubem Biáfora, ambos acompanhados dos respectivos séquitos, reciprocamente infensos a qualquer compromisso com a tendência oposta. Giolli, que promoveu festivais de cinema em São Paulo, entre outras atividades, era um defensor irrestrito do neo-realismo italiano posterior à Segunda Guerra.

Figuras do porte de Vittorio de Sica (1901-74) e Roberto Rossellini (1906-77) romperam com os cânones de Hollywood, em filmes como "Paisà" (1946), "Roma, Cidade Aberta" (1945, ambos de Rossellini) e "Ladrões de Bicicleta" (1948, de De Sica), e nos introduziram num mundo nada glamouroso, embora às vezes pintado com cores edificantes.

Ódio aos "Cahiers"
Biáfora, bem mais lembrado, era um personagem peculiar, baixinho, magro, de voz rouca, características físicas que contrastavam com a veemência com que defendia suas idéias. Leitor das revistas estrangeiras sobre cinema, odiava os "Cahiers du Cinéma", publicados na França, com a mesma pertinácia com que exaltava a inglesa "Sight and Sound". Apesar de me sentir politicamente mais afinado com Giolli, pouco aprendi com ele. Seu encantamento com o neo-realismo italiano, execrado por Biáfora, correspondia também ao que eu sentia, mas pouco acrescentava à compreensão de uma obra cinematográfica. Já Biáfora abria um caminho novo na percepção dos filmes, com sua insistência no ritmo introduzido pela montagem, na qualidade da fotografia, assinada por nomes que não ficavam no anonimato, no papel do diretor na interpretação dos atores.

É certo que ele não era um um nome isolado da crítica cinematográfica, em que nos anos 40 e 50 brilharam figuras como Paulo Emílio, Almeida Salles, Moniz Vianna, Alex Vianny, os dois últimos com fortes diferenças entre si. Mas as opiniões muitas vezes insólitas de Biáfora despertavam um interesse especial nos jovens que não aderiam com o fervor dos crentes a uma das duas tendências. Quantas vezes eu e alguns amigos fomos a cinemas como o Sammarone, no bairro do Ipiranga, o Soberano e outros mais para ver filmes classe B ou C em que Biáfora enxergava maravilhas.

Quantas vezes saímos do cinema decepcionados, depois de um longo e inútil esforço para entender as qualidades ocultas de certos filmes que só Biáfora e sua gente conseguiam enxergar.

Mas quem sabe descobriria hoje, por exemplo, as virtudes de um diretor de caubóis modestos como Ray Nazarro, montado em seu cavalo branco, cujos méritos, se existentes, na época nunca pude vislumbrar. De qualquer forma, foi Biáfora quem abriu meus olhos para a qualidade dos musicais da Metro, esse típico produto hollywoodiano.

Não se tratava de uma generalização, pois os musicais recomendados eram principalmente os produzidos por Arthur Freed e dirigidos por Vincente Minnelli. Mais ainda, Biáfora ressaltou, na salinha da cinemateca, uma figura de outro produtor, responsável por um gênero bem diverso dos musicais -Val Lewton, nascido na Rússia, cujo quase desconhecido nome verdadeiro era Vladimir Leventon. Val Lewton foi contratado pela RKO, nos anos 40, para produzir filmes de terror, com orçamentos bastante restritos. Ele reuniu a sua volta um diretor já conhecido, Jacques Tourneur, e outros que se tornariam famosos, a exemplo de Robert Wise e Mark Robson.

Luzes e sombras
Daí nasceram filmes da qualidade de "Sangue de Pantera" ("Cat People", 1942), interpretado pela sedutora mulher-pantera Simone Simon, "A Morta-Viva" ("I Walked with a Zombie", 1943), ou "A Maldição do Sangue de Pantera" ("Curse of the Cat People", 1944). São filmes sem efeitos especiais, em preto-e-branco, com um rendimento excepcional de luz e sombra. Neles, revela-se uma grande sofisticação, inclusive pelas alusões literárias, pela atmosfera de uma difusa melancolia, pelas cenas de terror em que o sugerido é mais denso do que o explicitado. Vale a pena, aliás, ver ou rever essas obras, que estão saindo num pacote em DVD nos Estados Unidos [Val Lewton Horror Collection, Warner, US$ 48, R$ 110]. Seria excessivo dizer que hoje já não se fazem bons filmes, mas não é excessivo dizer que já não se fazem filmes como antigamente. Além disso, no plano local, foi-se para sempre o clima cinematográfico de meados do anos 50, das grandes descobertas, dos debates apaixonados, tão bem expresso na salinha da Cinemateca Brasileira -salinha que era um templo de cultura, onde ninguém imaginaria penetrar com latas de Coca-Cola ou sacos barulhentos de pipoca.
BORIS FAUSTO é historiador e preside o conselho acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional), da USP, e autor de "A Revolução de 1930" (Cia. das Letras). Ele escreve mensalmente na seção "Autores", do Mais!.

22 julho 2007

Introdução ao Cinema (5)


Domingo é dia da introdução ao cinema, embora isso não implique que não possam haver outras postagens. O fato é que, embora a morar na Bahia, detesto praia. A última vez que fui à praia data de trinta anos atrás, e fui por causa de uma namorada, que me obrigou a ir, ainda que irritado. Mas lá chegando, lembro-me bem, ao invés de ficar deitado na areia, postei-me, isto sim, debaixo de uma barraca e bebi a cerveja suficiente para o meu bem estar na época. A foto ao lado mostra Maria Schneider e Jack Nicholson no grande filme de Antonioni que vai citado no texto abaixo. Mas que não se perca tempo com firulas.
É fundamental insistir que a câmera intervém no plano da conotação sem, porém, modificar o plano da denotação. O exemplo do filme de Claude Chabrol, O Açougueiro, é cristalino nesse sentido. Assim, mesmo quando a discreta sugestão da câmera não é apreendida pelo espectador, o desenvolvimento da narrativa não se perturba, pois prossegue seu caminho ao abrigo de qualquer tipo de imprevistos, salvo a surpresa provocada pela habitual reviravolta final. E a surpresa, diga-se aqui, será tanto maior quanto menor tiver sido a atenção prestada pelo espectador aos sinais premonitórios lançados pela câmera através de seus movimentos alusivos. Se a narrativa lança sinais premonitórios, o espectador, porém, que, somente atento à fábula (a história, a trama) não percebe o discurso cinematográfico, tem uma surpresa, por assim dizer, maior do que o espectador mais atento ao desenvolvimento da narrativa paralela ao da fábula. Por outro lado, este último tem a possibilidade de contemplação da poética cinematográfica e de sua especificidade lingüística.

Nem sempre, no entanto, os movimentos de câmera são bem escondidos, ou, se se quiser, efetuados "nos bicos dos pés", pois há casos em que os movimentos, por evidentes, explícitos, eliminam o interesse pelo próprio desenrolar da narrativa. Em O Passageiro, Profissão Repórter (Professione Reporte, 1975), de Michelangelo Antonioni, quando o protagonista - que, sabe-se, tem a intenção de morrer - se estende sobre o leito do quarto do hotel onde está hospedado, aguardando o momento fatal, a câmera afasta-se gradualmente dele, dirigindo-se num lentíssimo travelling para o exterior do local, onde, de resto, não acontece nada de particular. Somente quando a câmera volta a trazer o espectador por uma via diferente para o interior do quarto, é que é dado se ver o corpo do homem sobre o leito já sem vida, morto. Neste caso, a morte do protagonista (interpretado por Jack Nicholson), em vez de ser mostrada de maneira direta, é sugerida pelo lento movimento que exprime, precisamente, o afastamento definitivo do homem em relação à vida.

A tensão criada por este efeito é, de longe, superior à que poderia produzir, por exemplo, a visão do homem moribundo em primeiro plano. Nos filmes dos grandes autores, como Michelangelo Antonioni - ver em Das Obras-Primas do Cinema uma análise de A Noite, Alfred Hitchcock, etc, a narrativa tem prepoderância sobre a fábula e, nestes casos, "é a câmera quem fala".

Por outro lado, a câmera pode optar por espiar as personagens desde o primeiro plano, seguindo-as silenciosa nas suas deslocações espaciais ao longo de toda a duração dos acontecimentos. Em Acossado, na seqüência que precede a traição final, a protagonista deambula no quarto onde acabou de dormir com o jovem procurado (ela, Jean Seberg, ele, Jean-Paul Belmondo) pela polícia e interroga-se em voz alta sobre a decisão a tomar. A câmera segue-lhe o vaivém até que ela abandona o local sob o pretexto de ir comprar leite. O comportamento ambivalente desta mulher tem sua significação pela oscilação da câmera.

Como se vê, quando a câmera se movimenta nunca o faz de uma maneira indiferente. As suas deslocações nas várias direções possíveis não correspondem a uma simples exigência de clareza ilustrativa, pois para a conseguir o travelling e a grua não são imprescindíveis. Estes correspondem exclusivamente ao nível da escrita fílmica, pois intervêm sobre o como e não sobre o objeto da representação. É certo que certos cineastas fazem um uso indiscriminado dos movimentos de câmera, principalmente do travelling, em função de alcançar efeitos espetaculares. Mesmo nestes casos, no entanto, nada impede que os movimentos de câmera se remetam para algo que se situa para além do conteúdo de determinado plano. Pense-se nos numerosos westerns em que a elevada mobilidade da câmera tem por único objetivo recriar por dentro o envolvimento homem-ambiente tão importante para a definição estilística do gênero correspondente. A função designativa assume papel de primordial importância. No entanto, quem poderá negar que a diferença que separa o modo como Anthony Mann faz mover a câmera daquele que é utilizado por John Ford é a mesma que separa duas visões diferentes do mundo?
O travelling, já disse Jean-Luc Godard, é uma questão de moral. O que evidencia, no cineasta de Acossado, que este movimento de câmera é revelador da personalidade de um cineasta, mostrando um ponto de vista específico. Bela Balazs, teórico húngaro do cinema, tem razão quando escreve que na telas do cinema, como no domínio da pintura, o fator determinante é a síntese entre a realidade objetiva e a personalidade subjetiva do artista. Esta personalidade se manifesta pelo enquadramento e pela escolha de um dado plano. Cada ângulo de tomada implica uma posição afetiva ou intelectual. É, pois, impossível, uma objetividade absoluta no filme. Tudo é ressonância pessoal que se é levado a compartilhar. A câmera pode, portanto, deslocar-se para trás e para adiante não tanto à procura de coisas interessantes para contar, mas à procura de um modo interessante de se as contar. O que é mais que uma diferença. E pode fazê-la conduzir por outrem (o travelling) ou sozinha (o zoom). Além disso, pode erguer-se em direção do céu e descer rente ao chão, consoante decida observar o mundo de cima ou de baixo. E a sua mobilidade não se esgota aqui. Pode a câmera também olhar em volta, isto é, efetuar movimentos panorâmicos através de rotações sobre o próprio eixo.

20 julho 2007

Ansiedade por Resnais

Atualmente poucos são os filmes que me entusiasmam. Se, antigamente, os filmes exerceram forte influência na minha formação cultural (ao lado da literatura) e, numa semana, por exemplo, havia sempre uma película a ver quase obrigatoriamente (a rigor ia ao cinema todo santo dia), nos dias que correm meses se passam sem que possa apontar uma obra cinematográfica interessante. Basta dizer da dificuldade para montar a lista dos dez melhores do ano, pois cada vez mais difícil se atingir a dezena. Ao contrário do que acontecia nos anos 60, por exemplo, quando a lista se enchia de perto de três dezenas de filmes e o comentarista ficava com pena de fazer a triagem para chegar a dez tantas eram as obras importantes. Este fato reflete a imensa decadência do cinema contemporâneo. Decididamente: não se vai mais ao cinema com o mesmo entusiasmo de antes e, para muitos, que amavam o cinema, ir a uma sala exibidora se constitui em atividade bissexta. Conheço diversas pessoas, que conhecem bem a arte do filme, que já deixaram há muito de frequentar as casas exibidoras. Para eles, o cinema acabou. Mas não deixam de tê-lo presente pelo DVD através do qual revisitam sempre seus filmes favoritos.


Há, no momento, em cartaz no sul, mas que ainda não chegou à Bahia, um filme que espero com grande ansiedade. Trata-se de Medos privados em lugares públicos (Coeurs, 2006), de Alain Resnais, do grande Resnais, que, talvez, seja o cineasta que mais admiro em todos os tempos. O último Resnais que vi faz tempo: Amores parisienses (On connâit la chanson, 1997), que considerei simplesmente fascinante.
Sobre Resnais e o filme, boas análises na Revista Paisà que está on line: http://www.revistapaisa.com.br

Tributo a Walter da Silveira


Dê um clique na imagem para vê-la ampliada.

18 julho 2007

Homenagem a Walter da Silveira






Pioneira como casa alternativa de exibição cinematográfica, a Sala Walter da Silveira, que funciona no prédio da Biblioteca Central, Barris, Rua General Labatut, cujo nome é uma justa homenagem ao grande ensaísta baiano, tem um fim de semana bem sortido, com muitos programas e alguma agitação para tirar o marasmo cultural da província. O seminário da semana passada agitou suficientemente a ponto de já se tornar um programa do calendário no que diz respeito ao campo do cinema. Para o week-end, a Sala Walter da Silveira programou passar, e em 35mm, Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959), deliciosa comédia de Billy Wilder, com Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe, Os espiões, filme mudo de Fritz Lang, A grande feira, de Roberto Pires, e Tenda dos milagres, que Nelson Pereira dos Santos filmou na Bahia segundo os ditames do livro homônimo de Jorge Amado. Pode assim, à primeira vista, parecer um programa híbrido, e não deixa de sê-lo, mas tem tudo a ver.
Quanto mais quente melhor faz parte da programação normal da semana, e fica em cartaz entre os dias 20 e 27 de julho em diversos horários. Ainda que bastante conhecida, a comédia há muito que não é exibida em 35mm em telão de cinema mesmo, ficando restrita ao DVD ou ao VHS ou, ainda, tv a assinatura ou cabo. A oportunidade, portanto, é única, e o programador da referida sala promete trazer muitos clássicos em película, em verdadeiro celulóide. Já está acertado - maiores detalhes depois - uma mostra importantíssima de Kenji Mizoguchi, algo assim para nenhum cinéfilo botar defeito. Programação de dar água na boca. Numa parceria com a Embaixada do Japão em Recife, vários mizoguchis com legendas em português.
Tenda dos milagres, de Nelson Pereira dos Santos, é uma promoção da Jornada Internacional de Cinema da Bahia (leia-se Guido Araújo) pelos 30 anos de seu lançamento, que ocorreu em 1977 (agora me assustei, realmente, pois me lembro de uma sessão especial no cinema Excelsior, que ficava na Praça da Sé, quando o filme foi apresentado para a imprensa baiana). Todo rodado em Salvador, a equipe de Nelson se estabeleceu no Pelourinho e o filme, se outros atributos não possuisse, é um manancial de curiosidade das coisas da Bahia, gente famosa, pontas, locações, etc. A construção se dá no movimento temporal, com o jogo entre presente e passado e, também, uma espécie assim de reflexão sobre o fazer cinema. Nelson estava numa fase muito baiana e pouco tempo depois se estabeleceria em Cachoeira, cidade histórica, para rodar, com capital misto entre brasileiros e franceses, Jubiabá, que foi tremenda decepção quando apresentado na sala do Clube Bahiano de Tênis, antes deste clube dar existência à sala alternativa que foi ceifada pela Perini, empresa de delicatessen que, alugando todo o espaço do clube social, mandou às favas uma salinha que passava filmes alternativos que se diziam de arte.

O grande dia, porém, é o domingo, dia 22, data aniversária de Walter da Silveira, que, se vivo fosse, estaria completando (é de 1915) 92 anos. Para homenagear o grande ensaísta, que dá nome, inclusive, ao cinema, vai haver, a partir das 17 horas, o relançamento de sua obra completa reunida, por José Umberto Dias, em preciosos quatro volumes. O lançamento, que ocorreu em dezembro do ano passado, às pressas e no apagar das luzes do governo que foi substituído, deixou muita gente sem saber (o bloguista, para dar um exemplo, estava hospitalizado, esperando suas pontes de safena, que viriam, lépidas, dias mais tarde a ser implantadas em seu pobre coração, vítima de herança genética cruel, e incentivado pelos excelentes coadjuvantes que são o álcool e o cigarro). Kátia da Silveira, filha do crítico, que batalha há mais de uma década para ver a obra do pai publicada há de estar presente, assim como o organizador, o cineasta José Umberto, que vem de terminar as filmagens de seu segundo longa metragem, Revoada, que retoma, em grande estilo, o nordestern, o filme de cangaceiro.

Mas para homenager Walter da Silveira, além do relançamento de sua obra completa (em pesados volumes), dois filmes foram escolhidos: Espiões (Spione, 1928), de Fritz Lang (17:30) e A grande feira (20:00). O primeiro, obra de um imenso cineasta em sua fase muda, quando ainda na Alemanha do expressionismo. O outro, filme baiano, no qual Walter da Silveira trabalha numa ponta como o dono de um boteco instalado na Feira de Água de Meninos. Walter participaria ainda como ator de O pagador de promessas, como um padre, que delibera com outros clérigos importantes sobre o destino a ser dado a Zé do Burro, que incomodava a Igreja com a sua presença nas escadarias do Passo.
As fotos, uma de Walter, a outra, hiperealista, da sala.

17 julho 2007

Deu no "Estadão"



Sob o título de 'Bate-boca em encontro na Bahia', saiu na edição de hoje, dia 17 de julho, terça, de O Estado de S.Paulo, no seu caderno 2, uma matéria assinada pelo jornalista Tiago Décimo sobre o bafafá entre este bloguista e o cineasta Edgard Navarro no seminário da semana passada. Leiam o texto:

"Exibições de filmes premiados brasileiros e europeus, palestras sobre técnicas de elaboração de roteiros, encontro de produtores e distribuidores, que reuniu 50 empresas de sete países. O 3º Seminário Internacional de Cinema levou à capital baiana, entre os dias 9 e 14, um pouco de diversão a um público carente de cinema de arte e de discussões sobre temas relacionados à grande tela.

Mas o destaque do encontro não foi um lançamento de livro - como o do ator Paulo César Pereio, a biografia Por Que se Mete, Porra? -, nem presenças estreladas ou ausências sentidas (como o do mais importante convidado internacional do evento, o cineasta e escritor paquistanês Tariq Ali, que alegou problemas de saúde). O que mais atraiu atenção foi o bate-boca no debate Cinema Baiano: ontem e hoje, protagonizado pelo cineasta baiano Edgard Navarro (de Eu me Lembro, vencedor do Festival de Brasília em 2005) e pelo professor e crítico de cinema André Setaro. O motivo: um artigo assinado, no qual Setaro chamou de 'mendigos da boa vontade' os cineastas do Estado, por eles dependerem de editais públicos para realizar suas produções.

'Escrevi aquilo para provocar discussão. Vocês não entenderam a piada', defendeu-se o professor. Não adiantou. Foi hostilizado pelos diretores e apoiado pela platéia. As vaias foram para Navarro, que afirmou que Setaro não era 'digno de estar na mesa'. Diante da reprovação de parte da platéia, o cineasta dirigiu palavrões aos que vaiavam. Depois, andando pelo palco, passou a ironizar cada fala de Setaro, com mímicas.

Para o realizador do evento, o cineasta Walter Lima Jr., até a discussão acalorada foi positiva. 'Seminários como este têm de incentivar a discussão e a busca de caminhos.' Ele destaca, também, as palestras dos cineastas Fernando Trueba, espanhol, e Mimmo Calopresti, italiano, como alguns dos pontos altos do evento e promete avanços para as próximas edições do seminário. 'Temos a idéia de integrar uma mostra competitiva ao evento, talvez já a partir do próximo ano.' "

De saco cheio


Sem querer tirar o mérito do seminário internacional de cinema e audiovisual que se realizou em Salvador - e no qual fui agredido durante uma mesa redonda sobre cinema baiano, com gente de nomeada, evento importante para a Bahia, que não se discute, gostaria de comentar sobre o excesso de mostras, festivais, e que mais outros nomes tenham, que se verifica pelo Brasil afora. Em qualquer 'cafundó de Judas' há um festival, quando não uma mostra, ou uma retrospectiva de qualquer coisa. É a festa patrocinada pelos cofres públicos. Em alguns casos, os eventos servem para se ganhar dinheiro. A coisa é muito simples, bastando, para isso, que o organizador tenha aptidão para captar recursos, seja pessoa dinâmica - como se exige de um corretor de imóveis e, antigamente, de um vendedor de enciclopédias, e, por falar nisso, onde é que este último anda? Abre-se uma empresa, devidamente registrada, cujo objetivo seja a organização de um evento cinematográfico etc e tal. Pronto. A captação pode ser feita por meio de legislação que facilita o processo, e há empresas públicas doidas para patrocinar, a exemplo da Petrobrás, e algumas privadas. Basta observar no cartaz de um desses eventos a quantidade de empresas patrocinadoras. É o que se dizia em priscas eras: uma mão na roda.

Mas o que queria também comentar aqui, além do excesso, é que os festivais atuais (sejam eles intitulados de seminários, mostras, retrospectivas, panoramas, etc) abusam na programação concentrada. A mostra internacional de São Paulo, por exemplo, tem perto de 500 longas, sem contar os curtas, os eventos paralelos. Quem participa dela tem ficar full time à disposição, a ver filmes de manhã, de tarde, e de noite. Creio salutar que, nas mostras do tipo, haja espaço para se tomar uma cervejinha, curtir a ressaca no dia seguinte (geralmente quem vai às mostras é pessoa de fora que fica em hotel a gozar de certas mordomias) no hotel, etc. Mas da forma que elas são programadas há a exigência de que seu participante seja um maratonista, ainda que a ficar sentado por horas seguidas a ver um filme. Para fugir ao aspecto mundano dos festivais de cinema, Guido Araújo, há trinta anos atrás, ao criar o evento que viria a ser conhecida como Jornada de Cinema da Bahia quis enfatizar com Jornada a seriedade do evento com o objetivo de não passar a imagem de festival mundano. Mas, na minha opinião, creio que um certo mundanismo é necessário para se relaxar, conhecer pessoas, beber, tomar um drink à beira da piscina.

Quando se fazia um festival de cinema em décadas passadas, geralmente as programações eram mais suaves de modo a permitir o 'relax'. E em mostras de filmes, nas quais não havia mesas redondas nem quadradas, geralmente se programava um filme por noite, dois no máximo. Finda a sessão, as pessoas se reuniam num barzinho aconchegante e tinham o dia seguinte para dar uma volta pela cidade, curtir um pouco a paisagem. É um problema meu, sei disso, mas não tenho mais saco nem paciência para acompanhar mostras, seminários, festivais. Quando muito seleciono alguns programas, embora, hora chegada, bate-me o abacate da preguiça de locomoção.

16 julho 2007

Vacas premiadas


Já queria ter colocado um ponto final no affair ocorrido durante o III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, que aconteceu semana passada em Salvador, mas não poderia deixar de publicar, aqui, o excelente artigo do jornalista Cláudio Leal que saiu, sábado, dia 14, na página de Opinião do jornal A Tarde sob o título bem sugestivo de Vacas Premiadas. Leal é um dos jornalistas mais lúcidos e coerentes da nova geração. Abrindo logo as devidas e obrigatórias aspas:

"s nsultos do cineasta Edgard Navarro ao crítico André Setaro, no Teatro Castro Alves, ajudaram a engrossar o anedotário de criticados dispostos a quebrar um dos mandamentos da lei de Deus.“Vou matar Moniz Vianna!”, gritou Glauber Rocha, em 1968, prestes a apunhalar o crítico do Correio da Manhã, que surrara o filme Garota de Ipanema, de Leon Hirszman. Sem a saúde de vaca premiada, Nelson Rodrigues resolveu, literariamente, o eterno conflito. Na peça Viúva, porém honesta, criou Dorothy Dalton, “crítico da nova geração”, inspirado em Paulo Francis. Matou-o com um carrinho de Chicabom. Doce Nelson.

Retirado o folclore, os gestos apopléticos de Navarro expressam um sentimento nada semelhante à fúria santa de Glauber. O diretor de Su peroutro exigiu, no palco e nos bastidores, o banimento de Setaro dos debates sobre o cinema baiano. Deve estar decepcionado por não haver campo de trabalho forçado para satisfazer seu impulso totalitário, falsamente anárquico. Atinge quem ajudou a eleger seu belo longa Eu me lembro, no Prêmio Carlos Vasconcelos Domingues.

A ausência da crítica, em todos os setores da nossa vida cultural, grassou nos governos militares e nem mesmo o retorno à democracia conseguiu recuperar o alto nível alcançado nos anos 50 e 60. Navarro e sua patota desejam apagar o que resta de maturidade intelectual e aprofundar o paternalismo dos jornalistas.
Dizer que os cineastas baianos viraram “mendigos de editais”, como o fez Setaro no III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, é questionar os limites da intervenção do Estado na gestação da arte. O debate é válido. E não há dúvidas quanto à dependência suicida do cinema baiano à caridade do governo. Basta notar a revoada de produtores para as hostes petistas, depois de longo namoro com o carlismo.

Somados ao interesse zero dos empresários por cultura, a espera por editais e o uso de gazua para pressionar a Secretaria da Cultura minimizaram os riscos pessoais de fazer cinema sem recorrer a dinheiro público. Neste ponto, vale destacar a dignidade do produtor Rex Schindler, que esboçou, há 50 anos, com seus próprios recursos, as bases de uma cinematografia local. E, igualmente, lembrar o pioneirismo de Roberto Pires, agora pranteado, mas insultado no final de sua vida por burocratas-cineastas da província. “Você já era”, decretaram numa célebre reunião.

Alternativas a essa dependência começam a germinar. Entre elas, a criação de um fundo do audiovisual que capte também recursos da iniciativa privada. Estacionamos, porém, no anarcooficialismo e nas orações para a Petrobras. Orgulhoso de ter amigos no poder, Edgard Navarro sintetizou o espírito da “novíssima onda”, ao fechar recente artigo com uma pergunta lapidar: “Quem sabe o governo Wagner entrará para a história como aquele que irá inserir a nova cinematografia baiana no cenário mundial?”

Está explicado por que o governador não deve ler jornais antes do café da manhã. "

O esporte favorito do homem





De repente, e sem saber estar programado, vejo O esporte favorito do homem (Man's favorite sport, 1964), de Howard Hawks, no Telecine Cult. Uma surpresa, pois filme difícil de ser visto e que há tempo não dá notícias - a Globo há muito o passou dublado. Velho como estou, vi no seu lançamento, em fins de 1964, aqui em Salvador, no simpático cinema Tamoio, e fiquei impressionado com a modernidade da dinâmica cômica de Hawks, principalmente, na visão do jovem, quando Rock Hudson beija Paula Prentiss e a imagem que se segue é a de trens se espatifando ou, no final, com a imagem repetida e um casal a dizer que o filme acabou. Hawks, cineasta admirável, que incursiou por diversos gêneros sem deixar de ser considerado um autor, tem duas maneiras de conduzir a sua filmografia, por assim dizer. Quando se trata de comédia, há a irrupção de uma certa loucura nos personagens, estabelecendo uma anarquia do mundo, dos homens e das coisas, como são notáveis, a este respeito, Levada de breca, Bola de fogo, O inventor da mocidade, entre tantas outras. Poder-se-ia dizer que o homus hawkisiano é um na comédia e outro nos diversos gêneros percorridos pelo brilhante realizador. Um de meus filmes favoritos, de todos os tempos, é Hatari! (1962), que vi pela primeira vez no Bruni Flamengo, quando este cinema se inaugurou. Há um estilo palpável em Hawks, uma característica que percorre toda a sua filmografia. Em Rio Bravo (Onde começa o inferno, 1959), talvez uma das obras mais que perfeitas da história do cinema, muito mais do que um filme de ação, é uma fita que se passa quase toda em recintos fechados (a delegacia, o hotel), havendo, apenas, o grande tiroteio final. Em Hatari!, o que mais interessa é o que acontece nos intervalos das caçadas.

15 julho 2007

Introdução ao Cinema (4)

Ainda em torno do segundo elemento determinante da especificidade da linguagem cinematográfica: os movimentos de câmera. Ficamos na panorâmica semana passada. Existem, porém, outros exemplos desse movimento específico e de fundamental importância. Vejamos. Há também uma panorâmica chamada circular, que, sobre ser mais complexa na sua execução, não é menos eficiente do ponto de vista da significação. Neste caso, a câmera observa à sua volta num ângulo de 360 graus, normalmente com motivos mais do que válidos. A panorâmica circular é utilizada pelos cineastas para captar os diferentes estados de espírito de uma personagem sem interromper a continuidade espacial, deixando-a alegre para voltar a vê-la triste depois de ter percorrido integralmente a sala onde se encontra. Este é o procedimento que a câmera segue de bom grado nas obras de índole "comportamentista", nas quais os protagonistas nunca são perdidos de vista em todas as suas evoluções físicas e psíquicas (Acossado/A Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, 1959, é, nesse particular, um exemplo notável). Ou, então, a panorâmica circular é usada para fazer denotar uma situação labiríntica em que o protagonista vive, a despeito das aparências tranqüilizantes. Assim, os repetidos movimentos circulares da câmera em Mundo ao Telefone(Welt am Drht, de Rainer Fassbinder, 1973), não tem outra função que não seja a de denunciar a insuspeita condição de robots manipulados por outrem que aflige todas as personagens do filme.
Passemos, finalmente, ao travelling, outro movimento de câmera importante que constitui fator dramático muito poderoso e pode ser feito para a frente (passagem de um plano geral para um close) ou para trás (passagem de um close para um plano geral). Também, existe o travelling lateral, quando a câmera acompanha o andar de um ator, sem haver, propriamente, uma mudança de plano. A rigor, o travelling se dá através de uma plataforma de quatro rodas, que anda me trilhos ou sobre tábuas, na qual é colocada a câmera para as tomadas me movimento. Há o travelling para a frente, o travelling para trás (ou a ré) e o travelling lateral. Por extensão, compreende-se travelling qualquer movimento de câmera colocada sobre um carro ou veículo (trem, automóvel etc). Os movimentos também podem ser obtidos dispensando-se a base móvel e o tripé de apoio: é o caso da câmera na mão, recurso estilístico e ao mesmo tempo econômico. A câmera na mão é umas das características estilísticas do Cinema Novo brasileiro a partir mesmo do slogan glauberiano: "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça".
Diversas combinações desses movimentos são possíveis e determinadas pela necessidade de acompanhar o movimento do objeto filmado ou pela intenção de abarcar um maior campo visual. É de se ressaltar, no entanto, que a mesma tomada pode constar de vários planos interligados, não se podendo confundir, portanto, unidade de tomada com unidade de plano. Para melhor exemplificar os movimentos de câmera, e sua funcionalidade na expressão cinematográfica, que se tome, aqui, um exemplo magnífico de um filme de Claude Chabrol: O Açougueiro (Le Boucher, 1969) no qual há uma cena primorosa no que concerne ao uso, pelo cineasta, da possibilidade locomotiva da câmera. "Le Boucher" é um filme sobre um açougueiro torturado pela mania homicida. Um belo dia, ele confessa o seu afeto à ignara professora da aldeia, declaração que tem lugar num bosque onde os dois se deslocaram para colher legumes. A atmosfera, portanto, seria das mais tranqüilizantes não fora passar-se - durante o colóquio entre ambos -algo que não pode deixar de alarmar o espectador atento. E esse algo não se refere ao comportamento dos personagens - que continuam a dialogar num cenário idílico -mas, e precisamente, ao comportamento da câmera, da máquina de filmar, que, quase inadvertidamente, começa a deslocar-se lateralmente até o primeiro plano de um tronco de árvore se interpor entre ela - a câmera - e o par, escondendo o homem cujas palavras, no entanto, continua-se a ouvir. A vista é desimpedida com a saída do tronco do campo de visão, mas pouco depois desaparece novamente quando o movimento se repete me sentido contrário, conduzindo a câmera à posição inicial. Eis um caso me que um simples travelling se encarrega de denunciar ao espectador a atitude reticente da personagem, encobrindo-a da vista no momento em que se revela ao ouvido.
Esta denúncia, e aqui, neste travelling, se encontra uma das chaves para a compreensão do cinema, considerando a distinção entre narrativa e fábula (que se verá depois me outra oportunidade). Pois bem! A denúncia é dirigida ao público e não,infelizmente, à desventurada professora, que se manterá por um bom tempo na ignorância das verdadeiras intenções do carniceiro degolador. Um movimento inesperado, repentino, da câmera de filmar, é suficiente para colocar o espectador de sobreaviso e o deixar em melhores condições que a vítima inconsciente - como é o caso de Le Boucher. Semelhantes advertências - ou avisos - feitos pela narrativa e não pela história - não se limitam aos filmes ditos policiais, mas se encontram disseminadas, em medida diversa, por todos os textos fílmicos que pretendem seguir a trajetória que conduz da aparência à essência, isto é, que pretendem desmascarar uma realidade falsa.

13 julho 2007

Editorial


Se a lista da internet, que congrega os cineastas e pseudo-cineastas baianos, a Cineba, da Yahoo, cujo endereço eletrônico é http://br.groups.yahoo.com/group/cineba/, apesar dos esforços e da competência de seu gerenciador e fundador André França, é um troca-troca efusivo de entusiasmados parabéns, demonstrando o espírito corporativista e fechado do grupo de cineastas que se diz baiano, há, por outro lado, nela, a inexistência de um debate de idéias, de um conflito salutar de pensamentos, de conceitos e percepções diversos. Quem ousa criticiar um filme baiano é logo chamado de inimigo desta cinematografia, amarrado e crucificado. Aqueles que, no pretérito, mostravam-se libertários e tão democráticos, capazes de ser convincentes nas suas diatribes contra o autoritarismo e a ditadura, quando desfeita a nuvem carregada da opressão, e ao tomar o poder, estão a se mostrar mais prepotentes do que os antigos detentores do poder. E, quando se fala aqui em poder, não se está a dizer poder institucional mas, também, poder artístico, quando certas pessoas premiadas e festejadas, porque não sabendo absorver o sentido da glória, ainda que efêmera, partem, justo dizer, para a ignorância.
Se, nos anos 50 e parte dos 60, Salvador viveu o seu Século de Péricles, a chamada avant-garde baiana, houve, por outro lado, nos últimos trinta anos, imensa regressão cultural com o estabelecimento, nos dias que correm, de verdadeiro estado de miséria cultural. O cinema, como reflete esta, como é um espelho de seu momento histórico, naturalmente a espelha e, com isso, não pode ter o mesmo vigor de outrora. É uma questão muito mais do que cultural, mas de constatação sociológica. Não se pode, esta a verdade, tapar o sol com a peneira. Mas os realizadores baianos, ao invés de um processo de auto-crítica, que os faça ver os seus erros e desacertos, ficam a babar-ovos e à procura do sucesso, da ovação, e dos apupos que tanto os destroem.
O que o cinema baiano precisa é se democratizar, ajustar seus debates para um nível de aceitação das diferenças. Cada pessoa tem um critério de julgar, um nível de percepção, e não se pode exigir uma unanimidade forçada quando o que se vê é uma imagem aumentada de um caldo cultural miserável que se espraia pelas artes baianas e também, em conseqüência, atinge o cinema dito baiano. Festejar a mediocridade é um ato de soberania dos menos inteligentes e arriscos, que, por oportunistas, pretendem se locupletar com as sobras da mendicância. O importante é que se seja justo e criativo, criativo e justo. Os happenings, se necessários e bem-vindos na década de 70, estão fora de moda e não se ajustam aos tempos contemporâneos. Soam falsos e agressivos, defassados, diluídos em seu pretenso impacto, fazendo que o tiro saia pela culatra e o feitiço se vire contra o feiticeiro.

12 julho 2007

A vanguarda do "derrière"


O affair que aconteceu na tarde de terça última, durante uma mesa do III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, comentado e discutido, por causa da agressão do cineasta Edgard Navarro a este bloguista, já são favas contadas e passadas. O pivô de tudo o artigo que publiquei em A Tarde - e que também está publicado aqui logo abaixo. Volto a dizer tudo que disse: os realizadores baianos não passam de mendigos das burras do estado e que o cinema sempre refletiu a sua cultura e o seu momento histórico. Neste particular, considerando a nossa imensa miséria cultural, o cinema praticado na soterópolis vem a refleti-la. O texto abaixo, que saiu hoje publicado em A Tarde, "A vanguarda da derrière", é de autoria do jornalista Franciel Cruz. Achei de reproduzi-lo aqui e pedi o seu consentimento. Ele aceitou. A ilustração poderia ser a de um derrière, mas preferi um envelope de Paul Klee.
"Este balanço na órbita do universo é exatamente o que vocês estão pensando: mais uma polêmica no, com o perdão da má palavra, audiovisual baiano. Eu estou cansado, mas não para dizer: Se a cada mil chiliques dos artistas locais ganhássemos, em contrapartida, um filme que prestasse, a Bahia seria o maior celeiro de obras-primas da cinematografia latino-americana. (E prosseguimos honrando esta gloriosa tradição. Ai, deixem meu cabelo em paz).


A novidade, se é que podemos chamar assim, é que atingimos um novo patamar.O menino Drummond dizia que “Lutar com as palavras é a luta mais vã”. E, em seguida, acrescentava. “Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

Acontece que o cineasta Edgard Navarro só escutou a primeira parte do ensinamento do poeta. E, ontem à tardinha, no III Seminário Internacional de Cinema, abandonou a batalha vã dos argumentos. Para rebater as constatações do professor André Setaro sobre a falta de continuidade na produção local, mostrou a bunda como contestação - mesma atitude tomada recentemente por, desculpem o palavrão, Gerald Thomas. Não deixa de ser uma evolução. Em priscas eras, encerrava-se o debate de modo fálico, com uma banana. Hoje, variamos o cardápio. Somos a vanguarda do derrière.

Mas, qual heresia disse Setaro que provocou tamanha indignação? Às aspas: “Fazem-se filmes na Bahia de vez em quando e ao sabor dos editais governamentais, os únicos que podem proporcionar a realização de longas-metragens, porque o cinema exige altos recursos e somente o Estado tem a capacidade de socorrer os cineastas ditos baianos, que vivem à sua mercê”. Resumindo: os cineastas são mendigos da boa vontade oficial.

Pois é. Nada de novo, conforme atestam os alfarrábios. Há exatos 18 anos, em 1989, no número 13 da Revista da Bahia, houve um debate com estes personagens na Associação Bahiana de Imprensa. Pois muito bem. Noves fora a eterna ladainha pela perda de Glauber Rocha, o chororô era o mesmíssimo: falta de verbas governamentais. Valei-me, meus culhões de Cristo.

Mas, retorno à cizânia da tarde de ontem e vejo que, antes de apelar aos dotes de seu traseiro, Edgard Navarro afirmou que Setaro “só faz bater no cinema baiano nos últimos 20 anos”.
Não procede.
Aliás, em relação à obra do cineasta, o referido professor tem sido até generoso, elevando à categoria de obra de arte filmes feitos pelo mesmo Edgard. Quem quiser conferir, basta acessar o blog de Setaro. Eis o endereço: http://setarosblog.blogspot.com.Porém, somente o elogio não é o bastante. Tudo na Bahia tem que ser lindo, divino, maravilhoso. É o tal fantasma da baianidade que nos persegue, que nos faz recusar sempre algo que não seja o reconhecimento de uma suposta (e inexistente) genialidade. Poderia ainda dizer que, ao usar a bunda como expressão, Edgard apenas está se inserindo na linha evolutiva da cultura baiana. Não digo. Já falei demais, o telefone está caro, vou desligar, obrigado pela atenção."

09 julho 2007

Os mendigos da boa vontade

Artigo publicado hoje no caderno especial do jornal soteropolitano 'A Tarde' dedicado ao III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual que acontece em Salvador entre os dias 9 e 14 de julho, no Teatro Castro Alves e no Hotel da Bahia.
Os cineastas baianos são mendigos da boa vontade
Para que exista uma cinematografia é necessário que haja uma produção sistemática e continuada, além de características comuns capazes de configurá-la como tal. A rigor, portanto, não se pode falar em cinematografia baiana sob pena de se estar incorrendo em erro conceitual, pois não existem os pré-requisitos que possam tipificá-la, a exemplo de uma produção sistemática e continuada.


Fazem-se filmes na Bahia de vez em quando e ao sabor dos editais governamentais, os únicos que podem proporcionar a realização de longasmetragens, porque o cinema exige altos recursos e somente o Estado tem a capacidade de socorrer os cineastas ditos baianos, que vivem à sua mercê.


Se não existe uma cinematografia baiana por que, então, fala-se tanto em cinema baiano? A generalização do vocábulo audiovisual para toda obra que contenha imagens em movimento é que está a gerar a confusão, a fazer com que alhos sejam confundidos com bugalhos. Teria o mesmo status, por exemplo, aquele que trabalha na bitola 35 mm, e faz longas, daquele que se expressa pelas imagens em movimento registradas no seu celular? A tendência, ainda que possa espantar, é misturar tudo na palavra audiovisual, gerando, com isso, a confusão e a panacéia. A tal ponto que se não pode mais falar de uma linguagem cinematográfica, mas, sim, de uma linguagem audiovisual.


Também se poderia distinguir entre aqueles que trabalham com o digital e aqueles que trabalham com o celulóide. Se a linguagem pela qual expressam suas idéias é igual, a prática é muito diferente. Assim, contrariando a tendência generalista, o fato é que há uma necessidade de se separar o cineasta do celular e da fita magnética daquele que enfrenta o registro nas bitolas de 16 mm ou 35 mm. Estes últimos fazem cinema verdadeiro – pelo menos do ponto de vista do processo de sua realização, abstraindo-se, aqui, juízos valorativos.
Mas, então, como chamar os outros, os dos celulares, os das máquinas digitais apressadas, ou os da fita magnética, videográfica? Narradores audiovisuais? Verdade seja dita: cinema, com C maiúsculo, é que não fazem, apesar da mentalidade corporativa reinante, apesar do sistema defensivo natural que impele os realizadores baianos a jogarem no mesmo saco alho e bugalho.

A iniciativa privada não acredita em cinema baiano e dificilmente, mesmo havendo a lei de incentivo fiscal, patrocinaria qualquer empreitada com vistas à imagem em movimento. Os cineastas baianos, por outro lado, por não serem milionários, são mendigos da boa vontade oficial. Os filmes são feitos quando ocorrem os tais concursos, não havendo, aqui, portanto, uma continuidade de produção capaz de dar emprego a um profissional de cinema (montador, iluminador, técnico de som, etc., etc.).

Assim, não pode haver uma cinematografia.

Na verdade, a única tentativa (e veja-se bem: tentativa) de se fazer um cinema continuado e sistemático no Estado foi quando do efervescente Ciclo Baiano de Cinema, entre 1959 e 1963, quando houve realmente um projeto nesse sentido com a proliferação de empresas produtoras (Iglu, Winston, Sani etc.), e produtores dispostos a bancar obras cinematográficas, sendo o principal deles Rex Schindler, coadjuvado por David Singer, Álvaro Queiroz, Braga Netto, entre outros. Além da produção genuinamente baiana, havia também filmes que se queriam baianos, mas realizados por cineastas sulinos, a exemplo de O Pagador de Promessas, produzido pelo paulista Oswaldo Massaini e dirigido por Anselmo Duarte. Ou Bahia de Todos os Santos, de Trigueir inho Netto. E há, neles, um denominador comum no que se refere à procura temática: todos se encontram centrados na apreensão dos problemas decorrentes da estrutura social injusta que leva à dramatização das ocorrências vividas pelo povo.

A ausência de recursos, notória, não contribuiu para o incremento criativo.

Mas, e se se considerar o ano de 80 como o ponto final da tentativa longa-metragista no espaço geográfico baiano, passaram-se duas décadas sem nenhum filme de longa duração, com uma dieta restrita aos curtas quase todos destituídos do vigor criativo que seria de se esperar daqueles que se lançam na aventura do cinema.

Vinte anos depois, tempo de uma geração, é que aparece, emendado a durex, 3 Histórias da Bahia, saudado e reverenciado pelos baba-ovos de plantão, que o viram como a redenção do chamado cinema baiano (que não existe, e, com isso, quase condicionando a emergência de um verdadeiro teatro do absurdo).

Mas para além dos filmes, o que se precisa constatar é a regressão que se abateu sobre a cultura baiana nos últimos trinta anos. Se a Bahia já foi um centro de excelência nas artes e já chegou a se falar até numa avant-gard e, como a referência explícita do livro de Antonio Risério, é de se perguntar que tragédia se abateu sobre a cultura baiana, considerando que somente se dá a perceber cacos de um pretérito? E, tangenciando a egolatria, Araripe, surpreendentemente, investe em Esses Moços, na simplicidade da gente humilde em obra sincera e destituída de arroubos, mas, no frigir dos ovos, com defeitos estruturais e ausência de dínamo narrativo. Mas o que dizer dos filmes que estão por aparecer? Ainda que produção sulina, mas com motivação baiana, Ó, Paí, Ó, de Monique Gardenberg, assustou pela mediocridade, e quase instalou o pânico na sensibilidade; mas, a rigor, é documento sociológico da miséria na qual está imersa a cultura baiana.

Crê-se que o que está por vir reflete muito a miséria cultural ou, se se quiser, a tragédia que se abateu sobre a cultura baiana. Terão esta tragicidade Cascalho, de Tuna Espinheira, O Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro, Pau-Brasil , de Fernando Beléns, Revoada , de José Umberto, Esses Moços, de Araripe, Cidade das Mulheres, de Lázaro Faria? Ou será o articulista que está a delirar diante de tanta miséria, de tanta falta de criatividade, de tanta ausência de imaginação? Contemplar a efígie de um suposto cinema baiano é a tarefa para a decifração do trágico.

08 julho 2007

Dando sentido ao que ilumina



Já disse aqui neste blog que Hamilton Oliveira é um dos melhores diretores de fotografia do cinema brasileiro. Para ficar em apenas três exemplos, iluminou, com engenho e arte, Eu me lembro, de Edgard Navarro, Esses moços, de José Araripe, e Pau Brasil, de Fernando Belens, longas baianos. Num site cultural baiano, Nacocó, que já fiz referência neste espaço, há uma excelente entrevista com Hamilton Oliveira, quando revela ser um profissional culto e sempre atento e que procura, obsessivamente, dar sempre sentido ao que ilumina. Para ler a entrevista de Hamilton, acessar o link: http://www.nacoco.com.br/entrevista/hamiltonoliveira.html

Introdução ao Cinema (3)



Vai aqui a terceira dose desta introdução - o cartaz que ilustra o post é o de Teorema concebido no Japão, quando o filme lá foi lançado.

Antes de entrarmos no outro elemento determinante da linguagem cinematográfica, os movimentos de câmera, necessário, para uma melhor compreensão do processo de criação, saber distinguir entre PLANO e TOMADA. Cada filmagem de um plano qualquer é uma tomada. Tem-se uma tomada a partir do momento me que a câmera é acionada até o momento me que ela é desligada - no tradicional corta do diretor. Assim, a tomada é este fragmento de tempo entre o acionamento do registro e o seu término. A tomada pode variar quanto a seu tempo. Já o PLANO se caracteriza pela distância entre a câmera e o objeto filmado. É a unidade básica da obra cinematográfica. Os planos se reúnem em cenas que, por sua vez, se reúnem em seqüências. Assim cenas se constituem de uma série de planos ligados a uma só ação ou situados num mesmo cenário É a forma cinematográfica mais próxima do teatro. Já as seqüências contêm uma série de cenas. Do ponto de vista mais geral, tem-se uma funcionalidade bastante específica de certos planos fundamentais. Cabe ao realizador saber dosa-los com força expressiva, pois é na articulação dos elementos determinantes da linguagem fílmica que se estabelece a artisticidade da obra cinematográfica. Assim, podemos dizer que, no que concerne unicamente aos planos, o geral valoriza a paisagem como espaço físico e sugere uma comunhão psicológica entre os personagens e a natureza. O PLANO MÉDIO inscreve os indivíduos no espaço físico em que vivem e instaura um equilíbrio dramático entre a ação e o cenário. Já o PLANO AMERICANO destaca os personagens em sua proximidade física e a intensidade de sua presença moral. E o CLOSE UP instala a pujança do valor dramático e psicológico determinante. A natureza dos planos é governada pela distância relativa entre o ator e a câmera. assim, quanto maior a distância, maiores parcelas do cenário são mostradas. diminuindo a distância, as formas do ator crescem de tamanho na tela e, neste caso, há a necessidade de uma mudança de posição da câmera tendo me vista a obtenção de planos mais distantes ou mais próximos. Outro método consiste me empregar lentes de distâncias focais diferentes, isto é, as diversas objetivas que fazem parte do equipamento da câmera. Nesse caso, o resultado almejado é conseguido com uma simples troca de objetiva.


Consegue-se a variação do ângulo visual das imagens por meio das sucessivas mudanças de plano. Em geral, a rigor, qualquer mudança de plano corresponde a uma mudança de posição da câmera ou a uma troca de objetiva, obrigando, com isso, a uma interrupção nos trabalhos de filmagem. Ao contrário do que pensa a maioria dos espectadores, o filme é construído a partir de muitos fragmentos e, apesar de dar a impressão de continuidade, tem, no seu processo de criação, uma total descontinuidade. Para cada tomada (take) de alguns minutos e, às vezes, alguns segundos, há, forçosamente, de se interromper as filmagens. Assim, o resultado na tela é uma sucessão de dois planos articulados por uma descontinuidade chamada CORTE. O corte (cut) é o que caracteriza visualmente uma mudança de plano, sendo também a palavra que o diretor usa para interromper a tomada. Não é só pelo corte, no entanto, que se efetua uma mudança de plano. Como a câmera pode executar movimentos, deslocando-se suavemente durante a tomada, ela, a câmera, pode passar sem interrupção de um plano geral a um plano médio e deste ao close, bem como seguir o caminho inverso, aproximando-se ou afastando-se gradualmente da realidade profílmica. Tem-se,então, aqui, uma mudança contínua de planos. O mais simples dos movimentos de câmera é a PANORÂMICA (Pannning), movimento no qual o aparelho, fixado em sua base, gira sobre si mesmo na direção horizontal (nos dois sentidos) ou na direção vertical. A câmera como que olha ao seu redor (panorâmica horizontal) ou à sua frente (panorâmica vertical). Se, por exemplo, um personagem está no alto de uma montanha e divisa a paisagem, a câmera confunde-se com sua vista, executando uma panorâmica horizontal. Se está na base de um edifício, e olha para uma janela elevada, correndo a vista pela altura do prédio, a câmera mostra o que o personagem enxerga por meio de uma panorâmica vertical. A forma mais simples de panorâmica - da direita para a esquerda - ou vice-versa - pode cumprir várias funções qualificantes. Pode, por exemplo, afastar gradualmente a nossa vista de uma cena resolutiva e reconduzi-la a ela, carregada de curiosidade, provavelmente após o seu desfecho.


Em Trágico Amanhecer(Le jour se lève, 1939), de Marcel Carné, na cena de amor entre o protagonista e a mulher dentro da cabana enquanto lá fora chove, mal os dois começam a reclinar-se sobre o leito abraçados, uma panorâmica conduz o espectador, lentamente, para o exterior diante de uma goteira pela qual se escoa um abundante caudal de água de chuva. A imagem, então, dissolve-se, até que, finalmente, reaparece a mesma goteira, desta vez, porém, apenas gotejante. O temporal findou. Uma outra panorâmica reconduz o espectador ao interior, mostrando o par que se prepara, agora, após uma noite de paixão, para abandonar o refúgio. É uma maneira indireta de apresentar as coisas, rica de sugestão, no entanto, e que não deixa de aludir ao destino adverso que paira sobre o acontecimento. Elevando-se sobre os personagens me movimento, a câmera também pode informar ao espectador de algo que o espera mais adiante, colocando-o me posição de vantagem me relação às personagens da trama. É o que acontece em "No Tempo das Diligências" ("Stagecoach", 1939), de John Ford, onde a presença dos índios é revelada ao espectador antes de os ocupantes da diligência dela se aperceberem. A câmera pode, igualmente, ligar fatos pertencentes a diferentes dimensões temporais, prolongando-se numa outra panorâmica que evolui no mesmo sentido mas que se refere a um acontecimento ocorrido no passado e que se liga ao primeiro por meio de uma recordação neutra,, invocada, através de um objeto de dupla referência espaço-temporal. É o procedimento que, em Morangos Silvestres(Smultronstallet, 1958), de Ingmar Bergman, provoca uma constante confusão do presente com o passado sem que a linearidade narrativa e dramática do relato fique comprometida. Ainda temos mais exemplos de panorâmicas e de outros movimentos de câmera - como o travelling. Mas fica para o próximo capítulo.