Seguidores

15 outubro 2009

Versão digital está a deturpar os filmes


Marcelo Miranda, um dos melhores críticos de sua geração, envia-me uma denúncia que considero gravíssima e que está publicada no Blog do Polvo. As versões digitais estão a deformar e deturpar os formatos originais dos filmes. Um crime. Uma intromissão indevida na integridade da obra cinematográfica. Aproveito, por falar em Marcelo Miranda, para recomendar, aqui, um ensaio de sua autoria sobre o cineasta Johnnie To publicada na excelente revista eletrônica Contracampo em sua última edição.

O
Fórum da Crítica, entidade virtual que reúne dezenas de profissionais da reflexão cinematográfica de todo o Brasil (e na qual diversos polvos estão incluídos), divulgou uma carta aberta em protesto à péssima qualidade das recentes projeções digitais no circuito de cinema brasileiro. Abaixo, segue reprodução integral do texto e, logo adiante, um link para quem quiser contribuir com o abaixo-assinado virtual, a ser encaminhado aos responsáveis. Vejam nas duas imagens da Santa Ceia o que acontece com a projeção digital. A primeira é a deturpada.

CARTA ABERTA AOS RESPONSÁVEIS PELA PROJEÇÃO DIGITAL NO BRASIL
A projeção digital chegou ao Brasil com a missão de democratizar o acesso aos filmes e libertar os distribuidores da dependência de cópias em 35 milímetros, cuja confecção e transporte são notoriamente caros. A instalação de projetores digitais permitiria ao público assistir a títulos que dificilmente seriam lançados nas condições tradicionais e ainda ofereceria condições para que espectadores situados longe do eixo Rio-São Paulo (onde se concentram quase 50% das salas de cinema do país) tivessem acesso aos mesmos títulos simultaneamente.
O que estamos vendo, no entanto, é uma total falta de respeito ao espectador no que se refere à exibição do filme propriamente dita. As razões são basicamente duas: projeções incapazes de reproduzir fielmente os padrões de cor e textura da obra e/ou projeções incapazes de exibir os filmes no formato em que foram originalmente concebidos. Sem falar no som, que muitas vezes ganha uma reprodução abafada, limitada ao canal central, muito diferente de seu desenho original.

A adoção da projeção digital pelos dois maiores festivais internacionais do Brasil (o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo) e por outros festivais do país, infelizmente, não respeitou o que seriam critérios mínimos de qualidade de projeção de filmes em cinema – algo que é observado com atenção em qualquer festival internacional que se preze. Trata-se de uma situação particularmente alarmante tendo em vista o papel de formadores de plateia que esses eventos desempenham.

Não nos cabe, aqui, pregar a “volta ao 35mm” nem defender determinada resolução mínima para a projeção digital. Sabemos que, se respeitados determinados critérios técnicos – ou seja, se a empresa responsável pela projeção digital receber do distribuidor o master no formato adequado, se o processo de encodamento for feito corretamente e se os ajustes necessários para a exibição de cada filme forem realizados cuidadosamente –, a projeção digital pode ser uma experiência perfeitamente satisfatória para o espectador.

Não é isso, porém, que tem ocorrido. Exibidores, distribuidores e os fornecedores do serviço da projeção digital são responsáveis pela má qualidade da projeção e coniventes com esse lamentável descaso geral, que tem deixado críticos e amantes de cinema indignados. É um desrespeito ao cinema e aos seus criadores, mas, sobretudo, ao espectador e consumidor final, que saiu de casa e pagou ingresso para ver um filme.

A situação chegou a um ponto intolerável. Pedimos a todos os profissionais envolvidos com a projeção digital que tomem providências para que tais deformações não se repitam. Quem quiser participar do abaixo-assinado por melhores condições da exibição digital, basta clicar aqui para participar da petição on line.

14 outubro 2009

"Doido Lelé" ganha prêmio no Festival do Paraná


Recebo da jornalista e cineasta Ceci Alves, talvez a melhor repórter de jornalismo cultural da Bahia, a seguinte notícia, que é alvissareira:

Após ter ganhado o prêmio de Melhor Edição no
5º Festival Latino Americano de Curta-metragem de Canoa Quebrada, em setembro deste ano, o curta-metragem Doido Lelé, escrito e dirigido pela jornalista e cineasta baiana Ceci Alves, acaba de ganhar o prêmio de Melhor Ator para o ator mirim Vinícius Nascimento (Ó Paí Ó; Capitães de Areia) no 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino. Único curta-metragem baiano a participar do festival, o filme conta a história de Caetano, um garoto que deseja ser cantor de rádio na década de 50 e foge todas as noites de casa para tentar, sem sucesso, a sorte num programa de calouros. Além da categoria em que foi premiado, Doido Lelé ainda recebeu mais sete indicações: Melhor Filme, Direção, Roteiro, Direção de Arte e Fotografia, Montagem e Melhor Atriz.No mesmo festival, Doido Lelé foi elogiado pela atriz Fernanda Montenegro e pelo diretor de documentários Silvio Tendler, grande vencedor do 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino, com o longa-metragem Utopia e Bárbarie.

A foto mostra o premiado ator mirim Vinícius Nascimento.

Concurso "Walter da Silveira" tem noite de premiação

Conferência no dia 15 de outubro anuncia os premiados do edital de crítica

Com a presença dos críticos Paulos Santos Lima e João Carlos Sampaio, além do professor e teórico de cinema Luiz Nazario, componentes da comissão de avaliação do Concurso, a Diretoria de Audiovisual (DIMAS), da Fundação Cultural da Bahia, anuncia os premiados do edital 2009. A cerimônia, que acontece amanhã, dia 15 de outubro, às 19h, na Sala Walter da Silveira, também prevê uma conferência com o tema "A crítica como militância". Para fechar a noite, logo após a premiação, será exibido o curta-metragem "Rito de Amor e Morte", do japonês Yukio Mishima.

Serviço
Conferência de premiação do II Concurso Estadual de Crítica Cinematográfica "Walter da Silveira"
Dia 15 de outubro, às 19h
Sala Walter da Silveira (Rua General Labatut, n 27 - subsolo da Biblioteca Pública dos Barris)
Entrada franca

Foto> Walter da Silveira conversa com o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

13 outubro 2009

"Clube da Crítica" exibe hoje "O Crítico"

Dentro da programação do 6 Festival Internacional Sala de Arte, acontece o Clube da Crítica, iniciativa pioneira dos organizadores do evento que se propõe a exibir filmes e debatê-los com críticos especializados. O programa de hoje apresenta o documentário inédito de Kleber Mendonça Filho (foto) O Crítico, uma abordagem documentária sobre a crítica cinematográfica e seus críticos. O realizador entrevistou vários exegetas fílmicos internacionais e nacionais. Ainda não tive oportunidade de vê-lo, mas o farei logo mais. O Clube da Crítica está programado às terças, durante o festival, às 20 horas e 30 minutos, no simpático Cinema do Museu (Corredor da Vitória). Os dois primeiros comentadores deste post, segundo prometeu a relações públicas do festival, ganharão um convite grátis. Basta que se identifiquem com seus nomes próprios e procurem, antes da sessão, a promoter Fernanda Bezerra para receber seus merecidos convites.

Kleber Mendonça Filho é pioneiro da crítica cinematográfica na internet com seu valioso site Cinemascópio. Após anos de atividade crítica, quando decidiu registrar as imagens em movimento, conseguiu, de imediato, reconhecimento pelo seu sentido particular de cinema, a exemplo do excelente Domésticas, entre outros. Kleber estará presente hoje, no Cinema do Museu, para debater O Crítico com os espectadores

Para maiores informações sobre a programação completa: http://www.saladearte.art.br/festival/?_page_id=6

12 outubro 2009

Tuna e Cajaíba, "o fazendeiro do ar"

Tuna Espinheira, cineasta baiano, realizador de Cascalho, seu primeiro longa, e mais de duas dezenas de curtas, acaba de voltar de Vitória da Conquista, cidade interiorana da Bahia que realiza todos os anos, nesta época, um exitoso festival de cinema. Tuna não perde tempo e está sempre antenado com as últimas da cinematografia. Ele me informou que O cisne também morre, filme de 1982 que assinala sua primeira incursão no terreno ficcional, foi encontrado. Digo isso, porque, modéstia à parte, tive a honra de ser um dos atores do filme. Vou transcrever, aqui, a mensagem que recebi do realizador.
"Velho, (sim estou velho, pois a fazer, hoje, 59 primaveras - nota de AS)
"Estive na V Mostra Conquita, aproveitei para visitar o museu ao ar livre, concebido, trabalhado, pelo artista plástico, CAJAIBA. Nesta foto estou à beira do túmulo do próprio Cajaiba. Ele conseguiu ser enterrado no cenário em que sempre expos as suas esculturas. Outrora foi um ponto de grande afluxo de visitantes, turistas,artistas, gente das mais variadas espécies. Hoje sobrevive a duras penas, à mercê do abandono do poder público, resistindo graças a dois dos seus filhos, abnegados, cuidando, como podem, daquelas peças, um mostruario de vultos históricos, em tamanho natural, esculpidos em cimento e ferro.
Estou recuperando o filme que fiz, décadas atrás, quando ainda vivia o escultor. Com a parceria dos fotografos, Carlos Rizério (hoje morando em Conquista) e Claude Santos e mais um grupo da comunidade conquistense, planejamos, em tempo, o mais breve possivel, fazer uma exibição, no próprio local, do filme, Cajaiba... Lição de Coisas... O Fazendeiro do AR. A idéia é chamar a atenção sobre o sítio artístico ao Deus dará, com o objetivor de recuperar os estragos imposto pelo tempo e abandono. Caso o referido filme possa vir a ajudar neste sentido, teremos uma cinematografica chance de brindar este acontecimento."
CAJAÍBA, LIÇÃO DAS COISAS...O FAZENDEIRO DO AR foi fotografadopor Antonio Luis Mendes Soares. Roteiro, Montagem, Direção, Tuna Espinheira. Narração de Fernando Coni Campos. Ano de produção: 1976. P&B. 13m.
Forte abraço, Tuna

11 outubro 2009

O Cinema, A Comida, O Comer

Realização do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Alimentação e Cultura (NEPAC), com o patrocínio da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal da Bahia em parceria com a Sala de Arte e a locadora Casa de Cinema, a já exitosa mostra O Cinema, A Comida, O Comer tem nova edição neste ano com três filmes já programados: Delicatessen (já para o próximo dia 27 de outubro, com palestra do cineasta José Umberto), Estômago (17 de novembro, com palestra deste blogueiro), e Ratatouille (15 de dezembro). Todos os filmes serão exibidos na Sala de Arte da Ufba (que fica no Vale do Canela).

A coordenadora do evento é a dinâmica Professor Lígia Amparo, estudiosa do assunto e com um livro já publicado sobre o tema. Lotada na Escola de Nutrição, a Professora Lígia vai muito além nas suas pesquisas, principalmente na procura intertextual do relacionamento entre o comer e as manifestações artísticas, principalmente o cinema, que focalizam o processo nutricional como morte, vida, prazer etc, a depender de cada autor e de cada filme.

Delicatessen, dos franceses Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, realizado em 1991, é uma obra insólita, consagrada quando de seu lançamento em escala mundial. Em um futuro apocalíptico, homem chega a um estranho prédio, localizado em cima de um açougue, para procurar abrigo e emprego. Após instalar-se no local, se apaixona pela filha do dono do estabelecimento, mas sua presença começa a incomodar a família da moça - que, na verdade, possui outros e estranhos planos para ele. Primeiro sucesso de Jean-Pierre Jeunet, que anos mais tarde conquistaria o mundo com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Estômago (2007), de Marcos Jorge, com interpretação inexcedível de João Miguel, ator baiano, é uma fábula bem humorada sobre a comida, o poder e o sexo. Um dos filmes brasileiros mais interessantes da última safra. Já Ratatouille (2007), desenho animado crítico e inteligente de Brad Bird, aborda a comida como beaux arts e a crítica num ensaio de animação original e surpreendente.

Clique na imagem para vê-la ampliada.

09 outubro 2009

"Positivamente Millie", com Julie Andrews

Desaparecida a fase do filmusical clássico, cujo último exemplar se dá com Gigi (1958), de Vincente Minnelli, os anos 60 se notabilizam pelas superproduções musicais, a exemplo de My fair Lady (1964), de George Cukor, A noviça rebelde (The sound of music, 1965), de Robert Wise e, deste mesmo, Amor sublime amor (West side story, 1961), A moedinha da sorte, de George Sidney, Funny Girl (1968), de William Wyler, entre outros. Poucos, nesta década, os musicais simples e despretensiosos como os da fase do grande Arthur Freed na Metro. Minnelli, o grande renovador do gênero, retira-se para a incursão em melodramas admiráveis e comédias românticas, a atender, apenas, a um pedido: o de dirigir, já no ocaso da década, Um dia claro de verão, com Barbra Streisand, Jack Nicholson, Yves Montand, apenas satisfatório. A Fox, a não perceber que os tempos mudam, insiste em filmar Hellô Dolly! num momento em que a juventude explode em Woodstock e o filme se torna, em termos de bilheteria, anacrônico para a época, mas não para os apreciadores dos grandes espetáculos do gênero. A Fox vai à falência com o resultado pífio da bilheteria.

Positiviamente Millie (Thoroughty Modern Millie, 1967), de George Roy Hill, pelo encanto, pelo frescor, situa-se quase como um oásis no cinema dos esfuziantes anos 60. Preterida por Jack Warner em My fair lady no papel de Elisa, feito por Audrey Hepburn, apesar de ter comparecido neste, nos palcos da Broadway, durante quase dez anos, dia após dia, Julie Andrews é convidada por Walt Disney para fazer Mary Poppins, belo espetáculo dirigido por Robert Louis Stevenson e, surpreendentemente, tira o Oscar de melhor atriz das mãos de Hepburn. Daí para a frente, uma carreira plena de sucessos, principalmente depois que faz a simpática aspirante ao claustro de um convento que se apaixona por um barão em A noviça rebelde, um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos.

Positivamente Millie tem sua ação localizada nos loucos anos 20, precisamente em 1923, e em Nova York. Julie é uma moça do interior que chega à cidade disposta a fisgar um marido rico. Escolhe seu patrão Trevor (John Gavin), mas este prefere sua amiga Dorothy (Mary Tyler Moore), que é raptada por uma quadrilha de escravas brancas. Mas tudo se ajusta muito bem no final com algumas surpresas. Com este argumento, Roy Hill faz um filme divertido e inteligente, recheado de belas canções e pontuado de alusões ao cinema mudo já que a sua ação se passa em pleno apogeu da estética da arte muda. Quando Millie está a pensar, por exemplo, aparecem letreiros na tela, como naquela época, e ela olha para a câmera a solicitar a cumplicidade ou a perplexidade do espectador. Há, também, uma conjugação de gêneros: o musical com o filme de mistério. Há momentos de antologia: o início, por exemplo, quando um travelling no corredor de um hotel mostra uma cesta grande sendo conduzida por alguém, que abre uma porta e, com um frasco e um algodão faz desmaiar uma das hóspedes, que é depositada na cesta. Logo a seguir, a câmera sai de um anúncio de jornal para focalizar Julie Andrews a chegar à Nova York, quando se dá a apresentação dos créditos. Excelente também a gag do elevador antigo, que só se locomove através do sapateado. E um momento de magia com a performance de Carol Channing, quando canta em sua mansão a fazer de seu corpo um instrumento de jazz.

Positivamente Millie é o quinto filme de George Roy Hill (diretor hoje completamente esquecido), nome conhecido nos palcos da Broadway dos anos 50 (como ator e diretor) e, desde 1956, na TV americana (como diretor) e autor de telepeças televisivas. Sua carreira no cinema começa com Contramarcha nupcial (Period of adjustment, 1961), versão da peça de Tenessee Williams, com Jane Fonda, prosseguindo com Na voragem das paixões (Toys in the Attic, 1962), O mundo de Henry Orient (The word of Henry Orient, 1964) e Hawaii (1966). Em 1970, obtém enorme sucesso com Butch Cassidy, com Paul Newman e Robert Redfordm ciom os quais pretende continuar o êxito em Golpe de mestre (The sting, 1973). Realiza notável versão do livro de Kurt Vonnegut Jr em Matadouro 5 (Slaughterhouse 5, 1971), Vale tudo, Quando ás águias se encontram, O mundo segundo Garp, entre outros. Era um dos diretores preferidos de Paul Newman.

O grande crítico carioca Salvyano Cavalcanti de Paiva, quando o filme foi lançado no Brasil, em 1968, escreveu o seguinte: "Eis-nos em pleno domínio da evocação, aliás da dupla evocação: um filme de ritmo ágil que transmite completa vibração à platéia. Antigo no que reconstitui como exemplar digno dos musicais da Era de Ouro; antigo também no que apresenta como reedição feliz da década de 20, do primeiro pós-guerra, a Idade do Jazz, de F. Scott Fitzgerald, gim de banheira, mangas cavas e mini-saias, cabelos à taradinha, sapatos de saltos quadrados, colares enormes, primeiros cigarros femininos, fordecos velozes, etc. E moderno, bem moderno, no processo narrativo, pois Throughty Modern Millie é um filme musical estupendo de graça, de sentimento, de arte. Flui o enredo, as canções, os bailados originalíssimos - são as melindrosas e os almofadinhas que retornam, é o musical típico de novo entre nós. (...) A partitura de Elmer Bernstein, os arranjos de André Previn, a coreografia repleta de inventiva de Joe Layton, tudo se combina harmoniosamente para captar o estilo da Era de Jazz. Um filme delicioso, encantador, jubiloso."
Vejam os dez minutos iniciais de Positivamente Millie em meu outro blog: http://setaroandreolivieri.blogspot.com/ (Momentos da arte do filme)

07 outubro 2009

"Capitalism: A Love Story", de Michael Moore

Tenho a honra de publicar aqui, diretamente de Chicago, um artigo escrito especialmente para este blog pelo Professor Jorge Vital de Brito Moreira, que viu e gostou muito de Capitalism: A Love Story, o novo filme de Michael Moore ainda inédito no Brasil. Baiano, itaparicano por natureza e vocação, o Professor Vital é, agora, mestre em universidades dos Estados Unidos, mas nunca se esquece de seu tempos baianos, quando participou de uma série de atividades artísticas nesta soterópolis. Homem de mil instrumentos, escritor, professor, sociólogo, é, também, músico. Mas vamos ao artigo:
Capitalism: A Love Story (Capitalismo: uma história de amor) é o último documentário (2009) escrito e dirigido pelo realizador Michael Moore. O filme foi estreado recentemente na 66a Edição do Festival de Veneza em 6 de setembro de 2009 no circuito da competição oficial pelo Leão de Ouro e lançado nacionalmente em USA e Canadá no último dia 02 de Outubro.

O documentário se concentra na maior
crise financeira global de 2007–2009, na transição do governo de George W. Bush para o de Barack Obama e no alucinante resgate financeiro (em trilhões de dólares) de ambos presidentes para “salvar” as corporações (Goldman Sachs, Citicorp, Merrill Lynch, Bank of America) e as companhias de seguros imobiliários (AIG, Fannie Mae, Freddie Mac): as principais responsáveis pela crise econômica atual.

Para isso, Michael Moore, faz um inteligente trabalho onde mostra o processo histórico que transformou a democracia no estilo Franklin Roosevelt ( com a melhor distribuição da riqueza entre os norte-americanos) na plutocracia antidemocrática do capitalismo imperial autofágico da atualidade (com a trágica destruição da classe media e trabalhadora de USA).

O filme começa com seqüências que mostram a verdadeiros ladrões de bancos –filmados por câmaras de segurança em meio de um assalto armado– agarrando o dinheiro roubado enquanto a musica “Louie, Louie” e os créditos cinematográficos funcionam como contraponto à introdução do espectador no universo do crime organizado.

Estas cenas estabelecem uma abertura para a equivalência material e moral entre este roubo inicial e os sistemáticos assaltos e crimes que os titãs do capital financeiro e seus protetores políticos cometem contra o povo estadunidense e por extensão contra todos os povos das nações periféricas (Brasil incluído) que vivem sob o modelo capitalista norte-americano.

A continuação, o documentário apresenta uma inteligente montagem combinando sequencias de um filme antigo com cenas da televisão de USA na atualidade: de um lado se mostra as causas da decadência do império romano, do outro os sintomas da decadência do império americano; num caso, a superexplotação do trabalho escravo, do outro, do trabalho assalariado; de um lado, as corridas de carros, as lutas de gladiadores romanos, do outro, as lutas dos brutamontes e as corridas dos carros norte americanos.

Em poucas palavras, nessas cenas vemos como o moderno Império Americano utiliza as mesmas técnicas de entretenimento do antigo Império Romano, o denominado “panes et circenses” (pão e circo), para manipular ideologicamente, escondendo dos povos (romano e norte-americano) a verdade brutal da dominação, da exploração e da alienação social.

Adiante, o filme revela (apoiado numa rigorosa documentação visual e escrita de fatos e dados relevantes) a aliança e a agenda escondida (hidden agenda) entre os poderosos grupos financeiros, as corporações multinacionais, os congressistas e os presidentes de USA, eleitos com os milhões de dólares de contribuição dessas mesmas corporações. Como era de se esperar deste processo de corrupção, os presidentes eleitos retribuem a “generosidade” das corporações financeiras, escolhendo para ocupar os cargos de Secretários do Tesouro e de Presidentes (Chairman) da Reserva Federal, os nomes indicados por essas mesmas corporações.

Nesse processo, podemos observar como um grupo de CEOs são transformados em proprietários da política econômico-financeira da administração dos Presidentes de USA. Assim, o filme mostra os noticiários de TV onde o espectador pode observar o desfile de caras e de nomes dos mais importantes “coordenadores” entre a Presidência (desde a de Ronald Reagan até chegar à de Barak Obama) e os interesses da plutocracia norte-americana: Alan Greenspan, Donald Regan, Robert Rubin, Lawrence Summers, Henry Paulson, Timothy Geithner e Ben Bernanke são nomes onipresentes em Wall Street, no governo e na media americana.
Mas o melhor ainda está por ser visto. Michael Moore faz um conjunto de entrevistas com diversos setores da população local (membros da igreja católica, do senado americano, da bolsa de valores, das agencias imobiliárias, da classe trabalhadora e da classe media) revelando, pouco a pouco, o infame resultado do processo de acumulação, concentração e centralização do capital em USA.

O resultado é a eliminação sistemática do trabalho produtivo e dos trabalhadores ligados ao setor: uma das cenas mais impactantes é a que mostra o inicio da destruição da industria automobilística (a demolição das instalações da General Motors em Flint, Michigan) acompanhada ironicamente pela música “O Fortuna” de Carmina Burana de Carl Orff. O resultado é extremamente perturbador para o espectador.

A partir desse ponto, Michael nos mostra o que está acontecendo também do lado dos perdedores, dos arruinados por este abominável processo: o desemprego, a falta de seguro médico, a falta de ingresso para pagar as contas, o aluguel ou a hipoteca atrasada. Neste ponto, os moradores que não podem pagar suas hipotecas devolvem as suas casas, apartamentos, condomínios às corporações hipotecárias (as mesmas que foram responsáveis por suas ruínas) que as revendem no mercado de bens e raízes, colocando, por um lado, dezenas de milhares de famílias subvivendo em barracas de lona; pelo outro, uma classe de especuladores/predadores denominados “Urubus de condomínio” (Condo Vultures) que supervivem da desgraça e da carcaça alheia...

Apesar do meu impulso para seguir descrevendo as cenas trágicas e abomináveis do filme (um exemplo, os seguros de vida dos trabalhadores mortos, “Dead Peasants”, não vão parar na mãos dos seus familiares, mas ao contrario, vão parar nos bolsos dos patrões, ou seja, das multinacionais como City Bank, Bank of America, Wal-mart, etc.), prefiro não continuar na descrição, pois não quero arruinar as muitas surpresas que o documentário tem para oferecer. Ele contem também um grande conjunto de momentos cômicos, mordazes e comoventes (vi pessoas emocionadas chorando, rindo e até aplaudindo o filme na platéia) articulado a uma irônica história de amor representada pelo título, pois esta é a pergunta (Que preço pagam os estadunidenses por seu amor sado-masoquista ao capitalismo?) que o documentário trata de responder e responde, denunciando e acusando valente e brilhantemente o sistema.
Como em seus filmes anteriores (Roger and me; Bowling for Columbine; Fahrenheit 9/11; SICKO) Michael Moore responde misturando a dor e a tragédia das vítimas com a comedia hilariante, incluindo fragmentos de filmes antigos, de noticiários de TV, de jornais, de documentos oficiais (reportes) do Governo e das Corporações de USA.

O documentário também mostra muitas cenas que comprovam algumas vitórias reais dos oprimidos: como quando os trabalhadores em Chicago ocupam sua fábrica para obter o pagamento que os patrões (via Bank of America) lhes devem; ou como quando um grupos de inquilinos pobres de Florida resistem coletivamente a evacuação de uma família negra da sua casa pela policia local; ou ainda, como quando um grupo de fabricas criadas pelo sistema de cooperativas de trabalhadores produzem indivíduos felizes, pois são, simultaneamente, trabalhadores e proprietários das mesmas fabricas e por isso não existe a hierarquia “normal” construída pela dominação e a opressão acostumada pela produção do lucro sobre todas as coisas.

Nessas partes, o filme sugere explicitamente que somente o amor solidário, a organização, a participação, a resistência, e a luta coletiva dos trabalhadores contra o sistema capitalista atual, serão condição suficiente para gerar um novo sujeito histórico e um novo movimento social capacitado para superar a desgraçada relação patológica a que nos subordinamos todos os dias sob o infame modo de produzir e reproduzir a sociedade atual.
Por aqui paro. Só me resta recomendar aos leitores da sua coluna, aos cidadões da Bahia e do Brasil que façam o que for possível para ir a um cinema local para assistir, gozar e aprender de um dos melhores documentários que vi em USA.
Jorge Vital de Brito Moreira

Os eleitos de Paulo Perdigão

Dois anos e meio sem a presença de Paulo Perdigão, grande crítico de cinema que morreu em dezembro de 2006 aos 67 anos. Nos anos 60 e 70, quando escrevia para revistas e jornais, era um dos meus críticos prediletos. Perdigão, no entanto, era muito mais que um crítico. Traduziu Sartre, tinha profundo conhecimento deste filósofo e incursionou por outras áreas, como no excelente Anatomia de uma derrota, livro sobre a Copa do Mundo de 1950 na qual o adolescente Perdigão viu com os seus próprios olhos o Brasil ser goleado pelo Uruguai. Foi um trauma nacional.

Fascinado por Shane (aqui chamado Os brutos também amam), foi aos Estados Unidos entrevistar George Stevens, seu diretor, para a extinta revista Filme/Cultura. A princípio arredio, Stevens, com o desenrolar da entrevista, ficou assombrado com o conhecimento que Perdigão demonstrou sobre o filme. E, no final da interview, disse que o crítico conhecia mais Shane do que ele, seu autor.


Perdigão editava, para o antigo Instituto Nacional do Cinema (INC), duas excelentes publicações: a revista Filme/Cultura e um excepcional Guia de Filmes, que continha todos (mas todos mesmo) os lançamentos dos filmes no Brasil, que vinham acompanhados de fichas técnicas completíssimas e comentários críticos. Na edição de número 7 da Filme/Cultura, de outubro de 1967, foi realizada uma enquete entre os principais críticos do país para a escolha dos 20 maiores filmes de todos os tempos. Vou me restringir, aqui, à lista de Paulo Perdigão, ressaltando que foi feita em 1967, portanto há quarenta e dois anos. Não acredito, no entanto, salvo uma ou duas modificações, que, se elaborada atualmente, fosse modificada, pois a idade de ouro do cinema, como disseram Peter Bogdanovich e Orson Welles, situou-se entre 1912/1962, quando se deu o apogeu. A partir daí, o perigeu. A relação é de autoria de Perdigão, mas os comentários a latere, meus.

01) OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane, 1953), de George Stevens. Já muito se falou sobre a paixão de Paulo Perdigão sobre este western clássico de Stevens. O crítico tinha uma admiração profunda e não cansava de revê-lo até que conseguiu, indo aos Estados Unidos, fazer uma entrevista com o seu diretor, que foi publicada pela revista Filme/Cultura.

02) PUNHOS DE CAMPEÃO (The set up, 1949), de Robert Wise. Wise foi um diretor renovador nos anos 40 e 50, principalmente por este filme, escolhido em segundo lugar por Perdigão, e Quero viver (I want live, 1959), o melhor filme sobre a pena de morte com interpretação inexcedível de Susan Hayward. Punhos de campeão é, talvez, a obra mais brilhante que tem o boxe como tema.

03) BRINQUEDO PROIBIDO (Jeux interdits, 1952), de René Clement. Revi recentemente em DVD e penso que envelheceu. Na época fez muito sucesso entre a crítica, mas, passados mais de 50 anos, o filme não mantém a mesma magia de antanho. Clement sempre foi um bom cineasta, apesar de criticado e difamado pelo pessoal do Cahiers du Cinema.

04) UM LUGAR AO SOL (A place in the sun, 1951), de George Stevens. Como se pode observar, Perdigão gostava mesmo de Stevens. Neste filme, o autor de Shane faz uma adaptação de Uma tragédia americana, de Theodore Dreiser (que Eisenstein quisera filmar em 1930). Rapaz mata namorada pobre para poder casar com moça milionária (Montgomery Clift, Shelley Winters, Elizabeth Taylor).

05) ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco i suoi fratelli, 1960), de Luchino Visconti. A tragédia viscontiana sobre uma família de imigrantes que chega a Milão vinda do interior do sul da Itália. Afresco magnífico, obra singular, que, na sua época, traumatizou toda uma geração e, ainda hoje, causa impacto e estupefação. É, sem dúvida, um dos monumentos da sétima arte.

06) LADRÕES DE BICICLETA (Ladri di biciclette, 1948), de Vittorio De Sica. Obra-prima do neo-realismo italiano, filme emblemático do período, mostra a angústia de um operário que, conseguindo um emprego de colador de cartazes, tem sua bicicleta, seu instrumento de trabalho, roubada. Todo o filme é a sua busca por ela. Pleno de humanismo, sensível e poético.

07) RASTROS DE ÓDIO (The searchers, 1956), de John Ford. O melhor western do cinema? De qualquer maneira, um dos pontos altos da expressão cinematográfica em toda a sua história. Perdigão, muito antes deste filme virar referência na contemporaneidade, já em 1967, ano que fez a lista, já incluiu The searches como uma obra que deve figurar entre as maiores de todos os tempos.

08) MATAR OU MORRER (High noon, 1952), de Fred Zinnemann. Paráfrase do macarthismo, que, na época do lançamento, estava inclemente nos Estados Unidos, a perseguir os intelectuais e a comunidade cinematográfica com a paranóia anticomunista, este filme virou um clássico, apesar de Zinnemann, austríaco, não ter uma expertise no gênero. O tempo real se conjuga com o tempo dramático, assim como em The set up.

09) O TESOURO DE SIERRA MADRE (The treasure of Sierra Madre, 1947), de John Huston. Uma aventura e seus aventureiros. Huston, realizador notável pela capacidade de diversificação temática, ainda que não um autor, fez, deste, um espetáculo que marcou época pela destreza de seus personagens (entre eles, Humphrey Bogart) e a concepção da aventura humana e seus dissabores.

10) MORANGOS SILVESTRES (Smultronstallet, 1957), de Ingmar Bergman. Um velho professor sai de sua cidade para ir a capital receber o título de Professor Honoris Causa da universidade. Durante a viagem, de carro, pela estrada, faz um reflexão sobre a sua vida, percebendo o quanto fora egoísta e cruel. Bergman mistura, com singular engenho e arte, o passado e o presente dentro de um mesmo plano.

11) MONSIEUR VERDOUX (idem, 1957), de Charles Chaplin. De uma idéia de Orson Welles, diz o letreiro inicial dessa obra atípica de um gênio do cinema. Mas, na verdade, Verdoux, não seria o avesso do vagabundo? Humor negro e um peculiar sentido de observação da condição humana com momentos antológicos que o faz um dos filmes mais sublimes do autor de Luzes da cidade. Perdigão tem razão em nomeá-lo e elegê-lo.

12) A TRAPAÇA (Il bidone, 1955), de Federico Fellini. Se instado a fazer uma relação dos meus melhores, eu, André Setaro, colocaria, talvez mesmo em primeiro ou segundo lugar Oito e meio, de Fellini. Mas A trapaça faz parte da primeira fase do artista antes da explosão que foi La dolce vita. Nem por isso, no entanto, menos importante ou menos admirável.

13) DO MUNDO NADA SE LEVA (You can't take it with you, 1938), de Frank Capra. Alguns talvez preferissem A felicidade não se compra como o melhor Capra. Mas o escolhido pelo crítico também representa a quintessência desse notável realizador que assinalou, com suas temáticas e seu estilo, um momento de grande expressão do cinema americano clássico.

14) VIDAS AMARGAS (East of Eden, 1955), de Elia Kazan. O melhor trabalho de James Dean no cinema numa primorosa adaptação de Kazan de uma parte do livro de Steinbeck. Com ressonâncias bíblicas, o filme tem uma estimulante mise-en-scène que faz transcender a mera fabulação para emergir, nela, um sentido poético bem condizente com a visão de cinema do autor.

15) O GRITO (Il grido, 1957), de Michelangelo Antonioni. Quando elaborou a relação, Blow up ainda não havia sido lançado no Brasil. Mas, questão subjetiva, elegeria ao invés de Il grido, A aventura, primeira opus de uma trilogia constituída de A noite e O eclipse. Mas o fato é que o escolhido pelo crítico é, também, um filme admirável e menos estilizado. Talvez, por isso, a opção, como sucedeu com Il bidone, de Fellini.

16) VIVER (Ikiru, 1953), de Akira Kurosawa. Um dos mais belos filmes do autor japonês. Um funcionário público, ao tomar conhecimento que tem câncer terminal, decide provocar a burocracia de sua repartição para que saia do papel o projeto de um parque de diversões para crianças. Belo e poético. Poético e belo. O final, com o velho, cansado e morrendo, vendo a realização de seu sonho, no balanço do parque, é ponto alto do cinema.

17) O SOL POR TESTEMUNHA (Plein soleil, 1960), de René Clement. Numa relação de apenas 20 filmes, o nome de Clement é citado por dois filmes: este e Jeux interdits. Perdigão, portanto, ao contrário de François Truffaut, que o detestava, admirava muito Clement, cineasta francês que se dizia da ancien vague. Plein solein é baseado em livro de Patricia Highsmith.

18) EM BUSCA DE UM HOMEM (Will success spoil Rock Hunter?, 1957), de Frank Tashlin. Realmente, uma comédia genial mas pouco conhecida. Depois de seu lançamento nos anos 50, nunca mais foi reprisada (quando existia o Telecine Classic, este o programou em 2003). Tashlin revela os mecanismos de ascenção numa empresa capitalista, o que faz pensar em filme que influencia Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder, três anos depois.

19) DESENCANTO (Brief encounter, 1948), de David Lean. Obra intimista de rara sensibilidade no tratamento temático, que já revela em Lean um realizador promissor e acima da média, ele que, nas décadas de 50 e 60, viria a se transformar num dos mais perfeitos narradores do cinema em filmes como Lawrence da Arábia, A ponte do rio Kawai, Passagem para a Índia, entre muitos outros.

20) RIO VERMELHO (Red river, 1948), de Howard Hawks. Para o admirador de Shane, outro western que se tornaria um clássico exemplar e que, com o passar dos anos, daria origem a uma trilogia constituída de Rio Bravo (Onde começa o inferno, 1959), Rio Lobo (1976), ou, Eldorado (que é filmagem disfarçada de Rio Bravo). De qualquer maneira, entre os melhores do crítico, três são westerns, o cinema americano por excelência.

05 outubro 2009

Moscou contra 007

Ontem, domingo, revi, no Telecine Cult, Moscou contra 007 (From Russia with love, 1963), o segundo filme do agente secreto interpretado por Sean Connery (o primeiro, O satânico Dr. No [Dr. No, 1962) também tive o prazer de revê-lo sábado no mesmo canal).
Moscou contra 007, quando lançado (e, vejo no Imdb, que a sua estréia se deu primeiro no Brasil em 27 de abril de 1964) se transformou num fenômeno de bilheteria. Ninguém ficava indiferente a sua ação frenética, ao compasso da partitura eletrizante de John Barry, às tiradas humorísticas, ao dínamo propulsor de sua estrutura narrativa, envolvente.

Seus produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman não tinham idéia, quando lançaram Dr. No que o filme faria um sucesso sem precedentes capaz de lhes estimular uma continuação, que foi este From Russia with love. Mas não esperavam, mesmo cônscios do êxito deste, que o filme fosse além dos prognósticos. Como aconteceu e a série se desdobrou em outras películas a seguir. James Bond virou uma coqueluche.

Na época, a ideologia, porém, imperava entre os estudantes. E Bond, agente secreto à serviço de sua Majestade, não agradava à esquerda, que lhe fazia vista grossa. Recordo-me que, na sala de espera do cinema onde estava sendo exibido, deparei-me, de repente, com um militante que, ao me ver, desceu escada abaixo para se esconder no banheiro. O que iriam dizer seus companheiros quando tomassem conhecimento que ele estava a ver filme reacionário de James Bond?

Creio que o fascínio de James Bond supera e está acima das ideologias. Devo fazer uma confissão agostiniana: adoro os filmes de James Bond - pelo menos aqueles interpretados por Sean Connery e alguns com Roger Moore, ainda que tenha visto com muito prazer o penúltimo Casino Royale, com Daniel Craig.
A apresentação, quando Bond, ereto, pistola na mão, surge na tela do lado direito e caminha a seu meio e, de repente, posta-se de frente e atira, caindo, na tela, uma tinta vermelha, é espetacular e emocionante, com a música tema de John Barry.
Em From Russia with love, inaugura-se o prólogo antes dos créditos. Steven Spielberg confessou, há algum tempo, que sua grande frustração era a de nunca ter feito um filme de James Bond. A séria Indiana Jones, guardadas as suas diferenças, é uma tentativa de dar ao filme o ritmo frenético das aventuras bondianas. Tanto é que Spielberg, assim como nos filmes do agente secreto, também estabelece um prólogo antes da apresentação dos créditos.

Em Moscou contra 007, o que se passa antes dos letreiros iniciais embalados com a música From Russia with love, é um fake. Bond (Sean Connery) persegue Robert Shaw (Red Grant), mas é derrotado com um fio de aço por este. Morto, diante de um castelo exuberante, as luzes se acendem com estrépito e vemos um homem tirar a máscara do derrotado que se pensa ser James Bond. Em seguida, a emergência dos créditos, dando já ao filme um impacto.

A Spectre planeja decodificar os segredos nucleares da União Soviética e, para isso, conta com a ajuda de uma mulher irascível e violenta (Lotte Lenya, que foi esposa de Kurt Weil, autor, com Bertold Brecht, de A ópera dos três vinténs) e seu fiel escudeiro Red Grant (Robert Shaw), homem treinado para matar e destituído de qualquer sentimento de humanidade ou compaixão. Precisa, no entanto, também, da ajuda de uma mulher (Daniela Bianchi), disciplinada soviética que trabalha na embaixada de seu país sediada na Turquia. Porque os ingleses também estão interessados nos segredos da União Soviética, a Spectre pensa contar com a colaboração involuntária deles, mas James Bond, convocado, entra em ação, desarma todo o esquema e, como é de praxe, leva a bela Daniela Bianchi para a sua alcova íntima.

A luta final, entre Lotte Lenya e Sean Connery é muito estimulante para aqueles que gostam do bom filme de ação (atualmente os filmes de ação, honradas as exceções de praxe, são rápidos e dentro da estética do videoclip, que resultam pobres e ruins).
François Truffaut escreveu, em seu extraordinário livro de entrevistas com Alfred Hitchcock, sobre a influência imensa de Intriga internacional (North by northwest, 1959) sobre todo o cinema do gênero thriller a partir dos anos 60, inclusive, disse ele, toda a série de James Bond, cuja estrutura narrativa é bastante influenciada pelo filme hitchcockiano. O que é verdadeiro.

Terence Young, o diretor, inspira-se em Intriga internacional. Vejam a luta no trem, por exemplo, entre Shaw e Connery. E mais: a textura da mise-en-scène advém da estrutura hitchcockiana de North by northwest.

Baseado em Ian Fleming, assim como todos Bonds-movies, Moscou contra 007 é, segundo penso, o melhor de toda a série, porque um thriller bem ajustado sem as novidades que viriam adornar os filmes posteriores.

Está em cartaz no Telecine Cult. Vale a pena conferir.

04 outubro 2009

Outra visão e impressão de "Pau Brasil"


Marcos Pierry, jornalista e professor de cinema, dá, aqui, a sua impressão crítica de Pau Brasil, o primeiro longa de Fernando Belens, recebido com entusiasmo quando de sua avant-première em julho durante o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual. O filme também me surpreendeu, como atesta o comentário infra neste blog. Originariamente, o texto de Monsieur Pierry foi publicado na revista eletrônica Terra Magazine, o bem sucedido empreendimento virtual noticioso e opinativo do já consagrado jornalista Bob Fernandes. Pau Brasil acaba de participar do Festival de Cinema de Curitiba e, na nossa modéstia opinião, tem tudo para agradar e receber prêmios no exterior. Vamos logo, porém, e sem mais delongas, ao texto pierryano.


Acaba de nascer o cinema baiano do século 21, pelo menos em termos de longa-metragismo. O rebento que marca essa virada atende pelo nome de Pau Brasil e o seu criador é Fernando Belens. Tudo isso pode ser dito do filme em questão sem maiores constrangimentos, afinal, a última década viu a produção local mover-se de tudo que era jeito para (re)encontrar seu lugar ao sol no mercado brasileiro e mesmo entre o público(?) baiano. Portanto, Pau Brasil é um passo e tanto nessa busca e devemos ficar atentos a esse aspecto.

Por outro lado, transformar o primeiro longa de Fernando em asterisco de ouro de uma gincana infernal a que os realizadores da terra vem se submetendo desde 3 Histórias da Bahia não deixa de ser muito redutor e, em última instância, prejudicaria, inclusive, a própria/suposta causa em questão – a do nosso eterno complexo de inferioridade como pólo de produção cinematográfica desde que aquele boom do ciclo passou por aqui de 1959 a meados da década de 60. Esse é um marco que se tornou um entrave na medida em que, de modo consciente ou não, se evoca, de tempos em tempos, o panteão de Glauber, Roberto Pires e companhia como exemplo de força catalisadora e produtiva. Glauber que, enquanto um cineasta exclusivamente baiano, realizou aqui uma ínfima parte de sua filmografia. E que, quando retorna no momento da transição para a abertura política para realizar A Idade da Terra, depara-se com o deserto.

Fernando, em certos momentos da carreira que já soma 40 anos, até liderou grupos e teve voz ativa em processos importantes do cinema local, como nos clinchs políticos da Jornada de Cinema nos idos dos anos 70. Mas nunca se pretendeu um líder das massas. Seu cinema tem, sim, uma dimensão política inequívoca; e isso reaparece em Pau Brasil. Passados, porém, os anos de chumbo, e de todo o formigamento ideológico que se pretendia redentor, a aposta é que sua produção daquele tempo revela olho e mão autorais que fizeram as obras não passarem simplesmente. Viva o Cinema, Experiência 1B Transformada, Ora Bombas e outros trabalhos trazem a assinatura de uma época sem, com isso, terem envelhecido. Seriam carregadas de determinado ingrediente íntimo que garante a fagulha de originalidade desse realizador nascido em Poções, mesmo berço de Geraldo Sarno. Seus temas-tabu ganham credibilidade sem fazer força porque há um sentimento verdadeiro por trás.

Não é diferente com Pau Brasil, com o inegável avanço da impecabilidade técnica que acaba recobrando o tão discutido complexo de origem. Agora não se trata mais de provar que sabe fazer, de garantir o raccord, a fotometragem etc. Está tudo lá, e, no que diz respeito aos departamentos técnicos, muito como sintoma do amadurecimento profissional de uma geração.

O que cabe, a partir deste ponto, é o debate sobre a coerência de Fernando Bélens com o seu universo para estabelecer seu êxito na aventura do longa. Trata-se de uma história que o Fernando quer filmar há muito tempo. Em 1996, a imprensa local escrevia que estava por vir “mais uma obra insólita” de Belens. E uma visita aos arquivos dos jornais baianos vai mostrar que, mesmo antes dos anos 90, este diretor-psiquiatra já tinha Pau Brasil, o filme, em mente. Um roteiro a quatro mãos, fruto da parceria do cineasta com a escritora Dinorath do Valle, que, com Pau Brasil, o romance, ganhou o prêmio cubano Casa de Las Américas em 1982.

Pau Brasil é um lugarejo, um fim de mundo nesses rincões agrestes do interior brasileiro. Lá iremos encontrar dois homens, Joaquim (Oswaldo Mil) e Nives (Bertrand Duarte), e, intermediando os extremos que cada um representa, aparece uma mulher. Seu nome é Juracy (Fernanda Paquelet) e, longe de propor uma simetria, sua presença constitui muito mais a garantia do desajuste naquela comunidade diminuta e ocre. A grande promessa de Juracy, enquanto ente feminino, é um exercício de liberdade que acaba custando caro a todos que a rodeiam, menos a ela. E por que motivo? A madona gauche, de ancas, sorriso e coração largo, é o único ser realmente livre de Pau Brasil? Ela está entre os dois homens assim como a estrada de barro que, na tela, põe em margens opostas a casa do autoritário Joaquim e do marceneiro Nives, com quem a doce rebelde é casada.

Os três não formam propriamente um triângulo amoroso em nenhum momento. Mas podemos pensar na geometria quase barroca desse trio como uma imagem possível a partir da compreensão de cada vértice como uma individualidade distinta, com visões distintas sobre o amor e o mundo. Nives é calado, recluso, um homem que carrega um segredo. Mas, definitivamente, veremos ao longo dos oitenta e poucos minutos, não é o comportamento generoso de Juracy com caminhoneiros e quetais que o faz retrair-se. Joaquim, ao contrário, à base de berros e piadas de mau gosto, assume o papel do pregador dos bons costumes. E é ela, como um corante a ressaltar o abismo, que separa os dois. Mas, da mesma forma que o seu jeito de ser leva à desagregação coletiva e à revolução pessoal de cada um, será Juracy, ao final, a responsável pela sutura existencial e prática no destino do conjunto de personagens. Porque aquela é uma revolução sem armas, ou quase, pois Nives investe contra Joaquim quando este extrapola em seu machismo e preconceitos derivados.

Juracy é apenas uma adúltera? Nives é um bunda mole? As crianças e adolescentes dali estão cegos e desorientados, entregues à própria sorte? Em Pau Brasil, a opinião pública é moralista e empurra para debaixo do tapete a verdadeira podridão humana? As indagações ajudam a constatar que Pau Brasil é um filme em camadas. E, nesse sentido, a politização de suas metáforas pode ser tomada quase como uma opção do espectador, apesar de uma rápida menção a instrumentos de tortura física propor um link inequívoco com o período do regime de exceção da ditadura canarinho. O certo é que a obra cresce, e bastante, quando provoca o chamado mal-estar da platéia, efeito difícil de se obter sem cair na grotesquerie e que é uma das marcas de Fernando. Os momentos de leveza e humor são tão raros quanto precisos e apontam outra faceta do diretor, recobrando algo da pegada de filmes bem diferentes, como Héteros, Pixaim ou do lírico Anil.

Pau Brasil, o filme, é obra tecida por camada e assim deve ser visionada, curtida, avaliada ou mesmo contestada. O desempenho de seu elenco, para insistir na dramaturgia dos personagens, é um assombro. Atores novos e veteranos se superam na condução de tipos-limite que nos exasperam na poltrona – e nos fazem lembrar do Belens exímio preparador de elenco de Superoutro, o média-metragem dos anos 80 que alçou Edgard Navarro e Bertrand Duarte ao reconhecimento nacional. Medo ou regozijo? Gozo ou obediência? Alienação absoluta ou liberdade plena? O caldeirão dramático transfere a questão para o arbítrio do espectador, então será natural se os mais covardes evitarem ou rejeitarem o Pau Brasil.

O filme, porém, não tem necessariamente um final aberto. Muito pelo contrário, as coisas estão muito bem amarradas em sua narrativa. Fãs de carteirinha do diretor, especialmente os da fase superoitista, podem até grunhir um “às favas com a linearidade, Fernando”. Mas logo cederão a contundência, e a consistência, de Pau Brasil. Em que pese o momento favorável ao menu de certas bizarrices presente no cinema nacional de hoje (na linha de O Cheiro do Ralo, A Festa da Menina Morta, Feliz Natal e Baixio das Bestas), Pau Brasil não dever ser confundido com esse subgênero de melodrama que se tornou para a crítica o gênero da hora no Brasil. Mesmo que a estampa geral do longa remeta, à primeira vista, no saldo de mise-en-scène, ao protocolo de eficácia do modelo contemporâneo da produção brasileira. O cinema baiano apresenta sinais vitais e passa muito bem. Um filme desses não vem do nada.
A IMAGEM MOSTRA O CINEASTA FERNANDO BELENS.

30 setembro 2009

"Pau Brasil" revela maturidade do cinema baiano

O cinema baiano alcança, com Pau Brasil, de Fernando Belens, a sua maturidade. Um amadurecimento que se cristaliza em suas imagens não apenas pela qualidade técnica que possui, mas, sobretudo, pela maneira com que o realizador aborda o tema, cujo tratamento revela um olhar original sobre a vida de homens e mulheres que vivem no sertão. O ponto de vista adotado por Belens na descrição de suas existências não é condescendente com elas. Foge, por exemplo, da maneira pela qual os sertanejos são sempre tratados pelo cinema brasileiro, e, nesta sua visão insólita e nada complacente, sem piedade, poder-se-ia dizer, acha-se, durante o desenvolvimento da narrativa, uma espécie de borbulhar que a permeia para a explosão exorcística final.

Pau Brasil é baseado no livro homônimo de Dinorah do Valle, que recebeu, em Havana, o prêmio Casa de las Americas. A autora participou também da gestação do roteiro, mas não pôde vê-lo concretizado porque morreu antes das filmagens. Pode-se observar uma afinidade eletiva entre a escrita de Dinorah do Valle e o pensamento belensiano sobre a vida.

Impressiona a qualidade técnica de Pau Brasil, sua montagem exata, o sentido de duração preciso das tomadas. Não seria exagero dizer que, em Pau Brasil, há uma contenção quase bressoniana na exposição das chagas sociais e existenciais. O cinema baiano, força dizer, nunca tinha alcançado, em sua luminosa trajetória, o grau de maturidade temática e estilística que se pode encontrar no filme de Fernando Belens. Em Pau Brasil, a técnica (perfeita) se encontra com a linguagem para fazer emergir uma estética.

O sentido da duração das tomadas, vale repetir, conjuga-se com o sentido dos enquadramentos para que o filme se estruture narrativamente em consonância com o que se quer dizer. O que está dito, portanto, nas imagens de Pau Brasil, está dito de uma maneira escritural que permite a associação equilibrada, como todo bom filme que se preze, entre a narrativa e a fábula.

Autor, porque se vista a sua filmografia há, nela, constantes temáticas e estilísticas, Fernando Belens, desde os seus experimentos insólitos em Super 8, já demonstrava uma visão particular do mundo que o cerca, um olhar arguto, anárquico por vezes, não destituído, no entanto, de originalidade na representação do que se chama real.

As imagens de Experiência I (e as outras, transformadas), de Anil, de Europa, França e Bahia, de Heteros, a comédia, de Pixaim, entre outros, estão inseridas no corpus de Pau Brasil. O que significa dizer que Belens é um autor, um realizador que tem, como queria François Truffaut, uma visão de cinema e uma visão de mundo. Neste particular, faz um cinema dilacerante, cortante, que não admite a compaixão, mas que luta pela emergência da perplexidade diante das contradições da realidade.

Uma compaixão que, por exemplo, não existe em relação aos personagens miseráveis do filme. Inclusive Belens coloca a intolerância, o preconceito, a hipocrisia, dentro do contexto da história, que trata da rivalidade entre duas famílias pobres que sobrevivem num ambiente hostil. A intolerância, para Belens, não é uma questão de classe, como a é para muitos, mas uma questão da necessidade de o homem se transformar, uma questão da natureza humana.

Duas famílias vivem em casas rudes, toscas, uma em frente da outra. Numa delas, um homem (Bertrand Duarte - sempre inexcedível) mora com uma mulher e a deixa amar qualquer tipo que chegue à sua porta, principalmente caminhoneiros, que são seduzidos pela sua maneira fogosa de ser. Mas o personagem não se importa e é feliz e carinhoso e, ainda, abriga no seu seio familiar um outro homem que aparece numa noite a pedir asilo em sua casa. O casal tem um filho, maltratado pela coletividade, que se tranca em si mesmo. Uma espécie assim de As duas faces da felicidade (Le bonheur, 1966), de Agnes Varda, às avessas. Mas o homem interpretado por Bertrand guarda um segredo, que se revela no final.

Do outro lado da rua, um outro homem (Oswaldo Mil), casado, com duas filhas, vive a discursar da porta de sua casa sobre a promiscuidade existente na casa vizinha. Suas duas filhas adolescentes vivem sob o regime do chicote, e a mulher, sempre calada, sujeita-se à sua condição, As duas meninas, porém, não possuem a mesma perspectiva de vida. Uma pretende o gozo da vida, a plenitude carnal, enquanto a outra prefere o celibato e acaba por entrar no claustro de um convento.
Como fio condutor, a exemplo de um personagem de tragédia grega, uma mulher negra, desgrenhada, é o alter ego da coletividade. O filme começa com o garoto, filho do casal da residência dita promíscua, que anda por uma paisagem arenosa. As primeiras imagens de Pau Brasil mostram em seguida uma árvore imensa, o título do filme, e a negra que profere palavras premonitórias, assim como no final, quando caminha solitária por uma estrada que parece não ter fim.

A exposição dos personagens e das situações dá lugar, a partir de certo momento, a uma explosão de conflitos entre as duas famílias. E é neste conflito que se dá o exorcismo, a revelação, e o desfecho exasperante de Pau Brasil. Belens, neste retrato pungente, mostra com argúcia de bom cineasta que a condição humana é contraditória e complexa.
Ponto máximo para a fotografia de Hamilton Oliveira, para a montagem de André Bendocchi Alves, elementos que proporcionam o estabelecimento de uma mise-en-scène dotada de eficiência dramática e de um ritmo que cativa pela conjugação harmoniosa dos elementos da fabulação.
PAU BRASIL Brasil / Alemanha. 2009. Produção e Direção: Fernando Belens. Roteiro: Fernando Belens e Dinorah do Valle. Montagem: André Bendocchi-Alves. Som: Nicolas Hallet. Fotografia: Hamilton Oliveira. Trilha Sonora: Bira Reis. Direção de Arte: Moacyr Gramacho. Produção Executiva: Luciano Floquet e Sylvia Abreu. Produção: Sylvia Abreu e Pola Ribeiro. Elenco: Bertrand Duarte, Oswaldo Mil, Fernanda Paquelet, Arany Santana, Fernanda Belling, Milena Flick, Edlo Mendes, Rita Brandi. Filme realizado com recurso de edital patrocinado pelo Governo do Estado da Bahia. O filme é Baseado em livro homônimo de Dinorah do Valle, premiado em concurso cubano da Casa de las Américas.

28 setembro 2009

Os 75 anos de Roberto Pìres

Se o cinema baiano não existisse, escreveu Glauber Rocha em Revisão crítica do cinema brasileiro, Roberto Pires o teria inventado. Para comemorar a passagem dos 75 anos de Pires, dois programas vão ser apresentados nesta semana (veja a imagem e clique nela para tê-la maior). Pioneiro do cinema baiano, diretor do primeiro longa, Redenção (1959), que graças aos esforços de seu filho, Petrus Pires, conseguiu recursos estatais para ser restaurado, Roberto Pires pode ser considerado o maior dos cineastas baianos. Para filmar Redenção em cinemaScope, inventou uma lente anamórfica na ótica do pai. Foi, portanto, um cineasta e um inventor. Há alguns meses, durante sessão especial na Assembléia Legislativa, comemorou-se os 50 anos de Redenção e, nesta ocasião, lançada uma biografia do cineasta escrita pelo jornalista Alexis Gois. Seus filmes mais famosos, e marcantes para todo o cinema brasileiro: A grande feira (1961) e Tocaia no asfalto (1962).
Para ver o programa completo: http://setarosblog.blogspot.com/2009/09/nova-oficina-elementos-de-apreciacao.html


23 setembro 2009

Nova Oficina: "Elementos de apreciação cinematográfica"

A Oficina de Cinema, Elementos de Apreciação Cinematográfica, ministrada por André Setaro, objetiva, através de oito aulas e de oito filmes essenciais, oferecer os elementos para que se possa entender que o cinema tem uma linguagem, uma sintaxe própria. Na plenitude de sua expressão, o cinema certamente se utiliza de elementos de outras artes, porém o filme constitui um todo original e indivisível, que existe independentemente da própria espécie desses elementos.

A oficina tem início na quarta, dia 21 de outubro, e termina a 9 de dezembro. Para a inscrição, enviar um e-mail para setaro@gmail.com ou telefonar para 88067572 ou 32472290. As aulas serão ministradas no bairro do Rio Vermelho (Numa molduraria chamada EngenhArte, rua da Paciência, 149, entre o Largo de Santana e a praia da Paciência). Taxa de inscrição: 250,00 (à vista). Um certificado será conferido ao término do oficina. Toda quarta das 20 às 22 horas.

1.) PONTO DE PARTIDA DO CINEMA CONTEMPORÂNEO.
Morfologia e sintaxe da linguagem cinematográfica. Narrativa e fábula. O elo semântico e o elo sintático. Kane e a reviravolta na estrutura narrativa. A profundidade de campo. Os realizadores cerebrais e os figurativos.
CIDADÃO KANE (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles.

2.) NEO-REALISMO E NOVA ESTÉTICA
Técnica, linguagem e estética. A importância do neo-realismo italiano e a sua influência marcante para o cinema contemporâneo. Postulados. Rossellini e a abertura para um novo cinema e uma nova estética.
ROMA, CIDADE ABERTA (Roma, città aperta, 1945), de Roberto Rossellini.

3.) DA ORALIDADE EM ALAIN RESNAIS
O recitativo como poética da imagem. A palavra, como valor de criação dentro da criação artística, passa a ser um fim e não mais um meio do conduto da idéia. E o silêncio como continuação da palavra. A contradição dialética entre a efemeridade e a permanência.Filme que fez evoluir a linguagem cinematográfica.
HIROSHIMA, MEU AMOR (Hirsohima, mon amour, 1959), de Alain Resnais

4.) A DESMISTIFICAÇÃO DO ESPETÁCULO
O estilo godardiano e a inclusão da metalinguagem. A comédia romântica vista pelos olhos da nouvelle vague. A narração que se insinua em função da transparência. O importante não é o que está dito, mas como se diz.
UMA MULHER É UMA MULHER (Une femme est une femme, 1961), de Jean-Luc Godard.

5.) O CINEMA COMO VEÍCULO DO PENSAMENTO
Visão de mundo e visão de cinema. O cinema de autor na sua mais exata tradução em torno de uma troca de identidade entre uma atriz e a enfermeira que cuida dela. A incomunicabilidade, tema caro ao cineasta, dá lugar, aqui, à permeabilidade.
PERSONA (Suécia, 1966), de Ingmar Bergman

6.) A DESDRAMATIZAÇÃO E O DOMÍNIO DA ANTINARRATIVA
A "desdramatização" do filme e a opção pela quebra da progressão dramática em função da antinarrativa. A procura da comunicação numa sociedade decadente e as incertezas do instante que passa, tema recorrente do autor. Fotógrafo de moda, fazendo ao acaso fotos de uma mulher, percebe, ao ampliá-las (blow-up), que testemunhou um assassinato, talvez imaginário.
BLOW UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO (Blow up, 1966), de Michelangelo Antonioni.

7) A RENOVAÇÃO DA COMÉDIA CINEMATOGRÁFICA
Comédia premiada e que renova o gênero na década de 70 e que se destaca pela articulação inteligente dos elementos da linguagem cinematográfica e pela visão do mundo de seu autor: Woody Allen.
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977), de Woody Allen.

8.) O CINEMA DO ESSENCIAL
Ilustração ficcional das teses do biólogo Henri Laborit sobre o comportamento humano pelo realizador mais cinematográfico do cinema dos tempos presentes: Alain Resnais, que possui pleno domínio formal sobre a arte da mise-en-scène.
MEU TIO DA AMÉRICA (Mon oncle d'Amérique, 1980), de Alain Resnais.