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Um curso de cinema com Walter da Silveira
27 abril 2014
Psicologia da recepção
Com o advento das novas tecnologias, dos novos
suportes, a recepção das imagens em movimento tomou novos contornos. Se, há
poucas décadas, elas apenas podiam ser contempladas dentro das salas escuras
dos cinemas, e mediante o pagamento de ingressos, atualmente as imagens em
movimento fazem parte do cotidiano do homem, e não seria exagero afirmar que
ele nasce a vê-las através da televisão sempre ligada no hospital onde é dado à
luz.
As imagens, portanto, estão
em todos os lugares - em casa, na televisão, nos shoppings, nos anúncios em
movimento - e a sala exibidora, que era dona da exclusividade delas, é mais
um local onde são apresentadas.
Para ficar apenas no cinema, este tinha, em anos
passados, uma total exclusividade. E a recepção das imagens em movimento
causava, naquele que as via pela primeira vez, certo assombro, certa
estupefação. É célebre um texto do escritor russo Gorki quando relata a sua
primeira impressão ao entrar para ver um filme. Por causa da planificação, dos
cortes, e neófito neste tipo de recepção, conta que o que viu foram pessoas
despedaçadas, cabeças, pernas estraçalhadas, enfim, uma sucessão de fragmentos
das partes do corpo humano e das coisas. O que era apenas um filme romântico se
tornou, para ele, uma manifestação de terror.
Nunca me esqueço da primeira
vez que fui ao cinema. As imagens também se me afiguraram deformadas até que
consegui focá-las adequadamente na sua dimensão espacial.
Iniciada a minha trajetória de cinéfilo nos anos 50,
em Salvador, onde moro até hoje, naquela época não havia sequer televisão.
Imagens em movimento somente podiam ser vistas dentro das salas exibidoras. Se
a Tv no Brasil surgiu em 1950, graças aos esforços de Assis Chateaubriand, na
Bahia ela foi somente instalada em novembro de 1960, uma década depois,
portanto.
Poucas os soteropolitanos
que compraram o caro aparelho, privilégio de uma classe média mais alta. Mas as
imagens eram ruins e sempre havia defeitos, como o ajuste do horizontal e
vertical, que era de difícil colocação. Não existia videotaipe e os
programas, a exceção de desenhos animados e seriados, eram todos produzidos na
região. O que de certa forma era importante para o incentivo dos profissionais
da área, mas os baianos ficavam sem ver os grandes programas televisivos do
eixo Rio-São Paulo, que fizeram história.
Aqueles que se formaram
cinematograficamente antes do advento do VHS e do DVD, ao tomar conhecimento
destes, o espanto se deu pela possibilidade de se ter em casa os seus filmes
preferidos, mas o assombro já tinha se manifestado quando do conhecimento do
espetáculo cinematográfico. Mas a nova geração que nasceu, com o VHS e o DVD,
não foi assombrada, por assim dizer, pelas imagens em movimento. Não teve
a oportunidade de sentir a magia do cinema nem se assombrar com este, nem se
assombrar na sua primeira vez dentro da sala escura.
Se, naquela época, muitos se
assombraram, os filmes também permaneciam nos cinéfilos por vários meses.
Alguns deles chegaram a viver de determinados filmes, a exemplo do
crítico carioca Paulo Perdigão, que, força de expressão, passou a vida a ver Os
brutos também amam (Shane, 1953), de George Stevens, chegando, inclusive, a
ir aos Estados Unidos para entrevistar o grande diretor e trazer, na bagagem, um
punhado da terra onde se deram as locações da citada obra, um western
realmente inesquecível.
Isto quer dizer que o
impacto da obra cinematográfica era imenso. E o espetáculo cinematográfico
tinha duas características essenciais: ser fugidio e não se poder, nele,
intervir na sua temporalidade. Fugidio porque um filme era lançado e levava
apenas uma semana em cartaz, excetuando-se os de sucesso que dobravam e num
período de cinco anos (prazo de validade do certificado de censura) eram
reprisados. A grande maioria dos filmes, no entanto, ficava uma semana e se,
por acaso, o cinéfilo estivesse doente ou viajando podia perdê-lo para sempre.
Há obras importantes que, estreadas em Salvador, por estar doente (gripe,
sarampo, catapora, coqueluche as doenças clássicas da época), ou em viagem,
perdi-as para sempre, reencontrando agora, algumas, em DVD.
Esta característica do filme
ser fugidio é importante. Na maioria das vezes, os filmes lançados em cinema de
primeira linha, saiam destes e circulavam pelos poeiras (salas de
segunda categoria) e, depois, pelos cinemas de bairro para fazer carreira no
interior até que as cópias se desgastassem nesse interregno de cinco anos.
Aconteceu de ter perdido o relançamento de Rastros de ódio (The seachers),
de John Ford, e vim a saber que estava em cartaz em Jequié. Tomei um
ônibus em direção a esta cidade baiana e consegui vê-lo na última sessão. De
volta à rodoviária, por causa de um atraso na projeção (geralmente os filmes
partiam, as luzes se acendiam), perdi o ônibus e tive que dormir num banco da
rodoviária. Mas estava feliz: tinha visto Rastros de ódio.
Impossível acontecer fato
semelhante nos dias atuais. E a impossibilidade de se intervir no tempo é outra
característica do cinema de antigamente. O espectador, sentado na poltrona, era
um escravo do tempo cinematográfico. Intervir no tempo somente seria
possível se ele fosse à cabine de projeção e ameaçasse, com uma arma, o
operador para parar a exibição.
Atualmente as coisas
mudaram. Grandes filmes da história do cinema podem ser adquiridos para se ter em casa. E há a possibilidade
de baixar qualquer filme pela internet. Os preços dos DVDs são acessíveis a
qualquer um, principalmente nos magazines espalhados pelos shoppings, onde se
pode comprar discos a 9,90. Os cinéfilos têm seus filmes preferidos nas
prateleiras de seus lares. O caráter fugidio desapareceu e a interferência no
tempo é total. Se, antes, o espectador era um Escravo da projeção, hoje ele é
Senhor do que está a ver.
21 abril 2014
A cinefilia, o vento já a levou
André Bazin: o maior crítico de todos os tempos
Para
os que nasceram na era do vídeo, e, agora, do disquinho mágico, nada muito
surpreendente. Mas para aqueles, como eu, que nasceram em priscas eras, em
meados do século passado (1950, para ser mais preciso), com o tempo passando
rápido – ó, tempo, suspende o teu vôo! -, o advento do VHS foi uma surpresa, e
a do DVD, com tantos dreyers e bergmans, minnellis e langs, hawks efellinis,
espalhados por aí, quase um assombro.
Alguém
já disse que foi pelo assombro que o homem começou a filosofar, mas, isto,
outra história. Acontece que, antigamente, as imagens em movimento somente eram
possíveis de ser contempladas no escurinho das salas exibidoras, havendo, para
isso, de se pagar um ingresso. A televisão, naquela época, era muito ruim em
termos de imagem.
Assim,
havia duas características no que diz respeito à psicologia da recepção: a
inacessibilidade e a impossibilidade de o espectador intervir na temporalidade.
Na primeira, quando dentro do cinema, e sala enorme, com quase dois mil
lugares, verdadeiros palácios, a imagem que se via na tela era algo mágico,
inacessível. Lembro-me que havia um senhor que vendia fotogramas de filmes na
Praça da Piedade (aqui em Salvador), e que também oferecia para compra uma lata
que, devidamente furada, continha, em uma de suas extremidades, uma lente de
óculos que permitia ver os fotogramas com mais nitidez do que a olho nu.
Se
um determinado filme era exibido e, por acaso, estivesse doente ou viajando,
retirado de cartaz, podia perdê-lo para sempre, excetuando-se os grandes
sucessos que sempre eram recolocados. E, na segunda característica, a
impossibilidade de intervenção na temporalidade. Projetado o filme, este se
desenrolava na tela – ou no écran, como se dizia então, e ninguém
podia pará-lo, retrocedê-lo, avançá-lo, salvo se entrasse na cabine de projeção
e, revólver em punho, ameaçasse o operador.
Mas
a inacessibilidade e a temporalidade se tornaram favas contadas com o
surgimento do VHS e do DVD. Há, inclusive, creio, uma perda da aura cinematográfica.
Se os disquinhos funcionam como o resgate do cinema, por outro lado, no
entanto, perdeu-se a magia do espetáculo, visto em comunhão numa platéia. O
indivíduo hoje já nasce vendo imagens em movimento e, por isso, elas se
tornaram vulgares no sentido de corriqueiras.
Quando
me contaram que, nos Estados Unidos, inventaram um aparelho pelo qual se podia
ver filmes, que ficavam dentro de uma caixinha, não acreditei. Era o vídeo que
então estava inventado e restrito ao território de Tio Sam. Precisei, como São
Thomé, ver para crer, o que aconteceu em torno da metade dos anos 80, quando
comprei o meu primeiro aparelho de VHS, um Sharp, que me deu muito trabalho de
sintonizar. E as cópias eram péssimas. Precisou-se esperar que o DVD surgisse
para que o cinema recebesse uma punhalada nas costas (na região pulmonar).
E
atualmente ir ao cinema é entrar num festim diabólico onde reinam as pipocas,
as conversinhas fora de hora, os celulares que, atendidos, infernizam o
espectador que queira contemplar o filme. O público de cinema, no Brasil, pelo
menos, se tornou uma espécie de patuléia desvairada. Repito sempre que o ir
ao cinema hoje é uma das fases do shoppear. Não se vai
mais ao cinema, esta a verdade, mas aos shoppings. Até mesmo nas salas ditas
alternativas o público se comporta com apatia e as pessoas gostam mais de
aparecer, porque, na sua grande maioria, pseudo-cinéfilos, pseudo-intelectuais.
Mas vou contar uma história.
Corria
o ano de 1973. Estava no Rio de Janeiro a passar as férias de julho. O jornal
da época era o Jornal do Brasil, com seu excelente Caderno B.
Neste, tomei conhecimento que Ladrões de bicicleta ia ser
exibido na Cinemateca do Museu de Arte Moderna numa única sessão pela tarde.
Conhecia muitos filmes, nesta ocasião pré-vídeo, de ouvi dizer e de leitura,
alguns importantes com muitas informações. Era o caso de Ladri di
biciclette, de Vittorio De Sica, que nunca tinha visto por falta de
oportunidade e, também, porque nunca foi exibido em Salvador durante o meu
itinerário existencial (depois passou algumas vezes). Assim, fiquei a postos,
esperando o horário, com certa expectativa, aliás, que não tenho mais para
quase nada. Chovia fino. Entrei na sala da saudosa Cinemateca. Mas, quando saí,
um toró se abateu sobre a cidade, que ficou completamente engarrafada. Difícil
pegar um táxi. Depois de algum padecimento embaixo da marquise do museu,
resolvi ir andando do Flamengo, onde fica este, até Laranjeiras, onde estava
hospedado. Cheguei encharcado e, no outro dia, com febre alta, ameaçado de
pneumonia. Mas estava feliz por ter visto Ladri di biciclette.
Atualmente, tenho-o em VHS e DVD, que fica guardado, parado.
Não
seria mais possível um sacrifício tal para ver um filme. Tenho um amigo, por
exemplo, que ia sempre a Paris para se meter na Cinematheque Française e
ficar o dia todo vendo obras clássicas. Hoje tem um home theater em
sua casa e há anos que não viaja. Viajava somente para ver filmes.
A
cinefilia, como se praticava antigamente, está morta, e bem enterrada
20 abril 2014
Da narrativa cinematográfica
A construção de uma narrativa cinematografia obedece a diversos critérios assim como um projeto arquitetônico corresponde a determinadas opções. Há uma construção narrativa que se pode considerar simples e outra que se desenha como complexa. Dois tipos de estruturas, portanto, mas que se deve ter em conta e ressaltar que a simplicidade ou a complexidade são noções exclusivamente inerentes ao como do discurso e não à sua coisa. Isto quer dizer: pode haver histórias intrincadíssimas mas de estrutura simples, elementar, e, pelo contrário histórias lineares, com começo, meio e fim e progressão dramática tradicional mas que se tornam intrincadas por uma disposição particular dos segmentos narrativos.Dentre as narrativas de estruturas simples estão: a linear, a binária e a circular.
Narrativa linear. Percorrida por um único fio condutor que se desenvolve de maneira seqüencial do princípio ao fim sem complicações ou desvios do caminho traçado. A narrativa de estrutura linear é a de mais fácil leitura e é concebida de modo a respeitar todas as fases do desenvolvimento dramático tradicional. O esquema que se obedece é aproximadamente o seguinte: a) introdução ambiental; b) apresentação das personagens; c) nascimento do conflito; d) conseqüências do conflito; e) golpe de teatro resolutório. Este esquema da narrativa linear repete ao pé da letra o que era a estrutura base do romance psicológico do século XIX. Incluem-se nesse tipo de narrativa aquela nas quais o elemento poético e metafórico é reduzido ao mínimo e os motivos de interesse residem exclusivamente na fábula (story), excetuando-se os eventuais casos de erosão dentro do referido esquema - que se constituem uma exceção à regra.
Narrativa binária. Este tipo de narrativa é percorrido por dois fios condutores a reger a ação como só acontece nos casos de narrativas paralelas baseada na coexistência de duas ações que podem entrecruzar-se ou manter-se distintas. Garantia certa de tensão dramática, a binária é empregada em fitas de ação - thrillers, westerns, etc - porque valoriza o paralelismo e o simultaneismo, fornecendo, assim, amplas possibilidades de impacto. Exemplo clássico da narrativa binária está em David Wark Griffith (Intolerância, 1916, O lírio partido, 1918, Broken blossoms no original). A linguagem cinematográfica tomou impulso com a descoberta da ação paralela e da inserção de um plano de detalhe no plano de conjunto.
Narrativa circular. Este tipo de narrativa tem lugar quando o final reencontra o início de tal modo que o arco narrativo acaba por formar um círculo fechado. É menos frequente e mais ligada a intenções poéticas precisas com um propósito de oferecer uma significação da natureza insolúvel do conflito de partida e denota a desconfiança em qualquer tentativa para superar a contradição assumida como motor dramático do filme. A significação implícita a este gênero de escolha estrutural poderia ser: "as mesmas coisas repetem-se". Em A faca na água (Noz W Wodzie, Polônia, 62), o primeiro longa metragem de Roman Polansky, assim como também em O fantasma da liberdade (Le fantôme de la liberté, 74) de Luis Buñuel, e Estranho Acidente (Accident, 68), de Joseph Losey, para ficar em três exemplos, as coisas que se observam no início voltam a surgir no final, a despeito das tentativas registradas pela narrativa para se libertar delas e da sua influencia nefasta. A construção das obras citadas obedece e exprime a visão do mundo de seus autores do que, propriamente, à matéria da fábula, que pode se apresentar tranquila e jocosa e destituída de relevância maior.
Dentre as narrativas de estrutura complexa estão: a estrutura de inserção, a estrutura fragmentada e a estrutura polifônica.
Narrativa de inserção. Consiste numa justaposição de planos pertencentes a ordens espaciais ou temporais diferentes cujo objetivo é gerar uma espécie de representação simultânea de acontecimentos subtraídos a qualquer relação de causalidade. Os segmentos narrativos individuais interatuam entre si, produzindo, com isso, uma complicação ao nível dos significantes que potencializa o sentido global do discurso. A contínua intervenção do flash-back pode provocar um entrelaçamento temporal que esvazia a noção do tempo cronológico em favor do conceito de duração. Por outro lado, as frequentes deslocações espaciais conferem aos lugares uma unidade de caráter psicológico mas não de caráter geográfico. Na narrativa de inserção, a realidade é vista de modo mediatizado, isto é, a realidade é refletida pela consciência do protagonista ou pela do realizador omnisciente. Seguem esta narrativa de inserção filmes como 8 ½ (Otto e mezzo, 64), de Federico Fellini, A guerra acabou (La guerre est finie, 66), Providence, entre outros trabalhos de Alain Resnais,Morangos Silvestres (Smulstronstallet, 57) de Ingmar Bergman, etc. Nestes exemplos, o receptor/espectador é posto diante de um desenvolvimento narrativo que não é lógico mas puramente mental: o velho Professor Isaac contempla a própria infância (Bergman), o cineasta Guido (Marcello Mastroianni) no cemitério conversa com seus pais já falecidos (Fellini), a projeção do desejo de um escritor moribundo (John Gielgud) imaginando situações (Resnais). O desenvolvimento puramente mental determina, por sua vez, um jogo de associações visuais e emotivas que cria um universo fictício exclusivamente psicológico.
Narrativa fragmentária. Estrutura-se pela acumulação desorganizada de materiais de proveniência diversa, segundo um procedimento análogo ao que, em pintura, é conhecida pelo nome de colagem, A unidade, aqui, não é dado pela presença de um fio narrativo reconhecível, porém pelo ótica que preside à seleção e representação dos fragmentos da realidade. Se, neste caso, da narrativa fragmentária, a intenção oratória do cineasta prevalece sobre a fabulatória, mais acertado seria considerar o filme como um ensaio do que um filme como narrativa. A expectativa de fábulas, no entanto, encontra-se presente no homem desde seus primórdios e o cinema, portanto, desde seu nascedouro possui uma irresistível vocação narrativa. Poder-se-ia, então, ainda que esta irrefreável expectativa do receptor diante de um filme, falar de um cinema-ensaio ao lado de um cinema-narrativo. O exemplo de, novamente Alain Resnais, Meu tio da América (Mon oncle d'Amerique) vem a propósito, assim como Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela (Deux ou trois choses que je sais d'elle, 66) de Jean-Luc Godard - um minitratado sobre a reificação que ameaça o homem na sociedade de consumo, La hora de los hornos (68), de Fernando Solanas - obra nascida como ato político que utiliza documentos, entrevistas, cenas documentais e trechos com o objetivo de proporcionar a tomada de consciência revolucionária por parte do espectador.
Narrativa polifônica. Estrutura-se pelo número de ações apresentadas que confere uma feição coral à narrativa, impedindo-a de afirmar-se de um ponto de vista que não seja o do realizador-narrador. Os acontecimentos que se entrelaçam são múltiplos, dando a impressão de um afresco, que se forma pelas situações captadas quase a vol d'oiseau. Utilizando-se desse tipo de narrativa complexa, o cineasta capta de maneira sensível, se capacidade houver, o clima social de uma determinada época, como fez Robert Altman em Nashville (1975). Neste filme, vinte e quatro histórias se entrecruzam para compor um mosaico revelador da realidade dos Estados Unidos durante a década de 70. Outro exemplo do mesmo Altman é Short cuts. (Short cuts, EUA, 91).As estruturas examinadas são todas elas do tipo fechado, segundo as coordenadas estabelecidas por René Caillois (12). Porque, assim fechadas, estas estruturas servem de suporte à narrativas concluídas do ponto de vista de seu desenvolvimento, não importando o seu significado poético. Existem, no entanto, casos de estruturas abertas, nas quais a conclusão do discurso é deixada em suspenso ou então prolongada para além do filme. O que caracteriza a obra cinematográfica como um trabalho em devir, um filme que busca ainda o seu desfecho ou, então, como um texto que se oferece à meditação do espectador. EmApocalypse now (1978), de Francis Ford Coppola, o cineasta apresenta três finais todos igualmente legítimos e solidários com o contexto narrativo. Já em Dalla nube nulla ressitenza (81), de Jean-Marie Straub, formado por blocos de sequências fixas, a solução final é deixada ao subsequente trabalho de reflexão do espectador/receptor. Trata-se de uma obra que faz uma reflexão, por meio de representações dialogais, sobre a passagem da idade feliz do Mito para a idade infeliz da História.O caráter aberto da narração, todavia, em nada desfalca a contextualidade orgânica do discurso, contextualidade que se mantém íntegra apesar da suspensão da fábula. A solidariedade estrutural, ressalte-se, constitui a conditio sine qua non de qualquer discurso cinematográfico que pretenda considerar-se artístico.
17 abril 2014
A pulverização do cinema
Apesar
de já ter me referido, aqui, diversas vezes, não custa nada repetir que a
estética do videoclip incorporada à narrativa cinematográfica contemporânea,
principalmente aos produtos oriundos da indústria cultural de Hollywood,
destrói o prazer de ver um filme pela impossibilidade de contemplá-lo
devidamente. Para acompanhar a "velocidade" das mentes internéticas,
a indústria descobriu que a melhor fórmula de envolver o espectador que não
pensa e é apático é aquela baseada nos cortes incessantes e nas tomadas bem
rápidas.
Até
mesmo filmes razoáveis e bons estão estruturados nesta estética, que já foi denominada de estética da
tesourinha. Poucos os realizadores que possuem o conceito de
duração das tomadas com a exatidão e o ritmo desejados pelo grande cinema. Para
ficar num exemplo: Stanley Kubrick possuía um sentido exato da durée do plano. O conceito bem aplicado faz com que o espectador se
envolva no espetáculo, a se tornar, dele, cúmplice. O que não é possível no
cinema "montanha-russa" dos tempos atuais.
O
público adolescente e aborrecente, que é o alvo da indústria, não
pensa, não contempla, e faz da ida ao cinema uma das fases do shoppear. O filme é o que menos conta para a platéia de
adolescentes que lotam as salas dos complexos aos sábados. Os espectadores
atendem aos celulares e conversam o tempo todo, riem fora de hora, põem os pés
(as patas) nas cadeiras dianteiras, quando não infernizam quem está na frente
com "toques" infernais, e há, atualmente, uma tendência a se falar
constantemente não somente ao telefone (que virou uma praga) como também com o
amigo(a) ao lado. Sem falar, é claro, na comilança desenfreada (bacias e não
mais saquinhos de pipocas, cheerburgueres, guloseimas gerais).
A
conclusão a que se pode chegar é que o filme "montanha-russa" é
reflexo da mentalidade da platéia, pois a indústria somente se interessa pelo
lucro e, portanto, oferece apenas o que público solicita. E as pessoas que vão
hoje ao cinema não se interessam em espetáculos engenhosos e inteligentes.
Basta que possuam ação, tensão, efeitos especiais mirabolantes. A ausência do
humanismo nos filmes contemporâneos é flagrante. Os personagens não possuem
aquele tão necessário poder de verdade, de convencimento, mas são apenas e
somente marionetes condutoras da ação proposta, títeres robóticos de um cinema
sem alma.
Por
outro lado, nesta crise da cultura contemporânea, há a tendência de se diluir
autores importantes e viscerais, a exemplo do genial Nelson Rodrigues. Como bem
observou a ensaísta de cinema Andrea Ormond em seu blog Estranho
encontro, ao fazer uma análise das adaptações cinematográficas do grande
dramaturgo, a tendência de diluir é uma constante nestes tempos contemporâneos
numa espécie assim de imitação da arte.
A
onda politicamente correta que assola e destrói a liberdade e a criatividade é
outro fator que ajuda muito a crise cultural. Havia uma atitude visceral que
agora se edulcora. Não existem mais autores de visceralidade sedutora como Pier
Paolo Pasolini (principalmente no escatológico "Saló", seu canto de
cisne), Marco Ferreri ("A comilança"), entre muitos outros que
vingaram no pretérito. Uma tendência dessa diluição crítica pode ser encontrada
como exemplo em "Beleza americana", de Sam Mendes, uma visão
aparentemente crítica, porém dentro de uma vontade de edulcorar que sufoca o
que se pretende ser visceral.
Apesar
da salgalhada desse artigo, há elos comunicantes entre os assuntos abordados,
que refletem bem o fundo do poço a que se chegou no que teimam em chamar
pretensiosamente de contemporaneidade: o comportamento selvagem da platéia das
salas exibidoras, a apatia diante da arte, a ausência de humanismo nos filmes e
na vida, a diluição de temáticas fortes e de autores viscerais em função de uma
apreciação dentro de moldes à la "delicatessen", a transformação do
"transitar na urbis" em shoppings centers com seus imensos fasts
foods.
E
as assim chamadas “salas de arte” não se encontram livres da agitação. Aqueles
que as freqüentam fazem-no mais por festividade, para aparecer, do que,
propriamente, pelo amor ao cinema. A diluição, a falta de base referencial, a
completa ausência da cultura literária, e a proliferação dos “monossílabos” nos
sites da internet, bem que são sintomáticos de ma crise cultural sem
precedentes. O paradoxal em tudo isso se encontra na possibilidade
extraordinária de se obter informações como nunca se viu antes no “quartel de
Abrantes”.
O
que reina é o império do audiovisual. A facilitação da expressão através das
imagens em movimento se, por um lado, democratizou o acesso às câmeras
digitais, por outro, determinou uma enxurrada de inexpressividades, como se
pode observar nas dezenas de eventos que acolhem os pequenos filmes realizados
pelo digital. Antes, o acesso à expressão cinematográfica era muito difícil.
Havia a bitola 16mm, mas os custos, altos, não permitiam que qualquer um
pudesse manipular a câmera, que exigia um mínimo de conhecimento técnico.
Filma-se
hoje como antigamente se fazia poesias. Se, antes, as pessoas, que queriam se
expressar, faziam-no pelos versos, e, quando publicados em suplementos
literários ou revistas, sentiam-se revigorados, atualmente é o filme o móvel
expressivo da nova geração. Bom que assim seja, mas o tempo, sempre implacável,
se encarregará de reter o que presta e devolver, à lixeira do esquecimento, as
tolices feitas.
16 abril 2014
Robert Mulligan: evocação e sentimento
![]() |
| O preço de um prazer (1963), de Robert Mulligan: a sensibilidade e o apuro no trato de questões intimistas |
A começar do princípio, não se podia prognosticar o futuro Mulligan em Vencendo o medo (Fear strikes out, 57), uma tentativa biográfica do jogador de beisebol Jim Piersall, interpretado por Anthony Perkins, que se ajusta ao papel, pois o biografado era homem extremamente neurótico, cheio de tiques, manias, e o filme desvenda uma explicação meio freudiana e mostra a causa do desequilíbrio do jogador na infância difícil, dominada por pai severo e rude (Karl Malden). Ainda no cast: Norman Moore.
Mulligan, após Vencendo o medo, passa três anos a esperar a oportunidade de dirigir o seu segundo longa, ainda que, neste interregno, tenha trabalho muito em episódios e seriados da televisão americana. É um cineasta oriundo da tv, mais liberto das normas pétreas dos estúdios, assim como Sidney Lumet, que com mais de 80 anos dirigiu um dos melhores filmes de 2008: Antes que o diabo saiba que você está morto (Before the devil knows you're dead). O filme que se segue a Fear strikes out é A taberna das ilusões perdidas (The rate race, 1960), baseado em peça de Garson Kanin, com Tony Curtis e Debbie Reynolds.
A lembrança que se tem de
O grande impostor (The great impostor, 1961) é muito boa, ainda que memória de
adolescente que nunca mais teve a oportunidade de revê-lo. A vida de um homem
(Tony Curtis) que, durante a sua existência, adotou perto de vinte identidades
diferentes, saindo ileso de todas as confusões. Além de Curtis, Edmond O’Brien,
Karl Malden, e música do grande maestro Henry Mancini. Neste mesmo ano, 61, uma
sophisticated comedyque causou enorme sucesso de bilheteria, mas que, crê-se,
vista hoje, não se sustentaria: Quando setembro vier (Come september), com Rock
Hudson (o queridinho das comédias românticas), Gina Lollobrigida (a italiana
sensual), Walter Slezak, Sandra Dee, Bobby Darin. Rock é um milionário que
descobre que seu caseiro transformou sua belíssima villa na Itália em hotel. Mas ele se
apaixona por uma das hóspedes, a sensual Lollobrigida. As canções foram
compostas (e cantadas) por Bobby Darin. Recorda-se que o primeiro plano do
filme, em cinemascope, colorido, mostra um imenso avião que, abrindo seu
compartimento de bagagens, faz sair, dele, um Rolls Royce de prata. O script é perfumaria de Stanley Shapiro.
Rock Hudson é convidado para estrelar Labirinto de paixões (The spiral road, 1961), que tem, ainda, Gena Rowlands (a atriz estupenda e esposa de John Cassavetes), Burl Ives, entre outros menos votados. Na verdade, um melodrama, que viu-se no Rio, no poeira Politeama, quando este saudoso cinema, que ficava no Largo do Machado, passava programa duplo, um vehiclepara Rock Hudson. No máximo, uma direção eficiente do ponto de vista artesanal.
O grande Mulligan põe sua manga de fora no ano seguinte, em 1963, em O sol é para todos (To kill a mockinbird, 1962), filme que deu o Oscar de melhor ator a Gregory Peck no papel de um advogado humanista que defende um negro. A ação se localiza numa cidadezinha de Alabama em 1920, racista e preconceituosa. O negro é injustamente acusado de violentar uma branca. Tudo é contado pelo ponto de vista do casal de filhos do advogado e há um tom evocativo que Mulligan viria a adotar em outros de seus filmes. Com Mary Badham, Rosemary Murphy. Baseia-se num livro escrito por Herman Lee, amiga de Truman Capote.
Em 1963, Mulligan resolve fazer um filme in loco em Nova York: O preço de um prazer (Love with the proper stranger, 1963). Cineasta oriundo da televisão, como já aqui se referiu, com os talentosos Frankenheimer, Lumet, há, neste filme, um enfoque que se pretende menos hollywoodiano e com certa influência do neo-realismo italiano (Hitchcock, o grande Hitchcock, o mestre dos mestres, já fizera uma experiência quase neo-realista em O homem errado (The wrong man, com Henry Fonda como o músico que é confundido com um assassino e, no final, quando a polícia descobre o verdadeiro culpado, e os dois se encontram face a face, Fonda tem pena do homicida, porque sabe que vai passar pelo mesmo calvário que ele.) Mas O preço de um prazer é sobre uma caixeira do Macy’s, que não é outra senão a sublime Natalie Wood, que engravida depois de passar uma noite com um estranho (Steve McQuenn). Ela, então, pede sua ajuda para encontrar um médico para que realize um aborto. A partitura é de Elmer Bernstein e a fotografia (em expressivo preto e branco), de Milton Krasner.
Ainda em 1965, Mulligan, apesar de já ter demonstrado ser um realizador acima da média, fora notado apenas por alguns exegetas da crítica francesa, e certos hermeneutas americanos como Andrew Sarris e Peter Bogdanovich, mas, neste ano, realiza O gênio do mal (Baby, the rain must fall), aproveitado o astro (McQuenn) do filme anterior, que, aqui, é um homem que sai da prisão, volta para a mulher (Lee Remick) e tenta ganhar a vida como guitarrista e cantor. Mas o xerife da cidade (Don Murray) vem a se apaixonar por ela, criando, com isso, o conflito básico. O afamado Glenn Campbell aparece no conjunto no qual McQuenn toca.
O touch mulliganiano está acesso com sensibilidade e a devida evocação na obra que se segue:À procura do destino (Inside Daisy clover, 1966), cujo tratamento temático é avançado para a época. Mulligan procura fazer de sua personagem principal, uma estrela juvenil problemática de Hollywood, o protótipo de todas as atrizes que tiveram problemas na sua trajetória (de Judy Garland a Marilyn Monroe): o patrão tirânico, o marido homossexual, a avó psicótica. Com Natalie Wood, em seu esplendor na relva, Robert Redford, Christopher Plummer, colhendo os louros como o Capitão Trapp de A noviça rebelde/The sound of music, e a sempre inexcedível Ruth Gordon.
Subindo por onde se desce (Up the down staircase, 1967) é também um filme in loco, que procura enfocar a problemática de uma professora de escola de periferia de Nova York, Sandy Dennis, obra que procura sempre um tom realista no desenvolvimento de sua narrativa. Ainda que não seja um grande filme, lembra Sementes da violência, de Richard Brooks, com Glenn Ford e Sidney Poitier.
Os anos 60 se aproximam do fim e Maio de 68 se anuncia. Mas Mulligan, alheio ao que se passa, se refugia no western, mas western de primeira linha, um de seus melhores filmes: A noite da emboscada (The stalking moon, 1969), com Gregory Peck, militar do exército que, prestes a se aposentar, encontra, desamparados, uma mulher (Eva-Marie Saint) e seu filho, fruto de uma relação com apache violento, e decide transportá-los a lugar seguro, mas o índio, ao tomar conhecimento, resolve perseguí-los. A perseguição, num desenvolvimento que faz lembrar, tal a tensão, um thriller eletrizante, em nenhum momento faz aparecer o apache. Tudo é tensão, atmosfera, clima. Uma direção de brilhantismo indiscutível.
Em 1970, porém, volta-se aos jovens contestadores, apoiando-se num argumento bem de acordo com sua época contestatória e faz uma espécie de documento sociológico em O caminho da felicidade (The pursuit of happiness). Michael Sarrazin é um rebel withou a cause que, com seu carro, para escapar de pagar o estacionamento, mata um operário e vai para trás das grades, mas foge e, com sua namorada (Barbara Hershey) empreendem uma fuga alucinante que parece não ter fim num autêntico road movie.
E vem Houve uma vez um verão (Summer of ’42, 1971), obra delicada e feita com sensibilidade sobre a iniciação sexual de um adolescente (Gary Grimes) que, num verão de 1942, quando os Estados Unidos entram em guerra, seduz a esposa (Jennifer O’Neil, carioca de nascimento, que Howard Hawks, por causa deste filme, aproveitaria em seu derradeiro western, Rio Lobo, ao lado de John Wayne) de um oficial que está ausente envolvido no conflito bélico de então. Mulligan conduz o relato com extrema finesse e o filme é uma mostra da vacuidade de certas mulheres que, deixadas sozinhas por circunstâncias alheias à sua vontade, ficam ao relento do desejo e das paixões. Há um tom evocativo que o cineasta repete com plena consciência de suas possibilidades poéticas, principalmente quando a partitura é de um maestro como Michel Legrand. E a fotografia de Robert Surtees é um assombro.
Talvez não exista um filme que trata da maldade embutida na infância do que A inocente face do terror (The other, 1972). Ambientado em Connecticut, em 1935 – e novamente aquele atmosfera de evocação tão peculiar a Mulligan, dois garotos gêmeos se deparam com a maldade e a perversidade. A mise-en-scène do realizador atesta o seu vigor, a sua singularidade, a sua marca no cinema americano. Mas o melhor, por incrível que possa parecer, ainda estaria por vir: Jogos do azar, testamento do cineasta, uma obra de densidade exemplar, um pulsar envolvente, magistral, cinema puro na sua procura de decifrar e fazer ver a beleza possível de uma mise-en-scène. O intérprete principal de Jogos de azar (The nickel ride, 1974) é Jason Miller, que viria, neste mesmo ano, a fazer um padre em O exorcista, de William Friedkin.
Encerra-se esta breve homenagem a Robert Mulligan com as palavras de Carlos Reichenbach, que fecha com chave de ouro a trajetória desse importante realizador, destacando, o Comodoro, a beleza de um filme como The nickel ride.
“É curioso notar que outros cineastas da mesma geração, como Robert Mulligan, por exemplo, que não foram tão incensados pela crítica no começo, acabaram realizando uma obra menos pretensiosa e muito mais coerente. No caso de Mulligan, o sucesso popular e o prestígio em Hollywood, só veio a acontecer no meio da carreira, com Houve uma vez no verão (Summer Of 42) e A inocente face do terror (The other), ambos de 72, embora ele já tivesse realizado filmes mais notáveis como Fear strikes out (Vencendo o medo - 57), To kill a mockingbird (O Sol é para todos - 63), Baby, the rain must fall (título deslumbrante, burramente "traduzido" como O gênio do mal - 64), Inside daisy clover (À Procura de um destino - 66), Up the down staircase (Subindo por onde se desce - 67) e The pursuit of happiness (uma ode radical ao inconformismo, lançada no Brasil com o título de O caminho da felicidade - 70). É verdade que, após o sucesso com os dois filmes citados acima e o fim de sua parceria com o produtor Alan Pakula - que também se tornou diretor de cinema, mas num estilo mais cool e menos arrojado que Mulligan - sua obra caiu em desgraça. Embora tenha produzido e dirigido o filme mais anticomercial de Hollywood, The nickel ride (Jogos de azar - 74) - um drama chumbo grosso e depressivo sobre viciados em jogo, fotografado inteiramente com iluminação vertical onde mal se vê os olhos do atores - encerrou a carreira com uma péssima adaptação ianque de Dona Flor E Seus Dois Maridos e o chorumela Clara´s heart."
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